estou a iniciar um texto. eu me concentro: e eu sei, eu vou perder um tempo. é como se fosse ter um filho ou fosse decolar, pular de um prédio. passo a ser uma extensão de mim. tropeço, como um bêbado. trago a embriaguez comigo. sou apenas um pacote de receios. sou eu, resguardo.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
à ana | 9
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Texto de tempo de musica
Mesmo à frente, por quanto tempo você espera alguma coisa acontecer? E se você não sabe o que acontece, você põe suas pernas para fora mesmo assim? Tua alma já viu essa rua? Essas folhas já caíram sobre seus pés algum dia ou teus risos já desafinaram aqui? Teu violino ainda me espera? Espera por mim. É, espera por mim porque eu fui ali e já volto. Porque eu sei que te ama muito o amor que te espera.
E espera.
VAZIO. Trem vazio de nós. Caixa vazia de recados seus. Mensagens suas, bocas nossas vazias. Vazia de mim, é você. Espaço, divisão de coisas suas que ficaram aqui, em segredo. Seus cd's ainda em uma caixa, suas caixas ainda em sala minha. Minha vida nas caixas que sobraram vazias. Que sobra de ti ficou aqui? Aqui tem um sol, o único sol possível daqui que veio ocupar, sem matéria, sua presença. Você foi – ou ficamos nós, sós, em um tempo? Minhas borboletas voaram, e você, deixou suas andorinhas assistirem ao belíssimo pôr-do-sol de hoje? Qual é a vista do lugar em que você está? Ainda me pulsa você.
sambas defendidos com alegria
pedi um samba ontem, ao homem que desfilou aqui em frente. fosse a razão que fosse, fosse porque eu não cantava seus versos ou porque imersos estavam em mim outras palavras de canto, eu não sei. esse samba trouxe de volta nas saias rodadas o ritmo, a precisão que eu conhecia. depois, os dias continuaram a desdobrar a imensidão de alguém. e do desdobramento dessa possibilidade, foi que sonhei você.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
seus preços
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
à ana | 8
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Feliz natal
O questionamento é a natureza mais autêntica da vida, mas a quem responde à vida? Dê uma chance a sua essência: o que te ilumina é a mesma coisa que você? Talvez seja a felicidade, a desgraça, ou um momento imprevisto do coração que o faz parar. Quantas vezes o seu coração foi assediado por uma resposta? Quantas vezes você já foi inundado por um olhar? E você, tanto quanto eu, reconhece as leis, as estações, o ritmo do amor que está disposto a dar e receber? Não existe prisão pior do que o medo de causar dor a quem nos ama. Há alegrias e sofrimentos prometidos pela vida, é verdade, mas às vezes, no entanto, a vida é por si só urgente o bastante. Nosso coração sempre nos excede porque dali surgem os espaços em que o nosso espirito respira.
Acho que eu aprendi a guardar a vida – seja ela uma moeda ou uma pérola. Seja ela um passeio, um dia ou uma pausa. Deve ser eterno o sonho de fazer alguma coisa. E eu aprendi que há muita coisa entre o céu e este lugar, que a sensualidade pode ser cafona muita fácil, que a desintoxicação vem de dentro pra fora, que há coisas completamente impossíveis de se dizer. A vida é o eterno exercício da constância, então, paciência, porque é preciso aceitar-se em tempo próprio – em que as coisas são verdadeiras no seu próprio juízo, e não no juízo dos outros. A ignorância não tem nenhum charme, a sorte não é algo que grita, a beleza não olha, só é vista.
Então a preocupação deve estar direcionada o que nos inquieta: o que inquieta você?
Porque me inquieta saber que as roupas dizem muito sobre as pessoas, que nem sempre critério pressupõe justiça, que certas coisas não são objeto de contrato, que palhaços não querem fazer rir, mas querem ser aceitos, que é preciso passar pelo rudimentar antes da chegar à poesia, que há quase uma brutalidade entre achar e ter certeza e que as pessoas são as únicas coisas do mundo que falam.
