domingo, 4 de novembro de 2012

cartas marítimas | 8

fildsville, 11 de novembro de 2022.


maria paula,

caí, não sei dizer, se de do topo de uma montanha russa ou em um abismo. se minha garganta pudesse, garanto que ela me sufocaria agora mesmo. você já teve essa sensação? sinto o meu corpo impróprio, insuficiente - um lugar sem habitação que, além de me entristecer, está me causando acessos vergonhosos de choro. faz anos que não correm lágrimas de meus olhos, há tanto que já não me lembrava mais das gotas tomando as imperfeições que minha pele tem agora. quando o olho no espelho, meu rosto é como um terreno seco, onde correm entre as rachaduras estas lágrimas de hoje. fiz as malas e passei noites diversas fora de casa durante este mês, minha amiga. como uma viajante inconsequente ou apenas alma inquieta que tenho, a minha presença não se valeu apenas com o corpo. minha cabeça esteve perdida, enganada pela sensação de ter encontrado na possibilidade de um começo a valência de um todo conquistado. nunca deixei de sentir vontades esmagadoras por outra pessoa, mas eu não posso me valer apenas deste talento que acredito ter, não é mesmo? escrever é apenas uma diferença e não uma completude. sequer sei se o possuo verdadeiramente, a este ponto, se é que você quer saber! acho que tenho vivido à deriva da configuração de uma vida.

sabrina, em suas oscilantes partidas e chegadas deste ano, fez redobrar a força da minha mão sobre a consciência. é isso que acontece quando os sonhos saem do perímetro de nossos travesseiros? acho que você, talvez mais até do que eu, sabe que a idade exerce uma força pesada sobre nós. e quase esmagadora, faz sentir nossos ossos se esticarem para crescermos. nesse sentido, eu nunca estive em sincronia com a idade que desejei ter - e tampouco esteve sabrina. sem dúvida, temos essa odiosa semelhança em comum. sabrina, que esteve sempre um pouco a frente de seu tempo e também uma mulher constantemente fora de época, disse verdades massacrantes sobre mim. ouvi, como quem ouve quase torcendo as orelhas. acontece que pertenço, para além de minha negação, a ela. e justo agora que sua forma doce e violenta voltou para mim, cometi o engano de acreditar que já a conhecia. de que ela, por seu jeito que me parecia tão misteriosamente bela e tão familiar, me aliviou por ser uma figura reconhecivel no meio do mundo, e capaz de atiçar minha felicidade, aonde quer que ela existisse. mas eu apenas cometi este engano, querida, você acredita? o engano terrível achar que sabemos alguma coisa sobre outra pessoa... mesmo sobre ela, mesmo sobre alguém que nos acompanha na vida e no sonho, desde sempre. nunca tive a ilusão de que a intimidade fosse simples, não. a simplicidade é uma coisa leve e a monotonia é uma coisa pesada; sepadas por uma linha fina demais, e que diferencia pontualmente as pessoas comuns daquelas capazes de gritar. dói.

você acha que a gente simplesmente sabe
quando não é capaz de matar (mais) a fome de alguém?

não conformada,
ana.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

para setembro que já passou por nós também


quem falou de primavera sem ter visto teu sorriso,
falou sem saber o que era //////// cecília meireles



setembro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

liberdade na vida é ter amor pra se prender


o orgulho do poeta não é um orgulho banal. só o próprio poeta conhece o valor daquilo que escreve. os outros o compreenderão muito mais tarde ou talvez nunca o compreendam. o poeta tem, portanto, o dever de ser orgulhoso. se não fosse, trairia sua obra ///// milan kundera

nossa, meu amigo, agora eu te entendi.

P L A N O
concreto projeto
figurado acessível

PLANO. o plano geométrico, a medida exata, a providência ideal. plano: do trecho do filme sem interrupção. plano e liso. plano limitado fisicamente pelo olho da câmera dentro do enquadramento - mas plano infinitamente disposto a planar para além do que se vê. plano de fotogramas, plano ilusão de movimento. PLANO. o plano era esse? o plano era por o que estava parado para se mover? moveu-se, encontrou-se. noutro plano, talvez, talvez, noutro plano. o filme passa, as imagens correm. o tempo voa. o plano é simples e alguma coisa verdadeiramente se transformou no mundo.

disse - e muito bem disse - o milan kundera que só o artista sabe o valor daquilo que faz e que, de certa forma, tem mesmo o dever de ser orgulhoso. verdade. mas acho que cabe aqui a ideia da majestosa sensação que é quando aquilo que se faz também consegue fazer encher um pouco os olhos do outro. o poeta faz pra ele, é verdade, mas e se entre a sensibilidade do olho que vê e a inquietude que causa, puder fazer existir um pouco de palavra e depois um pouco de som também, por que não? imagem, talvez, apenas para aqueles que já sentiram a real exaustão de não caber mais do que foi escrito e, bom, se todas as pessoas que falam estão naturalmente se vendo e sendo vistas, olhem, tem um plano que foi feito nesse meio tempo. elaborado nos pilares que mesmo a muito contra gosto de quem constrói muros, está sobre aquilo que ninguém mais vê. sei que de alguma forma você também o fez - e quando digo você, digo, todo mundo -, nos boatos de que a vida termina ou que o colapso do tempo se aproxima. e veja como é bonito de verdade ainda estarmos aqui ansiosos como sempre por criar laços. alguma coisa sempre fica. a beleza natural das coisas que só a parte criança sua sabe gritar é uma peça, como se diz, o sonho, o riso, todo esquecimento até, todo sentimento do mundo. estamos nós e sós - e somos únicos. juntos. e sobre isso não há absolutamente nada de hipotético (no melhor dos sentidos).

as pessoas precisam ver, eu penso. elas precisam assistir a este filme justamente por esses montes de dezembros que nos caem tão pesadamente, essas insistências de finais massacrantes que inundam as pessoas de tristezas vez e outra. é, aconteceu. e aconteceu bem entre a melancolia de las von triee quase debaixo da árvore da vida do terrence malickO PLANO, tão bem feito. não sabia que às vezes uma maçã cortada nos basta. foi e é incrível.


_____

sinceros agradecimentos aos realizadores deste filme O PLANO. é satisfatório saber que dividimos uma geração de alguma forma. e que mesmo hoje num mundo em que as pessoas planejam tão pouco suas vidas, independente do que aconteça à mercê dos acasos mais simples ou das catástrofes naturais mais derradeiras, nunca se deixou de imaginar o lugar secreto da felicidade. da plenitude. o lugar onde os planos existem - afinal, eles são simples.


assista ao filme aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=xV1LuWjSZLg

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

para agosto, que já foi



(...) sem extensão de mim, nem permanência, entraria jogada [em setembro]. [então] agora, que o mês volta a se aproximar um ano depois, o que eu sabia, afinal de contas, além da certeza de que toda justificativa era uma admissão a princípio? e por que não saber que dentro dessas admissões de sumiço temporário que tive, estive também temporariamente ansiosa para ficar e estar presente? eu tentava imaginar, mesmo dentro dos meus esquecimentos recorrentes, a sensação que era a de caber na vida, sem aperto ou a de aproveitar um conforto sem sentir falta de nada. sabia que estava presente agora porque estava ausente de outros, nesse mês e nas presenças repetidas que me descobriram um pouco da solidão em agosto. o cérebro tinha ainda um mistério infinito, mas distraindo um pouco deste pensamento, a única coisa que eu conseguia pensar era: havia um passarinho fazendo ninho em algum lugar dentro mim?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

o balão


não cai, balão.



balão que sobe no AR,
s o m e  
no ar,
e ri do mar, ri do chão.
ri até do mundo.

balão que voa no céu dá adeus a terra,
balão que voa rasante dá vontade pro chão
balão a desfilar à vontade no ar.

balão não nasceu pra guardar lugar,
PRA MORRER QUIETO
nem mesmo quando perto do tombo,
INVENTA FOGO E sobe outra vez.
dá adeus a quem foi tímido,
a quem foi filho,
puxa as cordas e avança, segue pra CIMA.

balão o mundo miniatura,
como brinquedo de criança levada.
tudo pequeno.
mas todo o essencial
CONTINUA
nos olhos corados
de quem, dentro do balão vê os   i n f i n i t o s   olhos
da mulher querida. 
e amada.

