quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

As estações | À liquidez do verão

"alice in waterland" (by elena kalis | elenakalisphoto.com)

PRIMEIRA PARTE
o calor é a forma de vivacidade da expressão

Os dias seguem quentes e úmidos. Tudo brilha na refração da luz que penetra nas gotículas de suor sobre a pele. Um pouco mais para baixo, cada fibra de cada músculo também transpira. Tem sido dias de pouco sexo. O ultimo ardido contato que meu corpo fez com qualquer outro foi numa noite de baixa temperatura, há uns seis meses atrás. Esta estação parece um holocausto a me condenar.

Que quentura improvável me provém esta primavera fora de época! Tenho receio até de minha própria indignação em relação a isso, mas sei que, de fato, detesto este clima. Meu corpo permanece deitado no quarto, no piso frio, como um bicho impotente perante o cansaço.

É a vigésima oitava lata de cerveja, apenas nesta semana.  Contei cada uma delas nos intervalos de minha inerte falta do que fazer sob a qual cada vértebra do meu corpo se curva e se estica de novo sobre as lajotas de granito de chão.

Há tempos atrás teria visto isso com tamanha poesia que meu estômago, caso este pensamento me ocorresse hoje, vomitaria imediatamente. Não que o tempo trate de rudimentar, mas mostra uma sabedoria que há vertentes poéticas da juventude que são belas aos olhos rasos, nunca aos olhos nus de quem verdadeiramente se despe.

Uma brisa sem energia cruza o corredor entre a janela e a porta. Ela dura ou parece durar muito mais do que seria para se desejar. Seu zumbido fino é como um adágio aos meus ouvidos. Em uma ópera mental, delirante, meu corpo continua a por-se do avesso. Despejarei toda minha liquidez até a ultima gota? Minhas costas tomam a forma dos rejuntes. Eu, sendo fluído, tomo foma do recipiente em que estou: este quarto não habitual e vazio.

A minha volta, vejo as obvias semelhanças deste local com um quarto de hotel. Lençóis brancos, moveis brancos, madeira clara. Acho que se um feixe de luz batesse aqui, duro e incisivo, suas incontáveis partículas se espalhariam deixando o rastro de uma parte do céu, de um paraíso isolado qualquer. Um mergulho em uma piscina de leite. Tudo branco e etéreo.

Esta pureza exerce sobre mim uma força patriarcal. A mão de um pai que preza pela inocência dos filhos. Se antes houvessem me avisado a respeito deste estado disforme de deleite, talvez tivesse prolongado a embriaguez de minha decisão em mudar-me para cá.

As vestimentas pousadas sobre o opaco branco das prateleiras, os papeis das contas pagas, os cadernos de linhas sem frase alguma: tudo aguarda uma prosperidade, um espaço maior nas entrelinhas deste texto ordinário que passa repetidamente em minha cabeça. 

Estou em branco ou a preencher-me, não sei. Sinto-me um boletim sem voto qualquer, um bilhete não sorteado, uma rifa sem prêmio. Acompanha-me, apenas, um brando soluçar de cadência própria. Meu coração ensaia os primeiros passos de dança a medida que o corpo sussurra o ar. O tom é grave.

Sinto falta.

Sinto os efeitos que minha própria digladiação me causou até aqui. Acho que não me movimentaria para esta cidade caso não fosse pela busca de cura de minha solidão. Nascida dos espaços vazios entre nós, não creio no destino como explicação a esta mudança. Não há objetivos essenciais àquele que está em estado de fuga. Todo fugitivo não passa de um desorientado.

Sinto uma fome que me volta sempre – ora acompanhada de um enjôo, ora a escavar um buraco bem ao centro de meu estômago. Este calor também me entristece. Gostaria de ter novamente sua voz ilustrando estes dias não favoráveis.

Cai sobre meus olhos um abatimento profundo. Ao final dos corredores da alma, eu permaneço deitada e em silêncio neste interior maciço. O cinzeiro tem dentro dele tanto quanto pode suportar. É um pouco como eu. Constantemente os fumantes fantasiam sobre nunca estarem sós.

Acho meu corpo tem criado raízes neste lugar. Pela extremidade de cada dedo, mãos e pés, fixam-se meus órgãos na planta deste solo arredio. Meu corpo absorve o ácido liquido sob a voz de minha sede. Toda raiz é uma solução aritmética inexata. Não há valor real ou complexo agora que me satisfaça. Se não há doçura nos vínculos, as coisas acabam.