É belíssima a imagem de um corpo que não tem peso porque se sustenta pelo que sente quando diz, no instante em que diz, e torna-se imaterial quase, levíssimo, sobre tudo. Pela sutileza das coisas bonitas de verdade, eu aprendi que é por elas que devemos parar porque ai encontramos finalmente as pequenas faltas de ar que verdadeiramente nos inspiram na vida. Portanto, viver de sonhos não traz felicidade; mas sim os momentos de compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício. Um Feliz, não só, natal.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
uma chance à essencia | 2
uma chance à essência
aqui está a capa das coisas minhas. você também sentiu esse vento que deixou os versos conosco? eu sou uma mulher: e tu, o que és? tudo entardesse. são pássaros estes, ou são os recados que você tem me mandado? recebi suas flores, seus ombros. seus sonhos, não os recebi. a vida é um sonho. eu estou acordada. e você, como está? são olhos de coca-cola esses seus, me disseram. e eu disse, não sei, são quais olhos esses que me veem? são olhos de ver longe ou são olhos de aproximar, para que os outros vejam detalhes? entendo, não são olhos de ver a morte, nem olhos de celebrar a vida. são olhos de ti, que viveu sob a recompensa de morrer leve - de não terminar, mas de fazer tudo. aqui está a música dos ouvidos meus. você também sentiu essa chuva coalhar a água do seu choro, como fez coagular o sangue que me deixou o corpo? esse som é familiar, esse tom, esse grito feito de música. para tudo eu retorno. você está acordada? eu ainda estou aqui.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
o seu rosto, mostra ao povo
sábado, 18 de dezembro de 2010
à guerra
Nós | 3
Eu não vejo a cor da primavera. Desceu sobre mim uma malha de aço, grossa, de cor cinza. Essa malha grudou na frente dos meus olhos também. Que compromisso é esse ou o quão omisso é isso? Eu vejo um desejo tão estranho e tão disforme – já tão conforme nada. Eu me perdi? Eu me lembrei. Eu me lembrei de que o tempo é que era uma coisa muito estranha. De que uma semana poderia demorar meses e um dia, acabar em horas. Quantas horas há entre nós? Quanto espaço físico ou quanto futuro? De quanto é o tempo físico?
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Nós | 2
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Nós
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
à ana | 7
eu escuto seu coração daqui, te ouço respirar. você me deu a mão e me puxou: já não estou mais aqui. conheci a vida de verdade, passei a existir. eu posso sentir você agora. eu sinto, toco, vejo. você tem cheiro, gosto, está viva, respira. suas veias dilatam quando eu me deito, teu ombro me segura, teu corpo inteiro me abraça. é incrivel. não são tuas essas palavras, nem minhas. é nossa essa história. eu amo a nossa vida. o meu amor existe, e é você - meu amor tomou forma de mulher. meu amor eu vejo completo e para além do olho. porque se vejo os lábios, já te sinto o beijo. se vejo o corpo, já te sinto o sexo. se estou aqui, existo ai. se existo, já não penso. esse amor não me fez perder os olhos, mas me abriu para a possibilidade de ver depois de estar cego. estive cego, há anos atrás. agora tenho um ambiente sem luxo e com tudo. agora eu posso ser transparente. na nossa loucura, vivo uma interessante inteligência. você era um desfile e eu passei pela tua frente, como se somente fosse possível que nos seguíssemos, um após o outro. depois de mim, há apenas você. larguei as roupas na beira da cama, larguei os pés, soltei os braços: você me trouxe somente você. a minha idéia de ser feliz é ver você dormir e te fazer perder o sono.
sábado, 13 de novembro de 2010
eu te amo
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
a cabine | 5
da janela poética:
é importante não se convencer com teorias vazias. ana Laura tem poucas manias. eu a conheci em um café, em um convite que ela fez. eu achava engraçada a sua forma de fumar, muito desconexa e própria. eu a conheci quando ela aceitou um café e pagou por ele. explico: ela vestia uma calça jeans de jardinagem, luvas saindo dos bolsos, uma blusa cor de café com leite bem fraco, óculos. ela me disse que não havia vasos grandes em seu apartamento, apenas uns quatro ou cinco pequenos no parapeito da janela da frente. disse que ali se intercalavam as cores: dois deles bem verdes, um amarelo – que depois eu chamaria de seus pequenos girassóis –, e um quarto de violetas bem minúsculas. eu não tive tempo, nessa vida, de cuidar de suas flores. eu tive tempo de percebê-las e só; claro, eu tinha me emocionado nas suas respostas rápidas e nos seus silêncios que duravam semanas. ana Laura é completamente difícil de esquecer – muitas vezes não por ela mesma, mas pelo que ela representa. ela era a coisa viva na qual eu tinha me apoiado. ela era uma mulher de tema coerente nas atitudes. o exercício para ela era sempre necessário. acontece que o exercício em excesso é o que se tem de mais próximo da doença. ela fazia inflexões sobre as folhas escritas bem no meio da sala – o que transformava o nosso relacionamento em uma simples questão me empatia. o seu exercício era olhar as pessoas, enquanto o meu era olhá-la: ela, a minha mulher sinopse.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
à ana | 6
terça-feira, 2 de novembro de 2010
de pequena metragem
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
prosa
terça-feira, 19 de outubro de 2010
à ana | 5
terça-feira, 12 de outubro de 2010
as melhores coisas da vida
sábado, 9 de outubro de 2010
à ana | 4
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
pela moda menos ordinária
eu passei um tempo lendo e outro olhando rostos que perdi o tempo da troca mais justa: a troca de mim pela outra de botas tão pretas e densas cuja licença de ver me trouxe de volta o tempo da perseverança. digo do tempo aquilo que tem dito de mim, de pulsos tão firmes, saias tão curtas e traços tão fundos - porque eu não sabia quantos anos você tinha, mas tinha em mim uma defasagem de ano em relação, não a sua idade, mas a sua imagem velha. por que ela é velha? por que ser velha você? é por que sou tão nova, tão pequena neste corpo, tão enorme neste mundo de trocas? que intenção pouco justa pode haver nisso?