VAMOSPULARDEPÉSJUNTOS?
que medo alegre, o de te esperar (*)
ou de te aguardar responder.
que medo ALEGRE,
que MEDO alegre o de voar,
de estar,
e sorrir,
e desejar
com
você.

ande, venha, suba.
eu NÃO  vou 
descuidar,
eu voo.


afinal,
você também tem o sonho de voar
ALI.

(*) C.L.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

cartas marítimas | 7

fildsville, 27 de outubro de 2022.
querida maria paula,

perdoe-me a urgência repentina desta carta. sei que se esticou um período de silêncio entre nós nestes últimos quatro meses. nesse tempo, conheci, inventei, reverti muito tudo que acreditava em sentidos menores e fragmentados. desejei que você, em toda a sua verdade literária, me mandasse um sopro de ar. senti muito a sua falta, e queria que você soubesse disso, minha amiga. esta casa se transformou em um quarto de hotel - cujas vigas de madeira reclamavam tanto pelo frio, que constantemente me sentia incapaz de relaxar e de dormir. e se as casas são as pessoas que moram nela - há quanto tempo sabrina não habitava mais este lugar, a ponto de eu ter vontade de colocá-la à venda diariamente? é isso. os dias foram pequenos para todas as minhas obrigações diárias. eu estive tentando me livrar com violência de todas as coisas imóveis que restaram aqui, ao mesmo tempo que fazia paradas que me suspendiam no ar. apatia desmedida por coisas complexas demais, desistência pelos contratos e chutes - muitos chutes no ar - que não moveram, como se diz, sequer uma palha do lugar. não escondi a tosse, não escondi o amor, mesmo dentro destas oscilações todas. e ganhei o que com isso? bom, descobri que talvez quem vai ao mar, distancia-se da terra. pensei, pois, que naquela hora em que caísse no mar, viraria lenda - e pirata que seria, poderia viver de propriedades mágicas de mim mesma, recolhidas de todo canto que passasse. plano perfeito se não fosse tão mal feita minha jornada. 

então, antes da primeira parada, encontrei algo que voltou a me encher as pupilas de alegria e vontade. e imediatamente pensei se seria capaz de suportar os olhos cheios de luz outra vez. você seria? eu seria? acho que a gente põe os problemas antes mesmo deles acontecerem, você não acha? papagaio de ombro, joguei pra longe. tampão de olho. de repente, eu queria ver tudo de novo. fiz viagem curta até o mar, mas as águas, querida, sei que nunca foram rasas. como poderia, também? ocasionalmente sabrina volta a por os olhos sobre mim - e quando dou sorte, a tempo, ela o faz antes que possa soltar as velas para bem longe. noutras vezes, com um pouco de agonia, ela me presenteia com seus sumiços. a vida tem dessas coisas.  

e a minha carta deve-se apenas a isso, a minha necessidade de partilhar com você a sensação de limite que tive. eu quase me perdi, mas vi que, às vezes, as chuvas cancelam viagens, você entende? e então, o que era um atraso, uma falta de estar simplesmente, um desgosto momentâneo, um enjoo de sabor, é o que passa a existir de novo. e você vai dedicar-se. eu me dediquei, outra vez. eu estou aqui, e só saberia ser feliz assim. e você, onde está? há quanta felicidade por aí?

um beijo apertado
com saudades de sempre. 
ana

domingo, 12 de agosto de 2012

doer, haver, distinguir

como poderia
por
uma palavra
em sua boca
sem saber a que propósito traz a boca
até
AQUI?

eu vou por tudo a perder,
nessa perda do meu juízo raso
transformado
pela minha incapacidade de comunicação?

eu vou me ATREVER,
a dizer,
que o receio de ser
é por já ter sido muito e demais, num dia lá atrás?

só sei que,  d i l u i d o
este dia no meio dos outros,
como poderia eu
dar uma MEIA parte de mim
a você
que, cheia de si,
me faz sentir
ja ter encontrado uma parte além?

parta-se.
eu 
me 
parti.

mas não deixei esse lugar,
NEM CAÍ,
não quis ter partido pra outra
mesmo
depois de eu
ter partido a cabeça de TANTO pensar.
então,
olha,
volta para cá,
pro BEIJO que não deu tempo de guardar o gosto,
porque pus no rosto
os lábios mordidos de te esperar e só.

e ESPERA!
porque eu espero não esperar sozinha
no sofá,
no quarto,
nos dias,
na sala,
na 
sala
de
você
estar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

para julho, com carinho


(...) somente sei que durante as quatro semanas primeiras que decorreram, a gente poderia ter morrido. porque se não fossem pelas loucuras feitas no carro, a embriaguez completa dos nossos corpos em alguns dias, teria sido a parte mais acelerada de nossa intensa afeição. que nada mais era do que uma disposição da alma, uma sensação de afeto elementar. não fui eu, nem deus - se é que ele existia. não foi ninguém. vou dormir numa noite de julho e para acordar em agosto, talvez ainda sem saber nada sobre o mês que simplesmente voou. agosto, a reforma continua. e nesta casa de gato, será passarinho só de mentira mesmo?

domingo, 22 de julho de 2012

eu morava em um aquário. bebi toda a água

a urgencia visceral do amor.
a prepotencia desumana das relacões que acontecem para além
da
superfície. 
a dificuldade na falta de referencia. 
a pior coisa do mundo é ter uma grande idéia e não saber passá-la
a displiscencia da vontade contra as lacunas inevitáveis do desejo. 
ou o desejo nas lacunas inevitáveis da paixão, 
de alguém que teve muito amor para dar na vida. 
é tão dolorido crescer
e para as dores de quem cresce, 
a certeza de que a dança é 
definitivamente 
a forma mais imoral de aproximação. 
uma fração de segundo. 
visualmente, uma fração.
a impossibilidade de tirar os olhos. 
a imagem dos corpos deitados um sobre o outro. 
FRACIONOU-SE
fraseou-se com outros em seguida. 
o amor. 
o liquido.
o amor é liquido?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

