quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

confirmações

as promessas são a essência das expectativas.
a não-espera traz o prolongamento da dúvida.
e que dúvida nos resta?

ESPEREMOS.

peso

eu me sinto leve.
acho que emagreci, perdi uns três quilos - só em pensamento.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

essência

o que era a gente no meio daquilo tudo? a gente passava batido, apanhado, desinteressado. minha virtude eram as dele; e os defeitos dele, meus. por outras vezes, mesmo tantas outras vezes antes dessa, não me ocorreu pressa nenhuma, como me ocorre agora - eis o que difere esta das outras vezes passadas.

no bolso

- o que você tem ai?
- eu tenho uma imagem cuspida.

domingo, 28 de dezembro de 2008

ambígua proximidade

engraçado, eu nunca lembro dela morrer.
suas fotos, seus diários particulares.
NADA.

lembrarei

eu me concentro.
eu sei, eu vou perder um tempo.

a cabine | 2

QUANTO A JAMES

um sofá vermelho. um chá dançante. o vestido de ana laura traz a tona uma lembrança; então é ele quem carrega um livro velho debaixo do braço: com as páginas caindo e com o sorriso sincero mais estupido do mundo. não existe mais nenhum problema agora, portanto, ele apenas iria pedir para que ela fizesse silêncio, pois tinha o mesmo discurso manjado de antes para lhe dizer; ansiava em subornar as mesmas personagens. o rosto dela ainda embriaga suas palavras, suas roupas, e então sua sutil permanência em sua própria sala de estar. e que se danem os loucos e os poetas desvairados que rasgam restratos para esquecer. james não era assim; e não que fosse lá uma pessoa muito equilibrada também, mas não era assim porque ana laura também não era e, dessa forma, nunca havia chegado a tal ponto de exigir demais dele. apenas havia se conformado com uma situação que se arrastara primeiramente através da horas, que então se tonaram dias, e semanas, e por fim meses. e tanto tempo já tinha passado pelo relógio que os ponteiros praticamente estavam desgastados. gastos pela monotonia pousada sobre a pia da cozinha, assim como aquela pilha de pratos sujos. ele não vinha. e ele nunca mais vai voltar, pensava. nunca! e não por ela ser ruim, ou feia, ou arrogante. mas por ela ser boa demais; e tudo o que nela era maravilhoso atigia o orgulho dele - e bem ele, que precisava provar-se homem o tempo todo! ah, tinha que ser ele, claro que tinha; ele era mesmo um egoísta de merda. então pulou pela janela do quarto e desceu pela escada de incêncio enquanto ele continuava ali, sentado, esperando, perplexo em sua própria sala mais uma vez, jogado em sua poltrona mais confortável com os pés para o alto, como se ainda se sentisse em casa. ainda.

terminou dois dias antes de começar

o ano começou dois dias antes de terminar. então virou a folha do calendário da mesma forma como virava as páginas gastas daquele velho bloco de poemas. sentou-se na mesma cadeira em que havia se sentado no ano passado e olhou o céu cinza pela janela, com a mesma falta de convicção de antes. chutou para o lado o balde de lixo cheio de frases retas e repetidas; finalmente parecia ter coragem o suficiente para se levantar daquela poltrona e ir buscar um copo de água - há semanas só bebia vinho e respirava aquele mesmo ar viciado de antes. aquele ar vencido. suado. sofrido. realmente gasto por sua própria respiração ofegante que tem se propagado pela sala de estar - conclusão, não estava. olhou ao redor, com os mesmos olhos cansados de antes. sentiu um aperto no peito e aquelas pálpebras que pesavam: eu nunca mais vou largá-lo, pensava. nunca mais! e eu nunca mais vou me importar com nada que tem a dizer, pois que suas palavras estão amassadas naquelas folhas amareladas, no lixo, no nada. estalou os dedos: eu nunca mais vou voltar para mim. sentiu um medo breve, como se qualquer coisa que estivesse para acontecer soprasse no ouvido um falsa esperança. deixou que alguns minutos do novo ano passasem sem muito compromisso; sentiu um alívio, e sentiu então um tranco. um giro louco dentre as idéias como se alguém segurasse uma arma no fundo da alma e atirasse sem pena por todo o corpo. estava ainda sentada; estasiada pela sensação. sentia frio e sentia, acima de tudo, a falta. a falta que fazia. estava presa. presa! estava presa para sempre. todas suas novas idéias planavam sobre sua cabeça sem saber o porquê. todos os seus sonhos estavam nos olhos do outro. nos olhos que refletiam uma cor idefinida. um cor doce. um cor doce de mel; é, eu nunca mais vou voltar. e nunca mais vai deixar de estar com ele.

coisas que se faz | 3

a gente quer um olho para olhar no olho.

(o olho do outro tem vidro, e a gente se vê acondicionado ali - daí o despero. sair de um lugar que não tem porta, janela, ventilação? o olho do outro é abrigo e cárcere incontestável. talvez daí a preferência também.)

sábado, 27 de dezembro de 2008

delírios | 2

sobre brancos desbotados:

vermelho que se transforma em branco desbotado. desbotar é perder cor forte. e quanto ao branco, quando desbota? será que o branco quando desbota deixa de existir? porque o branco não perde a cor, não desvanece, não descora, não altera a cor. o branco não perde a viveza da cor, o branco não empalidece. então o que faz com o branco que desbota? ou melhor, o que faz o branco, dele mesmo, quando desbota?

parece-me que a deficiência dá liberdade. aquilo que lhe tornar invisível dar-lhe-á liberdade também. mas liberdade de quê? liberdade da NÃO-culpa?

exemplo à pedido

certas coisas não são objeto de contrato.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

outros dela

a espera era um detalhe agora. agora ela tinha um desejo de se cuidar sozinha, de se encarregar por ela mesma. de salvar o que era dela nos outros e de tornar dela que lhe pertencia nos outros.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

em nós, natal

EM NÓS, NATAL.
na tal sala, naquela mesma sala das cócegas: natal.
na tal sala do roteiro de um circo: natal.

delírios

ele colocava a roupa dela, e dizia na voz dela:

que orgulho! que orgulho desse acordeonista! - que maravilhoso seria podê-lo tocar os dedos, os meios, os sentidos! eu me lembro, ele se apresentara formal, e polido. eu me lembro dele, mesmo sem nunca tê-lo visto, eu me lembro de seus arranjos, suas trepidações, sua insegurança nas notas mais jovens.

e tirava as roupas dela, e dizia na segunda voz dele.

eu não lembro! eu não lembro! que desastre! - que importuno seria poder tocar-lhe o corpo, os seios, os sentidos! eu não lembro, ela se colocara a dançar formal, e torcida? eu não me lembro dela, mesmo a avistá-la todos os dias! eu não me lembro de seus tantos rodopios, suas canções favoritas, sua imprecisão com outras melhores e mais jovens... e não me lembro!

AMIZADE

qualidade demodeé.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ponto de partida

eu tive a impressão de que ele havia me chamado. daquele jeito que fazia, depois de um assobio fino, fazia um aceno que me cumprimentava com jeito de se despedir, de ir embora. eu perguntei para ele: você está indo viajar? porque ele carregava umas sacolas desformes e que lhe davam um ar de pressa e de desvario. ele disse apenas que não era uma partida, mas que era uma volta para não voltar mais. não é possível, deve haver um lugar para gente estúpida como eu. porque mesmo nos momentos mais delirantes era comovente ver um homem que demostrasse aquela preocupação tão carente por uma mulher. eu nunca entendi essa etapa da vida - da vida que era para ser nossa, mas que agora não tinha nenhum de nós dois. eu era cada vez mais para baixo de mim, porque se tem uma coisa que eu sei fazer bem é esperar. eu sei que isso é perdoável, mas é importante. e quanto a ir embora? era uma partida, ou um ponto dela.

sábado, 20 de dezembro de 2008

a solidão dos grandes

a tarde cair foi como se um peso tivesse caído no chão. e parecia que tava carregando tudo com ele. eu tive a sensação de que ele fosse me puxar junto, pra perto dele - porque às vezes parece que até o vazio é sozinho, o pesado é sozinho, e parece que tudo precisa de companhia. a gente não pode ser sozinho - e nem consegue.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ela praticamente engolia meus brincos | 2

ela engoliu meus brincos.
MAS FUI EU QUEM OS VOMITOU HOJE.

coisa de mim

como pode alguém tão jovem dizer coisas tão tristes? jogue suas pernas no fogo, sua vida no fogo. algumas pessoas são maiores do que outras: será que a surdez é assim?

agora, ao invés de olhar no outro o que deveria fazer crescer, o dinheiro do outro dá impotência. aptidão torta, pela metade. coisa de quem não pára para pensar mesmo. e se o tempo não passar, faço questão de passar por ele - e de pisá-lo, arremessá-lo no fogo junto com as pernas, a vida e as pessoas que são maiores do que outras. será que a certeza é assim?

da educação dos filhos

você não acha maravilhoso?
eu acho melhor você desligar a televisão.

o peso dos anos

perguntou a menina:
- você fez ou não fez estas flores dançarem?
respondeu a mulher:
- eu não fiz nem as coisas simples que sabia fazer.

esse é um feiticeiro

por que não usar a melhor fantasia:
O CORPO DE OUTRA PESSOA?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

sobre o amor

UMA DESCRIÇÃO, ou seria uma discrição?
seria uma discrepância enorme
entre o tormento que causa e, bom, todo o resto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

leve, leve

estive pensando em um texto. mas de tanto pensá-lo, acabei por parir seus enigmas um pouco precipitado - um mistério mal-folmado, um bebê prematuro da minha prosa. é, então ele me veio a cabeça, como um peso nesses ombros magros e sem peso que tenho. era uma lambida de gato, um breve aconchego, um cachecol de litras vermelhas e verdades, natalino. daí veio um estalo, uma idéia - pois que a única ideia que tive, veio até mim como bêbado oferecer-me um prefácio confuso com pontuação convexa.

leve, leve esta grafia fina!
leve, leve essa pequena mina prata.
leve giz, caneta, grafite, nanquim!
leve, leve, leve!

veio até mim com um sorriso oblíquo e pendente de vendedor. então veio um surto; e teve um clima. e teve uma guerra logo depois disso. a gente queria, mas não sabia ser. a gente não sabia como era querer ser. eu liguei, tentei, insisti 65 vezes, mas descobri que ela já estava grávida de outro. DE OUTRO! de outro.

all

aquilo como uma identidade.
em todos os lugares as pessoas fazem seitas, barbaridades.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

a pior noite, resumida

a pior noite. comecei a descrevê-la, ainda lembro, pelo vento que traçava uma melodia fina entre a fresta da janela e a festa que há pouco acabara. o violino fazia silêncio. dos convidados, aqueles poucos amigos que bebiam muita cerveja e as duas únicas mulheres que bebiam prosecco. dez anos sem dar presentes de natal e ainda espera que eu reconheça a voz dela? a doença dos que não reconhecem vozes - eu sei, e dos que não sentem nada. foi isso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

o TÃO humano que as mulheres são

o tom humano que as mulheres dão.

por estúpido que pareça

CAÇOAR É ELEGANTE, CRÍVEL.

narração

eu trazia em mim uma espécie de carga oblíqua e espessa, dessas que custa a passar nas veias. porque o sorriso dela havia sido tão firme, eu não sei explicar, mas a travessura de seu olhar havia fincado em mim uma ocasião - uma próspera ocasião na qual ela pudesse vir a instalar-se melhor e mais confortavelmente. talvez tivesse pensado, penso eu, que eu fosse um grande anfitrião e que a receberia nesses braços pouco alimentados e mal supridos pela vivência que ainda não havia tido. eu acho que até a magreza dos calcanhares meus a impressionava, a curvatura desforme dos dedos e os lábios trêmulos que imitavam um sorriso em sua presença eram motivos de seu amor e da leitura sublime de nós - e de nossas personagens. sua curiosidade era sua literatura. dentro de mim sei que ela se acomodaria. mas tardia tarde essa amanhã! eu sei, estes são os que tardam, meu bem! ah, minha amada, estes são somente aqueles que tardam.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Humano, demasiado | 2

A regra continua válida, qualquer valor, que não o de se deixar sair pela sabedoria, vai fazer com que a história fale, essencialmente, por si. A confiança que transforma a inteligência em esperteza: da educação, uma aceitação, uma relíquia não só de quem faz, mas de quem presta serviço – o compromisso, uma atuação pacífica e massiva na existência. Eu sei, o homem perde detalhes quando é lido – e como tudo que é grande, faz-se impossível de se manter todos os princípios intactos: a generalização é anticientífica, outra vez. Daí a erronia generalização. A generalização rasa. A gente vai precisar de educação no ego porque vai se curvar no outro, bem no centro do outro. A inspiração corre nos erros, nas valas: a educação vai ser maior na segunda chance, na vez seguinte, na continuação. Pois bem, continuemos. Você vai ser capaz de trabalhar no paralelo? O que é proibido? No caso, a greve vai ser essencial. A gente tem que parar para ser notado, para ser dito. Talvez a gente precise cessar e erguer o respiro para comprometer o pensamento com outro pensamento – o bom é que a gente tende a isso o tempo todo. A gente vai precisar amarrar tudo isso no final também.