terça-feira, 5 de outubro de 2010
para a ordinariedade do crime | 2
para a ordinariedade do crime
domingo, 3 de outubro de 2010
à burrice de todo mundo
ai, brasil
a outra ainda mora com ele? às vezes eu esqueço que não sei nada da vida dele. há uma diferença entre não ter consideração e sequer conhecer essa palavra. hoje em dia tudo é muito rápido - e toda aquela atenção que você deu a ela, ela mereceu. e ela ainda andava com as duas amigas - cuja cara eu gostaria de ter visto -, porque ser sem vergonha está na moda. então é por isso que as pessoas aprontam: porque não tem o retorno da sem vergonhice hoje. agora a gente começa a juntar as peças; e olha que eu sequer sabia que o parque da água branca era esse circo todo. ela nunca quis saber de casa, só de comida congelada. uma vagabunda e com a cabeça bem podre. que cafona, brasil.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
à ana | 3
da mesma forma que um peso - ou uma estranhesa - tinha se abatido sobre nós daqui aonde eu estava até ela; hoje, há uma caminho de nós de lá até aqui. a vida existe na maior intensidade possivel. porque mesmo que a sensualidade admitisse muito rápido a tolice, era tão maravilhosamente disforme o corpo de toda identidade de ana enquanto mulher que eu precisava me deitar com ela - em sonho ou não. eu tinha uma pensamento híbrido em consequência disso, e me punha em sonho a construir a invenção da realidade. e eu me punha as roupas quando imaginava seu gosto - e eu me impressionava inteira. a minha impressão era enorme ao ponto que descia uma erudição sobre nossa conversa - era incrível o lugar em que chegávamos só falando. ana era uma mulher de argumentação muito doce e de uma intolerância brevíssima ao desacordo quando eu achava engraçada a sua seriedade. porque há muitas coisas ridículas na vida - e a seriedade infinitamente graciosa de ana, com certeza, não era uma delas.
domingo, 26 de setembro de 2010
a gente inventa para caber
sábado, 25 de setembro de 2010
à ana | 2
ana pediu um copo - ou melhor, pediu logo três. houve pessoas que se juntaram a nós. penso que talvez não fosse para o meu melhor agrado que isso aconteceu - mas depois eu entendi que isso não a agradou na ocasião também. pensei que jamais sairíamos de lá porque a companhia dos outros pode ser estranha quando se quer estar sozinho, ou minimamente acompanhado. porque eu queria a companhia de ana, com a sinceridade mais estranha que eu poderia dedicar a ela, eu queria sua companhia. o mínimo de sua companhia, enquanto corpo único que era, na verdade trazia uma multidão com ela. ana era uma mulher de ser várias. e que surpresa não foi a minha quando naquele final de noite, seu corpo me levou ao carro enquanto seu beijo a trouxe para perto.
quanto tempo pode durar um espanto, chico? e quanto tempo pode durar um encantamento? as decisões que eu tomei há sete anos conseguem ficar sete anos sem que eu mexa nelas? as escolhas são para fazer com que eu volte a mim mesma, e não o contrário. então as escolhas certas normalmente são as coisas que eu não faço sempre. fazia tempo que eu não me sentia encantar. se perdi o ar, ana, penso eu já ter precisado respirar muito para chegar aqui. hoje não saio porque já me basta a saudade de ana. talvez hoje eu durma muito, porque tudo que há aqui me basta. havia mais motivos para assimilar? (...)
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
à ana
terça-feira, 21 de setembro de 2010
um texto para cidade
a cidade tem um barulho habitual. que vem do carro, que é da pessoa que está dentro dele. que vem do prédio, da família que almoça, mas da pessoa que janta sozinha. todo barulho é repodução do fazer de alguém. a pessoa parada tem um barulho que vem dela, que ouvido por dentro dela. o seu estômago faz barulho. a sua unha crescendo faz barulho. respirar faz barulho no silêncio - e no barulho do silêncio faz-se o ruído da surdez. a cidade é surda e tem um barulho habitual.
domingo, 19 de setembro de 2010
a cabine | 4
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
maria, querida!
maria, querida: quando voltar, traga dois copos - um limão já cortado - meio quilo de açúcar, uma idéia e nenhuma pressa. eu sei, chamarão seu nome ainda pela bebida que pediu e nunca tomou, pelo livros tomados e nunca lidos, pelas madrugadas sem diversão, pela cor do olho que sempre quis e nunca teve. às vezes me parece que você não quer mais nada.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
maria, tequila!
