sábado, 25 de setembro de 2010

à ana | 2

poque quando penso, meu pensamento perde a segregação do tempo. e do espaço, que tantas vezes poderia ter sido enorme, há o encolhimento - e o corpo distingue-se em meio a outros corpos. há um caminho de gente aqui.



ana pediu um copo - ou melhor, pediu logo três. houve pessoas que se juntaram a nós. penso que talvez não fosse para o meu melhor agrado que isso aconteceu - mas depois eu entendi que isso não a agradou na ocasião também. pensei que jamais sairíamos de lá porque a companhia dos outros pode ser estranha quando se quer estar sozinho, ou minimamente acompanhado. porque eu queria a companhia de ana, com a sinceridade mais estranha que eu poderia dedicar a ela, eu queria sua companhia. o mínimo de sua companhia, enquanto corpo único que era, na verdade trazia uma multidão com ela. ana era uma mulher de ser várias. e que surpresa não foi a minha quando naquele final de noite, seu corpo me levou ao carro enquanto seu beijo a trouxe para perto.

quanto tempo pode durar um espanto, chico? e quanto tempo pode durar um encantamento? as decisões que eu tomei há sete anos conseguem ficar sete anos sem que eu mexa nelas? as escolhas são para fazer com que eu volte a mim mesma, e não o contrário. então as escolhas certas normalmente são as coisas que eu não faço sempre. fazia tempo que eu não me sentia encantar. se perdi o ar, ana, penso eu já ter precisado respirar muito para chegar aqui. hoje não saio porque já me basta a saudade de ana. talvez hoje eu durma muito, porque tudo que há aqui me basta. havia mais motivos para assimilar? (...)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

à ana

porque a sexualidade do homem traz um rudimento que a mulher não tem; enquanto a sexualidade da mulher decorre de uma poesia a qual o homem não está acostumando, tampouco, entende. é preciso quantas mulheres em uma?


cheguei ali, proximo ao corpo mais próximo de mim, como quem chega de longe e se aproxima devagar. ana já falava muito. meu cumprimento caiu sobre seu rosto, depois os braços e então os seus braços, gentilmente, retribuiram a minha fala. ela disse que estava tudo bem. era terça-feira, e o tempo parecia seco. o frio dali não houve como deveria - no lugar disso, eu sentia um incomodo pelo calor. ana fez um desenho no rosto, como se houvesse uma inconformação naquilo que eu dizia. não fiquei surpresa, contudo - porque mesmo sem tê-la visto, eu já conhecia a essencia do seu discurso e agora teria que encontrar as palavras que o comporiam: e isso sim me causava muita timidez. ela era mais do que eu me lembrava. eu era aquilo que seria sempre? ana era linda.

e o que foram as horas, daquele dia, eu já não soube responder. porque eu não tinha ido até lá para esclarecer, eu tinha ido justamente para criar a dúvida, tão bela. eu me lembrava de ana, há muitos anos, em tempos cuja minha aparência não dizia nada. hoje, de roupas tão feitas do corpo que criei - ana me olha e, não simplesmente vê a mim, mas me lê, com aqueles olhos que ficam franzidos no canto... ah sim! o canto que há em sua voz, como se desenhasse o que fala para mim, e sua mania de olhar muito as coisas ao redor, ana dá peso às silabas que não teriam importancia nenhuma. então o meu encantamento batia justamente nesso ponto. porque quanta coisa poderia ter passado batida ou apanhada esse tempo todo, que tive que esperá-la chegar, sentar-se a mesa, pedir um copo para entender? o tempo é muito estranho mesmo (...).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

um texto para cidade

um texto de verdade:

a cidade tem um barulho habitual. que vem do carro, que é da pessoa que está dentro dele. que vem do prédio, da família que almoça, mas da pessoa que janta sozinha. todo barulho é repodução do fazer de alguém. a pessoa parada tem um barulho que vem dela, que ouvido por dentro dela. o seu estômago faz barulho. a sua unha crescendo faz barulho. respirar faz barulho no silêncio - e no barulho do silêncio faz-se o ruído da surdez. a cidade é surda e tem um barulho habitual.

domingo, 19 de setembro de 2010

a cabine | 4

eu não desfiz o tempo. eu jamais teria tido a coragem suficiente para isso. a mulher que havia em mim tinha as pernas bem mais finas do que as finas pernas que eu via. e se eu sentia pena? eu sentia que via seus olhos doerem. sabe aquele calor infernal de janeiro? então, tem sido assim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

maria, querida!

maria, foi um soco isso? ou foi um desfalque da minha inteligência por eu ter pedido a você um beijo e você, ao contrário, ter dobrado a esquina? eu me pego pensando nas roupas que você deixou aqui antes de descer para o bar. você pretende voltar? eu espero que sim.


maria, querida: quando voltar, traga dois copos - um limão já cortado - meio quilo de açúcar, uma idéia e nenhuma pressa. eu sei, chamarão seu nome ainda pela bebida que pediu e nunca tomou, pelo livros tomados e nunca lidos, pelas madrugadas sem diversão, pela cor do olho que sempre quis e nunca teve. às vezes me parece que você não quer mais nada.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

maria, tequila!

queria dizer a maria que isso não funcionaria; não dessa forma, pelo menos. que era preciso que se tivesse muita elegância na vida, mas eu ainda penso que talvez desse - daquilo - um engano engraçado. maria pediu uma dose de tequila.


eu sorri, a ocupar a sua direção e ela tratou de me olhar de volta - com pressa ou outra vez - não sei se para devolver a gentileza de ver como eu a via, ou se para destratar do meu contato, da minha preocupação platônica por ela. faz dias que maria bebe muito, então eu me preocupo com ela. há apenas um tempo, mas eu percebo que eu estou vivendo duas horas diferentes. há o tempo de vê-la drogar-se e há o tempo do meu cuidado sobre sua droga de vida. maria, tequila!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

o viés da mentira | 2

não saio, nem desato a sair; porque a permissividade da bobeira de um apaixonado é o que faz entender que a vida pode acabar rápido mesmo. porque há pressa agora. então me perdoe por ter visto você antes de ter visto a mim - eu me sinto descompletar. me perdoe pelo perdão que dei a sua covardia. e me diga, ainda? ainda há um vôo descontente aqui. se você foi embora ao primeiro desagrado, logo a beira da primeira vez cuja vez já havia sido adiada tanto, me perdoe o desvario que me causa você. e para você, de olhos tão longos e cabelos tão fundos, de sorriso ilustrativo meramente colado ao rosto, eu me ponho a falar os restos. como se fosse preciso hospedar-se na narrativa de outro: você quer ter razão, ou ser feliz?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

OITO

selecionado para o 8º CURTA SANTOS 2010, OITO. um filme de nós.


a verdade é que você só conhece uma pessoa depois de saber os remédios que ela toma. VIDEO: http://www.youtube.com/watch?v=5IkOUIIseuA.

o filme concorre na categoria da mostra competitiva OLHAR CAIÇARA UNIVERSITÁRIO, 8ª edição do curta-santos, festival de curtas metragens.
segue o link para votação: http://sat.grupoatribuna.com.br/tvtribuna/2010/curtasantos/curta_videos.asp?idVideo=19

a gente não vai durar nada assim.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

o viés da mentira

eu já não reconhecia mais as suas roupas, talvez essa fosse a minha vantagem agora. se eu soubesse, eu não teria entrado - mas agora já foi. outra vez, as coisas vinham com limites para mim. se fosse somente eu, a entrar, tudo bem. mas era qualquer um. eu não reconheci as roupas, então por isso eu tive que cumprimentá-las, como roupas novas ou como roupa nunca vista antes - de um tratamento, de uma formalidade quase estúpida. foi como homenagiar alguém que não morreu, foi cumprimentar alguém com quem se está sempre junto. eu tinha mudado, mas nunca foi algo que me mudou realmente. eu parei de ir; e de estar, também parei. eu parei no mesmo lugar do cumprimento, no lugar do balcão, da escada. eu parei há oito meses atrás de um desamor. e o desconforto pode durar muito tempo; mas já não era pior - nem maior - do que tinha sido grave. se aconteceu assim, eu não sei. mas era assim que eu me lembrava. dessa vez, era eu quem acordava e decidia não querer mais. acontece que isso era tão elaborado, tão doente... que eu imaginava: quem será que está mentindo? era uma prática do auto-engano com o prazer de abandonar a si próprio. como se fosse preciso hospedar-se na narrativa do outro: você quer ser feliz, ou quer ter razão?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

não terminamos, ainda

há uma xicara de café, frio. um dia quente, muito tempo - um tempo seco, a garganta inflamada, uma inflamação nos nervos: eu precisava me acalmar. e claro que não seria o café a me trazer calma - ainda mais frio. eu me enchia de cafeína ainda mais para piorar tudo mesmo, alimentar a ansiedade. era a perna que não parava quieta. era aflição. se eu pudesse fugir de mim, eu o faria. porque fugir trazia um tempo externo de mim, impróprio. própria de uma conclusão minha, eu entendi que entre achar e ter certeza havia uma brutalidade. ele dizia que eu era uma mulher bruta ao sentar, ao cruzar as pernas, ao desenhar homens em paredes. o meu recheio é todo delicadeza. a carcaça era, sim, dura. mas por proteção, temia haverem homens como ele. já tinham passado tantos e nada que me causasse esse abalo. engraçado é que eu ainda não consigo ter essa certeza. achava curioso a forma como eu ficava a desenhar. eu dizia: não parece, mas eu sonho (e no meu sonho é bem a você que vejo). o certo, é que nunca digo os parênteses... espero, estava a reformar: não percebia meu recheio ser todo delicadeza. a carcaça era, sim, dura. mas por proteção. temia haver mais homens como ele. já tinham passado tantos e nada que me causasse esse abalo.eu costumava me fazer o contrário de tudo que o agradava.

e porque eu mudava tanto de opinião? eu tinha que parar de escrever assim porque me incomodavam muito aqueles buracos que eu tinha desenhado como se fossem os olhos dele. eu precisava voltar, e nessa conversa isso era possível - eu tinha que aproveitar tudo. tudo era importante. de tanto eu amar, eu já achava que ele era bonito. eu tinha só metade de um olhar para vê-lo, metade da verdade que eu contava, que eu contava comigo, ele já não sabia. corre o risco de pra mim ter sido toda essa lava e pra ele só a fumaça. é o que mais me incomoda. a impossibilidade de se ter certeza. aqueles olhos-prontos não me diziam nada. eu que dizia por eles, como marionetes.esse será o primeiro encontro dos nossos olhos nus. então eu tirei os óculos que me davam a impressão de ver demais. eu ja estava falando de mim, vê? ou lê o que lhe digo, digo, a você, e tome o tempo que lhe é seu. o café que era meu, a frieza do meu café também, tome em um gole só (a nudez dos seus olhos não me reconhece mais?).

ele me disse: tomo. olha que desconheço a razão desse impulso em fazer tudo o que você me orienta. o frio do café é o mesmo, mas o sabor diferente. será baunilha? essa doçura é sua? me pergunto agora o porquê de nunca ter provado.

escuta, além de provar. essa musica francesa que está entre eu e você. ouve essas notas sem tradução, já não importa o que está sendo dito. se você entender, explica-me. senão, estende a mão, eu a seguro comigo. o que era para ser um homem , tinha se tornado uma mulher na parede. e há muitas coisas para se imitar uma parede. eu lhe convenço? eu convenço a mim e ao meu parâmetro da partilha da escrita.

partilhamos, quase dançamos: estendo a mão e com ela a ergo. é da minha altura, compreende? nem menos nem mais. e não me diga não saber dançar. o seu corpo se move por instinto. é assim a melhor das danças.sem palavras nossas, vejo você girando até por acidente se encontrar no labirinto. e nos seus olhos míopes assisto você chegando ao centro. lá não há mais o minotauro. é só um homem.

um homem não é um homem, eu lhe disse, e uma mulher é uma mulher sempre. a minha visão turva curva-se na sua direção, vê? não sei se me dirijo a você ou ao o que, de mim, estreguei a você na dança. porque com você eu me imaginava dançando, coisa que não fazia nunca. porque eu não dançava, eu tão somente imitava uma dança - como aquele homem imitava um homem desenhado, como imitava olhos os circulos que fiz, como eu imitava você, como você era eu e como eu, já não era nada.

não terminamos?
não terminamos, ainda.