CARTA PARA ALGUÉM BEM PERTO


OWL GIRL,



os mais novos costumam achar que podem tudo e que os outros não podem nada. a minha idade? eu ainda não entendi. mesmo que o amanhã já saiba tudo sobre mim e sobre você, que encantamento bonito é o de ser surpreendido. olhar é educado e a lucidez é quase engraçada. e dentro deste instrumento de pressão que a idade produz sobre nós, eu achei que quando as pessoas tinham intimidade de fazer coisas da vida cotidiana, sem que houvesse a preocupação da figura impecavelmente apresentável, tudo seria natural e simples. nesse pensamento, talvez eu tenha me iludido um pouco. talvez tenha descoberto que desconheço a sabedoria da pele, e daí, nas razões suas de outro dia, junto as minhas tentações claras de ontem, essa intimidade talvez ainda estivesse acontecendo pra mim. entenda, não funciono no modo automático. não direciono sem que a minha cabeça alinhe-se ao meu corpo, e portanto ao corpo do outro. um beijo é muito íntimo. e se você decora um olhar, isso é um conhecimento, e não uma intimidade. sou orgânica e preciso de paciência. preciso de concentração, tanta. preciso do cheiro, da respiração, dos olhos. porque não era só uma boca, não a olhei uma vez, duas, não usei as quatro pernas em vão. busquei aquelas sensações mínimas que se sente correndo pelo meio das costas, subindo pela barriga... algo que fizesse até os pelos finos do braço se arrepiarem. eu preciso de concentração para saber, para sentir onde seguro você e em quais lugares a solto. por onde posso puxá-la, em que lugares você resiste e, ainda assim, insista que eu vá. tenho umas carências meio insolúveis, e isso em nada tem relação com o riso. toda vez que a beijo, imagino que aquele beijo não admita uma bobeira qualquer no tempo, ou que simplesmente descaracterize-se no instante seguinte. nenhuma experiência até aqui foi excesso, e se dançar era difícil, talvez agora você entenda o motivo. o passo não é uma sincronia mecanica, nem imutável. o sexo também não. eu me senti avaliada por seu juizo, é verdade. me senti vista, posta em evidencia, num nome que talvez eu não fosse. a minha cabeça já me bateu muitas vezes por isso, já chamou, justamente porque eu não queria ser uma definição academica, uma formalidade, eu queria superar, ir um pouco além. eu descontrui você - ou ao menos me propus intensamente a isso - para construí-la de outra forma. eu a transformei um pouco em ficção. eu me dispersei, brinquei, ri. e nesta intimidade confusa, perdi a disciplina. a vontade, não perdi - e queria que você soubesse disso. então espero que eu não a tenha deixado ir, sustentada pela assombração que estas idades inventadas nos causam vez e outra. unhas vermelhas à parte, gatos, biquinis, cervejas, vinho, sofá, whiskys, eu me encantei. você é um receio no qual eu acredito. eu estou aqui, nisso, e você, onde está? o acesso a fronteira está constantemente conosco.


myself & I.


terça-feira, 12 de junho de 2012

para rita,

a verdade é que você não deveria esperar nada de mim. neste sonho, eu não sei, não sei se era eu ou se eu era algo que eu tinha projetado para que eu fosse. eu ou muitas de mim que talvez eu tivesse que ser mesmo: eu me confundi, me inclinei. eu me fascinei, eu me iludi. e eu quase morei em um castelo, numa realeza inventada que mudava constantemente as malas de lugar, os móveis, mas que, no fundo, não tinha nenhum dinheiro, só muito tempo de sobra (os ricos fazem muito isso).

acho curioso essa coisa de não haver tempo pra todas as verdades do novo amor. dedicação a qual falta aquele delicado essencial, pois que nestas perdas dentro das pequenas misérias do dia a dia, o sexo sempre encontra formas intermediárias de se tornar amor - e há muita confusão em contrapartida com isso. rapidamente, você passa a não me rebater mais como lógica suficiente em nossas conversas como foi antes. torna-se um sentimento sublime, mas flutuante. e, neste pensamento, lembro-me de que estive sobre seus lábios onde derramei todos os meus excessos. não voei como em tempos atrás, como já não ligo para seus haicais como antes também. então me diga, mulher, para que servem os excessos de quem não está atrás de nada? o meu movimento era para saber o que havia por detrás de sua simpatia. eu descobri.

então hoje, agora, ao invés de colocá-la contra a parede e beijá-la, hoje, agora eu perguntaria o que você está procurando na vida. se você pretende continuar assim desleixada, com esta risada que escuto de outros andares? diga-me em qual casa você perdeu o juízo ou de onde vem as suas alucinações. acho você menos bonita agora - e isso é simples demais, talvez. a minha cobrança chega todos os dias, em toda discriminação de toda frase que digo. sinto-me imersa em uma eterna precipitação. faço sempre quase tudo errado. peço licença para minha cabeça que voa por aí, achando que é capaz de muita coisa. e esta mesma cabeça, tenho certeza, irá comprimir tudo que pensa dentro de mim - como uma traça comendo um pedaço de roupa, e logo, não haverá mais nada. vou chegar bem perto para tentar ficar bem longe do fim. acontece que não há tesão nenhum nesta sub-humanidade (se é que isto existe). a palavra, a situação toda.

medusa,
cheguei cedo, mas atrasada. são eternas réplicas da minha vida privada que chegam ao público. 'você deve ir embora antes que a noite boa se estrague'. e só agora me dei conta disso, de que aquele sonho do início foi substancialmente uma projeção minha e só. fui um peixe num aquário - e bebi toda água. tudo me puxou e eu me apaixonei. acontece que agora eu me sinto um polvo, uma aberração, nada com o que comparar. ecoa sua voz, ainda fina, como uma ressonância de melodia no fundo do mar. coloquei meu ouvido numa concha e neste silêncio, meio infinito, inundei-me de teu canto outra vez e do teu riso em seguida. quando eu me dei conta, eu já estava jogando, eu já me sentia brigada com você. obrigada, obrigada.

///// dia 8 de junho de 2012.

terça-feira, 5 de junho de 2012

sobre a segurança dos espelhos

fui multiplicada através do espelho, naquelas centenas de micropartículas quebradas. meio alice, talvez, lançada para outra realidade. sentei, no chão, ainda sobre o tempo que tinha rapidamente decorrido desde a queda. era curioso que o espelho fosse a segurança da minha imagem, ao mesmo tempo em que eu confiava a ele a objetividade de meus próprios órgãos perceptivos, mesmo que aquilo tudo estivesse agora caído em fragmentos. então o espelho ao contrário das fotografias, do cinema, dos enquadramentos em que estive, deixou de ser registro e tornou-se uma ironia de mim. um riso. mil risos, tal qual seus pedaços.

sábado, 2 de junho de 2012

para rita, que foi reconhecida e encontrada em um trânsito | 2

rita,
descoberta em trânsito. 
e eu sei que muitos já olharam para ela,
acontecem que poucos haviam se fixado nela, reparado.
(talvez esta fosse a minha vantagem agora).

em uma espera, ela se encontrou comigo. estava aguardando sua chegada há meses, para que pudesse dar a ana um pouco do descanso usual da velhice. sei que ela jamais sairia de mim ou me deixaria, e que eu também nunca a poderia entender em uma profundidade tamanha que permitisse, sem qualquer sombra de dúvidas, que eu a esquecesse. foi um amor repentino e involuntário, rita, que senti por ana - e achei que você devesse saber disso. acontece que agora eu precisava caminhar com as minhas próprias pernas. ana fez parte de mim por seis ininterruptos anos, e eu vou continuar a escrever sobre ela, para ela, mas agora como uma amiga distante. fomos amantes, irmãs, mãe e filha, eu e ela, por tanto tempo! estamos ligadas por uma quase maternidade literária, um laço inquebrável. mas foi ela quem me viu crescer - da mesma forma como eu quis que ela se desenvolvesse tantas vezes também. e é preciso que esta concepção literária de ana esteja bastante clara, sem que haja intervenção de terceiros no futuro. há muita coisa que você ainda precisa saber.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

para rita que foi reconhecida e encontrada em um trânsito.

rita, agora sim eu a encontrei. rita, uma mulher bem bonita cujos lábios formavam dois rios vermelhos separados por uma fenda enorme no meio e convergindo nas pontas. de sorriso largo e quadris estreitos. quanto aos olhos, não há descrição para eles. os olhos são infinitos e, portanto, há toda uma dedicação literária exclusiva para eles. espera-se. as sobrancelhas são como bumerangues desenhados. e ela pode agarra-lo por essas sobrancelhas, cuidado. uma mulher que o faria jogar todos os princípios no lixo. clássica, moderna & sempre fora de época. sinto que rita será artesã de roupas, embora preze pela nudez corporal o tempo todo. ela pode amarrar cordas ao seu corpo como uma linha essencial de sua vida que se desenrola, e ela pode desmembrá-lo com facilidade, acredito, sem que se sinta culpada por isso. é que raramente as mulheres bonitas tem consciência de sua beleza. mas o que é bonito nela, senão sua retórica pouco argumentativa? ela vai convencê-lo, não se preocupe. e se quiser viver com ela, não se apaixone por ela, nunca. não olhe em seus olhos a não ser que seja unicamente constituído de coragem. rita, espécie de medusa dos tempos de hoje, capaz, porém, de embrutecer até mulheres. daí sua modernidade histórica talvez. 