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
o viés da mentira | 2
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
OITO

a verdade é que você só conhece uma pessoa depois de saber os remédios que ela toma. VIDEO: http://www.youtube.com/watch?v=5IkOUIIseuA.
o filme concorre na categoria da mostra competitiva OLHAR CAIÇARA UNIVERSITÁRIO, 8ª edição do curta-santos, festival de curtas metragens.
segue o link para votação: http://sat.grupoatribuna.com.br/tvtribuna/2010/curtasantos/curta_videos.asp?idVideo=19
a gente não vai durar nada assim.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
o viés da mentira
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
não terminamos, ainda
e porque eu mudava tanto de opinião? eu tinha que parar de escrever assim porque me incomodavam muito aqueles buracos que eu tinha desenhado como se fossem os olhos dele. eu precisava voltar, e nessa conversa isso era possível - eu tinha que aproveitar tudo. tudo era importante. de tanto eu amar, eu já achava que ele era bonito. eu tinha só metade de um olhar para vê-lo, metade da verdade que eu contava, que eu contava comigo, ele já não sabia. corre o risco de pra mim ter sido toda essa lava e pra ele só a fumaça. é o que mais me incomoda. a impossibilidade de se ter certeza. aqueles olhos-prontos não me diziam nada. eu que dizia por eles, como marionetes.esse será o primeiro encontro dos nossos olhos nus. então eu tirei os óculos que me davam a impressão de ver demais. eu ja estava falando de mim, vê? ou lê o que lhe digo, digo, a você, e tome o tempo que lhe é seu. o café que era meu, a frieza do meu café também, tome em um gole só (a nudez dos seus olhos não me reconhece mais?).
ele me disse: tomo. olha que desconheço a razão desse impulso em fazer tudo o que você me orienta. o frio do café é o mesmo, mas o sabor diferente. será baunilha? essa doçura é sua? me pergunto agora o porquê de nunca ter provado.
escuta, além de provar. essa musica francesa que está entre eu e você. ouve essas notas sem tradução, já não importa o que está sendo dito. se você entender, explica-me. senão, estende a mão, eu a seguro comigo. o que era para ser um homem , tinha se tornado uma mulher na parede. e há muitas coisas para se imitar uma parede. eu lhe convenço? eu convenço a mim e ao meu parâmetro da partilha da escrita.
partilhamos, quase dançamos: estendo a mão e com ela a ergo. é da minha altura, compreende? nem menos nem mais. e não me diga não saber dançar. o seu corpo se move por instinto. é assim a melhor das danças.sem palavras nossas, vejo você girando até por acidente se encontrar no labirinto. e nos seus olhos míopes assisto você chegando ao centro. lá não há mais o minotauro. é só um homem.
um homem não é um homem, eu lhe disse, e uma mulher é uma mulher sempre. a minha visão turva curva-se na sua direção, vê? não sei se me dirijo a você ou ao o que, de mim, estreguei a você na dança. porque com você eu me imaginava dançando, coisa que não fazia nunca. porque eu não dançava, eu tão somente imitava uma dança - como aquele homem imitava um homem desenhado, como imitava olhos os circulos que fiz, como eu imitava você, como você era eu e como eu, já não era nada.
não terminamos?
não terminamos, ainda.
(em uma doce partilha das palavras com LETICIA SODRÉ,
http://tout-bleu.blogspot.com, 24 de agosto de 2010)
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Critica da imaginação comum
Faz parte da história do mundo manter dentro do espectro as coisas pelas quais se tem interesse – e tudo que constrói com o homem uma unidade. O homem é fruto de sua cultura, ainda que desenraizado, “acimentado”. Mesmo no íntimo do indivíduo, a sociedade será constantemente apresentada ao homem e o homem deverá, com ela, confundir-se. Então, se há ensino da desobediência passiva, perde-se o homem em troca da massa de homens – e o processo de estímulo ao carnaval torna-se um processo quase diabólico e catastrófico, nesse sentido. Não são mais homens estes; mas, infelizmente, contam-se por milhões.
Já dentro da limitação da cultura e da civilidade do mundo, perde-se, enfim, o mundo da troca: é áspero o caminho da liberdade. Agora, talvez seja enfim o tempo de iniciar o processo inverso.
PENSO, LOGO EXISTO (RENÉ DESCARTES)
Pensar é restrito, mas já engloba um gigantesco passo na libertação – apesar de insuficiente. Então a intenção de querer completa o ato de pensar: é o homem enquanto age. E a ação pode desencadear um ato abstrato, uma abstrata fuga: a crítica. Nesses tempos de cólera coletiva a crítica talvez seja uma arma eficaz que – não só faz defender a individualidade –, mas também propõe transformação na coisa criticada. Assim, a consciência crítica depende do conhecimento de mundo que se tem. É o conhecimento que possibilita a crença, a aceitação da verdade. Se não há conhecimento, portanto, nada pode ser absoluto, ou idolatrado. As coisas tem de ser verdadeiras no seu próprio juízo – e não no juízo de outrem: daí a eliminação definitiva do culto da personalidade.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
interessa?