(em uma doce partilha das palavras com LETICIA SODRÉ,
http://tout-bleu.blogspot.com, 24 de agosto de 2010)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Critica da imaginação comum

O processo afeta o homem na criação e na exteriorização. Os homens são objetos das coisas que lhe são exteriores? Se a consciência de si mesmo se perde, perde-se a identidade e passa-se a pertencer à identidade do outro. A identificação é um processo também que, por sua vez, gera pertencimento. Na cultura de massa, o pertencimento acontece quando a vontade é esmagada pela vontade do todo. Então, se existe desejo de pertencimento, hoje, a cultura de massa traz uma irônica contradição; já que a massa forma-se justamente na ausência de desejo – e na produção de mercadorias que personificam esse desejo fazendo com que isso se torne uma maneira natural de existência. É imprescindível, portanto, a socialização do instinto embora se observe a aparente incapacidade diante da opção. Há estado ou instituição que educam para que o domínio seja eficaz em determinado sentido: e o resultado desta análise pode ser deficiente. Acontece que quando não se diz, a fala fica velada – e sempre vai haver um grupo ao qual isso interessa. Se a inteligência é a simples capacidade de compreensão das opções, há sentidos recalcados, permeados pela figura do aparente líder também, do aparente ídolo que resta. O conhecimento da totalidade do homem frente à incapacidade totalizante da música traz a verdadeira integridade – já que aquele que conhece mais tende a decidir melhor também. Os meios de comunicação deveriam, portanto, fazer existir um contato com o mundo imediato, junto à capacidade de amplitude da consciência do homem e do processo do contexto mental – e não o contrário.
Faz parte da história do mundo manter dentro do espectro as coisas pelas quais se tem interesse – e tudo que constrói com o homem uma unidade. O homem é fruto de sua cultura, ainda que desenraizado, “acimentado”. Mesmo no íntimo do indivíduo, a sociedade será constantemente apresentada ao homem e o homem deverá, com ela, confundir-se. Então, se há ensino da desobediência passiva, perde-se o homem em troca da massa de homens – e o processo de estímulo ao carnaval torna-se um processo quase diabólico e catastrófico, nesse sentido. Não são mais homens estes; mas, infelizmente, contam-se por milhões.
Já dentro da limitação da cultura e da civilidade do mundo, perde-se, enfim, o mundo da troca: é áspero o caminho da liberdade. Agora, talvez seja enfim o tempo de iniciar o processo inverso.

PENSO, LOGO EXISTO (RENÉ DESCARTES)

Pensar é restrito, mas já engloba um gigantesco passo na libertação – apesar de insuficiente. Então a intenção de querer completa o ato de pensar: é o homem enquanto age. E a ação pode desencadear um ato abstrato, uma abstrata fuga: a crítica. Nesses tempos de cólera coletiva a crítica talvez seja uma arma eficaz que – não só faz defender a individualidade –, mas também propõe transformação na coisa criticada. Assim, a consciência crítica depende do conhecimento de mundo que se tem. É o conhecimento que possibilita a crença, a aceitação da verdade. Se não há conhecimento, portanto, nada pode ser absoluto, ou idolatrado. As coisas tem de ser verdadeiras no seu próprio juízo – e não no juízo de outrem: daí a eliminação definitiva do culto da personalidade.

junho/2010

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

interessa?

a necessidade é preexistente. ao final, eu sabia como ela era, mas já não me lembrava de uma palavra que tinha sido dita. eu me mantinha, como uma qualquer. eu tão somente permanecia em um estato supremo de atenção, de silêncio, de inercia do resto. só há o registro do que as roupas dizem? só há o registro do que as roupas dizem - e o meu texto já tão impróprio - transformado em uma vergonha importuna, bem própria de mim. a roupa que eu uso traz uma história de mim; a roupa que eu despedaço, que eu peço, que eu tiro, me impede categorizar. sou categoria quando vestida. pois que os corpos são iguais, e belos, quando nus - quando já longe das roupas. porque eu não a conhecia, entenda. eu conhecia a sua forma de andar, de vê-la passar, eu conhecia pelo que eu enxergava da minha construção dela. estranhamente, eu já tão cheia de roupas, ouvi dizer: ela disse já me conhecer. como eu conheço alguém em tanta alegoria? eu teria que desconstruir essa personagem. eu era uma história, uma invenção, uma parte da imaginação minha. eu era um mito, uma projeção de mim nos outros. ela tinha ínfimas rugas no rosto, e um sorriso esteril e pueril. tinha uma projeção gigantesca na fala; quando ela fala, a atenção que se retém ao discurso cria imagens de texto suspensas no ar - como se eu ficasse suspensa pela boca também, pelos lábios, ou pelas palavras de alguém. eu sabia disso como uma fatalidade, um acidente, um amor que foi embora. porque nas coisas do dia a dia, a paciência se vai. sendo assim, sendo a paciência o exercício da passividade, eu teria que tornar-me - a mim mesma - dentro do presente, ao invés de ressentir o passado ou sonhar com um futuro fantástico. seria preciso destilar o ruído e ativar a passividade - o que era contraditório. então eu não vou precisar ter todas as doenças que meus pais tiveram. tudo aqui é muito incomum, eu nunca estive nesse presente. as mulheres trituram milhos há séculos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ao descompasso

dou um passo: o que você quer que eu explique? eu tão pouco coloquei imagens em tudo que eu já tinha dito para você. de tudo que eu senti, eu vomitei esse filme. porque é o que tem passado na minha cabeça esse tempo todo; faz tempo que eu não vejo nada. e que eu vejo muito chão, faz tempo também, muitos pés, e sinto que não ando para lugar nenhum. achei que você não assistiria, depois de tanta assistência esquecida, porque eu não pedi para que você assistisse - como tantas outras vezes posso ter pedido coisas a você. eu sugeri... e agora eu entendi que é na sugestão que a gente mais pensa. nada é absolutamente pronto. eu não quero voltar para o passado, nem imaginar um futuro fantástico, porque hoje tento tornar a mim mesma, eu tento me manter no presente. é estranho, nunca estive aqui, aqui é tudo muito incomum. ironicamente, eu vivo um eterno presente hoje.




À NOSSA BOSSA (um filme experimental) _ teaser:
http://www.youtube.com/watch?v=yx2LInzwQeM

À NOSSA BOSSA (um completo filme experimental)
http://www.youtube.com/watch?v=DYNkcIdgZAI

terça-feira, 27 de julho de 2010

a intenção tem um cheiro | 2

o que é que vem de mim, eu não sei, sai de mim alguma coisa sem nome. há dias que eu sonho com a mesma coisa, alguma coisa que eu não sei o que é. eu tornei a casa, como quem retorna de uma viagem sem volta. eu voltei, mas eu não desfiz as malas ainda. eu perdi o meu tempo? eu perdi o tempo todo. eu preciso criar, para de escrever para mim. eu era uma personagem: todo mundo tinha que ser. mas que personagem ordinária não imita vida nenhuma? eu preciso canalizar a minha inteligência; mas eu não consigo. eu perco o foco; eu, mulher, eu cego, eu não falo. a minha vida não existe. eu me sinto tão triste. se o arrependimento existisse, eu o mataria. eu já morri, por isso eu tenho horror de morrer - mas na dor existe uma coisa mágica. eu não admitia a minha felicidade porque eu me inconformava com ela: feliz todo mundo poderia ser hoje. se eu fosse feliz, eu seria mais do que feliz. há tempos eu não me lembrava de ter ido dormir em uma noite de tanto silêncio. eu estava surda também.

sábado, 24 de julho de 2010

todos os textos do mundo | 5

os mosquitos.


todas as mulheres do mundo suspiravam o nome dela. diabos, alguém lhe traga água, não conseguem ver que ela está sendo queimada viva? ela está praticamente engolida pelos malditos mosquitos. malditos! malditos mosquitos. ana Laura se importa, ela se importa se sabrina está doente. se sabrina arde em febre, se toma remédio para dormir: se sabrina morre, ela se importa porque odeia vê-la com dor. é que na dor existe uma coisa mágica (mais um mosquito esmagado). é um tapa seco sobre o chão que se propaga. há o silêncio, e ao mesmo tempo tem-se nada. há dias não escrevia. estava curada do vicio? então fumava. e a fumaça substituía lentamente as palavras que lhe faltavam nos textos. uma a uma desviavam na sua frente, desinteressavam-se no ar, e no ar prendiam-se ao pensamento de ana laura: tudo aquilo não era pouco. ela era uma personagem (...) ;

a maquiagem, a cor do cabelo. o jeito de uma boneca, a imposição de uma mulher. eu sei, eu conheço, marcela também tinha sido assim. acontece que marcela não tinha tanta inscrição no corpo. ela era uma personagem. todo mundo tinha que ser.

sábado, 17 de julho de 2010

a intenção tem um cheiro

todos ficarão velhos, mas poucos envelhecerão. ela ficaria velha logo porque foi comigo que viveu toda a juventude. toda a virtude de ser moça - cujas rugas agora lhe impregnam no rosto como uma roupa fora de moda, destroçada no corpo. como poderia eu negar a injúria com que lhe agraciei tantas vezes? não me destruiu, mas me possuiu com tanto bem que todo bem que tinha já não existe mais. poderia trocar os pés do salto - porque uma mulher de salto era inecreditavelmente lindo - em tantos outros homens: eu já não contaria mais com a sua presença em mim. porque era inevitavel esse novo amor que começou pelo fim. eu precisava das coisas que começavam primeiro. eu não pegava filas pela metade, homens, mulheres pela metade. eu era inteira, e eu era a primeira sempre. ainda fora de mim, sei, seria sempre resto de outro. isso só acontece porque as pessoas se trocam muito. se não era possivel para uma alma pequena entender isso, que gigantesca alma e compaixão poderia eu exigir dela para que sua graça tivesse demorado mais tempo em mim? o samba era extremamente consolador. e eu precisava escrever para esquecer, e para ser lembrada. para ser lembrada, eu precisava escrever para esquecer e para não me fugir da cabeça o desabor de gostar tanto. eu já não poderia ir além disso. a verdade era que eu não era capaz de muita coisa. esse amor, tão irresponsavel amor, não me puxaria porque à jovem ganancia de se apaixonar somente é possivel se entregar uma vez. a paixão - ah, tão jovem paixão, - já tinha perdido a vida, afogada no lado dos amores passados, e posta de lado pela minha perpétua reticência com o futuro. eu me larguei, e surpreendentemente eu não morri. eu acordei em uma praia desnumbrante, bordando com os pés a areia, e as mãos intactas, perfeitamente limpas. eu poderia escrever para sempre assim; eu tinha todo o tempo do mundo para mim. e que abundante bondade poderia haver nisso, afinal?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