/// para rita que foi descoberta em um transito destes dias. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

sobre a curiosidade das borboletas

'encontrar-se. mas em horas como estas? eu deveria ter me segurado na parte mais frágil de seu corpo. ao contrário, fiz como se apenas pudesse considerar o lado mais forte como real motivo de nossa convivência. estive errada, é verdade. e agora, este erro gentilmente consegue explicar a mim que não se agarra alguém pela força, mas pela fraqueza. iremos, como se diz, a duras penas por esse caminho porque, diferente do que se espera, a força não aguenta quase nada. desgasta-se logo. e isto estava tão absolutamente longe da inteligência que, enquanto minha possível desenvoltura intelectual se expandia, o meu corpo murchava. uma flor seca, uma espécie de borboleta caída que tinha pousado no ombro, numa hora branca, leve e rara, e voado na outra. o tempo voa. mas entenda que a borboleta não voa pela sua leveza. não. ela voa porque representa, em um corpo físico bastante pequeno, o delicado voar do tempo. daí, dificilmente cruzamos com a mesma borboleta duas vezes na vida. as borboletas só vivem vinte e quatro horas'.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

'Coisas de Sabrina', escritos por toda parte

Devo ajudá-la a recompor as malas. Não existe hora melhor de partir? Eu já tinha pensando nesta cena antes, é verdade. Eu já tinha escrito sobre ela em algum sonho desta semana mesmo, mas perdi todos os comentários que redigi mentalmente sobre ela também. A memória é muito instável.

Pois foi então que o meu movimento de entrar no apartamento logo se tornou um compasso ritmado com seus pés que estavam a minha frente. Sol. É, fazia bastante sol naquele dia - tanto que a fina camada de gordura impregnada no vidro das janelas da sala filtrava a luz fazendo com que as partículas de poeira flutuassem sobre o assoalho, bem visíveis. Os falsos tapetes persas recolhidos e acomodados no canto, o castiçal de Paris, o cinzeiro vermelho: tudo envolvido pelo típico plástico bolha (quanto as fotos soltas na mesinha de centro, ela disse que as tinha deixado ali para que nossos rostos de felicidade pudessem testemunhar aquele momento, como se os olhos estáticos da fotografia pudessem guardar aquele dia com eles também). Sabrina usava uma regata leve e sandálias. Aos pouco tudo foi se acalmando. Respirei. Ela me puxava pela mão - suas unhas estavam bem feitas e sua pele, razoavelmente macia. Ela não tremia, tampouco esboçava qualquer sinal de nervosismo pelo que pude reparar. Sinto como se fosse um pássaro pego pelas asas, sendo puxado pro ninho.

(...)

Passamos os últimos vinte e dois dias idealizando sua mudança e, mesmo assim, esta imagem não se parece em nada com a que eu imaginei. Conforme entramos, apresenta-se a nossa frente o corredor formado por suas caixas de papel pardo. 'Coisas de Sabrina', escritos por toda parte. E então me ocorre que se eu pudesse materializar sua vida, se pudesse medi-la ou dar peso a ela, acredito que sua vida teria o tamanho que suas caixas ocupam na sala. Não se sabe, verdadeiramente, o quanto existe dentro de um apartamento até que todas as suas coisas estejam fora de seus lugares habituais. É como se aquela barreira de caixas me fizesse sentir tola por todas as vezes que disse que o apartamento estava vazio de sua presença. Sabrina era uma mulher imponente, e agora sim eu a enxergava. Agora que ela vai embora. A vida é muito curiosa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

cartas marítimas | 6

fildsville, 12 de maio de 2022.

querida maria paula,

tenho pensado sinceramente na possibilidade de visitá-la. sei que minha presença em sua cidade, como todo objeto estranho dentro de uma rotina, talvez lhe cause desajustes cotidianos - acontece que minhas descompensações aqui tem sido tão grandes, que qualquer tipo de esboço de novas chances já me farão bem. espero não incomodá-la ainda que esta visita esteja sob permissão de seus convites.

o brasil é realmente um lugar sobre o qual nunca mais pensei. e por isso imagino que, aos poucos, tudo que deixamos de pensar tenda a se distanciar de nós. então esta visita cai sobre mim não apenas como uma vontade inegável de encontrá-la, minha amiga. mas vem como um desejo de testemunhar sua evolução, de produzir algo, de avançar. é preciso conviver, e é preciso muita disponibilidade para isso. 

'esta cidade respira paixões', você me disse. então eu vou mesmo sem saber qual tipo de roupa devo usar, qual tipo de sapatos. já não confio plenamente em meu comportamento e confesso que existe certa infantilidade nesta sensação ao mesmo tempo que a ideia me seduz. dizem que as viagens não são apenas os destinos para os quais se vai, por isso decidi que a farei de navio ate aí. este sentimento de estar rasteiro ao mar bastante me agrada. além disso, poderei ver o mar de perto - me embriagar um pouco da felicidade que ele sempre me trouxe.

novas notícias sobre sabrina, pois não aguentaria até o desembarque para contá-las a você. estamos distantes novamente. preciso aplicar a ela a mesma disponibilidade que dedico a escrever - o que tem sido precisamente difícil. sua presença é como um costume para mim - e talvez eu não tenha mais idade para criar novos hábitos. aliás, como está pedro?

aguardo noticias suas,
quanto a minha chegada aí, principalmente.
saudades como sempre, minha amiga.
que a semana transcorra bem,

ana.  

terça-feira, 8 de maio de 2012

(aqui cabia uma ideia, que foi perdida)

o acaso está ligado a situações geográficas:
como um lugar que não existiria sem a geografia de alguém.
acaso,
de causa sem precedente.
mas qual nome devo dar a causa?
estou em causa ou estou unindo meus interesses?
eu não caí nos seus olhos, por assim dizer, sem querer.
- o acaso é isso.
então, se por acaso ele voltar, faça-o esperar.
porque dentro desta aleatoriedade de ausências,
a sorte rapidamente pode tornar-se azar.
exuberância, ao invés disso.
eu escolhi.
não vivi por acaso, não morri, não pensei por acaso.
ao acaso, sim. mas o acaso começa sempre com uma hora vaga.
o acaso é excepcional,
e
o mundo não tem nada de óbvio.
não vim para estar sem saber o porquê.
e por quê?
porque na vida aprende-se sobre estes acidentes do tempo,
que se conhece por lógica meio difusa,
por neblina,
por neutralidade da qual desconfio.
ou apenas pelo que, popularmente, chama-se de acaso.
eu não vim pra dizer que a passagem foi breve.
insisti.
bati,
na beirada, no topo, no meio.
variei
- e demorei muito, é verdade.
amei a mim mesma, entre outras conclusões.
tive de estar muito ocupada para que não achasse que a minha cabeça chamava por um nome
que eu seria incapaz de repetir.
a sorte só se aplica à loteria - e às vezes nem a ela.
infelicidade constante isso, eu sei.
acontece que
o artista nunca concebe
com
se
pede.
(ainda bem).