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
ao descompasso
À NOSSA BOSSA (um filme experimental) _ teaser:
http://www.youtube.com/watch?v=yx2LInzwQeM
À NOSSA BOSSA (um completo filme experimental)
http://www.youtube.com/watch?v=DYNkcIdgZAI
terça-feira, 27 de julho de 2010
a intenção tem um cheiro | 2
sábado, 24 de julho de 2010
todos os textos do mundo | 5
todas as mulheres do mundo suspiravam o nome dela. diabos, alguém lhe traga água, não conseguem ver que ela está sendo queimada viva? ela está praticamente engolida pelos malditos mosquitos. malditos! malditos mosquitos. ana Laura se importa, ela se importa se sabrina está doente. se sabrina arde em febre, se toma remédio para dormir: se sabrina morre, ela se importa porque odeia vê-la com dor. é que na dor existe uma coisa mágica (mais um mosquito esmagado). é um tapa seco sobre o chão que se propaga. há o silêncio, e ao mesmo tempo tem-se nada. há dias não escrevia. estava curada do vicio? então fumava. e a fumaça substituía lentamente as palavras que lhe faltavam nos textos. uma a uma desviavam na sua frente, desinteressavam-se no ar, e no ar prendiam-se ao pensamento de ana laura: tudo aquilo não era pouco. ela era uma personagem (...) ;
a maquiagem, a cor do cabelo. o jeito de uma boneca, a imposição de uma mulher. eu sei, eu conheço, marcela também tinha sido assim. acontece que marcela não tinha tanta inscrição no corpo. ela era uma personagem. todo mundo tinha que ser.
sábado, 17 de julho de 2010
a intenção tem um cheiro
segunda-feira, 28 de junho de 2010
todos os textos do mundo | 4
respirou fundo, a resgatar ar de dentro do corpo, exigindo compaixão de si mesma. poderia amar james ali mesmo porque ele esperava pela reação dela. pena para ele, pensava, que segurava um agasalho e uma sacola velha com uma surpresa – ana laura odiava surpresas, mas tinha que admitir a curiosidade e a poesia que a cena trazia até ela. pensava no quanto mais ele poderia falar. diria que era linda, de novo? de novo, seria só isso? perdia o ânimo um pouco. fechou os olhos. tinha um silêncio dela que tinha sido quebrado – e o corpo trincou, rachou quase ao meio como se abrisse uma fenda no tempo, e na distância, e nos poucos passos que a mantinham afastada de james. acontece que a proximidade a qual ele parecia estar o tornava intocável também. ela pensava: entende quando você chega muito perto de alguma coisa, e o olho perde o foco do objeto? o olho dela estava incapaz nesse sentido. depois que o olho voltou ao corpo, os olhares estavam igualmente parados no outro, e brilhantes. o que acontecia era uma combinação, aquela corriqueira felicidade e a descaracterização dos maus modos – e o que era passado poderia ser qualquer coisa também. percebeu que o que tinha acontecido, todos os motivos pelos quais tinham brigado ou desistido agora, desistiam deles. os motivos desmoronavam, os argumentos, as falhas todas postas de lado por um momento. e sabrina flutuava ali por perto deles, mas paralelo a eles. porque sabrina sempre esteve ali, tantas outras mulheres como sabrina existiam – e continuariam a encontrar com eles, sabia disso. sabrina era uma espécie de margem da relação. talvez ana laura que a tivesse colocado ali, à beira – mas a posição já não parecia incômoda mais. porque ela sorria para james com aquele sorriso manso e misterioso, como quem guarda um segredo na urgência do momento de contá-lo. então era ana laura que transpunha o corpo no plano paralelo, de onde o ouvido não tinha ruído nenhum – de cima ela via james e sabrina se abraçarem na rua. sabrina sorria mesmo sabendo que ela sabia de tudo – uma mulher que não tem nada a perder não faz esforços. porque sabrina não tinha dia para morrer. então porque não? porque não james ao invés de qualquer outro homem? acontece que na descrição das mãos dadas, tinha que ser james porque tinha também que ser ana laura. e tinha que ser ana laura de james. ana laura era a melhor candidata. porque a repulsão que ela sentia por ele, gerava – na outra – desejo. a proporção das coisas tinha uma intenção também. e aquelas personagens divididas em centenas de partes minúsculas pulavam de história em história – representando, ou dominando cada uma delas. muitos dos receios de ana laura tinham se transformado em pequenas percepções do instante seguinte. ela teria que saber das possibilidades na espera. foi como se tivesse colocado dezenas de perguntas organizadas em fila, por ordem de tamanho e importância. e os questionamentos exigiam postura dela – uma postura simples e conjunta. porque se james percebesse a fila, pegaria suas metades na rua, como uma mulher que busca o vestido no chão, ergue a saia até o joelho e corre. ela pensava qual imaturidade da condição humana envolvia isso. porque james correria para lados opostos: de um lado a broa quente, do outro, a culpa do fim do relacionamento. por todo o corpo, a omissão que o corpo tinha posto tantas vezes à mostra. e todo aquele sentimento de uma missão não-cumprida; tinham as coisas mal resolvidas ainda. havia vômitos ainda, saídas precipitadas, deixadas de lado por eles. há tempos não pensava sobre isso.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
todos os textos do mundo | 3