todos os textos do mundo | 4

O CAPITULO DO PENSAMENTO:

respirou fundo, a resgatar ar de dentro do corpo, exigindo compaixão de si mesma. poderia amar james ali mesmo porque ele esperava pela reação dela. pena para ele, pensava, que segurava um agasalho e uma sacola velha com uma surpresa – ana laura odiava surpresas, mas tinha que admitir a curiosidade e a poesia que a cena trazia até ela. pensava no quanto mais ele poderia falar. diria que era linda, de novo? de novo, seria só isso? perdia o ânimo um pouco. fechou os olhos. tinha um silêncio dela que tinha sido quebrado – e o corpo trincou, rachou quase ao meio como se abrisse uma fenda no tempo, e na distância, e nos poucos passos que a mantinham afastada de james. acontece que a proximidade a qual ele parecia estar o tornava intocável também. ela pensava: entende quando você chega muito perto de alguma coisa, e o olho perde o foco do objeto? o olho dela estava incapaz nesse sentido. depois que o olho voltou ao corpo, os olhares estavam igualmente parados no outro, e brilhantes. o que acontecia era uma combinação, aquela corriqueira felicidade e a descaracterização dos maus modos – e o que era passado poderia ser qualquer coisa também. percebeu que o que tinha acontecido, todos os motivos pelos quais tinham brigado ou desistido agora, desistiam deles. os motivos desmoronavam, os argumentos, as falhas todas postas de lado por um momento. e sabrina flutuava ali por perto deles, mas paralelo a eles. porque sabrina sempre esteve ali, tantas outras mulheres como sabrina existiam – e continuariam a encontrar com eles, sabia disso. sabrina era uma espécie de margem da relação. talvez ana laura que a tivesse colocado ali, à beira – mas a posição já não parecia incômoda mais. porque ela sorria para james com aquele sorriso manso e misterioso, como quem guarda um segredo na urgência do momento de contá-lo. então era ana laura que transpunha o corpo no plano paralelo, de onde o ouvido não tinha ruído nenhum – de cima ela via james e sabrina se abraçarem na rua. sabrina sorria mesmo sabendo que ela sabia de tudo – uma mulher que não tem nada a perder não faz esforços. porque sabrina não tinha dia para morrer. então porque não? porque não james ao invés de qualquer outro homem? acontece que na descrição das mãos dadas, tinha que ser james porque tinha também que ser ana laura. e tinha que ser ana laura de james. ana laura era a melhor candidata. porque a repulsão que ela sentia por ele, gerava – na outra – desejo. a proporção das coisas tinha uma intenção também. e aquelas personagens divididas em centenas de partes minúsculas pulavam de história em história – representando, ou dominando cada uma delas. muitos dos receios de ana laura tinham se transformado em pequenas percepções do instante seguinte. ela teria que saber das possibilidades na espera. foi como se tivesse colocado dezenas de perguntas organizadas em fila, por ordem de tamanho e importância. e os questionamentos exigiam postura dela – uma postura simples e conjunta. porque se james percebesse a fila, pegaria suas metades na rua, como uma mulher que busca o vestido no chão, ergue a saia até o joelho e corre. ela pensava qual imaturidade da condição humana envolvia isso. porque james correria para lados opostos: de um lado a broa quente, do outro, a culpa do fim do relacionamento. por todo o corpo, a omissão que o corpo tinha posto tantas vezes à mostra. e todo aquele sentimento de uma missão não-cumprida; tinham as coisas mal resolvidas ainda. havia vômitos ainda, saídas precipitadas, deixadas de lado por eles. há tempos não pensava sobre isso.

(26 de junho de 2008)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

todos os textos do mundo | 3

O CAPITULO DA VOLTA DE JAMES:

desejava ir embora. queria ir embora para longe com ele até aquele lugar sereno em que ele se sentia bem. porque agora o efeito do remédio, do chá, do cuidado todo em relação ao resfriado eram necessários. se os defeitos agora a humanizavam, e ela admitia o refúgio. porque ela estava disponível e ele se sentia perdido. já haviam feito aquilo tantas vezes antes, mas dessa vez em particular, não sabia porque beija-la: o desejo tinha perdido significado também. não sabia em que lugar segurar o corpo, nem em que lugar soltá-lo. porque o que lhe ocorria era um desconforto em ralação ao corpo do outro. e ele lhe parecia imóvel: igualmente sem jeito. já havia comentado sobre isso antes, mas não havia recebido nenhum detalhe também. então voltou à mão mais uma vez, como se tivesse ganhado mais um pouco de confiança. estava certa daquilo – e estava certa da CONDIÇÃO que a situação tinha colocado, finalmente. ana Laura passou os braços de james em volta de sua cintura e curvou-se ou pouco para trás enquanto o corpo dele tomava espaço. a proximidade do corpo todo logo tomou o conjunto todo também: as pernas, as juntas as bocas perderam distância na sala. passou a sentir a respiração dele sendo retomada e o ar quente que deixava seu corpo fazia o corpo inteiro dele ganhar calor também. james segurou o corpo dela com força, a fim de não deixa-la perceber que tremia um pouco. ambas as mãos estavam geladas – talvez todo calor já tivesse sido trocado. ana Laura aproximou um pouco o rosto e deixou que uma pequena fenda caísse sobre os lábios. pensou em dizer algo, mas desconhecia a razão daquilo tudo. porque a situação falava por eles. e a situação gritava e imperava por seus corpos juntos, justos, sobrepostos um ao outro. o beijo dele que veio em seguida tomou-lhe a boca em surpresa. talvez não tivesse mais lábios para aquela paixão. o corpo curvou-se mais e ele praticamente a ergueu pelos braços. o corpo dela deixou um suspiro e um respiro longo depois. o fim do encontro das mãos ou do deixar dos olhos no chão tinha acabado – para a entrega do corpo não há reversão. se o amor fosse de fato uma guerra, não lutaria mais. porque tinha largado as forças ali, tinha deixado as forças no outro. fizeram amor como quem faz do amor-próprio um desapego.

james a deitou e em seguida deitou-se sobre ela. seu corpo a cobria como um cobertor, como uma capa pública daquele corpo. o pulso do coração acompanhava um ritmo igualmente descompassado. estavam postos um ao outro. era como se ela tivesse nadado muito, e agora conseguia deitar-se com ele e contemplar. agora poderia abrir os braços na praia, ou flutuar indefinidamente. a alma que emergia do corpo talvez fosse uma onda fina, uma nova onda. a alma era um segmento de conquista do outro. oara James, a boca era o topo do corpo – o gargalo do corpo do outro. estavam deitados feito uma fração – e o que pertencia a ele já não lhe admitia exclusiva posse: e ela se deixava para ele com igual confusão. o que acontecia era que os corpos tinham adquirido uma forma única – e não havia dimensão suficiente para estabelecer o começo do corpo dela e o final do de james. era apenas um par de olhos e de pernas. apenas dois braços e centenas de dedos. apenas eles.

(03 de julho de 2009)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

todos os textos do mundo | 2

O CAPITULO DA FAMILIA DE SABRINA:


os pais de sabrina ainda moravam na mesma casa em que ela e os irmãos tinham sido criados. os mesmos móveis, quadros, sofás e talheres. as mesmas cadeiras, toalhas, sandálias e frigideiras. a mesma árvore do lado de fora, ainda seca e sem frutas. mamãe estava doente desde quando a visitara, no ano passado. sabe-se lá o que tinha, mas o mal deveria estar se arrantando pelos meses e ela parecia estar acostumada aos remédios e a sensação ruim que eles traziam. sabrina evitava voltar para visitá-la - não por mamãe, em si, mas pela falta de graça das lembranças que ainda existiam ao redor da casa. queria trazê-la para se tratar na capital, lógico que queria, mas mamãe se recusava. então sabrina evitava visitas porque assim evitava ser convidada para morar com eles outra vez. se continuasse indo uma vez a cada dois meses, como fazia no começo, eles iriam sugerir para que ela voltasse. e quem insistia era papai - afinal mamãe já mal saía do quarto. papai estava aposentado há oito anos, mas tinha voltado a trabalhar por mais dois quando sabrina resolveu se mudar para a capital. era a única filha, afinal, a única filha menina. os outros poderiam seguir por conta própria, mas sabrina não: ah, não sabrina! sabrina era independente, não exercia profissão nenhuma, fazia a própria comida. nem sempre os pais entendem isso. lavava as próprias roupas, enquanto os irmãos tinham empregados até para dobrar as pontinhas do papel higiênico. esse tipo de hábito era esquisito demais, pensava. jamais conseguiria ter alguém para lhe servir o jantar. não se imaginava jantando com oito tipos diferentes de talheres. gostava de comer alguma coisa na sala, com um pano fino no colo - que ela mesma tinha bordado naquela única aula que tinha feito - e só. então dentro do seu apartamento apenas cabia ela mesma. cabia perfeitamente sabrina e ninguém mais para ficar circulando por ali. bastava james que dormia uma vez e outra. bastava ingrid. bastava os montes de roupas que tinha. então, dentro dela, bastava seu gosto pouco refinado. é, nem sempre os pais entendem isso.

(26 de junho de 2008)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

todos os textos do mundo

O CAPÍTULO DO BAR:

tinha chegado ao limite. tinha chegado ao fim, se é que o fim poderia ter essa cara de cansaço. o espaço do mundo tinha se tornado um espaço muito pequeno para o relacionamento com ele. como uma figura da firmeza, desapontava como uma folha de papel árida, e se esmigalhava seca e sem ar? sem água e sem prazer: já não tinha mais nada. essa cena, da paisagem alienígena, continuou por intermináveis minutos até que ela esticou o braço, sem jeito, para pegar uma bebida. encheu o copo igualmente imóvel de um movimento impróprio, quase a transbordá-lo. o bar ficou vazio e escuro: sobre ela, uma importuna luz do teto já tão baixo a lhe incomodar a cabeça. seria um sofrimento para a personagem esse ato. ana laura apertou os lábios, um contra o outro, e deixou sangrar. tinha vontade de chorar, mas não conseguiu - que importuna virtude, pensou; ainda tinha uma falta de pele, um descompasso da dor: uma ferida de tamanho estranho. lá fora chovia muito, mas ali alagava-se o meio fio. lembrou-se de james. lembrou-se sabrina; inevitavelmente, esqueceu-se. sentiu o peso do corpo agir sobre as pernas, mas as pernas já não pensavam. sentiu-se pateticamente confortável naquele banco duro de bar. ausentou-se: estava por conta própria. estava a se tornar a frase principal de sua poesia preferida. tudo tinha uma valor irrelevante. james parecia estar lá, porque o seu coração pulsava ali e a respiração conseguia se fazer percebida. mas ele não estava lá. nunca esteve. era cansaço, era sono. era isso. ana laura tirou um dolar amassado do bolso, e colocou no balcão sob o copo de cerveja. levantou-se. saiu do bar e não olhou o que tinha ficado atrás. chegou em casa com a calça molhada até a altura dos joelhos, em razão daquele meio fio alagado. o cabelo goetava sobre os ombros, como se tivesse acabado de sair do banho. ironicamente, sentia-se suja, imprestável.