/ era muita sensibilidade
e talento em um mundo tão podre.


terça-feira, 1 de maio de 2012

fiquei dias sem escrever, é verdade

estive há uns dias sem escrever, é verdade. sem produzir nada para viver um pouco só para mim. acho que presenti regenerações sinceras por dentro do corpo. e, logo, os órgãos  que eram meus repartiram-se, transformaram-se em órgãos como os órgãos de pessoas comuns. ao final de doze dias, acho que morri um pouco ao invés de viver.


o lugar favorito no mundo

quando o tempo o faz sentir assim, meio a mercê do rumo incerto ou do momento impreciso das estações, você imagina se as pessoas realmente mudam muito ou se tão somente existe um medo do inadiável futuro - que se aproxima, ora em forma de avalanche sedutora, ora de assassino cruel. não há muita educação a se ensinar aos homens, é verdade. praticantes de um desleixo instantâneo e gratuito descabido em tempos cuja carência consome as pessoas, como bichos minúsculos que corroem um armário de mogno. não nos coube nenhuma preferência acentuada por nada, que dirá pelo medo irracional que se tem do tempo. também, como poderia? quem puder reger seus próprios ombros sobre o tempo, poderá qualquer coisa também. poderá usar-se de garras amigáveis e de decoro deslumbrante.o tempo age com muita postura diante de nós. e mesmo as desestruturadas e megalomaníacas cidades, que não conhecem nada senão as próprias experiências familiares e nós, que não conhecemos nada do mundo, tampouco de suas engrenagens perfeitamente ilógicas, girando, ao mesmo tempo que tentamos desvendar o menor sinal de padrão ou repetição. eu me esgotei na explicação - na falta de tradução que tanto acontecimento tem. o tempo, mestre das desventuras seriais. e eu achando que a rotina dos dias me poderia massacrar. sendo que, quando penso nisso, no instante em que penso nisso, o tempo já formulou novos planos para mim. tal qual a partida de um jogo, sendo a única certeza possível a perda ou o ganho. os únicos dois pilares possíveis sobre o qual o mundo existe. não existe nem paixão, nem devaneio, nem guerra, solidão, fome, nada. tudo sobre os alicerces únicos do mundo. os opostos perfeitos - a perda e o ganho.

sinto uma dilatação de meus órgãos por debaixo da pele, eles sendo descobertos e repartidos. metades idênticas e facilmente confundíveis. há impossibilidade de saber a qual lado do jogo eu pertenço. pra qual lado da moeda o meu rosto será mostrado. a perda e o ganho. a vitória sobre a fantasiosa sensação de derrota. e a derrota triunfante deitada sobre o corpo da aparente vencedora, irrisória na posição de sossego. a vitória tem um corpo desinteressante, é verdade. e a derrota, uma senhora de mediana idade, sempre esguia, sedutora. não há escritor satisfeito em vida? não foram todos abraçados pelas mãos enormes do pensamento? desperdicei a vida escrevendo? desperdicei a vida me interessando pelas pessoas. cultivei gestos amorosos ou posses descabidas e ciumentas. não sou dona de nada agora. nem mesmo de mim, porque não posso tocar em mim - e somente os olhos tocam.

imagino e, imediatamente, este pensamento horroroso me invade. eu nunca vou poder me ver. e a constatação que, a princípio parece obvia, vai se tornando concreta. eu só sei o que conheço do meu reflexo, do que acredito dele - ou como eu me imagino ser. eu suponho que meus braços tenham este comprimento, que minhas pernas formem estes arcos desconexos logo após o tronco. eu nunca poderei ver meu rosto como você me vê. você imagina o poder que é dado a você com isso? imagine. você sabe mais sobre mim do que eu jamais poderei saber. então, pois que desejar ver a mim mesmo é como supor a morte. não há como saber com certeza nem com verdade. em quanto a verdade o perturba? a verdade é como olhar a si mesmo. fisicamente impossível.

a verdade é o que se conhece como verdade. como palavra que poderia facilmente ser chamada de outra coisa. eu poderia chamar a verdade pelo nome que quisesse. eu poderia dar a ela o nome de um objeto altamente mutável. transferível. poderia chamá-la de mesa, de cadeira, de qualquer coisa. eu poderia dar a verdade o nome de uma mulher bonita ou de uma mulher vadia. eu poderia chamá-la de maria, de olivia, do que quisesse. os nomes não são nada. eu poderia dizer que sou homem, mulher, poderia dizer que tenho qualquer coisa entre as pernas. eu poderia ser qualquer coisa, e fui.

fui reverência de nomes. fui condizente ao impulso. corri desengonçadamente sobre estas pernas de pau - aos quais dei o nome de alicerces. a um deles, dei o nome de ganho - e ao outro, de perda. e para andar é preciso os dois, para mover-se, alternadamente. não são minhas pernas, entenda, nem nunca serão. desconhecidas e impróprias pernas. pernas para onde se vai ao mundo - a vida é assim. cheia de equilibrar-se.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

a janela poética

A JANELA POÉTICA
o filme.


video


A JANELA POÉTICA
(maio.2009)
conto do que seria parte do livro 'todos os textos do mundo' / que deu origem ao filme.


Levemente projetado para frente – um rosto projetado em direção ao futuro e àquilo que é novo. Pediu para que o motorista do táxi se apressasse um pouco, pois queria chegar ao prédio antes que ela saísse. Sabia que ela costumava sair cedo para ir ao Right on Time’s, mas também deve-se levar em consideração que ela, Sabrina, tem o péssimo costume de se atrasar sempre, e para tudo. Confunde horários e datas. Troca compromissos; (sequer sabe o dia em que nasceu. Nasceu, diz sua mãe, próximo à meia noite do dia doze, porém o trabalho para trazê-la ao mundo foi difícil e demorado, então não sabe se chegou aqui só no dia treze. Seu aniversário é um mistério, assim como todo o resto que lhe diz respeito).

Quando estava próximo ao cruzamento da rua de Sabrina, o trânsito estava parado – talvez algum acidente, ou talvez o engarrafamento usual daquela hora da manhã nas terças-feiras. Pediu, então, ao motorista, que ele estacionasse, pois desceria ali mesmo. O homem lhe disse que eram onze dólares. Ana Laura lhe entregou logo quinze: ficasse com o troco. Desceu do carro e bateu a porta com força, em seguida, olhou para ele e desculpou-se fingindo estar atrasada: batera forte demais. Sentia uma pressa real. Queria que ela estivesse em casa ainda, queria que ela estivesse atrasada naquele dia. Contestou-se: ao mesmo tempo, não queria. Sentiu vontade de escrever. Sentiu uma inspiração repentina – apesar de a inspiração ser apenas dez por cento dos processos escritos mais geniais. Escreveria feito doida, porém sabia que não teria sequer uma única palavra específica na ponta da língua que pudesse expressar o quando realmente a gostava. Então calou. Sentou-se nos primeiros dois degraus da escada do prédio, depois de tocar o interfone e ela não atender. Apoiou a sacola ao lado da perna, fingindo, agora, não estar sozinha. Precisava de uma companhia ali para esperar por ela. Esperou. Estava, inevitavelmente, a esperar.

Pensou em colocar a sacola em meio aos arbustos que havia em volta da escada, escondê-la; e então telefonar-lhe mais tarde: deixei uma coisa para você em meio ao mato na frente do seu prédio – mas a idéia, assim como a frase que a compunha, lhe pareceu estúpida. Precisava entregar-lhe pessoalmente: sabe que a reação da pessoa diz muito em relação a quem presenteia e também ao próprio presente. Sabe que ela vai adorar ganhar ser chocolate favorito, mas o que isso lhe significa? Então pensa. O que traduz o chocolate e como se traduz sua atitude em trazê-lo? O que quer dizer a sacola no qual o doce é transportado? O que diz, então, a própria sacola pequena e verde de perfume que pegou no armário para trazer ambos, chocolate e gravador? – ah, sim: o gravador. E aquele poema gravado com voz de sono, lhe significa algo? O poema dialoga com ela ou apenas rompe o silêncio entre ela e o espelho? Ou entre ela e a parede? As palavras ocupam o quarto e a ocupam também? Ocupam-na por dentro? Ou, novamente, apenas a rodeiam em vão? O que significa essa cena patética de estar sentada em sua porta com um doce e um poema nas mãos e com os pés calçados com aquele tênis velho, que enverga seus dedos? Odeia parecer tola. Poderia tirar o tênis e relaxar, claro, mas isso não se trata somente de um tênis ridículo e apertado. Seria Sabrina um motivo suficientemente grande para que ela se sente e espere? James jamais havia feito nada assim por ela, tampouco havia por Sabrina – sua calça social não permitiria tal comportamento. Mas que parasse de se comparar a ele o tempo todo; percebe que pensa como louca, porém, louca que é, já não consegue mais parar. Então, por favor, não se preocupe se ela acabar por ai, despedaçada. Seus pedaços ainda serão verdadeiros e originais: não troca peças há anos. Seus fragmentos de corpo ainda serão sinceros e defenderão Sabrina como mulher, e não apenas como pessoa. Então seu medo; seu medo de entregar o gravador é justamente resumi-la a alguém que gosta de poemas e só. Ou alguém que come chocolate ao invés de frutas e outras coisas saudáveis. Tem medo de restringi-la. De colocá-la no lugar comum, no lugar em que estão todas as  pessoas que não se alimentam de forma adequada, ou que não praticam esportes, elas simplesmente comem porcarias e escutam poemas deixados em gravadores o dia todo. 