desejava ir embora. queria ir embora para longe com ele até aquele lugar sereno em que ele se sentia bem. porque agora o efeito do remédio, do chá, do cuidado todo em relação ao resfriado eram necessários. se os defeitos agora a humanizavam, e ela admitia o refúgio. porque ela estava disponível e ele se sentia perdido. já haviam feito aquilo tantas vezes antes, mas dessa vez em particular, não sabia porque beija-la: o desejo tinha perdido significado também. não sabia em que lugar segurar o corpo, nem em que lugar soltá-lo. porque o que lhe ocorria era um desconforto em ralação ao corpo do outro. e ele lhe parecia imóvel: igualmente sem jeito. já havia comentado sobre isso antes, mas não havia recebido nenhum detalhe também. então voltou à mão mais uma vez, como se tivesse ganhado mais um pouco de confiança. estava certa daquilo – e estava certa da CONDIÇÃO que a situação tinha colocado, finalmente. ana Laura passou os braços de james em volta de sua cintura e curvou-se ou pouco para trás enquanto o corpo dele tomava espaço. a proximidade do corpo todo logo tomou o conjunto todo também: as pernas, as juntas as bocas perderam distância na sala. passou a sentir a respiração dele sendo retomada e o ar quente que deixava seu corpo fazia o corpo inteiro dele ganhar calor também. james segurou o corpo dela com força, a fim de não deixa-la perceber que tremia um pouco. ambas as mãos estavam geladas – talvez todo calor já tivesse sido trocado. ana Laura aproximou um pouco o rosto e deixou que uma pequena fenda caísse sobre os lábios. pensou em dizer algo, mas desconhecia a razão daquilo tudo. porque a situação falava por eles. e a situação gritava e imperava por seus corpos juntos, justos, sobrepostos um ao outro. o beijo dele que veio em seguida tomou-lhe a boca em surpresa. talvez não tivesse mais lábios para aquela paixão. o corpo curvou-se mais e ele praticamente a ergueu pelos braços. o corpo dela deixou um suspiro e um respiro longo depois. o fim do encontro das mãos ou do deixar dos olhos no chão tinha acabado – para a entrega do corpo não há reversão. se o amor fosse de fato uma guerra, não lutaria mais. porque tinha largado as forças ali, tinha deixado as forças no outro. fizeram amor como quem faz do amor-próprio um desapego.
james a deitou e em seguida deitou-se sobre ela. seu corpo a cobria como um cobertor, como uma capa pública daquele corpo. o pulso do coração acompanhava um ritmo igualmente descompassado. estavam postos um ao outro. era como se ela tivesse nadado muito, e agora conseguia deitar-se com ele e contemplar. agora poderia abrir os braços na praia, ou flutuar indefinidamente. a alma que emergia do corpo talvez fosse uma onda fina, uma nova onda. a alma era um segmento de conquista do outro. oara James, a boca era o topo do corpo – o gargalo do corpo do outro. estavam deitados feito uma fração – e o que pertencia a ele já não lhe admitia exclusiva posse: e ela se deixava para ele com igual confusão. o que acontecia era que os corpos tinham adquirido uma forma única – e não havia dimensão suficiente para estabelecer o começo do corpo dela e o final do de james. era apenas um par de olhos e de pernas. apenas dois braços e centenas de dedos. apenas eles.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
todos os textos do mundo | 2
os pais de sabrina ainda moravam na mesma casa em que ela e os irmãos tinham sido criados. os mesmos móveis, quadros, sofás e talheres. as mesmas cadeiras, toalhas, sandálias e frigideiras. a mesma árvore do lado de fora, ainda seca e sem frutas. mamãe estava doente desde quando a visitara, no ano passado. sabe-se lá o que tinha, mas o mal deveria estar se arrantando pelos meses e ela parecia estar acostumada aos remédios e a sensação ruim que eles traziam. sabrina evitava voltar para visitá-la - não por mamãe, em si, mas pela falta de graça das lembranças que ainda existiam ao redor da casa. queria trazê-la para se tratar na capital, lógico que queria, mas mamãe se recusava. então sabrina evitava visitas porque assim evitava ser convidada para morar com eles outra vez. se continuasse indo uma vez a cada dois meses, como fazia no começo, eles iriam sugerir para que ela voltasse. e quem insistia era papai - afinal mamãe já mal saía do quarto. papai estava aposentado há oito anos, mas tinha voltado a trabalhar por mais dois quando sabrina resolveu se mudar para a capital. era a única filha, afinal, a única filha menina. os outros poderiam seguir por conta própria, mas sabrina não: ah, não sabrina! sabrina era independente, não exercia profissão nenhuma, fazia a própria comida. nem sempre os pais entendem isso. lavava as próprias roupas, enquanto os irmãos tinham empregados até para dobrar as pontinhas do papel higiênico. esse tipo de hábito era esquisito demais, pensava. jamais conseguiria ter alguém para lhe servir o jantar. não se imaginava jantando com oito tipos diferentes de talheres. gostava de comer alguma coisa na sala, com um pano fino no colo - que ela mesma tinha bordado naquela única aula que tinha feito - e só. então dentro do seu apartamento apenas cabia ela mesma. cabia perfeitamente sabrina e ninguém mais para ficar circulando por ali. bastava james que dormia uma vez e outra. bastava ingrid. bastava os montes de roupas que tinha. então, dentro dela, bastava seu gosto pouco refinado. é, nem sempre os pais entendem isso.