Boemia | 4

Marcela era pedra feita de flor.
E eu era ela, Marcela.

Humano, demasiado

A educação não existe senão pela contemplação dela pelos educados. Reclamo ainda, e não pela má-educação que me faz inflamar, mas pela educação torta, faltante, pouco incisiva. Dos dias de hoje, eu sei que posso tirar o ruído da idéia no instante em que me comprometer com ela. E a minha idéia tem pêndulos, crises, tosse, problema financeiro. Mas que idéia que não tem?
Se ela fosse lisa, eu desconfiaria.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Boemia | 3

Tudo o que lhe dizia respeito era passível a comprovação. Eu sei, a gente vai se curvar diante do que tem – ou ao menos do que deseja possuir. A Marcela era um privilégio – e como todos os bons privilégios, um tormento seguinte. Porque quando ela fumava seus olhos fumantes caiam sobre mim, suas pálpebras pesavam sobre mim, e as cinzas avermelhadas polvilhavam a minha roupa – e o meu corpo por baixo a amparar seu corpo, a anulava. Ela subia em nós. Ela suava em mim com aquele tesão que lateja tanto que chega a ponto de escorrer, a ponto de transbordar pelos poros e pelos fios de cabelo. Unhas pouco compridas e muito bem feitas: os seus detalhes eram notados por poucos e devagar. Se eu a descobrisse toda, ela iria embora. A dúbia questão de ser é que a fazia existir. Ela disse que a certeza a sufocaria e que eu seria submergido logo depois também. Ela disse que tomava tempo fazer planos e por isso nao se entregaria tanto. Ela teve a audácia de profanar um destino, um destino para mim - ela conseguiu descrever também que agora até eu já acredito fazer parte dele.

Boemia | 2

Anime-se. Mais um pouco e você terá trocado o dinheiro pela própria farra. Dizem que a maldade das atitudes não consiste em executá-la propriamente, mas em escoltá-la. E por quê? Porque você não vai precisar esperar quinze horas de vôo, cinco anos de guerra, dez dias de fome. Se você conseguir gostar-lhe muito, já decerto terá tudo. É, ela bem que disse que essa minha fase de silêncio não a faria mudar em nada ou a afetaria – seu afeto era maior, ou então era nenhum mesmo, eu concluía. Engraçado esse tempo nosso de monte de gente em preto e branco. Eu não nasci para isso – e ela dizia: você e essa sua mania de grandeza. Que fosse: a minha cabeça tratava de mim como um imbecil.

é o pequeno que ficou gritante

alguém que me vencia nisso o tempo todo percebe que existem frases menores presas a essas frases. nesse caso qualquer indignação já seria uma boa pergunta. e o que é branco aqui vai depender do nivel criativo: que cor você vê? eu vejo 466. e você? você morre de medo, você é uma pessoa analógica. são treinamentos que as pessoas fazem, esse diálogo. quando você sai de um túnel e entra na claridade, por um momento você fica cego - você já viu o olho de um gato no sol?

É O PEQUENO QUE FICOU GRITANTE.

notas | 15

o palhaço não quer fazer rir, quer ser aceito.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Boemia

Ela era tão metódica que, ainda agora, eu me embaraço no instante de descrevê-la. O mais difícil a seu respeito sempre foi conseguir separar aquilo que ela era, daquilo que ela estava. Ou como ela estava diante do que pensava – ela se atrasava o tempo todo nos pensamentos e às vezes eu tinha a sensação de que ela falava e que suas palavras chegavam até mim frações de segundos depois. Eu queria seguir seus conselhos, mas tanto seguia seus passos, seus ombros, que mesmo o espaço no reflexo do seu espelho ao seu lado era pequeno. Ela tinha aqueles lábios finos e longos. Olhos grandes, azul-violeta e com pequenas granulações. A sua voz era constituída, gritante nos tons e desamável. Uma voz de mulher que fuma: com o prazer do vício nas palavras. A Marcela era uma mulher intrigante e ao mesmo tempo lisa. E superficial, como apenas ela conheci, digna de desconfiança. Porque ela falava articulando os sentidos, propagando mistério. Ela fazia malabarismos com sua dicção e me jogava pelos ares, como se repetisse que eu era um jovem inútil e desfeito na vida. Ela sempre quis um jogo com dois participantes – um homem, porque ela mesma faria a performance de sua própria mulher. A fantasia do relacionamento, do casamento, do divórcio, do consórcio do carro: Marcela tinha paixão por todas elas. Marcela não era bonita, nem gostosa – sua sensualidade era apenas a forma feminina que tinha encontrado para me persuadir. E eu caberia dentro de seus olhos até estar pronto para ir embora, como ela mesma repetia. A Marcela tinha olhos estranhos de ninho – seus olhos eram um abrigo passageiro e perigoso. Seus olhos ficavam no alto, no lugar mais alto que ela sabia que eu não poderia alcançar. EU ARRANCAVA SEUS CÍCLIOS NO BEIJO, mas não chegava em seus olhos. No ninho dos seus olhos, emaranhado, no ninho dos seus olhos emaranhados eu jamais chegava.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

todo mundo vai ser junto com você

entenda que mentir, para ele, sempre foi muito fácil. de todas as coisas não ditas, ele as dizia com firmeza, como se postasse um ponto. fazia pontos e continuava nas mesmas linhas, - já havia escutado isso em algum lugar - indignas e ressonantes. as mensagens eram claras, mas a clareza lhe tirava a visão por vez e outra - assim, outra mentira.
ele dizia: ficar velho é isso, você vai ver. então ele colocava aqueles óculos enormes, lentes grossas que chegavam até a ser um pouco amareladas, e dizia que a vida costumava ser diferente.

- as crinaças não tinham os dentes, e a gente só ia no dentista quando tinha alguma dor insuportável. acho que a gente se cuidava pouco porque não tinha muito o que fazer também. hoje SIM eu acho que eu sou moço e que eu não morro - se não morri até agora, eu não sei, mas estou mais do que surpreso, talvez não morra mais. porque há alguns anos quem era moço morria de doença que a gente nem sabia o nome. eles diziam que era coração ou pulmão, porque muito se fumava. é, teve uma época em que fumar era chic, e a gente fazia pose. e tomava dose em cima de dose. e as profissões também eram simples. ou era médio ou advogado. os que arriscaram a engenharia não eram tão bem-vistos ou aceitos. e os artistas? ah, claro. esses a gente nem falava direito. mal se ouvia falar nos pintores, nos atores, nos músicos. engraçado a gente até podia fazer tudo isso, só podia se fosse também advogado. apesar de que uma médico que pintava ou que participava de peças de teatro era estranho - as pessoas achavam que ele tinha uma vida dupla, e não confiavam a ele seus tratamentos. vai ver que foi por ai que a gente começou a ter tanta gente fazendo coisa diferente. e para quê né? tudo isso e os dentes ainda dóem, ainda caem, e a gente ainda morre. é que agora não dá mais para esperar uma vida inteira. a intera vida que eu tinha já está terminando, olha! olha esses dedos grossos e cheios de rugas. olha o meu rosto, meu pouco cabelo! essa barba que mal cresce. e essa barriga que cresce, essa unha que cresce, essa orelha que cresce. e se ficar velho é assim? é, é bem por ai mesmo.
- vô, o senhor acha certo?
- eu acho que a gente era mais do que senhor.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

notas | 14

o que não tem argumento, profere.
porque o que não erra, automaticamente inexiste.

seu corpo de tropas

- se começar a conversar, eu sento e paro. veja direito o que você está falando: você vê se ela é importante? note que tudo que tem um crescimento, tem um limite também e o seu máximo pode não ser perceptivél.
- vão tratá-lo como uma legião de estrangeiros?
- VÃO TRATÁ-LO COMO UMA LEGIÃO DE ESTRANGEIROS!
- calma. o que você está fazendo?
- eu estou ensinando meu futuro a voar.
- e o que você fez?
- eu fiz 55 vezes um valor que já existe. normalmente eu peço quatro casos, mas não desta vez. olhe a sua intenção e a descreva. eu preciso entendê-la com propriedade. sabe, a sua idéia tem um minuto no máximo; tanta coisa para falar e não chegar a 30? não tem como errar, você tem até uma tabela.
- eu tenho dificuldades.
- eu não acredito que você tenha dificuldades aqui: eu estou dando preferência a uma outra notação.

se você não conseguir me ver

não se apavore se você não conseguir me ver.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

cortiços

eu me possuí nesse demérito, nesse assédio de mim. eu era uma criança que mais parecia um elefante - eu era o menor gigante de todos. eu era um circo. daquela sensação, eu sei o que sobrou: era o calor da vertigem. da inclinação. do inchaço. do desvario. a mão da mãe. a insustentável condição feminina.

ela tinha um microondas em cima da geladeira e no teto, um vestido de festa - ou de noiva. uma roupa que parece não ter sido usada nunca. um vestido que era feito de lustre. parece que foram testadas centenas de mulheres antes dela. NINGUÉM DIZ TUDO.

ah, os cortiços. os grandes discos de gente.

depois isso, a pausa

a caridade é uma conveniência histórica.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

domingo

não aconteceu nada de que se tivesse certeza. as frases sobraram em cima da pia como flagelos da pouca gente que eram. e agora sim as poltronas vazias traziam de volta o olhar dele, e o silêncio dele. e o jornal sem ler, o shampoo, o café sem beber. o whisky de domingo e os programas de auditório vão esperá-lo voltar. eu sei, a gente vai passar semanas nesse domingo... eu sei.

domingo, 30 de novembro de 2008

das estradas

SORRY, BUT IT'S TIME TO GO.

é o chão que chacoalha.
fica uma grande espreita depois dessa.

parecia um domingo de gato, daqueles que a janela embassa quando se coloca os pregos nos olhos e tira do colo a camisa, a cabeça da noite que passou. os resquísios da noite que passou. talvez algum dia algum sistema mais praticável do que este faça parar de torcer as intenções. as minhas, ao menos, já estão todas dadas. e eu tinha medo de fazer um convite que mais fosse parecer uma imitação. todo mundo já tinha feito aquilo antes. todo mundo ja fez as demonstrações, as doações, as traduções que eu quis fazer. digo, por isso, que descascava as unhas em mim, que fazia amor como se colocasse em estado de pena a minha crueldade. do outro lado, eu percebo o que é devido passa rápido. o tempo é pouco quando se corre - e muito quando se espera. o que é metido passa rápido. e ela se espreme aqui comigo, como se quissesse ver comigo essa passagem da minha desatenção ou da minha preguiça. eu tenho a sensação de ter perdidos as botas no caminho. os cegos no caminho. os dias, as plantas, as tampas, a morte, a sogra, as solas no caminho. eu acho que deixei o caminho no caminho. quanto tempo demanda o tempo? e eu sinto ter deixado a nossa casa na loucura e a minha loucura - A MINHA LOUCURA - em casa. que casa? a nossa casa que ficou no meio da nossa rua? entao eu pensei, eu achei que eu teria que seguir com a minha vida e com a vida que era para ser nossa. nossa. eu lembro, ela trazia nela uma espera. ela pediu desculpa, mas disse que era tempo de ir, assim dessa forma mesmo. talvez o tempo fosse legido por ele próprio.eu vejo que alguma coisa me tira o que eu vejo. e o que eu vejo? eu vejo mais de um sol. dezenas deles, talvez centenas. o humor é uma arte corrosiva. impressionante, impressionante.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

os silêncios que gritam


Essas mariposas me têm incomodado. Percebe que o meu silêncio falará por mim? Você consegue entender a maneira como se processa um crime de paixão? Você deveria trocar a aparência pela essência. Note a origem patológica da paixão: a paixão que vira gripe, peneumonia, câncer, aids – não mata, mas faz morrer. Nem sempre a gente diz o que quer dizer. E quando acha que tem a dizer, falta coragem – e não que a coragem seja a ausência total do medo, ou que a gratidão seja esperar algo em troca. Mas quem precisa de um covarde ingrato? É bom não pensar, mas quem precisa de alguém que não pensa também? Essas mariposas me têm incomodado. Quantas mulheres você vê? Eu vejo todas – sejam caveiras, sejam ausências. Não se fala de um assassino como se fosse um coitado. Não se exalta um assassino chamando-o de louco. Quanto vale um silêncio? O prazer também pode ser um impulso que destroi; e você pode precisar ceder a sua decadência caso não consiga percebê-la antes. Perceber o limite é a primeira chance que se tem para superá-lo. A gente só perdôa quando percebe a miséria do outroquando coloca o coração na miséria do outro. E quanto a miséria da gente? A miséria da gente é a falha. Retomar o começo também é uma espécie de ponto final. É, essas mariposas me têm incomodado.