Então parou mais uma vez: era demais para sua cabeça pequena e de cabelos escuros pensar em um espera tão complexa. Quer existir e só. Quer poder sentar-se em um degrau qualquer e esperar. Não pode, contudo. Não consegue, pois pensa demais. Arquiteta planos com um freqüência demasiadamente grande. Tortura-se. Não se deixa em paz, tampouco sossega. Está a tentar encaixar-se em lugares pequenos e estreitos, porém pertence a tantos lugares enormes ao mesmo tempo, que apenas colocar-se aqui ou ali é algo não só mentiroso como também dissimulado, assim: verdadeiramente omisso.

Fuçou a sacola mais uma vez, de modo a se certificar que tudo ainda estava ali – tem mesmo essa desconfiança perpétua em relação a tudo. Mal sabia que seu telefone tocava naquele instante, e ela, boba, estava a procurar trevos de quatro folhas no jardim. E deve-se agora considerar que isso era apenas um conceito. Um protótipo de vida perfeita e de uma beleza que não existe. De um amor que é breve e que machucava. Que está sempre se pondo. Indo embora. Deixando-a para trás, e que a faz limitar-se a sentar em degraus na rua, a segurar sacolas em um canto estranho da cidade e esperar.

Sabrina morava em uma rua arborizada. As folhas secas caiam das árvores e tomavam os arredores do meio fio. Tudo tinha um aspecto rústico e um tom bege, que se intensificava nos finais de tarde e nas manhãs, quando o sol batia por trás dos prédios e formava sombras disformes no asfalto, já gasto e com marcas de pneus, aquele asfalto ressecado, como pele de velho. Então, por que haveria de se irritar? As folhas secas voavam com o passar dos carros e dos dias e se instalavam nos primeiros degraus dos prédios. O passar das semanas se repetia. As regras nunca mudam mesmo, então até mesmo ela se repete. E fala tanto que chega a se contradizer. A imagem das folhas se repete ao seu lado – elas voam sempre para os mesmos lados e se acumulam das mesmas formas. Sobrepõem-se sem consciência: Ana Laura perde a consciência também; voa para longe dali. Então se lembrou do rosto dela mais uma vez – talvez aquele rosto e aquele seu formato único jamais estivessem em outro ser, ou em outra criança. Sabrina queria filhos, mas não queria dar a luz a eles, propriamente – queria ser mãe, porém mãe lhe remete a uma figura infinitamente mais complexa e importante do que ser aquele que carrega ou carregou uma criança dentro do corpo. E Ana Laura, ali sentada na calçada no final do outono – não que isso fosse relevante para a cena, porque não era mesmo – definitivamente queria filhos.

Sabrina seria mesmo uma ótima mãe: ela tinha uma paciência para explicar detalhes e uma decência em relação aos assuntos da família. Tivera uma boa educação, e tentava mesmo fazer jus a ela o tempo todo. Sentada de pernas cruzadas, pintava as unhas, penteava o cabelo – mas era sempre a mesma merda: era alguém que não era de fato. Ela mesma falava: era a mulher que não era – e não que falasse mais deles, porque não falava nunca, apenas castrava-se perto dos pais. Cobria tatuagens, subia as calças, dobrava a manga da camisa por cima do suéter. Portava-se bem; ou pelo menos tentava. uma hora e outra soltava algum palavrão, e então se desculpava, dizendo que tinha chutava a quina do armário ou havia tropeçado no tapete. Essa pose não combinava com ela. Sabrina era espontânea demais para se portar assim, pois, agora que já possuem certa intimidade, que já se conhecem suficientemente bem, entende que todas as definições previamente feitas a seu respeito foram precipitadas e, a esta hora, acumulam-se sem sentido, como se não entendessem a razão pela qual estão organizadas em fila. As definições de Ana Laura em relação a Sabrina estão soltas no ar, planando sobre sua cabeça pequena, fingindo uma ordem que não existe. Estão confusas, não sabem qual direção seguir – não eram, pois tinham medo de ser. Não erram, pois têm medo de errar: erram, pois, o tempo inteiro. Fazem bolero, dançam tango, mas não chegam a conclusão nenhuma, apenas voltam a entupir os espaços vazios em que deveria haver qualquer pensamento revolucionário. As decisões precipitadas imobilizam a ideologia e as mantêm presas; assim, como fazê-las mudar de lugar? O que as locomove? Ou as comove? O que as tira dali? Talvez um filho tire.

Mas então pensa que seu filho jamais verá o pai fazer a barba – talvez apenas veja Sabrina depilando a perna. E não o verá consertando o carro ou abrindo um pote de azeitonas de forma bruta. Ele apenas vai sentar-se à mesa e comer azeitonas pretas que vêm em embalagens deplástico. Decepcionaria-se? Jamais. Somente uma variação, tem condições de sobreviver sem ver alguém coberto de graxa na garagem, pode andar de táxi para sempre – apesar de isso lhe embrulhar o estômago, se precisasse vender o carro azul, venderia; porém espera não ter que fazê-lo: quer deixar alguma coisa, além de educação, para o filho que não tem.

Estranho, pensa. Achava que as coisas mais estranhas da vida não fossem assim tão fáceis de descrever. Mas que se SEJA, já não se importa tanto assim com isso. Vai esperá-la voltar. Pelo menos por enquanto vai. Vai entregar-lhe o chocolate – mas não qualquer um, o seu favorito. Vai plantar uma muda de árvore. Vai terminar de ler um livro. Vai ter este filho – não necessariamente nesta ordem. Vai esperá-la voltar, sem pressa. E o resto? Ah, o resto depois resolve. O resto é o resto e só. O resto, assim como já se explica, é o resto. É a sobra. É a continuação que não faz sentido. É aquilo que ninguém quis, pois é disfuncional. Retardado. Bobo. E então uma consideração engraçada: quando se quer tanto, se quer tanto tudo, esse desejo impossibilita sua própria plena realização. Ter tudo significa ter o resto também, mas o resto não se deseja jamais. Então como filtrar o desejo? O resto também é o novo todo que desperta interesse naquele que não tem tudo. O resto é justamente aquilo que a faz esperar no degrau. O resto é pouco, pequeno, restrito. O resto é o menor grupo dos grupos pequenos. O resto existe incondicionalmente, e o todo? Ah, o todo é uma ilusão. O resto de tempo é a resistência. A insistência. A nova tentativa. Abriu o guarda-chuva e encolheu-se. Recolheu a sacola para perto de si, para ainda mais junto de sua perna. A chuva não estava prevista – esses noticiários estavam mesmo se tornando uma merda. 