(26 de junho de 2008)
quinta-feira, 10 de junho de 2010
todos os textos do mundo
tinha chegado ao limite. tinha chegado ao fim, se é que o fim poderia ter essa cara de cansaço. o espaço do mundo tinha se tornado um espaço muito pequeno para o relacionamento com ele. como uma figura da firmeza, desapontava como uma folha de papel árida, e se esmigalhava seca e sem ar? sem água e sem prazer: já não tinha mais nada. essa cena, da paisagem alienígena, continuou por intermináveis minutos até que ela esticou o braço, sem jeito, para pegar uma bebida. encheu o copo igualmente imóvel de um movimento impróprio, quase a transbordá-lo. o bar ficou vazio e escuro: sobre ela, uma importuna luz do teto já tão baixo a lhe incomodar a cabeça. seria um sofrimento para a personagem esse ato. ana laura apertou os lábios, um contra o outro, e deixou sangrar. tinha vontade de chorar, mas não conseguiu - que importuna virtude, pensou; ainda tinha uma falta de pele, um descompasso da dor: uma ferida de tamanho estranho. lá fora chovia muito, mas ali alagava-se o meio fio. lembrou-se de james. lembrou-se sabrina; inevitavelmente, esqueceu-se. sentiu o peso do corpo agir sobre as pernas, mas as pernas já não pensavam. sentiu-se pateticamente confortável naquele banco duro de bar. ausentou-se: estava por conta própria. estava a se tornar a frase principal de sua poesia preferida. tudo tinha uma valor irrelevante. james parecia estar lá, porque o seu coração pulsava ali e a respiração conseguia se fazer percebida. mas ele não estava lá. nunca esteve. era cansaço, era sono. era isso. ana laura tirou um dolar amassado do bolso, e colocou no balcão sob o copo de cerveja. levantou-se. saiu do bar e não olhou o que tinha ficado atrás. chegou em casa com a calça molhada até a altura dos joelhos, em razão daquele meio fio alagado. o cabelo goetava sobre os ombros, como se tivesse acabado de sair do banho. ironicamente, sentia-se suja, imprestável.
terça-feira, 8 de junho de 2010
à estribeira
não que eu não lembrasse mais do seu rosto, mas a beleza sua já não é a mesma de meses atrás. penso que essa nova beleza tenha vindo com a idade mais recente. eu ainda me lembro de você, junto a beleza antiga de quando a conheci, que me mandava sempre, e que me pedia para esperar até essa idade chegar. eu teria esperado, que fique claro. eu teria esperado até este seu aniversário. hoje, a beleza de uma cabelo já tão escuro, de um rosto já tão parte da fadiga - a pretexto do importuna rotina de trabalho que lhe cabe agora - eu me lembro novamente daquele mês cuja beleza sua, já tão confusa em mim, dispensava o sono a trocar por conversas que se jogava fora. a gente sempre espera amanhecer para ir dormir agora? eu imagino quantos costumes foram perdidos nas desfeitas que a gente fez, e às tantas caras feias, a homenagem da perda do sorriso seu em um céu tão lindo que era o seu rosto. eu tenho saudades de escrever para você, de torná-la prosa, de torná-la rima como rima sua eu era, tão sua também do samba que era nosso. e que danças, pode-se lá saber, ficaram perdidas nesse tempo? quanta bossa, quanta valsa sem par, eu imagino. e quanto balançar de ritmo nunca feito, sem letra? eu teria que ter uma história para compor - e recompor para mim, tanta falta sua. tanto me perdi, que procurei você em cada canto a pretexto da intenção de encontrá-la em um assobio, e em uma melodia qualquer retomar o trato que fizemos (de esperar o tempo descuidar do resto). que descuido, penso agora. da imaginação que te trouxe, ao tédio que te fez me visitar outra vez, a curiosidade que tão rápido te atou os braços e te levou longe, em um lugar em que o teu olho já não me permite o brilho. no lugar em que o esforço dos homens quer fazê-la feliz - onde a felicidade não se admite; e, na não existência, insisto em visitá-la sempre. insisto em tornar a casa, em retormar-lhe o desenho do rosto porque você não foi embora. então, talvez, a minha cautela já não se aplique a beleza sua que eu vejo hoje - mas aquela beleza, tão imensamente dilacerada, há de voltar a seus olhos. e eu hei de chamar-lhe sempre até o máximo da minha prematura intenção com o mesmo gostar prematuro que você deixou para mim, meses atrás.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
à miséria