Sou apartada. Um filho herege. Extravio-me. Minha respiração segue o ritmo do corredor exausto, um ultimo colocado. Todos seguem montados em seus cavalos de fino garbo, enquanto meus pés rastejam pelo itinerário de terra batida no qual se transformou o caminho tratado, outrora, com tanto esmero.

Tudo tornou-se um grande objeto afastado, cujos meus olhos já não alcançam mais. Eu afundo. Eu sou o observador dentro do olho da câmera que tenta buscar o sujeito do retrato para perto de si. Ao contrário, este movimento se desenrola como a ponta de um carretel infinito. Uma ação frívola dentro de um espaço de distância que apenas separa encontros.
 
Já não esgrimo com elegância, tampouco com sonoridade agradável. Eu também me defendo de sua ausência como posso. 


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A história do planeta solitário

um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se.
independentemente do tempo, lugar ou circunstância,
o fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir [*].

Interior, 15 de janeiro de 2014

A

Acho que a marcação de datas nos ajuda a contar histórias. Andei lendo sobre a origem do tempo, dos relógios e, porque não, de nossas próprias necessidades de viver sob estas raias que fatiam a vida. Descobri que os primeiros períodos demarcados foram conhecidos a partir da contagem do tempo que um planeta ou um cometa demorava para completar a sua revolução ou retornar a posição inicial. O regresso do planeta a posição em que estava significava que ele havia cumprido um ciclo determinado e que tinha passado por fases específicas que se repetiriam de maneira contínua. Cada fase possuía características únicas, assim como sabia-se que cada característica jamais aconteceria exatamente da mesma forma - embora aquele fosse um movimento de intervalo regular. A marcação do tempo era possível através desta observação, pois mostrava que todo corpo celeste girava em torno do próprio eixo ao mesmo tempo em que orbitava ao redor de algo muito maior e muito mais vasto do que ele mesmo – normalmente uma estrela que existia como fonte poderosa de energia e força. Recentemente, astrônomos descobriram um planeta flutuando sozinho no espaço fora do sistema solar e sem fazer parte da órbita de qualquer outra estrela. Deram a ele o nome de planeta solitário. Os responsáveis pela descoberta disseram que o corpo celeste tinha as mesmas características de um planeta jovem e que vagueava completamente só. No primeiro momento isso os abateu de certa melancolia, mas depois disseram que nunca haviam visto antes um objeto flutuar tão livremente no espaço. Concluiu-se que o céu também é feito de estrelas que imaginamos ao nosso redor.


Acho que é exatamente isso que desejo dizer a você hoje. Porque a invenção de marcar o tempo talvez seja a única coisa que garante e registra a sobrevivência de nossa espécie ao mesmo tempo em que nos dá a ideia de uma eficiência meio consoladora e meio ilusória às nossas pressas. Ao contrário do que se pensa, não é preciso ser mais rápido, mais eficiente, mais bonito, nem mais satisfatório. O tempo não é a salvação dos ocupados. É porque, na essência, os nossos sentimentos não precisam de tempo, eles precisam de notícias. Quero que você saiba que eu continuo perto de você e que eu sigo existindo e acreditando no ser humano amplo, complexo e absolutamente orgânico que você é - seja em estado de planeta flutuante, seja em plena cadência. Os poetas nascem nas horas em que todos desistem, mas pessoas como você talvez nasçam para ensinar aos que sofrem e lembrar a si mesmo que a urgência mais bonita é a viver sem prejuízo. Desejo que você mude se preciso, transforme quando necessário, converta-se, chore (sim, você precisa chorar!), e volte constantemente aos ideais do seu coração como um filho retorna aos braços da mãe, como eu talvez retornei a você sabendo que aquele era o mais próximo ao sentimento de “sentir-se em casa” que eu já conheci. Olho para você e a vejo com um espanto diferente toda vez, misturado a uma grande admiração. Vejo em você um exemplo. Não deixe nunca de saber que aqui deste lado fala alguém que a ama muito - e que torce pelas suas conquistas tanto ou mais até do que torce pelas próprias. Feliz aniversário.


Com amor
N.


[*] antiga lenda chinesa: "O fio vermelho do destino".

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta destinada ao limite

a fronteira está constantemente conosco | M. K.