Estava a esperar. Então abriu um pequeno caderninho que carregava no bolso da jaqueta, cheio de dobras nas pontas das folhas e a capa, com um desenho azul qualquer, já praticamente toda solta do espiral fino e torto, e esperou. Aguardou mais um instante: era um espiral bem bobo mesmo. Fez-se superior. Fuçou no outro bolso e encontrou uma caneta – testou-a em uma folha no final da caderneta, fazendo rabiscos. Sabe que em meio a outras moças, escrever na chuva a faz diferente – então qualquer moça que lhe olha, a vê como se ela fosse uma estranha. Ou uma doida, pois escreve palavras que são provenientes do temporal. Pensou em ir ao bar que havia ali em frente, sentar-se em um banco decente, pedir um cachorro-quente e um suco de morango – sem gelo e sem açúcar, seu favorito – e escrever corretamente. Não abreviaria palavras ou esqueceria de vírgulas. Sabe que deveria fazer isso, mas não conseguia: era fraca demais. Era fraca um tanto assim, bem grande. E que futuro, que nada: ascendeu um cigarro. Tragou fundo enquanto equilibrava o guarda-chuva entre o ombro e o pescoço. Alguns pingos caíram e mancharam a tinta da caneta no papel – distorceu-se o que estava escrito. Apressou-se para corrigir o estrago, mas já era tarde demais para isso. Estava atrasada, como sempre. Procurou, já desconsolada, qualquer outra palavra que a pudesse substituir, que pudess substituir o borrão, mas, de algum modo, seu repertório lhe pareceu limitado. Inferior. Minúsculo. Precisava parar de olhá-la e de imaginar seu rosto. E precisava parar de imaginar os óculos que ela usava, fingindo uma elegância social que não tinha. Ou uma inteligência matemática que não tinha, e que, talvez, jamais chegasse a ter, pois possuía somente uma capacidade de se desenvolver artisticamente; apesar de que suas tintas terem estado secando próximo à janela aberta e estarem meio desbotadas também. O colorido perdeu a cor. Seus quadros, ou os poucos quadros que lhe restaram – vendera os cinco últimos por uma mixaria quando precisou pagar o aluguel atrasado – guardava em um canto atrás da porta do quarto. Um canto escuro e esquecido. Seu apartamento tem certo estilo francês, e um tom de albergue europeu. E não que tenha luxo, por que não tem mesmo, mas também não é uma maloca. Não é uma maloca qualquer: é a sua maloca: e isso lhe gera orgulho. É o seu lugar. É o seu pequeno e aconchegante espaço de mundo. Seu pedaço pouco ensolarado de mundo. 

Então lembrava, agora, que muitas vezes depois do sexo ela se postava perto da janela – a janela das tintas secas – e colocava os óculos só de calcinha e sutiã, e olhava pelo vidro para a cidade. Desviava da cortina fina. A cama ficava perto da janela também, como se fosse um parapeito interno, ou uma continuação da paisagem e das folhas velhas da rua. O lençol escuro, quase preto, fazia contraste com os tons de amarelo da calçada e, ao mesmo tempo, os completava.  Aquele pequeno luxo era todo o luxo que tinham e isso, de certa forma, bastava. Agora, contudo, o guarda chuva sobre sua cabeça não lhe permitia olhar para cima e ver a janela poética de Sabrina – admite: as mulheres possuem mesmo uma beleza (uma raridade) digna de poesia; e não que os homens não a possuam, mas as mulheres a possuem incondicionalmente – pois que continuou: abriu a caderneta na primeira folha em branco que encontrou depois de pouco folhear e muito se importar. Finalmente encontrou aquela página nova e intacta que esperava por ela. Recorreu ao seu repertório, esperando apenas que ele não fosse assim tão ingrato desta vez. Caso não escrevesse, haveria de viver de quê? Do dinheiro que ganha por aquele emprego ridículo no escritório? Definitivamente não. Não espera para si uma proposta maravilhosa de emprego, porque aquele curso que fez era porco demais. Pois que deve, mais uma vez, explicar-se: é inteiramente constituída de palavras – quando escreve, não somente escreve, descreve-se e se coloca estampada no papel; faz companhia àquilo que explicita assim como a sacola lhe faz companhia. E o chocolate faz ao gravador e vice-versa.

Não consegue apenas sentar e esperar. Inquieta-se por qualquer motivo. Não sossega, pois o sossego subentende algo que se fez compensatório ao esforço – não era esforço esperar Sabrina chegar. O excesso de risco gera, nela, insegurança. Pensou pedir ao guarda da rua, que olhasse por ela; desistiu. Pensou em lhe escrever uma carta, já que sua fala tem estado meio viciada; desistiu. Está a trocar as mesmas frases há dias, como peça de roupa que não diz nada de novo. 

(Ela tinha sido revolucionária, mas todo mundo já tinha feito isso antes).

Sequer se move ou se manifesta. Existe algo para ela além da distância que propôs de maneira tola? Tem algo grande para ela, tem uma carta que não sabe como começar a escrever. Guardou o caderninho de volta no bolso e cruzou os braços sobre os joelhos curvados em cima do degrau. Abaixou a cabeça. Notou que ninguém sorria em sua direção – os sorrisos são barulhentos, alarmantes. Os dentes rangem quando se sorri. O tempo parece não passar no silêncio, apenas as buzinas da rua interrompem aqui e ali. Ela está parada feito degrau de cimento. Está patética como sacola com chocolates e poemas. Do tempo que decorreu, seu instinto não chegou a promover nada. Deixou que ela ficasse ali sentada como um chocolate de um dólar – seu preferido. Nenhuma pluralidade ou acontecimento fora do comum. Nenhum exagero, apenas uma cabeça curvada sobre a coxa, fingindo sono e fingindo a beleza poética que lhe é naturalmente de direito. Não queria um documentário da vida, aquela coisa chata; mas uma descrição barata e eficiente. Talvez fosse hora de parar de negar seu corpo perante outras pessoas. Alguns já nasceram grandes, Ana Laura apenas nasceu. E não entendeu o porquê de não poder se sentar em um degrau na rua e esperar. Pensa demais. Reflete demais sobre si. Sobra em cima e dos lados. Extrapola-se. Tem overdoses  dela mesma. Então encomenda um novo corpo pelo correio, contorcido em uma caixa de papel pardo – pois que seu corpo magro já não serve para nada. E que inferno: não consegue apenas abaixar a cabeça e dormir no próprio colo. Precisa imaginá-la de olhos fechados. Precisa fechar-lhe os olhos, tirar-lhe a roupa. Precisa de tudo em um segundo, precisa dar mais tempo ao que durou um segundo, ao drama ou à cama mal vestida.

E que saúde, que nada: acendeu outro cigarro.
Desta vez o isqueiro não falou com ela. Ou falhou.
O fim não tem fim.


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sexta-feira, 30 de março de 2012

e agora, você, que ainda é sem nome? | 3

[a month later] permaneço olhando. há tanta menina de bolsa que se parece com você. mas sei que você será perfeitamente reconhecível quando chegar. estacionei o carro em um lugar que espero que você não veja - gostaria que você soubesse disso. 'historicamente falando, as surpresas sempre ajudaram os relacionamentos'. eu nunca escrevi sobre carros, então seria incapaz de dizer como eles se parecem na literatura. sempre estive à pé na literatura, em um bicicleta ou em canoas artesanais e sentimentais que, na verdade, não se pareciam com nada especificamente. a vida é maluca porque nós, estas únicas coisas vivas que verdadeiramente se movem sobre o mundo, fazemos coisas loucas. eu vi quando você passou, e a sua cintura logo se transformou em uma silhueta preta contra o farol dos automóveis. auto-móveis. automóveis imóveis movidos por nós - é quase engraçado. faltava uma música ambiente, em um baixo solado talvez. na minha cabeça você usava uma calça preta e blusa (o que se confundia com a imagem negra do seu corpo contra os carros. uma trança de lado, uma pinta de lado. eu esperava. e a espera se prolonga agora que sei o lugar em que você está. tenho vontade de subir, de buscá-la, de sumir com as pessoas a sua volta, arrancá-la a roupa antes mesmo que você se dê conta do porquê. o sexo repentino nos dias de semana - e logo o que era para ser uma ideia acabou se tornando toda ela. e me tomou em seguida. eu imagino seu rosto de sobrancelhas confusas e exitadas. tudo segue um movimento próprio. seu corpo fala mais do que a própria obscenidade sedutora das palavras. as coisas ficam meio involuntárias, insolúveis, fumaças. naturalmente o chão se perde nessa hora. curiosamente, tudo torna-se chão sobre o qual eu posso me deitar e deitar você sobre mim. a imaginação constrói o verdadeiro avesso das pessoas. os dedos tocam. a imaginação transfigura em imagem. logo tudo torna-se úmido. vão desfalecer as superfícies do corpo. 'liquid heat'. imaturo e quase a beira da selvageria feminina de mulheres como você. sua voz muda, você já reparou nisso? seus gestos, seu tamanho. quase tenho aqueles espasmos involuntários quando penso. mas, por enquanto, eu espero. e a espera não é nada além de uma mulher que chegará em breve. você.