* the silence of the lambs

notas | 12

o proibido é INSTANTE.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

multidões | 3

sentia uma fastio, uma falta de apetite, uma redundância. e outra vez aquela considerável porção de gente lhe cercava o corpo como uma cárcere de corpos nus e saudáveis. e tinha uma distância pequena, quase ínfima, entre o que a distinguia da algazarra, do ruído das vozes - finas dos homens e imponentes das mulheres. ah, as mulheres. tão mulheres que não se traçaria nada em suas faces a não ser rugas no rosto - assim, bem simples - ou do grande rosto que formavam todas elas. as linhas do tempo faziam caminhos na grande testa, convites na grande festa. nos sábados à tarde, mosteiros; retiros, silgilos. os sapatos eram detalhes - sabia que lhe tomariam tudo, de baixo para cima. a multidão, diferente do que poderia prever, lhe faria um favor. a plebe, a maioria das pessoas, não tinha pele no olho. não tinha pálpebra. imagina: a multidão era uma multidão que não dormia nunca. não recurvava nunca. não se embriagava. não fazia sexo. a multidão era gente - gente que não era gente.

e disse:

- essa é a porta que dá acesso ao sonho.
e disse o sonho. e disse a porta. e disse a droga. e disse o monstro.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

cinco de seis

(...) a terceira não falava, ela cuspia as sílabas, os acentos e as tremas que nem se usa mais. ela era pequena e vermelha. ela tropeçava parada nas palavras que dizia. a segunda usava um salto fino, uma agulha nos pés que fazia marteladas no piso frio. ela dava dimensão as palavras e falava de forma lúcida, reta, limpa. ela era azul. a primeira fazia grandes intervalos de palavras entre por e tirar os óculos. usava uma blusa de uma mulher de 30 anos, divorciada, 2 filhos. tinha uma cara de quem mexia com números - e ela era vermelha também. a próxima falava como se parecesse óbvio. usava um azul escuro que me puxava para baixo, para junto dela; um sobretudo preto de uma viúva jovem, loira e com bolsas cinzas debaixo dos olhos: olheiras do tempo que não se viveu ainda. depois disso, um corpo de pose, de ombros largos que se punham como um ponto de interrogação. ela era a mais misteriosa e parecia-me sempre não demonstrar tudo. falava sem envolvimento ou crença. não usava brincos, anéis ou colares. nenhuma maquiagem. era rica - e vermelha. a sexta, a última, não me interessou. não me intrigou em nada (...).

um passeio que era um grito.

era como fazer um passeio - eu tinha a sensação de gritos no silêncio. ele gritava comigo na minha cabeça como gritou tantas outras na minha presença. e ela gritava também, a acrescentar. um coro de gritos. um tapa no ar. um grito que tentava ser didático e que dava ódio. não sei ainda se gritava ou se pedia socorro. se chamava a atenção, ou se tentava tirá-la de mim. acho que não perdia nem ganhava, aquele grito só sabotava a gente. e virava, dividia a gente. tornava a gente bem menos gente. um grito que era um uivar. um grito que saía dos dentes, que fazia ranger os dentes. um grito que roía o tempo, que devorava a gente. um homem que era lobo, e uma mulher-hiena. um transtorno.

domingo, 16 de novembro de 2008

das posses

tinha uma lua cheia.
chamava-a linda lua.
e era uma lua amarela.
inflamada.
cheia de pus e de restrições.
e era dela. linda lua dela.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

o grilo

aquele grilo na minha orelha, como se fosse um toque, um transtorno. eu digo, estou quieta, me deixe! e ele ali, a martelar a minha idéia. o mesmo pêndulo, de um lado para o outro, insistente como sempre. ele não tem nenhuma novidade. fica como um guarda, um poste, um louco - e logo eu, que achava que todos os loucos babassem. um monstro. uma aberração. ah, minha consciência, estou quieta, me deixe! ou ao mesmo tire daqui essa insistência. eu queria dormir meu próprio sono - ou aboli-lo, que fosse; sanar meu incômodo. meu comportamento é do tipo que grita. eu queria tirar minha cabeça com a mão, mas não, ele ali, a colocá-la no lugar, a costurá-la no pescoço sobre os ombros, da forma mais acadêmica que poderia colocar. ah, me deixe em paz! e ele ainda a sofrer por mim porque sabe que vou deixá-lo. soltá-lo. castrá-lo. mandá-lo embora. soltar os cachorros atrás dele. sempre perturbá-lo. mandá-lo a merda. e mandar-lhe, simplesmente.

domingo, 9 de novembro de 2008

ah, se eu a conhecesse

foi como se ela tivese entrado e tomado tudo. ela estava planejando alguma coisa - eu sei, ela sempre ficava com aquele sorriso torto quando fazia planos. sua imagem me parecia ruidosa o tempo todo. então ele a pegou pelo braço, com aquela exelência de quem acaba de chegar para a festa, e a apresentou. ela me parecia uma saudação imensa, um cumprimento; e ainda um desalento, um talento faltante - coisa de artista mesmo. será que eu era um absurdo naquele hall social? ela me olhava como se tentasse entender: de quanta atenção você precisa? eu quis dizer-lhe que não precisava de nenhuma, tantas vezes, mas não me encoragei o suficiente para responder. ah, se eu a conhecesse. eu gostaria de ter trabalhado com a platéia, mas ela me fitava tanto que seu interesse exessivo me impedia de ter concentração. eu quis interromper-lhe, dizer que não precisava que ela me olhasse, tantas vezes, mas isso me dispersava ainda mais. eu já tinha exemplos bastante complicados em relação a isso - talvez dessa forma minha única reação foi dizer para que ficasse à vontade e ir embora. eu poderia jurar que havia lhe tregue os brincos que cairam. eu sei, não os guardei! - mas de algum jeito eles estavam lá. e estão aqui ainda, esperando. nós vamos esperá-la voltar, trazer tudo nosso de volta. ah, se eu a conhecesse. eu poderia tê-la levado para casa. ah, se eu ao menos a conhecesse.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

fazer das tripas, coração

não o desejo pelo mal, mas pelo feio. pela tentativa de ser feio e acabar por tornar-se feio - e ainda cheio de significado. então não pelo significado que pode gerar - e que provavelmente irá gerar - mas pelo excesso dele. pelas sobras, pela parte que transborda. pela parte que é grande demais para se suportar ou entender. você vai viver daquilo que extrapola e que sucede o infinito, o incondicional? você vai querer o todo ou tudo intacto? a tentativa é um mistério.

ontem ela chegou atrasada; hoje, adiantada. como é que eu vou saber então? precisa estabelecer uma ordem para que eu possa concluir de forma nobre o pensamento. ela é a primeira que tem traços grossos nas mãos, traços de terra. e no rosto, uma finesse, uma douçura estrangeira - vinda de cuba, talvez. ela não sabe, mas faz suposições sobre o lugar ideal de onde possa ter vindo - apesar de que o desconhecimento da origem pode fazer com que ela pertença a qualquer lugar. eu acho válido.

os dias estão a se tornar meses. as horas formam semanas inteiras de tempo: é, o tempo voa quando a gente se diverte. então não pela diversão em si, mas pela sensação de divertimento e de êxtase. daquele prazer ligeiro que deixa querer mais. a importância não vem de qualquer lugar. tudo bem, perdoem sua estupidez hoje - mas somente hoje, eu já lhe aconselhei quando a isso antes.

e quanto ao resto, ela está a arrancar meus cílios até. as meias de seda que não uso nunca. a nuca, a sede. as meias, a calça. os olhos de vidro, os sorrisos de plástico. o plastico do maço. o maço. o cigarro. a primeira tragada. o último respiro. a inspiração. a mão, o pé, o braço, o pescoço. as costas e as curvas das costas. as covas das costas. as curvas do corpo. o corpo, ainda que torto. o pouco espaço, a pouca luz, a pouca espera e paciência. necessita do corpo deitado com urgência: nenhum desconto vale tanto a pena.

eu já lhe aconselhei quanto a isso também.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

os detalhes: as canecas de café

eu me lembro, ela havia pegado no sono próximo à janela. não a percebi, mas lembro de tê-la constatado assim sonolenta e pacífica. ela havia me dito que acordaria cedo, e que ela havia sido apenas uma criança nos anos 80 - não entendi em que lugar exatamente essa colocação se encaixava, mas também não a questionei. pensei que talvez não existisse nenhum lugar no mundo para crianças como eu irem ou ficarem - às vezes tenho a sensação de que tudo já está tomado; eu poderia ser revolucionária, e então alguém me diria: já fizeram isso antes, sinto muito.

ela se ajeitou daquela maneira como costumava se ajeitar sempre para tentar dormir. entrelaçava os braços no corpo, como se o contorcesse ou sentisse frio. aposto que ela me deixaria cobri-la com um lençol fino, mas ela dormia tão tranquila e quieta que tive receio de acordá-la. tanta pacificação era massiva e me atordoava. eu precisava fumá-la. torce-la. ou distorcer-me, que fosse. nada havia ficado no lugar: ela simplesmente dormiu e deixou as canecas cheias de café pela metade na pia. eu poderia arranhar as paredes do quarto. eu poderia entregar suas mentiras agora ou acordar sua familia inteira. eu podria publicar os segredos dela como se fossem meus. ela disse que a gente se pertencia de uma maneira estranha, particular. "eu não a conheço", disse. "eu não faço idéia de quem você seja". e ela me olhava planando sobre mim, como se o tempo se encaregasse de nos apresentar em outro momento. eu fiz um silêncio. e ela, como um anjo, encostou-se próximo à janela, à cortina, à pouca luz que tinha e dormiu. ela queria tomar minha única janela. minha única cortina. ela estava ali como se me vigiasse sem me encostar os olhos - e isso me incomodava.

notas | 10

para a internet:
e-mail pra quê?
existe algo MAIS fácil do que abrir um envelope?

domingo, 2 de novembro de 2008

nota posterior

foi legal não pensar. mas quem quer alguém que não pensa?

não precisar pensar

o processo corrria mais lento do que o comum. eu era uma convidada especial, ele havia me dito isso. e insistiu ainda, logo depois: chegue cedo, senão não terá lugar. cheguei. parei o carro perto e na sombra. levei uma bolsa pequena e muita paciência - mal passava pela porta. não sei quanto adoraria ser reduzida a um clichê cultural, mas ele continuava sem ligar. não devem estar chatiados, só devem estar com fome. a baixa umidade do ar causaria uma perda do equillibrio? não sei. ele disse para que eu escolhesse o meu sabor de sorvete favorito. eu disse para que ele escolhesse o dele. alguém disse que eu estava desviando do assunto. que fosse. eu me inscrevi nas aulas de culinária, no clube do livro, no curso de arquitetura. então eu experimentei o vestido. ele disse: feche um botão, parece que você está se oferecendo; e eu disse que eu realmente estava me oferecendo. não toque muito, não fale demais sobre os seus relacionamentos frustrados. eu entro ali em cima, e a gente se vê no meio. o quê? porque tantos patos em veneza? tantos? não sei, eu lhe disse. eu às vezes nem sei o que digo.