segunda-feira, 10 de maio de 2010
à falência
depois de imaginar muito o rumo das coisas que a gente disse, hoje, a presença do tempo me faz pensar em você com um carinho maior. a gente fica bravo no abandono, claro; mas a comparação do que eu faço na minha irritação, já tão tardia, me faz entender que não mudou nada desde aquele dia. a gente não vive da infelicidade, não morre de velho mais; mas, acontece que a sensação da saudade deixa a pendência que te trouxe. eu espero que você ainda volte outras vezes para que eu veja de novo tanta coisa minha que você levou embora. porque eu te gosto com a saudade mais digna que tenho, e com o amadurecimento que eu tive depois de tanta doença que secedeu a sua partida: eu não errei com você, nem você, comigo. se você teve medo, eu fui muito feliz. porque hoje fez-se plena a constatação da minha felicidade passada com você. você não saiu, você não simplesmente deixou de estar também. você trouxe e deixou de trazer: e eu nunca soube os planos que você fez - se é que eram planos aquelas idéias que você tinha. e se é que era eu, de você, enquanto tão minha que você era também. o que era o tempo, afinal, no entendimento de quem se apaixona? eu perdi um pouco da vida na poesia do seu encanto. porque em todo canto da sua casa havia um tanto de vida que a gente tinha imaginado. a velhice do seu corpo chegaria dali a poucos meses - então, na efemeridade da sua fuga, eu me senti velha pela vida inteira. a gente nunca acha que vai ser deixado (e não por mim, mas pelas coisas que foram ditas, a fidelidade da entrega não é um objeto de prévia combinação). a gente nunca precisou combinar nada. a facilidade do acordo era a beleza do encontro. foi um verão curto e interminável. hoje eu vou dormir ouvindo as frases que você dizia e o mistério das suas palavras, já tão simples também, confundidas com o amor tão sério que se perdeu em meio a tanta desconfiança. eu teria desconfiado de mim também na ocasião. a chuva de hoje não parou: estaria o tempo permeando novas descobertas? o tempo já esperou a gente. você volta?
segunda-feira, 3 de maio de 2010
eu não segurei o meu chão
no seu quarto, a permanência do breu destacava seu rosto, tão meu, e tão sua também que eu era. a gente não erra duas vezes. que tempo foi esse? como, a perfeita dança nossa, tão cheia de nós, pode nos causar tanta indignação agora? eu tentava entender em que lugar a gente tinha parado, porque eu voltaria para nos recolher. porque na vida infernal, na vida sem tempo, a gente tinha se gostado - e tinha mostrado disposição e disciplina na concordância.
com você, eu não precisava dormir. eu não tinha fome. porque a sua companhia me trazia um agrado: ah, que tempo pleno das coisas tão nossas! eu me cobri da complexa musicalidade da sua fala, da intenção das suas roupas - da qual tantas vezes me despi também -, da proteção da sua nudez. a sensualidade não existia. a gente existia. a gente era feliz, e sabia.
NINGUÉM É FELIZ QUANDO ADMITE A FELICIDADE. A ADMISSÃO É UM INSTANTE DE RACIONALIDADE PURA, AO QUAL, A EMOÇÃO DA FELICIDADE NÃO SE ENCAIXA. NÃO CONSTATÁ-LA NUNCA: ESSA É A VERDADEIRA FELICIDADE. ENTÃO, SE A GENTE ERA FELIZ, EU TERIA PREFERIDO NÃO SABER.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
você não segurou o seu chão
os muitos risos, e as armas que usamos: há sempre um espaço para se preencher sob a pele. você sabe, me conhece - eu já estive no mar. você põe suas âncoras em mim, como eu me lembro. põe suas coroas, suas tantas pernas cujas dobras já entortaram tanto em mim. tudo canta bem mais triste do que antes. haveria ainda uma razão para uma perda tão irrisória quanto esta? para o sorriso seu, de mexer tão pequeno e quase nenhum, em um céu de estrelas que era o seu rosto, eu ainda vejo a beleza deixada nas margens. nas poucas vertebras que me sobraram, ainda o ensaio do meu corpo a manter firme a minha imaginação. o futuro é o que eu imagino? o futuro é o que me toma o tempo agora, enquanto passo a gastar a espera com imagens de paisagens austeras e secas. de cenários quase alienígenas, de carentes intenções, da minha presença emprestada a você. eu não tive disciplina, nem fundamento na minha discórdia. então eu tenho de arcar com a falta? e eu não sei como você segurou o seu chão.