(12 de fevereiro de 2008)

terça-feira, 8 de junho de 2010

à estribeira

A CARTA DE NÚMERO TRÊS:

não que eu não lembrasse mais do seu rosto, mas a beleza sua já não é a mesma de meses atrás. penso que essa nova beleza tenha vindo com a idade mais recente. eu ainda me lembro de você, junto a beleza antiga de quando a conheci, que me mandava sempre, e que me pedia para esperar até essa idade chegar. eu teria esperado, que fique claro. eu teria esperado até este seu aniversário. hoje, a beleza de uma cabelo já tão escuro, de um rosto já tão parte da fadiga - a pretexto do importuna rotina de trabalho que lhe cabe agora - eu me lembro novamente daquele mês cuja beleza sua, já tão confusa em mim, dispensava o sono a trocar por conversas que se jogava fora. a gente sempre espera amanhecer para ir dormir agora? eu imagino quantos costumes foram perdidos nas desfeitas que a gente fez, e às tantas caras feias, a homenagem da perda do sorriso seu em um céu tão lindo que era o seu rosto. eu tenho saudades de escrever para você, de torná-la prosa, de torná-la rima como rima sua eu era, tão sua também do samba que era nosso. e que danças, pode-se lá saber, ficaram perdidas nesse tempo? quanta bossa, quanta valsa sem par, eu imagino. e quanto balançar de ritmo nunca feito, sem letra? eu teria que ter uma história para compor - e recompor para mim, tanta falta sua. tanto me perdi, que procurei você em cada canto a pretexto da intenção de encontrá-la em um assobio, e em uma melodia qualquer retomar o trato que fizemos (de esperar o tempo descuidar do resto). que descuido, penso agora. da imaginação que te trouxe, ao tédio que te fez me visitar outra vez, a curiosidade que tão rápido te atou os braços e te levou longe, em um lugar em que o teu olho já não me permite o brilho. no lugar em que o esforço dos homens quer fazê-la feliz - onde a felicidade não se admite; e, na não existência, insisto em visitá-la sempre. insisto em tornar a casa, em retormar-lhe o desenho do rosto porque você não foi embora. então, talvez, a minha cautela já não se aplique a beleza sua que eu vejo hoje - mas aquela beleza, tão imensamente dilacerada, há de voltar a seus olhos. e eu hei de chamar-lhe sempre até o máximo da minha prematura intenção com o mesmo gostar prematuro que você deixou para mim, meses atrás.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

à miséria

A CARTA DO MEIO:

eu não conheço nada do mundo. há dias, eu tenho tido febre todos os dias - e, por isso, considero que tive um pouco de azar também. você não veio: então há muito descontentamento e tudo começa a derivar da infelicidade. os homens são barulhentos pela atenção enquanto a atenção das mulheres é silenciosa: a sua intenção nunca fez barulho mesmo, e agora eu me pego pensando sobre ela outra vez. não era direito o que tinha passado, como se uma saudade dessa se prestasse apenas ao sentimento e não à presença. hoje, são muito inquietantes as inconsequências da vida. queria poder prestar a você um serviço menos desconexo do que este. muitos sambas não tiveram refrão, eu sei. o choro do nosso samba levantou um bloco com desânimo. eu já tinha visto muita gente louca, cuja irracionalidade não era nada. a batalha nunca foi simples, mas era depois disso que ficava um vácuo. e esse se tornou um comportamento de repetição. quantas vezes, eu ainda me lembro, a gente colocou os pés para cima, em tempos em que a vida era suficiente para o distúrbio? quando a gente envelhece, a memória declina: então eu via em você uma mulher que ficaria velha em breve. a minha preocupação mudou muito neste tempo que decorreu. porque quando eu me esforcei, a sua presença me fez conhecer a estupidez - e justo eu, que achava que a paixão já era estúpida o suficiente também.

um homem, quando habita a incompreensão, desconhece-se por completo. a mulher, quando o faz, reconhece a permanência bela e tardia da poesia. é, você era um pouco de marcela também: a mulher das grandezas inigualáveis. acontece que marcela era uma mulher louca, e você era uma mulher de verdade. eu entendi que para você o gosto sempre tinha que ter uma história - acontece que o bom gosto é muito intragável também. eu fiz de você o bom gosto das roupas que eu usava, e das outras peças do guarda-roupa que você tanto trocava, a minha roupa se tornou uma inscrição, um texto seu. há sempre coisas que precisam sair da aura do desejo. e do desejo, eu tanto entendi, que a racionalidade que se curvou sobre ele acabou por transformá-lo em uma infração para você. a gente ainda vai se surpeender muito na vida - e ainda mais você, que em um deslize do meu olho perdeu a graça de uma menina para dar lugar a modernidade de uma mulher. a sua idade se aproxima, e do mapa que eu vi no seu rosto, um lugar perdido cheio das borboletas que você vê agora: eu descontruí você -, mas eu não caí nos seus olhos, por assim dizer, sem querer. eu destruí a literatura para construir a realidade. as conversas se esvaziaram: foi aí que a gente embruteceu? a qualidade requereria muito mais desejo do que isso... eu tinha que parar de escrever para mim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

à falência

A PRIMEIRA CARTA:

depois de imaginar muito o rumo das coisas que a gente disse, hoje, a presença do tempo me faz pensar em você com um carinho maior. a gente fica bravo no abandono, claro; mas a comparação do que eu faço na minha irritação, já tão tardia, me faz entender que não mudou nada desde aquele dia. a gente não vive da infelicidade, não morre de velho mais; mas, acontece que a sensação da saudade deixa a pendência que te trouxe. eu espero que você ainda volte outras vezes para que eu veja de novo tanta coisa minha que você levou embora. porque eu te gosto com a saudade mais digna que tenho, e com o amadurecimento que eu tive depois de tanta doença que secedeu a sua partida: eu não errei com você, nem você, comigo. se você teve medo, eu fui muito feliz. porque hoje fez-se plena a constatação da minha felicidade passada com você. você não saiu, você não simplesmente deixou de estar também. você trouxe e deixou de trazer: e eu nunca soube os planos que você fez - se é que eram planos aquelas idéias que você tinha. e se é que era eu, de você, enquanto tão minha que você era também. o que era o tempo, afinal, no entendimento de quem se apaixona? eu perdi um pouco da vida na poesia do seu encanto. porque em todo canto da sua casa havia um tanto de vida que a gente tinha imaginado. a velhice do seu corpo chegaria dali a poucos meses - então, na efemeridade da sua fuga, eu me senti velha pela vida inteira. a gente nunca acha que vai ser deixado (e não por mim, mas pelas coisas que foram ditas, a fidelidade da entrega não é um objeto de prévia combinação). a gente nunca precisou combinar nada. a facilidade do acordo era a beleza do encontro. foi um verão curto e interminável. hoje eu vou dormir ouvindo as frases que você dizia e o mistério das suas palavras, já tão simples também, confundidas com o amor tão sério que se perdeu em meio a tanta desconfiança. eu teria desconfiado de mim também na ocasião. a chuva de hoje não parou: estaria o tempo permeando novas descobertas? o tempo já esperou a gente. você volta?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

eu não segurei o meu chão

às vezes ainda a espero. nos sábados, a minha rua acabada na rua dela - e eu derivo daquele estreito em que permanece seu prédio, sua luz baixa e tudo me parece extremamente conhecido e próprio. embaixo de mim, a desobediência: tenho vontade de por as pernas a correr, subir até seu quarto, tirar-lhe a boca do rosto, torná-la minha e esperar até que suas sobrancelhas se estiquem e que nossos corpos, tão simples, se estiquem na cama. eu ainda pensava no significado do jazz e das brigas que ele nos causou. eu já tinha chegado com esta dívida? eu sabia: eu tinha sentido a euforia depois dela. eu ouvi um barulho, mas o cenário da sua rua não me disse nada. era muito barulho por nada? eram muitos tiros, muita decapitação por nada. a novidade causa hesitação. era sempre um tiro fora do eixo, no lugar no ego - e o eco inimaginavel que isso produzia. entre nós, nós eramos atores.

no seu quarto, a permanência do breu destacava seu rosto, tão meu, e tão sua também que eu era. a gente não erra duas vezes. que tempo foi esse? como, a perfeita dança nossa, tão cheia de nós, pode nos causar tanta indignação agora? eu tentava entender em que lugar a gente tinha parado, porque eu voltaria para nos recolher. porque na vida infernal, na vida sem tempo, a gente tinha se gostado - e tinha mostrado disposição e disciplina na concordância.

com você, eu não precisava dormir. eu não tinha fome. porque a sua companhia me trazia um agrado: ah, que tempo pleno das coisas tão nossas! eu me cobri da complexa musicalidade da sua fala, da intenção das suas roupas - da qual tantas vezes me despi também -, da proteção da sua nudez. a sensualidade não existia. a gente existia. a gente era feliz, e sabia.

NINGUÉM É FELIZ QUANDO ADMITE A FELICIDADE. A ADMISSÃO É UM INSTANTE DE RACIONALIDADE PURA, AO QUAL, A EMOÇÃO DA FELICIDADE NÃO SE ENCAIXA. NÃO CONSTATÁ-LA NUNCA: ESSA É A VERDADEIRA FELICIDADE. ENTÃO, SE A GENTE ERA FELIZ, EU TERIA PREFERIDO NÃO SABER.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

você não segurou o seu chão

CONTINUAÇÃO:

os muitos risos, e as armas que usamos: há sempre um espaço para se preencher sob a pele. você sabe, me conhece - eu já estive no mar. você põe suas âncoras em mim, como eu me lembro. põe suas coroas, suas tantas pernas cujas dobras já entortaram tanto em mim. tudo canta bem mais triste do que antes. haveria ainda uma razão para uma perda tão irrisória quanto esta? para o sorriso seu, de mexer tão pequeno e quase nenhum, em um céu de estrelas que era o seu rosto, eu ainda vejo a beleza deixada nas margens. nas poucas vertebras que me sobraram, ainda o ensaio do meu corpo a manter firme a minha imaginação. o futuro é o que eu imagino? o futuro é o que me toma o tempo agora, enquanto passo a gastar a espera com imagens de paisagens austeras e secas. de cenários quase alienígenas, de carentes intenções, da minha presença emprestada a você. eu não tive disciplina, nem fundamento na minha discórdia. então eu tenho de arcar com a falta? e eu não sei como você segurou o seu chão.

terça-feira, 27 de abril de 2010

eu não sei como você segurou o seu chão

você não segurou o seu chão. quantas vezes mais as fotos apagadas não mudarão nada? que tempo foi aquele, cujo tédio tinha trazido você? eu tinha me arrependido nas mínimas coisas porque as canções ficaram. e agora, esse chão pisado das roupas suas, das coisas suas, das pernas minhas - já tão suas também... que desabor! e que amor tão pouco, a tão pouco prestado. quando a sua companhia se apresentou para mim, eu olhei tudo que você tinha deixado nas palavras nunca ditas. que olhos foram aqueles seus, tão meus, tão cheios de si? o tempo passava emprestado de outro, agora. eu tentava imaginar como você poderia ter ido embora, depois da valsa, naquele hora do samba tão nosso. você tinha uma forma sua de esperar as pessoas, de tratar a gente, e eu me lembro disso com perfeição. como a vida é estranha! e quão breve somos nós... o frio daqui não me agrada.