eu tomo decisões o dia todo.
mas nós ainda não tentamos o sofá perto da janela.
em termos de coisa séria, minha vida é uma bagunça.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

multidões | 2

giravam em torno dela como uma grande festa; uma ciranda eterna. o envolvimento na dinâmica não a insentaria de culpa. perceber emoção não significa ceder emoção. a multidão não tem fundamento filosófico: a multidão é um estímulo coletivo. toda vez que vem, arma-se de paciência. se conhecesse, duvidaria - duvida conhecer, contudo. estavam anacrônicos, os sorrisos e os gemidos dos risos. demandaria tempo estabelecer uma relação plena de sentido. a multidão lhe abstém. aquele monte era a emoção que não se conseguiu integrar. eles tinham nuvens nos olhos. castelos de sorvete nos olhos, no céu. no céu, o céu e só. lembra tê-la cumprimentado, apertado sua mão: viu, eu mudei meu jeito! - como se tentasse atribuir-se ainda um pouco mais de crétido, disse. o pulso estava nos outros. o gosto estava nos outros. dançavam com ela, ora para ela. e lhe esbarravam no braço e nos cotovelos - queriam levá-la, prendê-la. tentavam fazer dela uma instância. a multidão era um degrau de gente, um tropeço. a multidão era uma partida: ou fosse embora, ou recomeçasse dali mesmo. preferiu, já na primeira vez, estagnar. o sangue corria fino e contínuo. morno. VOMITARIA. tragaria tudo depois de colocar tudo para fora. a multidão produzia sons repetidos e sem intervalos. a multidão não fazia silêncio - e quando tentava fazê-lo, enlouquecia. a multidão era pedaços de unhas de gente. gente que não era gente.

você faz parte da gente?

não pára. mas repara em mim como se eu fosse uma estátua. às vezes eu me sinto meio pedra, meio gente. a gente tem mania de valorizar cada defeito. e então enrolar um mal bem feito, como um trago de cigarro amassado no bolso.

- você sentou no maço, moço.
- eu peço desculpas!

eu faço um esboço: será que você poderia ceder um amigo, ou abaixar um pouco o valor do aluguel? às vezes eu me sinto meio faltante, meio falante. meio grilo. meio inseto gigante no pára-brisa do carro. não pára. mas repara em mim como se eu fosse uma revista - daquelas antigas, que se devora as figuras no banheiro. ah, a gente tem mania de comentar cada besteira. e então dizer vinte maneiras de presenciar uma mesma cena. a mesma cena.

E O QUE EU VEJO?
eu vejo que a gente tenta transformar mesa em cadeira,
o tempo todo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

terça-feira, 28 de outubro de 2008

multidões

não procurava na multidão algo que lhe fosse familiar, mas que ao menos não lhe fosse tão silencioso. girava em torno de seu corpo aquele monte de corpo sem nome. não procurava alguém - se pelo menos conseguisse identificar um rosto, já seria o bastante. tão logo via um borrão de olhos, narizes e ouvidos. sem contar o som insurdecedor das multidões. pessoas que não são pessoas. tinha uma lembrança vaga de como ela lhe sorria os olhos, mas isso não era suficiente. tudo sumia como mágica. e surgia de novo, como se arrastasse o resto do cansaço para fora do corpo. tudo sumia como armadinha. e trazia de volta. a multidão era um grande rosto, com nariz de cabeças. olhos de pequenos sonhos. e os sonhos, como um reboliço, redundantes. gente que não era gente.

coisas que se faz | 2

a gente vai ao teatro só para comer pizza depois.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

sobre ana laura

ainda A CABINE, A JANELA POÉTICA:

guardou o caderninho de volta no bolso e cruzou os braços sobre os joelhos curvados em cima do degrau. abaixou a cabeça. notou que ninguém sorria em sua direção – os sorrisos são barulhentos, alarmantes. os dentes rangem quando se sorri. o tempo parece não passar no silêncio, apenas as buzinas da rua interrompem aqui e ali. ela está parada feito degrau de cimento. e está patética como sacola com chocolates e poemas. do tempo que decorreu, seu instinto não chegou a promover nada. deixou que ela ficasse ali sentada como um chocolate de um dólar – seu preferido. nenhuma pluralidade ou acontecimento fora do comum. nenhum exagero, apenas a mesma continência e uma cabeça curvada sobre a coxa, fingindo sono e fingindo a beleza poética que lhe é naturalmente de direito. não queria um documentário da vida, aquela coisa chata; mas uma descrição barata e eficiente. talvez fosse hora de parar de negar seu corpo perante outras pessoas. alguns já nasceram grandes, ela apenas nasceu. e não entendeu o porquê de não poder se sentar em um degrau na rua e esperar. pensa demais. reflete demais sobre si. sobra em cima e dos lados. extrapola-se. tem overdoses dela mesma. então encomenda um novo corpo pelo correio, contorcido em uma caixa de papel pardo – pois que seu corpo magro já não serve para nada. e que inferno: não consegue apenas abaixar a cabeça e dormir no próprio colo. precisa imaginá-la de olhos fechados. precisa fechar-lhe os olhos, tirar-lhe a roupa. precisa de tudo em um segundo, precisa dar mais tempo ao que durou um segundo, ao drama ou à cama mal vestida.

domingo

não aconteceu nada de que se tivesse certeza. as frases sobraram em cima da pia como flagelos da pouca gente que eram. e agora sim as poltronas vazias traziam de volta o olhar dele, e o silêncio dele. e o jornal sem ler, o shampoo, o café sem beber. o whisky de domingo e os programas de auditório vão esperá-lo voltar. eu sei, a gente vai passar semanas nesse domingo.

sobre mim

antes minha terra fosse seca e não desse nada.
(não a tomariam)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

das trovas

deixe que ela me ouça. minhas palavras. silenciosas como ela, minhas palavras. minha moça, minha única moça, deixe que ela me ouça. e torça o que temos, como um lenço no pescoço. COMO UM BRINCO - como os brincos que ela engolia. e os olhos que ela devorava. e os cílios que ela cuspia. e o amor que tinha. e tinha. e tinha. tinha-me tanto que chegava até a dúvidas. ah, ela tinha olhos de tinta - eu penso - densos. minha poesia é ela. e dela.

não mais breve do que previ

EU TINHA UMA DÚVIDA.
UM PÊNDULO NA IDÉIA - BEM NO MEIO da idéia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

vive por aí, como dizem

ainda oito e vinte quando eu passei. jamais, estava a pensar. eu estive viajando há alguns dias - eu sei, posso me ampliar; a autoridade é muito singular. minhas competências são meus contatos. faz tempo que não a vejo - então tenho recriado sua imagem na minha cabeça, através de pequenos sinais; assim, pequena e especial. simples mesmo.

tenho receios em relação aos costumes que tinhamos.
tudo era muito visível - eu posso dizer isso com propriedade.

notas | 9

queria que parasse de ser tão irritante e autobiográfica.

domingo, 19 de outubro de 2008

sábado, 18 de outubro de 2008

A maneira como dói fazer doer

DE HOJE:

A minha cabeça está doendo. Eu a sinto doer como doença que não tem cura. Eu achava que doer fosse parte de um processo desconhecido de cura. Eu achava que os motivos certos tinham caminhos errados – mas não. Eu sinto minha cabeça doer como parto lento – eu já tive filhos quando os imaginei felizes. Eu já tive um apartamento pequeno para guardar qualquer coisa que quisesse esconder do resto do mundo. Eu a vejo sempre, aquela menina, como motivo de pausa e de consolo. Eu acho que eu perdi os movimentos do rosto. Do olho. Do canto da orelha. A minha cabeça está doendo. Eu acho que minha garganta secou. Por que tive que partir? Acho que saí de mim. Como que um corpo pode tanto se fazer mal? A minha cabeça dói. A minha cabeça rói a minha idéia. Eu não sinto inveja de mim mais. Eu nem sei mais quem eu sou. Eu acho que eu saí de mim – eu me vomitei. Eu me joguei no chão. Eu me pisei, e tenho me feito tola desde então. Eu queria focar, mas minha visão me parece tão estreita que eu não vejo nada. Eu queria ter coisas maravilhosas para oferecer, mas eu não tenho nada de bom. Eu só tenho dúvidas. E eu tenho uma cabeça que dói. Eu queria deixar de lado ansiedade, decoro, sabedoria. Eu queria não poder morrer de fome. Eu queria parar de chorar um pouco, de vazar um pouco, de transbordar um pouco. Eu queria ser mais para mim, eu queria acabar em mim. Eu queria ser só eu como companhia, já que ela acabou por me deixar também. Eu queria falar mais fácil – eu tenho me engasgado com palavras. A minha cabeça dói muito. Eu sinto de novo meus dedos finos e esse monte de ferida. O tempo não vai curar nada, eu sei disso. Diferente do que se diz, o que não mata não deixa mais forte. O que não mata me deixa com raiva. Eu tenho ódio dessa mania de ser feliz. Eu queria um mundo sem perturbações – ou um mundo em que as pessoas falassem e cumprissem. Eu não quero pena porque eu não sou doente. E só sou grande e não caibo no espaço dentro de mim. Eu tenho idéias espessas, gigantes. Eu tenho pretensão de pensamento, de filosofia. A minha cabeça lateja, expulsa. Eu acho que estou andando em círculos, que estou a fazer tantas coisas e ao mesmo tempo não fazer nada. Esse ano não quer passar. Essa fase não quer passar. Ela não quer passar por mim porque dói. Porque machuca me ver longe, eu sei, me machuca também. O tempo não vai curar essas feridas de hoje, hoje já está eternizado. O tempo parou durante a ausência que eu tive. Eu me sinto cega. Eu perdi meus movimentos do corpo – meu coração está pulsando para nada. Ela me ocupou inteira. Eu morro de saudades do tempo que eu dei para ela porque ele passava diferente. Eu sinto falta da demora. Da espera. Do significado das horas. Eu lhe dei horários específicos. A minha cabeça dói muito mais agora, quando eu lembro. Agora eu entendo como dói fazer doer. Como é ruim exemplo dentro de exemplo. Como é fácil saber o final da história. Como é impossível aceitar – fala-se tanto de aceitação, mas e depois? Provavelmente não se vai aceitar – pois bem, erro em cima de erro. Estrago sobre estrago. De mim, nada. A minha cabeça dói como chuva. Como nuvem. Como prazo que não termina. Como beijo de despedida. Dói como objeto. Como faca. Como desculpa. A minha cabeça dói como orgulho. Como sexo de graça. Como amor de graça. Como esmola. Dói como incomodo constante, como pedra no calcanhar, no rim; como pensamento que não cessa. Dói como o sorriso dela de dor. Como a cautela. Como disciplina. Dói como o medo de doer. De tentar. De salvar alguém. Dói como permanência. Como paciência. Minha dor é simbólica, violenta. A minha cabeça dói.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

eu me lembro daquele mês de julho

eu me lembro daquele mês de julho. um julho sem fim. você deveria ter jogado as coisas fora (as camisas, as meias gastas), assim como eu fiz. deveria ter traçado no mapa os caminhos e todas as rotas possíveis - você deveria ter ido embora enquanto podia. você deveria ter dado mais chance, mais tempo ao que durou apenas um segundo (o coro, o beijo). do armário, ainda aquela poeira fina que você trouxe nas solas do tênis - é, eu me lembro como você adorava fazer caminhadas em manhãs frias, manhãs como esta, aliás. eu queria confessar mais vezes a sua ausência, mas por várias outras me convenci que você sempre esteve comigo - a falta é apenas uma impressão errada; e a saudade, um desvio natural de tempo. eu sei, eu mesma a inventei. eu lhe coloquei cílios. eu lhe coloquei pequenas imperfeições na pele e pequenos pedaços de mim no pensamento (meus segredos, meus medos mais bobos). eu lhe costurei sombra nos pés. unhas nos pés. pés. será que você não percebe? eu me abraço com seus braços em mim. meus braços são seus, mais até que meus abraços ou minhas roupas. eu REALMENTE me lembro daquele mês de julho, você não?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

minhas teorias são fundamentos | 2

A CARTA DE DESPEDIDA.