escrevo, bebo e fumo como qualquer escritor bêbado e fumante faz. acontece que eu a espero para além do sexo. e que espera humilde poderia ser essa, eu não sei. não mudarei a história em nada. não mudarei o curso da história em nada, só porque espero. há quantas pessoas esperando no mundo, nesse momento? oito e dois. malpropícia hora para esperar.

'eu preciso desligar a tempo de pagar a conta', disse o sujeito ao meu lado, em um aparelho telefônico bem velho, já sem moedas, fichas, qualquer coisa do tipo. então eu entendo, e se eu não viver o suficiente para isso? só se espera em VIDA. depois, é tudo eternidade. e a eternidade é o oposto da espera. é como uma luz que se propaga no infinito, no espaço ou no vácuo. eu não sei nada sobre a física, nem sobre a luz. mas sei, rudimentarmente, que se não houver nada em que bater, em que parar, se não houver barreira, as coisas não existem. a eternidade é isso: uma propagação infinita que não se sabe em que lugar começa nem em qual lugar termina. eternidade é inexistência. e ela nada tem a ver com a memória. o infinito não tem nome, nem forma. não tem comprimento, peso, medida possível. talvez por isso o amor seja constantemente agraciado com esta injúria. é uma ideia atroz esta.

é neste sentido que tenho questionado o amor. e talvez esta seja o melhor exercício que pensei em fazer nos últimos dez anos - ainda que ache que não vivi o suficiente ainda para me situar, temporalmente, em décadas. mas eu continuo em disparada em direção a ideia contraditória do tempo - que nada sabe sobre mim, e, eu, que nada sei sobre ele. seremos desconhecidos até quando, o tempo e eu? nós mesmos?

[...] relacionamentos são cadeiras nas quais você se senta. sala fechada, só a de reunião - e talvez nem isso.  a vida é um salão a céu aberto. você escolhe as cadeiras nas quais chove, nas quais o vento não chega, nas quais o sol pode fritá-lo até os ossos. você pode mudar de lugar em um relacionamento? ora cadeira ocupada, ora lugar vazio. então eu só sei se chove, quando chove. eu sei se queima, quando faz sol. empirismo. aos poucos você se escalda de chuva ou de luz. já não se senta mais no mesmo lugar, na mesma posição, no mesmo conforto de antes. embrutece. depois você conhece alguém que faz com que você queira experimentar tudo de novo. alguém que quer 'além de entrar, sentar para tomar um café'. mas nem errar de novo, nem acertar com facilidade. os fantasmas existem. os seus, os meus, meu bem. por isso só existe uma pergunta possível: você joga? que não seja breve.

poesia de nada

falar de horror
é
como
vencer o tédio
minimo dos dias.
você prefere ser moça ou
se
pudesse, gostaria de ter sido outra?
noutra vida, talvez,
talvez, noutra vida.

quarta-feira, 14 de março de 2012

cartas marítimas | 5

fildsville, 05 de março de 2022.

querida maria paula,

devo notar a maturidade de sua literatura, antes que lhe possa contar qualquer coisa destes dias aqui. essas palavras se construíram de outra forma em você? vejo-a verdadeiramente à vontade e isso foi lindo quando li. de um pouco de fúria e de muito ter estado dentro de copos de bebida e ou de desleixo simplesmente, consegui responder a ti, ainda que com essas semanas de ausência também. talvez a vida seja um constante conflito de admirar paixões e desprezá-las. e neste ponto, então, que penso na contemporaneidade de seu texto, nesses naufrágios indócis que a vida nos faz contemplar. e é interessante ver como, junto a ele, vejo você retomar uma literatura quase incorrigível. sinto sincera falta de nossas conversas também - talvez da mesma maneira como tenha nutrido um dó desses personagens, nada se perdeu.

'morri anunciadamente', como você disse na carta , uma morte bastante dolorida e  rápida. não se pode ficar ao luxo da beira da morte por muito tempo, nesses tempos em que desfilam tantas impertinências ao nosso redor. sabrina foi embora, mas retornou de outra forma. mais educada e esguia, um pouco mais magra também. acho que se eu ainda queria me apaixonar, era de se esperar que ela também quisesse sair em algum momento. nada mudou muito, mas, de algum estranho jeito, tudo está transformado. quanto a minha idade, é provável que eu volte a brigar com ela em breve. quando tive vinte, quis ter quarenta, quando tive quarenta, quis ter vinte outra vez. e agora, com estes tantos dias nas costas, talvez eu quisesse ter perdido um pouco a memória de algumas coisas - e isso em nada tem relação com a idade. quantos anos você daria para você hoje, minha amiga? às vezes eu já não sei mais se fiz sexo ou se só tomei um café.


quero muito voltar ao brasil. acho que vê-los será de grande alegria para mim. será que ainda poderemos frequentar os mesmos lugares de antes? fumar cigarros nas mesmas praças? faz tanto tempo que estive aí!  mas imagino que mesmo dentro de sua impossibilidade de caminhar durante esse período depois da cirurgia tenha sido de grande influencia sobre a literatura que me mandou.  santos sempre esteve como uma moldura sua para mim, você lembra quando falávamos sobre isso? agora, contudo, sinto você e este contexto independentes - ainda que haja em suas palavras tanta felicidade honorária. foi em santos que cresci, então pensei em levar uma cesta com damascos frescos e lanches, passaríamos o dia na praia - mas deixarei os biquínis em casa, dizem que os velhos começam a ir de roupa a praia depois de certa idade - levarei rascunhos para as ideias e nenhuma pressa. 


tenho escrito uma autobiografia um pouco saturada, talvez porque sabrina conseguiu desconstruir a figura literária que tinha dela. estou voltando a construí-la, aos poucos, voltando a fazer dela uma ficção vital da minha realidade aqui. tudo tem sido muito silencioso e contido. mas ela é uma nova mulher agora. encontramos um vilarejo aqui perto, há umas vinte milhas de fildsville. eles tem um café brasileiro delicioso - e é sobre esta simpatia do brasil que sabrina e eu voltaremos a existir.  tive que retomar a malemolência da paixão, mesmo que tivesse tido robusta vontade de esquecê-la.


vejo, então, que suas pernas a levarão a muitos lugares com este novo romance - e ainda mais vontade de ir e vir, da imaginação levar e trazer. a ideia do suicídio é consoladora, como disse nietzsche, e também o mais próximo que se pode chegar do sumiço. quem vai embora já não se pergunta sobre nada, os mortos já não tem opinião, não é mesmo? portanto, que venham tempos bons, e nesses naufrágios tão inacreditavelmente frágeis, sua nau faça oceanos inteiros por onde passar. mande notícias do casal. noticias suas, de pedro. deixe que eles falem por você - nesse mundo louco em que as pessoas pagam para conversar. você é privilegiada.

saudades igualmente grandes
de coisas cotidianas.

um beijo, ana.