domingo, 25 de abril de 2010

FEMININO | 2

eu tardei os passos, enquanto mulher; mas o desabor da discórdia continuou o mesmo. eu não poderia crer na maldade única, nem na generosidade específica do homem. então vem o nível literário do mundo: no campo mágico do mundo, no país do absurdo, você olha a imagem de uma mulher e é tudo muito igual. quando há mulher, não há corte seco na sedução; não há amarra. eu encurtei os passos, a troco de nada. eu era a favor da contrariedade e da violência do grito. eu cometi vários erros - e o gênero da mulher sempre se constrói do ponto de vista de um homem: o homem inventou o duelo, e a metade da chance de matar de volta. a mulher é a rainha de retórica - e essa é a violência da linguagem pública.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

FEMININO

para o gesto feminino, não pode haver pudor. vai existir uma visão simples desse comportamento dela porque o equilibrio da mulher é outro: a questão dos pés, da postura. então você descobre que fechar as pernas não diz respeito apenas ao vestido. daria perfeitamente para compor uma cena dessas - de uma poesia tamanha que poderia me engolir com facilidade. eu também tinha vontade das partes suas que sumiram. porque a fome agride, dormir demais, a falta de sono agride. e você pode cair no entendimento caso não consiga perceber o literário: eu tinha cansado de tratá-la com poesia - e isso era curioso. todas as pessoas que vivem estão inevitavelmente se vendo. e você pode pensar que o pescoço já não diz nada sobre você, que a perna ou a virilha já não são suas. a feminilidade não está vestida em você; vestida estou eu, de nós. eu tinha perdido toda a minha aversão, e tinha ganhado ânsia em relação a este risco.

sexta-feira, 19 de março de 2010

eterno presente | final

às vezes é preciso muito silêncio para que se veja a beleza. desencadear uma situação periférica não fará velhos assuntos desdobrarem. e eu já não me tornaria menos fiel a minha condição. eu tentava tratar da crise como um local externo, impróprio de mim. porque mesmo depois de quase duas semanas, eu ainda me sentia sem produzir nada. eu sentia apodrecer na intenção da escrita. das viagens, muitas delas eu já tinha desconstruido. porque a minha lembrança sobre ela tinha perdido a razão sobre o meu entendimento. eu via o seu sorriso não mover quase nada na minha memória. e na minha memória tão gasta, eu via seu rosto de mapa, em que tantas vezes desenhei o céu, e dancei a noite toda: pudera já ter perdido a conta de tantas as vezes que me perdi a ele. porque eu ainda me lembro das canções que muitas vezes nos fizeram guiar os próximos passos. eu tinha parado, e o meu olho tinha se fixado nela também: talvez essa fosse a minha desvantagem agora.

segunda-feira, 8 de março de 2010

dialética

o cansaço me ocorria
como um animal enorme a me afundar as necessidades:
porque eu não fiz nem as coisas que eu sabia fazer.

eterno presente | 6

uma cartase me contemplou agora; embora achasse isso contraditório. eu queria imaginá-la em uma situação sem a intenção degradante da fala - quando ela gritava, isso era possível. então eu voltava às nossas danças sempre. eu voltava ao ruído do jazz que era ela. eu voltava para o oscilação, para o balanço que ela tinha mostrado para mim. eu ouvia uma música contínua que ora me dava luz, ora me apresentava o breu. porque o jazz era isso: a tensão e o relaxamento; assim como a entrega passional que vai da extrema euforia à melancolia profunda. eu sei, eu a conheci. foi ela quem fez o samba do começo, quem torceu muito os braços e trouxe a alegoria toda com ela. ela não projetou riso em mim, não depositou nada porque o verdadeiro sorriso já não traz movimento nenhum. por isso, talvez, que eu entendia que o seu exagerado balançar de braços era uma intenção vazia, heroicamente vazia, para impressionar. eu voltava ao jantar calmo que tivemos, a calma que tivemos em tempos bem mais interessantes do que estes. porque eu esperava por uma nova intenção que fosse regada pela sorte. eu tinha optado pela arte, acontece que agora estava entregue ao acaso. ela era o acaso.

eterno presente | 5

talvez eu tivesse entregue uma canseira ao tempo. de toda a minha satisfação e disponibilidade, imaginava já estar farta de expressar força sobre ponteiros tão gastos. esse decorrer de horas era inativo, então eu ficava imaginando o que, possivelmente, poderia ter me trazido até aqui. muita coisa era absurda; se me perguntarem quem foi gabriela, eu diria que diferente de marcela que foi uma mulher enorme, gabriela foi uma mulher de verdade. meu conhecimento, meu pensamento nela representava um capítulo:

"cairia por terra a minha tentativa? hoje, acordar me desconcerta. faço dela uma imagem sem encaixe, quase vazia. eu não morri, talvez aí a origem do empobrecimento da minha queda. a morte era uma mulher que libertaria, como uma espécie que confiava na alma, na vontade do corpo que fazia da quietude um entendimento para a alma dela. eu queria cooperar no desenho da história, acontece que essa história foi a única história minha que tomou mais lugares do que tempo - e isso eu desconhecia, daí a minha tolice em relação ao corpo dela também. ela, na cama. eu a olhá-la muito e a pretexto de nada (como capitu, e marcela, e todas elas). ela teria que ter tido fundamento na discórdia. eu não exigi o controle, eu não perdi o corpo para outro. eu não entreguei a minha misericórdia, a minha tristeza, a minha pequena destreza. eu me coloquei na sua irracionalidade como se tivesse voltado a ter a idade dela quando essa insatisfação me ocorreu também, anos atrás. eu a entendo, entenda. e faço do meu entendimento uma continuidade da vida, e não uma ruptura. se eu tivesse enlouquecido, se tivesse perdido a cabeça, talvez a tivesse encontrado. acontece que, dessa vez, me bateu em meio a idéia uma dúvida conceitual, puramente acadêmica. eu me formava diante dela como se eu fosse uma defasagem de anos em relação a mim mesma. eu me via nela. nela, eu via o que eu tinha sido de mim um dia - a tratar do caos com frieza. porque a frieza, a crueldade da mulher é ainda maior diante de outra. eu via nela um exército que me abateria os brios, que me derrubaria o corpo no chão e o rosto por muito tempo. eu tentava montar uma postura que se mantivesse em pé, sobre os tolos pés que tinha, como ainda a contemplar seu tempo de dúvida. há coisas na vida pelas quais não se deve agradecer nunca? a dor tornaria a volta mais fácil, acontece que eu desprezava a volta agora. se o acaso havia feito tão bem às coisas, retroceder me parecia ousar em uma direção abstrata, contrária a nebulosa vontade dela. eu tentava andar, mas as minhas pernas ainda falseavam um pouco - talvez marcela estivesse a me ocorrer outra vez. ela tinha me inundado: como marcela, ela era uma onda gigante. se me perguntarem quem foi gabriela, eu direi que, assim como marcela, gabriela ela era onda gigante de óleo também."

ela tinha deixado nas linhas coisas ditas que eu também não entendia. talvez o meu exército a tivesse invadido também - porque os excessos que eu cometi não me fizeram desejá-la mais: eu já a gostava com tudo que tinha. eu tinha entendido isso como algo belíssimo também. o debate sempre gera necessidades.

eterno presente | 4

queria pensar em tempos de maior racionalidade. em tempos menos quentes, mais desgastados. antes tivesse surrado completamente o hábito, ou tivesse tornado o vício irretornável. porque agora eu não conseguia mais olhar para ela sem ver tudo que a envolvia também. gostava dela antes, quando ela ainda reclamava - alegoricamente, eu lhe punha sorriso nas fantasias. hoje, talvez, eu a prefica calada, a tornar a espera um pouco mais sábia. porque se me perguntarem quem foi gabriela, eu direi que gabriela foi uma mulher que não calou a boca, nem fechou as pernas. uma vez feita dela ficção, ela já não poderia mandar na aventura que insistiu comigo, daí a necessidade de torná-la escrita tão rápido, de não perdê-la de vista. de não parar muito em seus olhos: ela seria o meu próximo trabalho. como marcela, se descoberta, ela deixaria de existir. eu imagino que a mulher dela era um bicho ainda maior que o meu; e a sua preguiça era imensa, imersa em tanta vaidade. eu penso na beleza do rosto dela, e me cai sobre a lembrança uma martelada, uma britadeira que não pára nunca. assim como no instante de criar marcela, gabriela já tinha me tinha feito perder muito o sono na discussão minha de pequenos desprazeres com ela. não me tornará mais sábia a sua volta, nem menos feliz o seu encanto. eu me encolhia no seu encanto, ao contrário dela que se esticava na minha presença com outros. a sua beleza não precisava ser contada porque eu a via com clareza. porque eu a gostava, agora, sem todas as ironias com as quais tantas vezes gostei. de certa forma, tudo estava perfeito agora.

domingo, 7 de março de 2010

eterno presente | 3

se me perguntarem quem foi gabriela, eu direi que gabriela foi uma mulher que teve muita pressa - e que gritou muito. porque eu me lembro dos seus gritos me ensurdecerem e me vem a cabeça a imagem da imensa força que eu fazia sobre os ouvidos, as palmas abertas e os dedos entregues ao ar a tampar de mim o ruído irrisório da sua voz. mesmo depois de pensar muito nessa circunstância, o silêncio inventado que eu encontrava no seu grito fazia recriar em seu rosto uma expressão doce. como se aquela raiva pressuposse o grito e o silêncio, a quietude não estimada de nós trouxesse uma graça que eu não imaginava mais existir. as coisas boas puxariam as manias, e isso se tornaria uma mania com o tempo também. abafar um som não vai torná-lo menos agudo: eu já achava essa sitação gravíssima. agora, como se ela depositasse as coisas em mim, eu me opunha a ela diferentemente da postura que outrora assumi, de abrigá-la muito. porque no desgaste de pequenas misérias, muita coisa já tinha se perdido. já tinha tornado sua bolsa um conforto, seu colo, seu tempo um conforto sem explicação. assim como marcela, gabriela também contraía a atenção como doença. e eu fazia da sua doença uma alegoria para ela no começo, acontece que eu demorei demais para contar as horas, e para entender quantos dias haviam se passado desde que o meu bicho havia saído. porque eu senti o meu bicho, aquela preguiça enorme que eu tinha, se arrastar ainda mais. talvez na tenativa de adoçá-la, estivesse a torná-la intragavel e só: foi nisso que eu fiquei pensando.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

eterno presente | 2

bem diriam os cegos que o amor não está a passear despercebido. se sentido ainda fizesse isso, tanto gosta, imensamente, que seu gostar se perde em outros olhos cuja profundidade já não existe. talvez tivesse chorado por olhos rasos demais - e pela demasiada importância que deu a eles, pudera outros já o terem notado agora também. teria mesmo perdido de vista os olhos que brutalmente viu? talvez tivesse recusado o recusado olho no momento da perda. talvez tivesse ficado cega, e então enxergado que a pena que sentia não valia pena alguma. no abandono faltará tempo. e se é preciso ter coragem para fugir, imaginava ter ainda mais coragem para ficar, entregar-se. porque ela praticou a entrega, e depois, com as pernas que também eram minhas, pos-se a correr. e o que sobrou foi uma mulher tonta - como se a estupidez lhe tivesse caído sobre os ombros, e uma voz fina e pontiaguda lhe tivesse atribuído um pouco menos de graça. porque as flores não chegaram, e os planos não aguentaram tanto tempo também. sonhar não a tornaria mais bonita, acontece que a gora nenhuma alegria traria de volta o tempo do romance. bem diria, sabiamente, o tolo sobre a paixão: ah, amantes, sejam cuidadosos nesses intermináveis primeiros dias!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

eterno presente

O INSTANTE DE LIBERDADE:


a sensação que eu tive foi de um retrocesso. foi como se ela tivesse acordado e deixado de querer simplesmente. porque eu não vi motivos, eu somente vi os olhos dela que tremiam: foi como se ela estivesse vendo alguma coisa que eu não enxergava. antes fosse somente o corpo para tirar da casa. acontece que ficou marcado, além das minhas costas, o meu gostar declarado por ela. como se fosse um gato, eu me encostava nela - e tanto fiz de seus olhos um abrigo que me vi perdida dentro deles, a refletir sobre nada. a mulher que ela era se transformou em um vão para mim. foi como se toda a minha importância tivesse parado e eu fiquei fora, junto ao meu desentendimenti, fazendo fila na porta. eu senti um quarto que diminuia de tamanho - e eu me senti encolher também. ela tinha aquele rosto em que se desenhava o céu. as nossas danças eram sempre muito tranquilas, a nossa valsa era incrível: ela era o rítmo que eu não tinha. eu me transformaria em uma dançarina por ela. ela era um jazz. e agora, eu já não sabia para dizer quem eu era para ela.