c,

queria ter atrasado seu dia e o seu relógio de pulso. eu queria ter deixado mais tempo nosso no quarto e menos no trabalho. ainda pior do que a convicção, eu tenho dúvidas quanto a nós. e não pela mentira que se produzia, mas pelo excesso de verdade que se carregava. minhas costas dóem, meu amor. a neblina não pode mais enganar nós dois: eu precisaria de provas. eu não estou mais convencido do que antes, nem menos diccionado do que depois. eu não quero que entenda minhas palavras como um esquecimento - eu nos desejo como lembrança. poderemos durar apenas mais vinte e quatro horas, bonitas e breves, eu não me importo. eu não quero esperar o dia do casamento, na cidade terá mais gente. eu queria pedir desculpa por toda a confusão que eu causei, tentando dar-lhe um susto. você escuta um assobio, longo e baixo? eu a conheço. eu conheço este seu lado escocês, suas tradições. eu conheci uma mulher, dias atrás, que tinha seus olhos, que tinha uma boca igual a sua. ela conhecia sua vida. ela conhecia seus delírios e seus demônios. ela me disse para que eu me dirigisse a você e ficasse com você até não aguentar mais. ela me disse: cuide para não sofrer - e eu lhe disse que você já era meu próprio sofrimento e que isso seria impossível. que você estava em mim como vinho, nas minhas veias. eu me lembro daquela vez que você me contou, você me disse que o amor tocava almas - você se lembra disso? com certeza você tocou a minha. de tempos em tempos você vaza de mim, nessas linhas. eu queria ter mais dinheiro para flores. mais saudade. mais saúde. mais tempo. menos temperamento. eu queria mais me de mim em você, mais de nós, mais de mim em mim mesmo.

fique bem.
eu te amo.


n.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

minhas teorias são fundamentos.

ela deixou o quarto daquele jeito incomum que tinha de deixar quartos. o copo de leite tomado pela metade como um objeto esquecido, um pensamento. eu sei que nada tornaria o instante mais fácil, mas eu ainda insisti. perguntei-lhe se ela não gostaria de ficar um pouco mais para conversarmos ou jogarmos conversa fora. eu não conseguiria entregar os restos dela que estavam em mim porque eu tinha ciúmes. eu tinha um ciúmes louco daquilo que seus olhos viam diante de mim. eu queria saber a imagem que ela tinha de mim agora, depois de tudo que aconteceu. a separação não pode deixar alguém mais forte, eu pensava. e eu ouvi sua resposta curta do outro lado, como se alguma coisa me prendesse na cama, me puxasse e me impedisse de levantar, pegá-la no colo ou nos braços. ela disse que não ficaria: eu não disse nada depois disso. disse que nós não tinhamos mais nada para resolver. eu achei mesmo que tudo já estava resolvido - e estava certo, uma pena. eu queria ter deixado em cima da mesa aquele bilhete que lhe escrevi, dias atrás. sei que ela teria parado para ler ou ao menos para tentar entender o que houve. eu queria ter-lhe entregue a carta de despedida, mas acho que ainda relutava acreditar que passaríamos por isso. eu achava que nunca passaria por isso outra vez. eu achava que essas dores só aconteceriam com os outros - e estava errado também.

a violência é simbólica.

a violência é simbólica.

domingo, 12 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

terça, insana

de mim, nada relativo. nenhum cumprimento ou desinteresse. depois do ódio, vem o amor - daquelas bem fusô mesmo. e vem um requerimento de função pequena e relativa: de hoje à tarde só vou ter sono. dos dias que passaram, de todas as outras terças, um beijo e um abraço. eu me despeço para sempre; mas peço, ainda, que não retome nenhum estado de choro ou festa. o presente era um ensaio: a recusa a grande festa. aplausos, por favor. das cortinas, repressão. do circo, o circo. de nós, nós mesmos - como bobos de botas e chapéus. de tudo, o delírio, a febre alta, olho inchado. falta de fome e a fome de nós e do corpo ausente. de nós, presentes na saudade e na nobreza do lugar eterno, solitário. de nós, outra vez. e outra. e outra. e outra outra vez. pois bem.



_
dos mágicos:
a platéia sabe a verdade, mas está lá porque gosta de ser enganada.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

de alguém

da tradução:

eu sei que você está machucada e preocupada. eu consigo sentir isso em você. mas você precisa parar com isso agora. eu quero isso terminado. eu realmente quero. eu estou cansada, meu amor. eu estou cansada de estar nessa estrada, sozinha como papagaio na chuva. eu estou cansada de não ter um amigo para estar junto, para me contar aonde estamos indo, de onde viemos ou por quê. mais ainda, eu estou cansada de pessoas sendo feias umas com as outras. eu estou cansada de toda a dor que eu sinto e ouço todos os dias no mundo. existe muito disso mesmo. são como pedaços de vidro nos meus ouvidos, o tempo todo.

será que você não entende?

lúdico

diz tanto que me ama que banaliza qualquer sentimento de amor que possa ter. HOJE EU NÃO TENHO NADA INTEIRO. só fragmentos dela. ela me deixou em um abrigo e eu me sinto magra, fumante. ela passou uma lágrima por baixo do olho e não se despediu - eu morri cem vezes depois disso. eu queria nunca tê-la conhecido. eu queria ter desconhecido completamente. eu não queria ter descoberto nada. eu não queria ter conhecido na ocasião errada. o tempo são ocasiões. eu queria ter deixado tudo irrustido, quieto.

foi como se eu tivesse tido uma ausência ;
um vazio de tempo. eu não me lembro de nada.
depois de mim, EU jamais serei a mesma.

recalque

a inocência do amor momentâneo merece perdão.
achava que os sonhos poderiam ser curados com televisão:






- estava errada.

sobressalto

para que um recomeço? sei que minhas lágrimas de ouro lamentariam com certo retrocesso profano. e não se confunda:
essas ondas também submergirão você. e eu, logo em seguida.
-tão imersa em pensamento: ainda que tivesse chorado, não teria percebido. quase coloquei na mala as ondas de rádio - a voz.
estava certa disso.

sinto que vale a pena ser radical nesse aspecto.
livre-se de mim, eu já estou livre.

no fundo

agora você tem alguma coisa para mim?
alguma fala?
é, pode ser.
eu tenho um artigo.
ah.
um artigo de jornal.
um recorte?
um recorte.
uma notícia?
sim, uma tragédia.
então foi uma tragédia?
eu fui.
e eu?
você ficou.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

qualidade do que tem dois valores

run, remédios e cigarros.
doses, cápsulas e pequenas tragadas.
- nenhum tempo.

ingeria, mas não digeria nunca.
fome. vômito.
- nenhum tempo.

medo.
medo.
- quanto tempo?
- nenhum tempo.


equivalência: ambivalência.

notas | 7

muita sensibilidade e talento em um mundo tão podre.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

você não pode parar o que começou

a mesma moça a entregar lençóis, ou toalhas. estava louco, sabia disso – admitir a doença é o primeiro passo para a cura. desejava livrar-me em quantidade tão demasiadamente grande que até eu custava a acreditar. não sei por quanto tempo estive ali – ainda me lembro dela ter dito: eu passei, você não tinha estado. MENTIRA. eu sei ter estado aqui há muito tempo. meu rosto ainda é o mesmo rosto de quando olhei, cerca de dez minutos atrás. do tempo que decorreu, meu instinto não promoveu nada. de dúvidas, apenas a falta de vestígios ao meu redor. eu tinha trezentos, mas não tinha nada inteiro. a tentação me seduzia como um abismo. lembro que falava de um rio de amor perdido e dedicação, todavia, o silêncio rebatia: a solidão do corpo é somente um convite que segue para um mar de ondas densas e viscosas. ondas de óleo. reconheço que teria tirado a vida por bem menos, mas cedi a minha decadência. acho que me distraí, cochilei por outro segundo. a mesma moça a entregar lençóis, ou toalhas. quanto aos passos, nenhuma pegada tão próxima a mim – tampouco castelos de areia ou bonecos de neve. eu, particularmente, nunca havia visto neve: fiz bonecos que mais pareciam cachorros – e os postei longe. eu queria algo magnífico, mas que tivesse a simplicidade da imaginação de uma criança. a narrativa é um processo longo, e a gente rouba o sonho e deixa roubar. eu sonhava, mas e então? os sonhos não embelezam mesmo. ela desapareceu no sol – eu sei, eu pude ver. o sol que queimava o colchão de uma cama vazia. talvez fosse cedo para as coisas que não se faz com freqüência. ela via meus olhos como dois glóbulos, esbugalhados e cinzas. nada de novo. já passava do meio dia quando me dei conta do ocorrido: hoje estaríamos a celebrar sete dias – não tenho espaço para julgar seus extremos como gostaria. aquele era um lugar próprio: quanto é a despesa aqui? ela se achava esperta, eu ficava quieto. e quem disse que não estamos suspensos no ar? a referência que eu tinha distorceu-se. a camareira, os ombros, os cães lembrarão da minha idéia. a mesma moça a entregar lençóis, ou toalhas.


* a momentary lapse of reason, pink floyd.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

de você, meu amor

SEXTA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 2008
-falarei por sexta.



esperá-la chegar era um prazer. agora é uma agonia.
e mais uma agonia? INSÂNIA, não sei ao certo o termo.
uma insensatez ridícula. imprópria, vazia.
outra maldita espera que se prolonga mais que o necessário.
o que seria inventado o suficiente para continuar?

eu me sinto impossibilitada de tirar outro sonho.

(eles vão me odiar para sempre. meus sonhos vão me odiar para sempre.)

e que sempre mais breve para se odiar, não?

parece pouco para quem vê. assimila-se a nada.
quem vê de fora não vê nada do que eu vejo.
INSÂNIA.
eu me sinto tonta. a vacilar-se. tornar-se louco, resumir-se a pouco menos que cem gramas - eu sei, eu mesma contei. divorciar-se.
e então casar-se com um futuro arranjado. vão achar que eu sou idiota. ou nem vão achar que eu existo.

é possível falsear o cenário?
é possível falsear o cenário.

eu queria tirar a cabeça e os ombros. existir dali para baixo. gastar o chão de tanto andar em cículos e então expulsar-se da própria órbita, densa e poética como os feixes de luz dos lábios dela.

redimir-se por um propósito?
que propósito?
que mérito?
que honra?