Demanda-me a explicação se há limite entre a dimensão da poesia e a dimensão física. Porque se há, há maneiras de ultrapassar e transitar ali também. Por vezes, impede-se a si mesmo nesta linha de fogo, ora cruzado, ora brando demais, entre as voltas abissais dentro do hiato mais perplexo de cada frase, o alcance do limite da poesia talvez fosse o local exato onde termina a imaginação e verdadeiramente começa a possibilidade de perda. Perderia as estribeiras, a cabeça, a água lacrimal dos olhos se voltasse a pensar nesta condição tardia de entendimento que lhe abateu com veemência a expressão. 'O que você faz quando conhece alguém?', bom, esta pergunta continua a lhe açoitar a memória como uma ventania devasta um campo aberto - o campo onde os suricatos outrora ergueram-se. Pode uma mulher contar com infindáveis acasos em sua vida, mas deveras há o momento em que o acaso criado no labirinto de sua mente cessa e desperta a busca pelo interesse pr'além dos perímetros imaginários: seu desejo ganha cadência e se torna real, mas um sujeito tão real quanto um homem parado, um vendedor ambulante em sua porta (que triste seria quem deste mal não sofre!). E este cavalheiro a sua frente, por sua vez forte e vigoroso, entranha-se pela porta como se adentrasse as próprias paredes de um estômago e diz, perante seus olhos de plena fadiga, que não lhe concederá três desejos – mas que lhe convencerá, até a exaustão se preciso, de que o desejo inevitavelmente a ocupará em três dimensões. 

Teu desejo logo assumirá largura e peso. Assumirá cheiro. Aceitará toque (e tu deves predispor-te a isso). Dize-me, há algo mais a beira do limite do que tocar a superfície da pele do outro? Fortifica-te sobre a ideia de que o desejo não passa de uma alusão mental a intelectualidade de alguém, mas por qual razão, então, o contato tanto te importa? Haveria de bastar, tu não achas, as palavras simuladas ou mesmo audíveis, datilografadas – que fossem – que existem potencialmente mesmo que sem ação? Cai, pois, em teu próprio precipício de medo, e dá-te conta de que é preciso ver a forma como os lábios daquele alguém se portam ao dizer as palavras que te encantam a mente. Um flautista perante a serpente, é nisso que o desejo te torna - porque todo desejo é, antes de tudo um desejo de causar hipnose no outro. 

Não lhe apagará da mente sequer um segundo de história, mas se alicerçará com tanta certeza neste desejo que ainda há como uma cama no meio da praia de neve: cercada de realidade por todos os lados.

sábado, 4 de janeiro de 2014

o tempo como pedaço muito fino de algum alimento sólido

"toda dor é de coisas não cumpridas"
janeiro de 2014

notou que o tempo em fatias de drummond circulou bastante estes dias. talvez diante de sua incapacidade de dizer as palavras corretas, o uso póstumo da linguagem do poeta tenha caído como luva em suas mãos ansiosas. ao mesmo tempo que a troca do ultimo dígito do calendário a poderia ter enchido de esperança, de alguma forma, este abstrato voto de renovação que fez a si mesma não bastou. precisava comunicar-se - pois que comunicar-se era como estar em relação ainda e, em trânsito, pertencer ao instante do presente do outro. assim como o herdeiro modernista da poesia, a entrega dos versos chegaria a lhe atingir mesmo como uma prosa sem métrica, sem compromissos formais abrangendo a voz literária mais popular que existe: a da saudade. sem dúvida, aquelas estrofes mantinham a essência de um coeficiente de solidão que herdava agora o único elemento que resta das separações: a liberdade. as afirmações se acumulavam ao fim de cada frase. toda poesia, como todo relacionamento, tinha passado pelos três estágios inevitáveis de autoafirmação e crítica. tinha inciado-se irônico dentro do qual se inundava pela possibilidade de ser muito maior que o mundo; tornado-se social, quando o eu mais íntimo deu-se conta de que era demasiado pequeno e excessivamente diminuto diante do conjunto onde existia; e, por fim, concluído-se metafísico em que sua presença orgânica e espiritual passava a equiparar-se ao tamanho do universo em que a realidade tinha, enfim, um sentido e uma finalidade. o temor de seus dedos diminuía a medida que dava-se conta disso. o tempo cortado não alteraria nada. mas se o tempo estava divido em pequenas amostras ou se apenas poderia acometer os outros de seus constantes fenômenos, isso verdadeiramente lhe interessava. a nós importava, pensava, tão somente o tempo disponível do qual estivermos dispostos a viver apesar de sua irrefutável duração limitada. num mundo cujo o sentimento era de uma guerra perene, o tempo talvez fosse mesmo o verdadeiro subsídio do entusiasta, imaginava ela.

(...)