eu sei, eu lhe disse: a gente não precisa fazer nada se você não quiser. então, outra vez, seus olhos caídos vieram para mim. aqueles olhos deixados de lado, esquecidos na cama, no quarto, na luz que não tinha: é, eu me lembro perfeitamente. talvez a sua ausência me ocorra agora com algum sentido. eu fui, mas deixei de ir também: eu achei que a ausência era eu. porque eu ainda me lembro de ter me imaginado como outra qualquer. e o beijo teve outro tempo - aquela noite durou três noites seguidas. ela não ameaçava nenhuma expressão. não voltou a trocar a posição do corpo, nem a querer as minhas roupas para ela. eu perdi a minha vontade também. era enlouquecedor ver perder o ideal do outro.

eu senti como se aquele quarto minúsculo tivesse voltado a ser enorme. então uma distância entre nós, uma espera interminavel, uma defasagem de anos. ela me olhava como se eu fosse uma entranha. confesso não tê-la reconhecido também. porque eu poderia ter amanhecido ao seu lado, dormido, sonhado com sonhos melhores ao seu lado. acontece que não houve aviso do tempo quando me ocorreu isso. o meu pensamento nela representava uma capítulo - então eu imaginei largá-la muito fácil. eu vi seu corpo cair. se seus argumentos tivessem acabado, eu pensava já não existir mais nada também. porque eu tive que aprender a lidar com o silêncio dela de repente. em um instante, eu procurava espaço; no outro, eu procurava uma parte não beijada de seu rosto. ela procurava em mim o corpo como um todo, como a consolar o seu tempo de dúvida. ela era óbvia - e eu era dela.


a sensação que eu me lembro foi de uma abandono - e de uma platéia. foi como uma multidão que olhava para ela. quando a arte tratou da crise, a crise tratou logo do beijo. acontece que eu não me prestaria a seus beijos mais. eu encolhia os olhos, franzia a testa. ela torcia o corpo, cobria as pernas - e a referência que eu tinha distorcia-se. porque quando eu pensei nela, imediatamente tive vontade de escrevê-la. talvez fosse extremamente poético ver uma mulher assim. eu saí dali. eu me vi curvada, sentada na cama a contemplar nada. e ela, ainda deitada como uma mulher sem defeitos, a transferir para a minhas costas uma carinho qualquer. assim, um dia se tornaria vários. porque eu pensei em levantar, descobrir deu corpo, espantar seu frio, sacudir-lhe a cabeça. talvez qualquer explicação me servisse - ou talvez eu só precisasse dormir um pouco. porque eu entregaria muito para ver de novo aqueles olhos dela, fundos de paixão. e ver outra vez o sorriso que ela mostrava no rosto e que se formava sem mexer quase nada. porque a sua voz me fazia procurar seu corpo - e o seu corpo me trazia para perto para ouvi-la falar. eu estava encantada por ela.

talvez tivessemos perdido horas nessa brincadeira. então agora eu sentia a presença de outras pessoas. eu sentia outras pernas, mais meia dúzia de braços e de cheiros. eu sentia o meu corpo puxado, e sentia o corpo dela abraçado por outra pessoa: eu enlouquecia.



dela, eu não tive só ciumes, eu tive muita saudade.

foi como se ela tivesse quebrado as pernas, as asas da minha imaginação. eu senti não poder nada - vai ver ficar velho é assim. o eterno presente que eu pensei fez de mim uma verlha eterna. porque eu fiquei ali sem saber se ela se cobria para sair ou para ficar presa mais tempo. eu entendi que ela tinha me levado até a porta para ter certeza de que eu tinha ido embora. eu falei, eu avisei para mim que o tempo nunca deveria ser um fator de desistência. acontece que eu tinha ido embora mesmo, eu tinha desligado, descontruido como se aquela noite nunca tivesse existido. no dia seguinte, nem lembranças me sobraram. eu ainda percebi o seu sorriso como uma brisa tentando me acordar no outro dia: desisti. porque houve um clima, e houve uma guerra logo depois. e veio um riso histérico e um esquecimento que me comprimiu contra o chão - eu pensei ter perdido a vista nessa hora. eu achei que eu terminaria nas coisas que eu nunca tinha dito. talvez por não ter feito planos, ela não me permitisse tanto mais agora. porque o meu estranhamento não era em relação a ela, entenda, mas as coisas que dissemos. ela ainda era a mesma, acontece que agora eu não mais a imaginava dizendo as coisas que disse. foi como um discurso que faltou. um dia que não chegou ao fim. foram esses buracos que me tiraram o sono. eu era dela - e ela era outra.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

carteios | 2

acordei. não tinha dormido. talvez depois de ontem tudo tivesse voltado a ser como era antes - porque eu voltei mesmo todas as roupas velhas para o lugar. eu não disse nada, eu sequer abri a boca. se dependesse da minha vida, pudera eu já ter morrido bem antes. desisti de contratar o tempo, e de indenizar tudo. não há nada diferente, apenas imagino uma contradição qualquer. ainda lhe gosto, como em tantos outros tempo fiz. não tornarei, nem falarei o óbvio. eu escrevi um texto: eu mudei o mundo hoje.

carteios

a segunda tentativa de redigir uma carta vem da insônia (das muitas que me têm ocorrido em dias como esses). entendo, agora, que dormir não é apenas deitar-se com as coisas que foram, mas acordar diante delas como se elas fossem uma parte impossivel de mim. todas as vezes que o beijo tratou do queixo e o queixo tratou logo de torná-lo o melhor beijo de todos eu não tive dúvidas.impossível seria tratar de um tempo desse como sendo um tempo qualquer. agora mesmo, você me volta à memória. até a memória me volta você, como quem chega a pretexto de nada, a olhar-me muito. se a justiça existisse, assim como todos os meus arrependimentos, eu a mataria. porque eu já tinha matado antes por beijos bem menores do que estes seus. entenda que a necessidade do aplauso já não existe. a necessidade de tornar a vida outra coisa, a necessidade das roupas já não existe. e se a nudez era uma roupa que poderia cair justa? agora eu acreditava que sim. essas cartas não tem cópias - das palavras que me serviram de inspiração: hoje me fazem inspirar você.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Velha Eterna | 7

(...) A carta do louco mais parecia um livro. Ele começou:

"A minha vida nasceu agora. O meu olho se desdobra sobre essa parede mágica ao meu lado. O meu lado, esse lado inútil sobre o qual resolvi deixar descansar meus ombros, já não me interessa. Eu sei, as pessoas ainda se desinteressariam bem mais em relação a mim. Caso minha loucura fosse boa, eu não teria sido jogado para fora. Aqui dentro, nada existe. Existe aqui, eu. E eu não vi passar o verão desse ano, nem dos últimos sete que vieram antes dele. Não me ocorre, agora, qualquer outro inverno em que tenha sentido desconforto também. As flores e folhas que cairam não pousaram perto daqui. Não dormi. Não comi nada. Não declarei as melhores intenções do sexo a uma mulher boa - nem a uma mulher vadia. Não estranhei. Não amei. Mas talvez se tivesse amado tivesse sido, também, um homem mais decente. Hoje, já nem me digo homem. A sensação de ver um louco falar é semelhante a de ver um bêbado esforçar-se para marchar firme."

A carta que ele fez foram todas as coisas que eu tinha. A mulher não deixou que a atenção da carta a tirasse da situação. Talvez eu tivesse perdido a vista nesse momento. Acontece que eu, ao contrário dela, tratei logo de escolher um lado. Dessa vez, não - pensava ela. Eu sei, eu a conheci. (...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Velha Eterna | 6

(...) O próximo poderia não existir. Se um texto deve incidir sobre um fato concreto, um completo devaneio não deveria ser digno de um texto para exprimi-lo. Talvez uma mulher nua diante disso não tivesse argumentos também. A essência dela poderia preceder a experiência, mas quando? Antes de tornar a virar a página, passou a mão por cima dela diversas vezes. Às vezes, o peso. O pescoço caiu um pouco e a mão foi posta atrás da nuca. Nunca tinha lhe ocorrido nada assim antes. Teria que aguentar o peso da cabeça sobre os ombros e o da curiosidade sobre os olhos, debaixo das pálpebras. Era incrível o que se formava diante da nova folha virada. Imaginava como fazer para conduzir tudo aquilo. Imaginava o que a poderia ter trazido até ali. Nem sem os critérios pressuporiam justiça, então aquietava-se. Puxou o cabelo e analisou as veias azuis - infinitamente azuis - que tinha no braço. Apoiou as mãos no rosto e o rosto no corpo inteiro. Era essa o cansaço que tivera da leitura da carta da prostituta. Agora as coisas seriam diferentes. Eu teria participado daquela cena se pudesse porque era belíssimo observar uma mulher que tem cuidado descuidar-se constantemente. A segunda carta era a carta do louco: (...)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Velha Eterna | 5

(...) Depois de um princípio quase místico, achou que não fosse preciso desmentir tudo depois. Se imagina, supondo o que poderia estar ali, diante dela nada mais seria necessário. Pensou não dormir durante esta noite inteira. Pois que agora, diante dela, a carta de uma prostituta.


Brincar não vai tornar nada real. Eu já sabia que o afeto vinha aos montes e todo pedaço não tocado do meu corpo tinha calhado no mesmo lugar. O prêmio sempre tem intenção - o dinheiro, o galanteio do homem: sempre tem intenção. Eu sou praticante de uma vida sobre-feliz. Eu sou o lado clandestino da história. E se a prostituta não tem um lado legítimo para defender, eu não tenho mesmo. Eu preferia ter uma emoção legítima para defender um vilão. Alguém em uma língua estrangeira diz o que eu já deveria estar fazendo: olha o teatro que ele está fazendo! A admissão do adultério: tratar a dor que agora sente porque a vida de todo mundo é meio parecido. A gente quer ser diferente, mas a gente quer muito mais ser igual. A prostituta saía na rua usando um vestido que praticamente a despia. Se não tinha pudor? Certamente não tinha. A loucura tem de ser uma louca: uma loucura viável. Há pessoas que se aproximam com certa cerimônia - mas é claro que há tietagem. A primeira vista, eu fui séria há muito tempo. Uma mulher de alma mais velha do que a aparência? Impossível, eu tinha crescido como um arrombador de portas em potencial. É a prostituta, essa surpresa. Algumas coisas eram muito lindas. De decisões solitárias e perigosas: em dez anos a prostituta errou. Tratou de homens que eram frágeis em um dia, mais frágeis ainda em outro. A prostituta também era humana. Erros pequenos foram graves, mas a timidez precisaria de mais tempo para ser entendida. Era uma profissão em que se era acusada de várias coisas - então vinham as respostas às perguntas incômodas. As criticas justas vieram depois. Eu via uma arrogância muito perigosa: conforme o tempo passava, a prostituta diminuía a letra. A superficialidade era da natureza dela porque não havia nada mais superficial no mundo. Pulverizava pequenas notas sem deixar nem escândalo, nem fama, nem remorso. É lógico que o advento é um evento que a prostitua usa. Cinquenta milhões de ossos já passaram por ela. A observação da vida dos outros era a vida da prostituta. E se ela morreria de inveja? Não, não morreria. Aquilo era divertido porque não era sério.