É UMA AGONIA.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

ah, seus cabarés

ah, seus cabarés.
ela fazia como um passeio de botão em botão, com pausas para goles de café e intervalos de tempo. pois que tempo suficiente para que rediressionasse o olhar para o pálido do corpo que se mostrava breve e contínuo, cada vez mais. amanhã não vai existir, eu pensava. amanhã vai deixar de existir para sempre. assim prosseguiu o legado. a troca de olhares de olhos que se multiplicavam: havia uma multidão a olhá-la. imaginava ser uma invasão. diabos, nem mesmo o mais íntimo e depravado ato do amor tinha privacidade. da janela, a luz. da luz, os escombros. e os tombos nos joelhos finos. ela se equilibrava meio vareta, meio mulher. meio criatura mística e uma outra metade, a menor metade de todas, meio exaltada. enamorada.
ah, seus cabarés.
ela quase nunca entrava e ela quase nunca deixava de estar. nunhum movimento lhe fazia jus; naquele instante de sexualidade simples, a culpa era ainda mais íntima do que poderia supor. a culpa era uma deslexia. uma contemplação em falso. um testemunho revogado pela pouca idade que tinha. ocorreu-lhe uma lembrança, uma sensação como uma inflamação constante e débil que emergia pela pele. NÃO FARIA PLANOS, NÃO SE PERMITIRA TANTO. não se permitira nada, aliás, após um decoro. ela abateria os brios, eu pensava, caso descobrisse quem eu era ou o que fazia ali. a nudez era uma colocação social na realidade. não faria sexo (entenda aqui com clareza), se não tivesse necessidade de se posicionar socialmente. era exatamente o que pensava. e os pensamentos dela apressavam-se e, logo que ela descuidasse, tentavam tomar a forma de seus braços. e pernas. e queixo. e quinas. e emergia de sua pele, como outrora, entupindo os poros, a racionalidade.
só precisaria de dois minutos, e tudo aquilo estaria acabado.
ah, seus cabarés.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

C

ela puxava minhas palpebras como pequenas cortinas, de modo a não me deixar pregar os olhos jamais. ela me gostava viva, pulsante. ela me puxava em seguida com força prestante e indecorosidade de serviço inacabado. aquela urgência de corpo com corpo. dente com dente. e a imagem que me vem à cabeça? ela, a me amar com os dentes. ela fazia um movimento circular com o pulso, como se insistisse em um instante e hesitasse no outro.

mordia minha mão inteira e então sorria, com aqueles olhos pequenos e fundos. olhos de um desejo subalterno e silencioso. seu olhar era o olhar mais adjetivado que conhecia. tudo estava contido nos olhos dela, como um céu, nos dias de tempestade. parte de mim transbordava em certas linhas de tempos em tempos e nada me interessaria, a não ser a eterna preocupação em relação a seu comportamento de dependência.




não mais breve do que previ, deixei-a. sentada, cansada. e deixei que repetisse os mesmos verbetes que lhe disse quando devastei meu gostar declarado por ela. achei que poderia comentar sobre sensações menos propícias do que esta, mas esta é a única sensação de que me lembro. tentava evitar fazer uma comparação literária, entretanto, não tinha outra possibilidade para defini-la. ela também tinha olhos de ressaca, machado. agora sim entendo o que eram e o que fizeram comigo. era mesmo uma ameaça. ela me puxaria, me tragaria, me arrastaria para dentro dela, INEVITAVELMENTE.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

escassez

viver tudo de novo.
silêncio, gostar calado.
cegueira.
arrogância.

eu não vou conseguir. eu não vou conseguir. eu não vou conseguir. abrir mão outra vez? eu não vou conseguir. eu já passei do limite. do extremo. do possível. do humano. do carnal. QUANDO É QUE VOCÊ VAI ESTAR COMIGO? eu não quero ajuda ou salvação. terapia. choque. pena. briga. bronca. descaso.

(caso ou não caso?)

eu já morri afogada nessa agonia constante, nesse estado de guerra perene dentro de mim. e essa batalha não é lá fora: esse lixo é meu.

ela é oitenta, vocês são oito. e eu sou puxada com força de um lado para o outro.
esticando, deformando.
esticando, deformando.
esticando, deformando.
esticando, esticando, ESTICANDO.
e deformando outra vez.

-DEFORMAR v. tr, do lat. deformare: alterar forma de; desfigurar; tornar desforme.

meu espelho não reflete nada. não vejo. não me exergo um palmo diante do nariz: eu não me encaixo em nada. não pertenço a lugar nenhum porque tudo me encomoda e me inquieta. minha avaliação não me permite nada. AH, MALDITA FELICIDADE COMPRADA, DESONESTA.

-DESONESTO fem. sing de desonesto. adj,: impudico; devasso, indigno.

felicidade bilateral, daí sua impertinência. sua incompetência. sua carência de tudo - dificil dizer-se plena em que consiga estabelecer-se de fato. esse lixo não é meu.



escassez em relação a necessidades crescentes.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

nervos e torradas com geléia

minha paixão por tornados.
será necessário decretar o óbvio?
eu acho que vou fechar.
-essa mania de poetizar tudo.
não me venha com grosseria, caso contrario, sairei.
não me venha com grosseria, caso contrario, sairei de novo.
e sairei outra vez.
sairei quantas vezes forem necessárias.
como diz:
a porta da rua é serventia da casa.

passei um copo d'água.
e um outro de nada.

money must be funny

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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

diagnóstico de cor, e de corpo

acho que morri, não sei. pedi óbito de mim.

e não. não está nada claro: o diferente acanha.
eu poderia arranhar todo o rosto e me mostrar para o mundo que você diz rosa. engraçado, sequer rosas são rosas. a conclusão que se chega é a seguinte: mentira. quem vende aceita vender mais? parece lógico que todo mundo vai preferir um computador a uma máquina de escrever? o diferente acanha. eu poderia agora arrancar meu rosto e me jogar no mundo só corpo. eu não consigo me concentrar. nem digerir. nem ingerir nada. não almoço há dias. tudo me embrulha o estômago. e me enjôa. e enjôa. e me vomita. eu mesma me vomito e me regogito nas próprias mãos, escorrendo pelos dedos, nojento e sujo, feito areia, nojento e sujo.

você desiste de um pelo outro? eu faria uso indiscrimidado do sexo, recreativo. mas os beijos sei que vão me pinicar. sei que a lingua terá espinhos e os dentes, crateras. que os lábios formarão pequenas giletes. as vertebras serão espadas. e as espadas, as armas, pétalas.

diz-se.
precisaria se ajustar.
(mas é totalmente desajustada)

diz.
meu juízo é uma aparência, entenda.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

não me vejo

eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar entender as explicações que lhe ofereço em troca do que se perdeu. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar resolver os cálculos que lhe propus em troca do que se gostou. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar subornar uma amiga que lhe ofereço em troca do que se comportou mal. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar aplaudir a idéia que lhe ofereço em troca do que se rompeu. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar abraçar os braços que lhe recusei em troca do que conquistei. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar estorquir a loucura que lhe oferço em troca do que lhe neguei. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar não lidar com a bebida que lhe ofereço em troca do veneno que lhe doei. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar impedir o não-beijo que lhe ofereço em troca do beijo que lhe dei. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar segurar o segundo que lhe ofereço em troca dos meses que lhe arranquei. eu o vejo. ele de costas para mim, a tentar justificar a frase que lhe ofereço em troca do silêncio que se propagou. eu o vejo. ele de costas para mim. não me vejo; não o invejo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

alternância

não escrevo há 4 dias, seis horas e 3/4 de minutos. tenho tido um silêncio constante em relação ao que digo - ou pelo menos ao que tento dizer. em gestos, um coro me manda calar a boca; e que boca? saudades. respiro com pressa do instante seguinte, como se precisasse do instante seguinte mais do que qualquer outro que pudesse decorrer após este. reclamo.

estava achando pequeno e barato, mas na realidade era só um contrato breve de trabalho. eu achei que poderia tê-la consebido sob um novo ponto de pespectiva, mas, não. outra vez, não. estão enrolando por algum motivo. eu, há pouco, comentei que o estado das coisas deveria ser reavaliado. e de fato foi, entenda novamente. todas as 3 coisas que criei fazem parte de um novo círculo. ou de um pequeno cubículo de mentes. inflamo.

recebi uma carta de prestação de contas, como um banco de débitos apenas. descontaram 15 e agora mais 7. estranho, sou só uma. pensei ter guardado as notas no bolso, e os bolsos na calça. as calças no armário e o armário no quartinho dos fundos: lugar que não mexo nunca. mas, pelo jeito não. outra vez, não. reclamo.

então nota-se um padrão. uma construção que tenta fechar um novo estilo. e que tenta se estabelecer ou ao menos embelezar. eu achei que era uma pessoa importante, premiada. sabe, dessas que passam na rua, e os outros 6 sentados no bar reconhecem e chamam pelo nome - ou pelo sobrenome. uma besteira. eu queria ser reconhecida por bêbados de grandes teorias socias. inflamo.

repito uma idéia como uma martelada constante. ou como água que ferve. ferve. ferve. e continua a ferver até atingir o máximo. e então some. some. some. evapora, até deixar de existir. breve, reclamo.

e volto a inflamar.

sinceramente? não sei.

- isso é seu?
- é. mas, sei lá. é dificil saber o que nos pertence realmente.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

a casa na árvore

aquele era um ambiente impróprio. será que você ainda se lembra dos pequenos papéis brancos que eu deixei em cima da mesa? aqueles papéis da separação que eu mesma escrevi e fiz questão de entregá-los a você naquela quinta-feira, como se não pudesse deixar passar sequer mais um dia? e não poderia mesmo. as estruturas, as sentenças: foi isso que eu achei estranho. a maioria havia sido inserida: não pertencia, dessa forma, gostar aquilo que contruímos juntos. mas entenda, você, que essa noite não vem de encontro ao único pedido de desculpas que me propôs. eu aprendi que isso me fez bem e que isso, sobre você, não se entendeu nada. nem subentendeu, foi você quem entendeu tudo errado. você guardou o que deveria ter perdido; e o perdido? agora já está guardado, assim como os vasos. os talhos. os talheres. as telas. as tintas e as tentativas seguidas de choro. tudo em caixas de raia pequena, como também a mostra de uma pequena organização de despedida. nossa segregação foi escrita à mão, em um guardanapo.

agora você sente o impacto?
nossa cidade mudou muito.
você pode até criar um costume, mas não é perfil.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

sua morte, sua vingança

pois que tentou, mas foi em vão. qualquer tentativa, que não a de tirar-lhe os talheres da mão, lhe pareceu em vão. subiu as escadas depressa, com uma urgência efêmera de médico. suava pela vertebras: a futura mulher de sua vida, ali esticada, quase que sem vida. fuçou nos remédios e nada. nenhum curativo digno. apenas aquelas centenas de potes de anti-depressivos que ela tomava pouco antes de ir dormir, seguidos de um copo de leite gelado. como ela pôde esconder tanto assim? como pôde dissimular tanto? como mudar tanto os móveis de lugar, fingindo um incômodo que não existia? poderia, ao invés de prestar-lhe socorro, engolir um copo de seu corpo; de seus fluídos, já retos e sem risos. bateu com força a porta do gabinete: tudo aquilo era uma mentira, uma fantasia. ela se contorcia sobre o tapete, como se reagisse a uma decência que não tinha. esperava ansiosa pelo momento do bote, como se fosse um animal a resguardar-se. puxaria tudo para perto de si: o ambiente haveria de lhe pertencer no instante do ataque. perguntou-lhe:

- o que você está fazendo?
- estou morrendo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

tudo

o primeiro passo seria estabelecer metas, mas, ah, planos do futuro financeiro são muito chatos. dessa forma, juntei os trocados sobre a mesinha da sala e elevei meu orçamento. nenhuma planilha, assumo. porém, junto aos dois copos de vinho que também estavam ali, socorri um último pensamento e o puxei para perto de mim, fingindo abrigá-lo de toda intenção que poderia vir a distorcê-lo. não tinha mais tempo, nem nada. nenhum consolo em relação a uma intenção decorrente de tristezas anteriores. tudo já havia passado por nós e por quem havíamos sido um dia.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Mr. Cook

O café custava 50 cents, meu bem. Coisa chic, de primeira. Minha descendência européia barata adora estas cafeterias que se parecem com bares antigos. Entenda, contudo, que antigo não se refere aqui a algo requintado. Refere-se ao tradicional; e o tradicional, a algo completamente não entusiástico - ou não para a maioria pelo menos. Considero maioria qualquer outro comigo. Tentei sair dali, mas não tive coragem sufuciente. Os outros poucos jovens que também frequentavam o Mr. Cook eram ainda mais urbanos do que eu. Sei que parece bobagem, mas eles paravam para comer a esfiha de carne fechada e tomar coca-cola light com gelo e limão. Muito catichupi, ou katchup para os mais integrados com o idioma do mundo, e um pouco mais de quinze anos dentro das mochilas de lona nos ombros. Talvez esteja ficando velha sem perceber. Ou alguns, poucos como eu, já nasceram com oitenta e três anos nas costas. E com esses constumes de quem já viveu tudo. Eu não assisti à Copa de 70, nem as anteriores. Eu só pedi um café e acendi um cigarro: black de menta.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

você é quem deveria ter vergonha

eu tenho vontade de matá-la. tirar-lhe o couro. acabar com a raça. e então embrulhar tudo, como um presente ingrato que se aprensenta sozinho. você me colocou contra a parede, existindo e exigindo de mim a verdade que estava a me desnortear. adivinha? você me espremeu tanto, TANTO, que conseguiu o que queria. e agora? ah, agora você quer renunciar. você sequer sustenta sua própria expectativa contra-decepção. você tende a estar sempre certa, errada? não. você tende a julgar cedo. a contemplar pouco. a falar demais e sem parar. você tende a recitar intermináveis monólogos de boa conduta e de respeito enquanto separa as esfihas no armário: filho de pedreiro não come esfiha de queijo coalho. contraditório e que merda, não é mesmo?