Era divertido porque não era sério? A nudez era breve. Lambeu o dedo, virou a página, passou ao próximo. (...)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Velha Eterna | 4

(...) Como muitas vezes foram as cartas que fizeram acontecer grandes relacionamentos, cartas de mensageiros ocultos ou de grandes amantes ainda faziam com que ela perdesse o riso da boca e entre os dentes. Porque os homens de hoje escrevem cartas que não trazem nada que lhe consiga afobar o desinteresse por completo. O interesse ficava quieto, irrepreensível. Eu imaginava essa mulher como uma mulher que não escrevia cartas imensas nem generosas. Ela simplesmente pegava a beleza dos desenhos e colocava frases ao redor. A beleza era a beleza do rosto que tocava o canto do olho e o entorno da boca. A boca era lisa e quase nula na ausência das palavras. As palavras eram as mesmas palavras das cartas imensas que nunca escreveu. Essa mulher a qual volto a me referir ganhava o prazer do sentido das coisas alguns momentos depois do sentido ter atingido todo o resto. Às vezes eu acredito que ela planava dentro de uma bolha, de um grande círculo que filtrava tudo o que vinha de fora. De fora do quarto, o sol já tinha começado a tombar e as sombras dos móveis tinham começado a tombar sobre o chão também. Ela tombou ainda mais sobre o calhamaço de folhas. As folhas deitadas tinham um significado: ela pensava que folhas deitadas pudessem ser ainda mais dedicadas ou menos arrogantes que folhas expostas. Não faria uma exposição delas. Depois de terminar de desenrolar as folhas, foi como se uma grande gota de água lhe tivesse caído na frente dos olhos – porque a visão ganhou largura e perdeu nitidez. Ela pensou ser uma mulher nua diante daquilo. A nudez era bela e castigável? A veemência era. (...)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Velha Eterna | 3

(...) Acho que passaram seis dias desde que a decisão de voltar o tempo lhe ocorreu e lhe caiu sobre o corpo de forma concreta. A decisão de ir em frente nem sempre vem dos passos. Sair do ócio se tornaria um vício agora, então abraçou com as mãos os papéis, agora, livres do elástico. A sensação de liberdade poderia ser compartilhada? Imagina que sim. Soltar um homem como uma pipa, um cadarço de tênis, um fio da meia-calça: tudo reinava sob a imensa asa das palavras. A liberdade tardaria a chegar, como outrora fez, então descreveu a cena mentalmente. Uma menina que se torna mulher talvez não tenha o direito de voltar atrás. Pensou em outras tantas pessoas que tinha conhecido até o caminho que a levou ao quarto. Um menino cego perderia esse momento, um menino paralítico, um menino morto perderia esse momento também. Alegrou-se por estar viva, mas chegou o movimento dos ombros e dos dedos do pé a tornar-se óbvia. Sentia-se ordinária e sem nenhuma lembrança vaga – um quase nada de memória. Apoiou o pequeno calhamaço de folha no chão entre as pernas, sobre o carpete, por baixo da testa e da curiosidade. Vou voltar a ser criança, repetiu. Apoiou o corpo na perna como quem apóia o resto todo no mundo. No apartamento, no espaço do closet, sentiu que uma fobia a poderia dominar. Finalmente uma sensação com o sabor excêntrico da repartição. Partiu os lados do calhamaço, desenrolando com lentidão e desapego. Quanto mais as folhas se abriam sobre o chão, mais lento o movimento ficava. E se nada aparecer? Eu teria pensado nisso. (...)

o limiar do ensaio continua

tratar de um homem como quem trata de uma tábua. toda vez que leio as frases que ela disse, vomito continuações. das pontuações a mais, já pensava estar farta - eu me acabo pelas coisas que ela disse imaginando ser uma parte de mim. o vômito tratou da crise, e a crise tratou logo de vomitá-lo. os finais não tem fim.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Velha Eterna | 2

(...) Talvez um dia ela ainda pudesse executar um protesto. Entre as pilhas de caixas vazias, estava colocado ali um monte de folhas enroladas presas por um elástico fino. Tombou um pouco a cabeça a fim de alcançá-lo primeiro com os olhos e depois com a interpretação. Uma mulher cuja interpretação muitas vezes falhou ou falou bem menos do que o esperado talvez pudesse fazê-la conter o entusiasmo agora. Entusiasmou-se. Tratar de um homem como ele merece seria inutilmente destratá-lo, então continuou. Uma mulher que desconsidera a curiosidade torna-se adulta. Na reluta que existe em crescer, tratou de deixar que os olhos caíssem logo e ainda mais sobre as folhas no fundo no armário. Vou voltar a ser criança, lhe ocorreu. A felicidade de alguém que pula fica visivel quando se chega ao chão, sendo assim, esticou o braço para alcançar as folhas e reclinou o corpo como um todo para voltar a pensar com a imaginação que teve há vinte anos. Sentou o tronco no chão e então vieram as mãos a rasgar o enfeite que mantinha intacto o calhamaço - entenda que tudo que exceder o número de uma página já pode ser considerado um livro grande e de dimensões intelectuais consideráveis. Para ela, a inteligência eram as relações secretas sobre as quais se tinha habilidade de manter. Em um desdém, arrancou o elástico. (...)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Velha Eterna

Acho pouca tanta coisa demasiada. Se o sentido está justamente em entender a relação entre duas pessoas diferentes, porque passar tanto tempo dedicando-se a outras cujo sentido já não existe? Uma mulher nunca chegará a chamar um homem melhor do que ela para pensar em adversidades. A necessidade vem sempre do erro, só assim a entendo. Depois de muito deixar de lado sapatos que já não lhe cabem nos pés, essa mulher a qual me refiro entrou em uma crise estética – talvez até característica da idade. Dizem que as mulheres quando beiram o abismo dos quarenta anos podem mudar radicalmente de comportamento porque se a sua beleza já não existe como outrora idealizada, ela pensa já poder ser jogada no lixo também. Talvez a minha vantagem tenha sido não ter entendido isso com muita clareza. Eu imaginava se era realmente possivel que em vinte e quatro horas de vida alguém pudesse mudar. Ela ainda reclamaria muito. O desejo moveria o homem, mas qual era o risco de ser mulher? Talvez o desejo dela só brotasse como monstro em outro lugar: o limiar da loucura fazia com que ela mudasse os objetos pessoais de lugar diversas vezes seguidas. O desejo tinha se apresentado de uma forma imbatível. Um pacote de biscoitos, metade de um queijo, meio litro de suco de uma só vez. Controlar o desejo seria uma forma de sair da infância para ela - feita essa consideração, essa mulher tinha vontade de comer e desejo de xingar muita gente. Vontade de romper eu também tive. Tem gente que não gosta das coisas da vida. Atravessar talvez fosse uma liberdade que a deixaria mais feliz. (...)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o ensaio do ensaio

EU MUDEI DE CARGO. de mim, passei a ser a outra. passei a ser a mulher que eu fiz para dentro de mim - e depois pude contar mais três cópias dela pela sala. um espécie de prova cabal, eu pensava. quando foi instintivo, o meu bicho saiu. eu só tinha as coisas que eu guardava: agora eu tinha imagens que eram sonhos. eu penso já não querer entender aquela mulher. penso já não querer saber se ela se contorcia para sair ou para ficar presa mais tempo. a força que o corpo dela trouxe saiu pela ponta dos dedos e terminou nas minhas costas. uma mulher pequena não deveria ocupar tanto o espaço. não deveria por os braços no chão. agora eu via nela a mulher que eu criei. e via nessa mulher inventada a segunda criação dela - a mulher que se machucava o tempo todo. a mulher que ela criou era assim: cheia de machucados, de dores, de um prazer imenso em relação a ir e a ficar parada.
EU PAREI PARA FICAR MAIS TEMPO. eu achava que a espera era tempo, que a recompensa, que a paciência era tempo. gostar de mim talvez fosse pouco, então eu gostava de outro. eu queria ter entrado mais cedo para a festa, ter deixado mais tempo no mundo das trocas. acontece que eu troquei o acaso pelo engano. o engano pelo encanto. o encanto pelo encanto da cena da mulher que tem o nome mais comum de todos. ela fez de uma mulher de palavras uma outra de três dimensões. ela fez uma mulher cujo corpo virava, cujo olho, cujas unhas sangravam. eu não sabia dizer se ela tinha raiva ou se tinha pressa para ir embora. eu não sabia se ela queria deixar o corpo ou sair dele. caso ela já tivesse saído, a sobra dela ainda carregava uma força, uma depressão da vontade. o breu não tinha olho.

EU DESCOBRI QUE O MEU BICHO ERA UMA PREGUIÇA - eu fiquei à vontade com a idéia de ter gostado de ter mais gente do que eu em mim. quando a música cresceu, eu imaginei ter experimentado a surdez. vai ver a surdez era exatamente assim.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

minimamente

às vezes a gente pensa demasiar a crença - pensa em elevar a crença pequena a um limite além do razoável. a minha vontade era encontrar uma mulher que fugisse a regra, que pulasse o muro, que inventasse o caminho e não deixasse rastros com isso. em geral, eu adotava meditas criteriosas. minimamente, eu sempre errava no cálculo. eu punha peso demais, eu excedia. eu elevava e causava êxtase. o meu encantamento era um deleite sobre as coisas que já não proporcionavam nada. por isso eu só estudava o que me dava prazer - o contentamento em relação a um objeto conhecido tende a ser ravoável. se não for, contudo, eu ainda teria as coisas - e tudo mais que existe, tudo mais que é inanimado - para experimentar. de forma real ou aparente, eu poderia ir até o fundo das coisas. ele possui poucas coisas, penso eu, mas o que ocorre em seguida é que isso também não passa do curso natural das coisas. e eu tinha mesmo coisas incriveis, coisas do arco-da-velha. eu morria de velha. e a gente era toda a humanidade que teme a morte. a gente, toda a gente: as coisas que falam.

a graça é um favor

todo mundo teve na vida
pelo menos um homem que não teve graça.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CURTA SANTOS 2009


BRANCO: Admissão de todas as cores. O gelo é branco.O dia nublado na neve é branco. A folha de sulfite é branca. O leite, o dente, o branco do olho é branco. O sêmen, o dente, o branco do olho é branco. A espuma. A paz, a pomba, a pomba da paz é branca. A luz é branca. O rei é branco. O teto é branco. O remédio é branco. A parede, a maca, o hospital, é branco.O cabelo, o homem é branco. A maca, a parede a luz, o homem, o paciente é branco. A paciência é branda.


PRETO: Ausência de todas as cores. O breu é preto. O que é escuro é preto. A sombra, a noite, a falta é preta. A caneta que escreve na folha de sulfite branca é preta. O gato da sorte é preto. O café, a sujeira, a cegueira é preta. O pó é preto. A lista é negra. O rei é preto. O básico é preto. O cacetete, o fundo, o caviar é preto. A tarja do remédio é preta. O preto do olho é preto. O cabelo, o homem, o fechar dos olhos é preto. Fechar o olhos é prático.

PRATICA-SE ENTÃO A SUSTENTABILIDADE.
(...)

trecho do DOCUMENTÁRIO feito na Faculdade de RTV - UNIMONTE no 1º semestre de 2009 chamado PROJETO:CORTIÇO - com o tema de Sustentabilidade. O filme será exibido no CINE-ROXY DO GONZAGA, a partir das 22hs na quarta feira, dia 16/09. Estamos concorrendo na MOSTRA COMPETITIVA Olhar Caiçara Universitário DO CURTA SANTOS 2009. Segue abaixo o LINK para votação ___ PROJETO: CORTIÇO.

http://sat.grupoatribuna.com.br/tvtribuna/2009/curtasantos/galeria.asp?categoria=2

_______
equipe técnica:

direção CLAYTON GALVÃO
assistência de direção e roteiro NOELLE FALCHI
produção executiva SUSAN HORTAS
produção LETICIA BAMONTE, AYENNE CARRIÃO
câmera e direção de fotografia GABRIEL BARBOSA
assistência de câmera BARBARA RIBAS
direção de arte MARIA VITÓRIA SIMÕES
edição e finalização GABRIEL BARBOSA

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

o mês está acabando?

agora eu tento imaginar o que me trouxe até aqui. se esse pedaço agora é meu, a única coisa em que eu consigo pensar são os outros espaços que ficam do meu lado. talvez esse pedaço não seja assim tão pequeno. pelo tamanho do meu pé - e digo isso porque já o examinei diversas vezes desde que cheguei aqui - imagino haver dezoito passos até cada um dos cantos. são quatro cantos aqui, para a minha óbvia surpresa. se eu tivesse que dividir com alguém, o espaço se transformaria em meio espaço para mim. se as pessoas sempre procuraram espaços vazio e silêncio, hoje eu gostaria de um pouco de gente.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

o avesso do espectro

Agora eu entendo que talvez o sofrimento tornasse cômoda a insatisfação. têm mulheres que jogam a vida no banco do carro, nas coisas cheias de cor. eu deixei de pensar assim porque, para mim, alugar um carro talvez fosse mais cabível. eu desconhecia a maioria das coisas bem feitas e permanecia de forma a tornar lúcida a minha satisfação premeditada em relação a minoria delas. se me perguntarem se vivi em tempos tristes ou caóticos, eu direi que não. em tempos de solidão exacerbada, tudo pode se tornar opcional. o sucesso, a burrice, a beleza que eu desconfiava demais para tornar óbvia a minha inteligência - não serei lembrada para sempre. ela era uma mulher de espirros curtos - e que pedia saúde. tudo é intencional - sendo assim, eu puxava tudo para mim porque dessa forma era possível exercer uma comparação. eu sentia eco na minha voz e uma divergência de operação e de alguns tons. ela era uma mulher que só usava azul marinho. se eu parasse, pensaria já ter reiniciado o processo diversas vezes antes. se pensasse, automaticamente começaria novamente. eu desconfiava de mim.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

janelas abertas | 2

é só preto e azul, ele dizia.


na realidade essa constatação vem de tempo em que a gente ainda parava para perceber as coisas. hoje, a tomar por exemplo, eu poderia facilmente meter a metade do meu corpo para fora da janela - já que esse monte de luz aqui dentro está a não me adiantar em nada. ele relutava no entendimento. e dizia que se eu fosse uma mulher mais paciente, ele me explicaria tudo quando chegasse a hora certa. acontece que há horas estamos a ter esses debates inúteis: ele não mudou de posição, então eu me mantive extremamente quieta também. ele achava que eu era um bicho - eu já nem me achava mais mulher suficiente para isso. todos os bichos saíram.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

janelas abertas

pensava se de uma janela tão extensa como essa eu pudesse ainda sair sem perder as pernas. se eu pulasse agora, tudo estaria acabado. então eu relutava. são oito e meia da manhã e eu já não aguento mais. se dias mais longos ainda estão por vir, talvez a possibilidade de pular não seja assim tão remota. ele muda os canal como um doido. meu devaneio não vai ter fim - e esse chuvisco na televisão também não. são oito e meia da manhã e esse dia já não faz sentido para mim. talvez precisasse parar como poucas fizeram.


é só o azul e o preto, ele dizia.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

essencial

______ eis um compromisso que se coloca mais e maior. é uma inspiração humana, primitiva. de um compromisso essecial, cognitivo. da duradoura fidelidade não somente como virtude ou princípio da não-traição. existe um sentimento tão grande de gratidão pelo compromisso, que de tal forma a minha humanidade me joga, me abre os braços, e me faz um país - eu sou um X no ar, um enigma no ar; uma partícula de estima no ar. da minha essência, minha aparência que não dá nada; mas quando falo de mim, falo de todo um grupo que me cerca e que me pede por perto. o aperfeiçoamento das faculdades humanas, a polidez, A CORTESIA: tudo tempo de um tempo que se passa agora e que contrói uma ponte, e diminui uma légua com o futuro.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

fotografias

aparecida - RJ
se a vida fosse perfeita, para algumas coisas já não se daria jeito. julgava improvável uma mulher nova que apenas tinha vontade de fotografar velhos homens. porque se a vida passasse assim tão rápido mesmo, para tantas coisas JÁ NÃO HAVERIA TRATO TAMBÉM. então trava-se bem. tratava-se simplesmente de uma mulher nova a ver velhos homens por outros olhos. tratava bem dos olhos, pois - e o decoro tratava da vista que reparava nos outros. e os outros reparavam nela: simplesmente uma mulher nova a ver velhos homens por olhos que carregava fora do corpo. então tratava bem do corpo - o qual possibilitava carregar olhos que reparariam nos outros. poderia dar outros nomes a eles? imaginava que não. que sã imaginação permitiria isso? apertava os olhos e obtinha fotos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

coleções

há tempos tenho dedicado pequenas espécies de dinheiro e de minutos a fazer coleções. coleções de calças, de meias, de textos sem precedência. coleções de diversas partidas e de algumas idas sem volta. coleções de chances aproveitadas e de outras nem tanto. coleções de livros que nunca voltarei a ler, de leituras que não voltarei a fazer e de tantos outros afazeres que, de tanto ocupar-me a vida, me impulsionaram a colecionar outras formas de existir também. coleções de pessoas que fui, de cortes de cabelos que tive, de dias sem sorte, de dias de quase atropelamentos. coleções de dias que quase morri também, e de outros que percebi que o pouco que tinha vivido talvez não chegasse a ser tão pouco assim. coleções de ônibus perdidos, de pressas, de preguiças histéricas. coleções de carências sem fundamentos, de maus modos, de xingamentos diversos que eu sequer acreditava existir. coleções de instrumentos que comprei e nunca aprendi a tocar. coleções de amigos e de ex-amigos, de amores e de grandes ex-amores. coleções de e-mails lidos, de cartas lidas, coleções de lembranças de tempos em que se ainda usava cartas - e era possível ter toda aquela agústia da espera de um resposta. coleções de respostas mal-criadas e de outras tantas pessoas mal-criadas que tive que pôr a parte da vida. coleções de selos que joguei fora, de caixas de rémédios, de receitas que joguei fora. coleções de cheiros e de sensações de extremo valor que já não valem nada. porque eu fiz coleções de fotos, de albuns, de adesivos. coleção de toda a nostalgia e de todo o saudosismo que eu acreditava não ter. coleções de pessoas mundanas demais, e de espíritos que há muito já se foram. coleções de cd's e de filmes. coleções de pequenos príncipes. coleções de grandes dores, de perdas, de ganhos, de trapaças em tempos que ainda era possível saber o que as pessoas em que se confia pensavam. coleções de notas de rodapé, de capetes gastos, de tapetes velhos, de topetes estranhos, de barunhos estranhos, de intermináveis momentos de choro. coleções de momentos de silêncio em tempos em que as pessoas não tinham que pagar para conversar. coleções de gentilezas e de grosserias caóticas. coleções de caóticos emgarrafamentos. coleções de garrafas vazias, de fins, de meios, de recomeços.

e se a vida cedesse hoje?

gostaria de ter pensado em um assunto para hoje, mas nada me ocorre além de um grande declínio. talvez porque, há dois dias, eu parei com o intragável e passei a praticar ioga. regularmente, e na frenquencia que me apetecesse. o mesmo fiz com as tortas de limão, os copos de rum, as pitadas de pimenta no molho, os sonhos dos loucos delírios. se uma rotina é notável, talvez eu tenha passado a me perceber de outras formas também. mas que ficasse de lado esse grande mundo novo sobre o qual se fala - e dessas doenças caóticas, dessas cegueiras pontuais, dos maus modos dos homens, da infame boa maneira. se não se percebe, o mundo abriu um grande berreiro.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

o circo

para que se acabe com o circo, não basta matar os palhaços. é preciso tirar também os animais, os ilusionistas, o público, o mágico, o equilibrista, o domador, o apresentador, o monociclista, o acrobata, a música, a curiosidade, a lona, enfim, tudo. acontece que sempre haverá outro circo, outros palhaços que não morreram. outros animais, outros ilusionistas, outro público, outro mágico, outro equilibrista, outro domador, outro disposto apresentador, outro monociclista, outro acrobata, outras músicas, outra lona, enfim, tudo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

o homem das vendas pretas

sentou-se. que calma absurda lha havia invadido o corpo. se toda sensação futura pudesse assemelhar-se a esta em algum aspecto, ainda que sublime, estaria satisfeito. levou as mãos até o rosto a fim de se certificar de sua permanência. tateou a venda. há pouco ainda lhe vagava pela memória a lembrança de sua loucura repentina. "perdia algo, senhor?" e a sua resposta referente emergia, às pressas, entre os lábios: "perdia a cebeça! perdia a cabeça!"; e rodava em círculos, a tornar-se óbvio. poderia a consciência ser uma afeição bem cultivada? dos tontos, imaginava então um segundo homem que o homenagiava, que sequenciava longas cenas de aplausos e de histeria. talvez um homem que não gostasse de nada, que jogasse o corpo para os cantos, que suasse pela testa e pelas juntas dos dedos? era tudo muito fácil. poderia a inconsciência ser uma inconstância tão grande assim? ele pegava as pedras dos bolsos e as jogava pelo ar. pedras a atingir-lhe o rosto na volta, a afundar-lhe o queixo navolta, os olhos vendados e a deformar-lhe o nariz na volta. ASSIM ERAM OS ERROS - acontece que se os erros fossem mesmo uma depressiva força dos hábitos, haveria ainda razão suficiente para tornar novos os velhos? apertava o nó atrás da cabeça. se lhe perguntasse o que esperava com isso, diria: espero a pureza bruta da vida. a não lapidação da vida. tornar-se-ia o primeiro no segundo homem. um homem que se contradizia lentamente até o ponto de enlouquecer. porque poucas pessoas eram especiais. se a multidão fosse especial, pensava, ela seria composta por pouquíssimos. ninguém vai viver no hilário, ninguém vai tornar a casa: que bela neurose.