você é quem deveria ter vergonha.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

quarta ela me deu um buquê

quarta ela me deu um buquê.
-tadinho do buquê, todo esmagando dentro da minha mala.

notas | 4

queria que ele tivesse morrido.
viúva é mulher bem vista.

meu primeiro dia

então pára breve e curto. puxa as mangas do agasalho imundo e tira a franja fina do rosto - há ainda quem a prefira sem. retoma o pensamento anterior, como se fizesse um gancho. ou uma pequena alça com o que passou faz pouco tempo. não tem, não mandou qualquer coisa. pensou em checar outra vez, mas desistiu. e não porque a considerava fora dos padrões, mas porque justamente seus padrões mais básicos não eram de fácil acesso ou entendimento. é uma idéia muito antiga, na verdade, os saldos do comportamento. pensou em alguns questionamentos outra vez. por vez, não sabe porque não lhe deram a oportunidade de saber: ah, vítimas da maldita oportunidade. não teve a chance de descobrir, pois que estava a se esconder o tempo inteiro. o sorteio foi feito antes. as amantes se formaram antes que pudesse, sequer, tomar forma. não pode tudo em uma mesma vida - precisaria de pelo menos uma meia dúzia. ou dez.

inicialmente, o que deve ser feito? pensa estar a andar em cículos. pensa estar a perseguir os próprios rastros que deixa. os próprios restos. as próprias sobras que deixa pelo caminho. na

outra, talvez, passará. com sorte também ultrapassará seu máximo, sua idéia de felicidade plena. ela queria dirigir cidades especiais.

e você?
ah, você quer os restos? você quer aquilo que ninguém quer pelo simples fato de se auto intitular resto? BOBAGEM. bobagem completa. bobagem completa de um status que não posso comportar. assim, não me comporto. nenhum dia mais será preciso. este primeiro me basta por hoje. então, perdoem o atraso de minhas idéias hoje. mas somente hoje.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

desconhecida mulher

tomemos nota:

pois que me surpreende que isso ainda me ocorra, vez e outra. por que todas as vezes que insisti na diferença, obtive sucesso? é impossivel, percebo agora, que idéias iguais se sobreponham. diga seu método e o descreva com detalhes, - solicito. a obsessão é um jogo para jovens. assim, desconhecida mulher, eu já nasci dessa forma, com cento e dois anos nas costas. com oito dias por semana. treze horas por dia. poucos dias por mês e nenhum ano novo a me contemplar. eu achei que poderia pagar a conta, abraçar a causa, arcar com as conseqüências. mas, não. essa vida é só uma fantasia. um prévio ensaio de qualquer coisa. uma atrocidade, um mistério do "arco da velha". eu, sinceramente, acho que diz a verdade - todavia, não consigo confiar com plenitude ou sossego. ela prometeu sua fidelidade - não a mim, entenda, mas às promessas que fizemos enquanto sentadas sobre o tapete da sala. deveria esperar sua presença? estava a deduzir que ela estaria desaparecida, deconhecida.

domingo, 10 de agosto de 2008

pela sensação de poder algo

é como se você tivesse que repassar o que é verdadeiro e o que não é. às vezes não dá mesmo para prever qualquer futuro - ainda que fizesse planos, seria impossível evitar furos, ou mesmo rompimentos breves. e NÃO, não são as situações: são as pessoas. pessoas que magoam pessoas - e, claro, essa insuportável mania de querer ser feliz o tempo todo.


eu queria ser um velho gordo, pronto para morrer. eu queria ser uma avó que não descasou nunca, ou então uma velha que casou sete vezes e ainda tem pique para ir ao supermercado para comprar vidros de pêssegos em calda. é, eu sempre odiei doces de compota. para falar a verdade, nem de chocolate eu gosto muito. eu gosto é de cerveja e cigarro. eu gosto da companhia dela, durante a semana. gosto da sua ausência aos domingos. e da sua incessante marcação aos sábados. eu gosto do cheiro do seu cabelo. do formato das suas mãos. da construção das suas palavras. não tem como, eu sou passional demais e o fato de estar com alguém exclui automaticamente qualquer outra pessoa. eu achei que minha paciência havia mudado, mas não. eu ainda vou me incomodar muito.

constato, assim, que a última hora é a que demora mais para passar, pois que carrega com ela toda aquela expectativa do final. e as pessoas gostam de se sentir próximas uma das outras - sabe, uma espécie de linha funcional que conduz as relações.

eu sempre sei que vou sentir muito quando falar com ela. eu sei que vou vazar litros de mim. é, deve ser isso. eu queria, por vez e outra, recomeçar, passo a passo. eu deito na minha cama e dali a cinco minutos ela já vem me perturbar. adivinha tudo como sempre tenta adivinhar. e eu tento ser uma mulher fina, mas não dá: sou tão criança quanto fui um dia. é, acho que deveria poder sair por aí falando verdade, todavia, devo conter-me apesar, ainda, da vontade que me toma e que insite para que eu o faça. não se trata apenas de não fazer. isso não ter nada a ver com não fazer. é, você simplesmente sabe quando estão falando de você. porque você para como um animal e resguarda-se. um animal forte, mas de cabeça grande e burra.

às vezes não consigo me sentir funcional - é, não vai dar certo. você acha que pode sentir quando estão se aproximando, mas a verdade é que não pode. então qualquer tentativa, que não a de tirá-la do pensamento, passa a lhe parecer estúpida e em vão. poderia combinar passeios, mas não. à meia noite devo estar em casa. eu durmo sempre acordada. outra vez, o animal. e se eu chegar e ela chegar primeiro? ou e se ela chegar e, não me vendo, for embora? ah, que rude da minha parte idealizar assim, tão pequeno e contido. precisava de uma imagem para se reerguer. e então outra para que possa se estabelecer definitivamente. não tem mais modos, nem sonhos próprios. apenas um cartaz de seu filme favorito, como símbolo de suas memórias. ou um símbolo final de comoção de idéias, de abstração e de sussurros amorosos - não turbilhantes, apenas amorosos. poderia dizer então que nenhum rancor que sentisse seria forte o suficiente: às vezes a gente se bate mais que o necessário. de repente, eu até consiga finalizar um projeto, mas o tempo insiste em me desejar inteira e em me exigir atenção completa. não há pudor nos divinos momentos. essa gente não precisa de qualquer ensino.

e não, você não entendeu.

eu não lhe desejaria tudo, mas apenas o pouco que posso desejar: saúde. espero que esse soluço passe. que o tropeço passe. que a recruta passe, mas que não passe a agonia. o desespero. a trepidação do corpo sobre a cadeira em frente à mesa. eis algo que lhe impulsiona para frente. e joga. e revoga. mas não abandona jamais. eis que lhe corta as pernas: mas a cela jamais. eis que lhe dá suficiência. autonimia. dicotomia. PODER.

e não pelo poder, mas pela sensação de poder algo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

o arrepio

arrepiou-se.

tinha um bicho a vasculhar seu corpo. e este entrava pelas mãos e pelos rins. um corpo dentro do corpo ou uma nova contratação. poderia ter sido qualquer outro, mas não. rodeava as suas entranhas e dava um soco no coração, vez e outra.

falava enquanto soltava a fumaça:
eu te amo.
EU TE AMO.
(como se tentasse ainda tornar crível a mensagem)


subiu. subiu.













o ato de fumar lhe remtia algo poético.
decadente.







genial.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

notas | 3

sua principal personagem não passava de uma imitação de sua vida.
e que merda de vida para se imitar, não?

eu, ciúme

não tinha ciúmes, porque já era FEITA de ciúmes. morreria caso a visse com outra nos braços, nas pernas ou no rosto. as brincadeiras eram apenas uma forma de se distrair, de se defender de terceiras; uma vez que qualquer fraqueza ainda lhe causa inflexibilidade. trava seu corpo e faz seus ossos baterem, uns contra os outros. poderia se contorcer inteira, estralar inteira que, ainda assim, não teria sequer uma única solução que pudesse justificar o quanto realmente a gostava. mas hoje, em particular, não sente aquela empolgação em suas palavras. não sabe, não sente. talvez seu máximo estivesse exposto, posto como um tijolo velho perante seus pés, exigindo qualquer prévia confusão. talvez já tivessem esticado tudo o que poderiam ser porque já haviam, mesmo, sido. algumas histórias não pussuem pontos finais, apenas pausas para café. e então continuação da leitura. e a releitura. releitura. e o mesmo rodeio de idéias e de sentimentos fracassados. sabe-se lá o por quê, mas também nunca chegou a esquecê-la como um todo. o desejo que tem seus objetos ausentes não termina nunca mesmo. novamente ninguém perdoa os delirios de um grande amor, ou de uma paixão desvairada. talvez estivesse a se afobar demais. ou talvez ainda não tenha tido tempo para o tempo que precisa: o tempo que ela havia lhe prometido recua para longe. aqueles meses, noites. aquela tarde e aqueles dois anos. aquela vida inteira pela frente. é, ela havia lhe prometido tudo aquilo.

não entende e também não quer depender dela. ela jamais dependeria. tem medo. resguarda-se. então guarda no bolso os planos que fizeram, como se fossem doces de festa que se leva para comer mais tarde. talvez seja cedo para as coisas que não se faz com freqüência. ou talvez seja apenas uma falta de inspiração momentânea. qualquer história não justificável.

bate no peito, exigindo respeito. postura de si. como poderia se deixar levar assim tão fácil? achou que as melhores coisas da vida não fossem simples de se descrever, contudo, estava enganada. era horrível. e era tão tremendamente horrível que lhe subia um gosto de azedo pela garganta toda hora que tentava dar inicio à prosa. não havia, de fato, qualquer prova contra seu corpo. pensou que poderia tratar da tragédia como um incidente, mas prefere não comentar. só volta a dar voltas nas mesmas palavras, como que animais já mortos e secos. seus lápis são como pequenos gravetos de grafite. suas folhas são como panos de chão. e seu chão, um chão sem teto. sem nada que proteja ou que acolha. apenas um tapete velho de memórias que são retalhos. apenas um punhado de tampas de cervejas jogado no canto, como poeira mal varrida.



queria sumir desse mundo agora, ah, a leve com você, ciúme. e então a tire daqui, a arranque dessa casa. dessa cama. desse beco sem saída. desse cárcere amoroso. dessas vidas que estancam seu corpo. não quer ser a decepção de ninguém, a não ser a dela mesma. que tosco.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

tranqueira

acho que deveria pensar em recuar seu nome, tirá-lo de cena mesmo. os prazos estão ficando apertados de novo e as interferências são construídas para se desmontar. aliás, o projeto anterior já chegou a ser considerado o melhor de todos, mas agora, contudo, apenas está a me tirar o sono. é, eu tenho a impressão que está mais leve. um desfalque nessa tranqueira.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

segunda, dia de reencontros

assim, coloque de lado os velhos livros que está a tentar ler nos últimos dias, e recomece tudo. TUDO. entregue qualquer documento. qualquer pouco que você consiga. hoje, menos de uma flor já basta: você nem me passa pela cabeça. não entendo essa mania de maria sempre casar com joão. é hoje o dia pelo qual tenho esperado tanto. segunda, dia de reencontros. estou a preparar a barriga para bebidas e, com sorte, nenhuma briga farta. eu, ela, e a vida inteira pela frente. os planos, enfim, de volta. estou na rua, mas assim que chegar ao local, eu compro. eu até fui ver preços e modelos; apesar de antes desejar um acordo prévio: não quero decidir sozinha. comece a trabalhar para ver os retornos. segunda, dia de reencontros. tanto que a dor de garganta tampa qualquer canto ou ruído. em nenhum momento cite professores. culpa nossa: ah, delícia de culpa nossa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

enfim, um fim.

e é óbvio que queria mesmo ouvir tudo aquilo; afinal, por quem mais esperaria dezoito meses seguidos? por quem mais suportaria olhar para frente e ver a pessoa que gosta com outra pessoa? simples, por ninguém mais. por ninguém mais no mundo faria o que fez por ela - ficar em silêncio. ficar quieta como se visse nada e fosse, ainda, metade da pessoa que jurou que seria um dia. suas palavras jamais foram boas o suficiente, essa era a verdade. jamais! jamais haviam sido boas. e ela estava convencida disso; estava finalmente convencida que que a gostava, agora, sem ironias. sem rodeios. sem mentiras ou falsas previsões. não conseguia mais suportar sozinha, pois tudo pesava em suas costas. suas decisões pesavam. seus erros pesavam. seus dilemas pesavam. então, pela primeira vez em muito tempo, soube que ela seria seu próprio sol, mais até do que sua própria cura; e que com ela não seria preciso fingir ser outra pessoa, pois ela não tentaria não mentir, ela simplesmente não mentiria. não mais entalaria em sua garganta ou lhe causaria falta de ar. ou irritação. ou sono. ou ressonância. não mais dormiria; apenas passaria o resto de seus dias olhando para a mesma fotografia, na qual ela ainda sorria, franzindo o canto dos olhos. diabos, tem sido cega desde sempre! desculpe-a garota, pois foi você quem esteve o tempo aqui por perto. dê-lhe uma última chance de contar a mesma história de novo, de descrever as mesmas cenas, de matar as mesmas personagens. todas as coisas que deveria ter dito ainda estão aqui. estão intactas. estão presas a seu próprio medo. a sua cautela. a seu ego. a seu orgulho distorcido e - por sorte - ainda não jogado no lixo. e está preso a sua falta de jeito com tudo que está a sua volta, pois passara tanto tempo escrevendo que praticamente não tivera experiências. apenas percebe-se agora que está feliz - insuportavelmente feliz por não ter chegado ao fim da história que imaginou e, assim, não ser a contradição que sempre achou que seria. então aguente. aguente firme porque ela virá buscá-la, e irá colocá-la sentada no carro novo que ganhou - no carro em que vc entrará com convicção; apenas com certeza e mais nada. apenas isso. apenas a idéia fixa de que quer aquilo. quer estar ali. quer o vento gelado no rosto - e então quer a expressão congelada no rosto como numa fotografia; como naquelas centenas de fotografias que nunca chegaram a tirar, sabe-se lá porquê.
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09/dez/07

quinta-feira, 31 de julho de 2008

explicação

e não que exigir demais seja ruim: a utopia nos faz caminhar.
onde será que eu arrumei essa sujeira?
estou a maquinar sobre erratas, e sobre errados.
não sobre situações que induzem, propriamente, ao erro.
mas, sobre o erro, em si.

comuniquemos.

agora fez-se problema

não, exigirei demais de você. nem mesmo qualquer coisa. você é pequena demais para que se possa pedir algo, agora eu sei. e eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta que hoje eu me gosto muito mais*. hoje todo o meu sacrifício de uma vida INTEIRA está sendo colocado a prova.


então saí de casa, a pretexto de não voltar mais: se ficar, eu enlouqueço. eu enloquecerei em mim, depois de você, INEVITAVELMENTE. eu repito as conversas que tivemos e não encontro sequer um momento específico que justifique essa ausência. romper com um comprometimento não é apenas romper, é tornar desinteressante. eu achei que minha vantagem era ter conseguido olhar para você sem que meus olhos se fixassem. mas não, eu estava enganada. você fez com que eu me apaixonasse por você, e agora, ah, agora você quer ir embora. e você vai de um extremo a outro, de um dia para o outro, me deixando no meio, me deixando ser puxada por você e para as direções contrárias para as quais você corre. acho que não obtive respostas, nem qualquer tipo de reação: eu temo acabar em pedaços pelo seu caminho. eu apenas me desloquei rapidamente, tentando acompanhar ser ritmo. eu disse que lhe gostava também. eu quase morri de preocupação naquela noite em que você me ligou e sua voz mal saía, eu mal conseguia ouvir você, porque seus bronquios não estavam suficientemente dilatados. eu não dormi, preocupada. e acordei no dia seguinte, com você dizendo que a minha voz lhe acalmava. mas que calma, que nada. essa mentira não vale a pena.

eu queria de volta os planos que fizemos.
os dias que passaram.
proximidade: AGORA FEZ-SE PROBLEMA.

doer depois

vomitei as vezes que disse que me gostava.
todas as vezes que INSISTIU que me gostava:
é, eu vomitei todas elas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

vinte anos velha

seria uma piada;
um motivo de chacota - chacota:
tal palavra lhe cheira naftalina.

e então, dentro dela, certa desobediência emocional.

a outra

então eu me contorci na cama por três horas que demoraram dois dias para passar. novamente, alguns momentos têm mesmo se arrastado. e eu me sinto sem saco para nada, nem paciência, nem qualquer urgência em relação a decisão prolongada dela. é, ela é mesmo indecisa demais. e não que o nosso segmento de afeto não tenha valido nada até aqui, porque de fato não creio nisso. apenas considero, no momento, que sua nobre confissão não tem qualquer valor. a sinceridade é uma merda: a ilusão protege dos riscos ácidos da paixão, assim, prefiro-a incondicionalmente. não tenho posição para deitar e dormir. não me ajeito. a outra parece pinicar meu corpo, cutucar meus ombros, puxar meus travesseiros durante um ato rápido e travesso. eu sinto meu avesso se sobrepor a mim. e não que seja incapaz de admitir ciúme, mas não colocá-lo de forma óbvia me resguarda. a unica forma de não ser louca é não admitindo, assim, a própria loucura a partir da qual me componho. e reponho. e sonho alto. ah, sonhos. eu sonhava, mas e daí? os sonhos não embelezam mesmo, não é?

passo uma das pernas por debaixo da outra. e repasso. e novamente o impasse de sempre, mas essa noite, em particular, seu corpo não me faz companhia. não sinto sua presença, nem sua respiração. nem mesmo o chão do quarto, antes com suas roupas e óculos jogados com confetes de carnaval. nem festa, nem nada. apenas o silêncio de uma noite que não passa. de uma noite que não tem por onde passar, uma vez que seus caminhos já estão de cheios do corpo da outra - não, isso não é um elogio. noutra posição, quem sabe, qualquer intenção de dormir. de pegar o sono e abraçá-lo forte, como ela costumava me abraçar, de forma a não de deixar sair jamais. teimo dizer-lhe: não diga que me ama - você nem sabe o que isso significa. o amor não é pendende, nem dubiativo. o amor é uma impertinência excessiva. não me ame caso pretenda deixar-me. amar não é saudavél.

já passava da meia noite quando me dei conta do ocorrido: hoje estamos a celebrar sete dias. uma semana: sete vezes seguidas de ligações e pendências. às vezes não preciso sequer propor brigas: o destino propoe brigas por nós. é, meu anjo, não tenho tempo para julgar seus extremos como gostaria. eu vivo a fazer emendas com os minutos que me sobram. dedicaria minha vida à você, caso dedicasse até suas dúvidas a mim também. outra vez, metade de você não me serve. e que merda, achei que não passaríamos de novo por isso. mesmo depois de sentar e lhe explicar os densos riscos da poesia, ainda insisto em tratá-la como uma de minhas personagens. digo-lhe frases poéticas em meio a nada ou a qualquer situação.

eu me confundo comigo.
não sei, não consigo.

ainda que tentasse me colocar plenamente sou pequena para essse espaço que me pede. então eu mesma penso em lhe conceder esse espaço, essa distância de pensamento entre nós. ainda que longe, ela parece estar a me rodear o tempo todo. sabe exatamente o que faço, adivinha minhas frases e a forma como mexo no café, enquanto concordo com suas dúvidas. ela sabe a hora que eu quero acordar, que saio para trabalhar. sabe a hora que não trabalho durante o expediente, ainda que sequer tenha pausa para almoço ou lanche. sinto que me conhece sem saber quem sou realmente. assim como em relação a ela, qualquer conceito sobre mim é precipitado. é extremo. é demais. é pesado demais. e tudo se torna, automaticamente, perseguição de instante seguinte. o que se efetiva em um momento, reparte-se no outro. assim, não me ocorre outro desfecho senão este: tempo, ocasião própria. passemos adiante tal cordialidade.

terça-feira, 29 de julho de 2008

freqüência nehuma impede

é, disse para que chegasse aqui por volta das nove, mas desde as seis já estou acordada. nem sei direito o que farei lá, apenas estou a repassar o recado. não, não quero nem perguntar. mistérios também fazem parte de mim, mesmo que ainda tenha medo de confessá-los em meio a meu reflexo de cara e coragem. minha identidade é nula. não sei nem soletrar: não deveria ir. minha saúde não corresponde a mim. não sou boa nisso, nem em nada. não ofereço padrões, tampouco imponho minha pessoa a alguém. não me considero assim tão cheia de histórias ou de dicas sobre segurança no trabalho. isso é apenas uma forma básica de arrecadar dinheiro: que seja, não acho justo mesmo assim. o fato de acontecer o tempo todo não torna aceitável.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

simplesmente sabe | 3

pensei que talvez pudesse apenas continuar a fazer suposições sobre nosso futuro, agendando compromissos e festas em casa com jantares para amigos, mas não. achei que tudo era mesmo uma fantasia, um momento breve de êxtase. então eu me sentei na cama, e conversamos por horas, assim, os mesmos planejamentos, seguidos de alguns novos planos para uma vida que não exigirá demais. ela disse que eu era exigente: pois que sou mesmo. teremos um cachorro pequeno, daqueles que parecem ser filhotes para sempre - algumas coisas que se conservam intactas podem se tornar boas com o tempo. e teremos um apartamento grande, mas não enorme: ainda estamos em dúvida quanto ao número exato de quartos. faremos economias, desligando a luz sempre que trocarmos de cômodo. eu lhe disse que poderíamos também começar em um lugar menor, e decorá-lo com o tempo. ela gosta de revistas de arquitetura e decoração de interiores, disse que trataria isso como hobby. eu disse que eu poderia ficar com a casa, ou fazendo compras - mas não sei quanto a isso. não consigo ficar quieta muito tempo, tampouco me dedicar exclusivamente a uma atividade. vou precisar trabalhar também: tudo bem, trabalharemos nisso com o tempo. ainda temos que considerar o resto das contas. água, luz, energia. o gás é por conta do prédio e, quanto a TV a cabo, puxaremos um gato do vizinho, bem como a internet.

outra vez, eu a imagino. vejo seu corpo chegando cansado depois de uma dia comprido de trabalho. escuto o barulho das chaves do carro a trepidar na mesinha: ela finalmente está em casa. ela ascende o abajur ali perto, e coloca a bolsa na cadeira, próximo ainda a entrada da sala. ela sempre repete passos. do quarto, escuto com clareza seu movimento. eu não preciso sequer vê-la: eu já sei exatamente onde ela está. enquanto ela passa pelo corredor, o filhote faz festa para ela. os latidos finos e amorosos se aproximam conforme ela se aproxima da porta também. então, já próximo a entrada, ela o pega no colo com uma mão apenas e faz um carinho em sua cabeça. diz que há horas não via a hora de voltar para casa. eu, sentada na cama, de pijama e óculos, separo as faturas do nosso cartão - gastamos, mas não gastamos demais. ela me olha, agora já dentro do quarto, e afasta os papéis da minha frente. coloca o filhote no chão: minha vez de ficar com ela, e sorri para mim. sei que ela chega normalmente às nove, então já estou contente desde às oito. ela tira o terninho preto - suponho que teve alguma reunião importante, pois ela sempre o usa em dia de fechamento de contratos ou de grandes oportunidades - e se senta ao meu lado, de modo a deformar um pouco a beirada da cama. pergunta como estou, já segurando meu rosto, como se desaparecesse tudo. ela me beija e então me deixa solta. abraça meu corpo forte contra o dela logo em seguida, como se pudesse me deixar partir em um instante e, no outro, não me soltar jamais. ficamos assim por meia dúzia de segundos, até que ela me afasta um pouco de seu rosto e diz que me ama muito. fazemos aquele momento de silêncio convencional que acontece sempre depois das declarações de afeto, e então eu digo que a amo também. o filhote faz festa e solta um grito agudo, como se pedisse atenção também. ela sorri para mim outra vez, abaixa para pegá-lo e o coloca na cama, ao meu lado. aconselha que ele se comporte: vou tomar banho, e já volto. eu balanço a cabeça, de forma a concordar. ela me beija outra vez, e vai até o pequeno closet que temos, pegar a calça velha com a qual dorme sempre. eu a espero voltar para dormimos, e ela sabe disso.