sexta-feira, 30 de março de 2012

e agora, você, que ainda é sem nome? | 3

[a month later] permaneço olhando. há tanta menina de bolsa que se parece com você. mas sei que você será perfeitamente reconhecível quando chegar. estacionei o carro em um lugar que espero que você não veja - gostaria que você soubesse disso. 'historicamente falando, as surpresas sempre ajudaram os relacionamentos'. eu nunca escrevi sobre carros, então seria incapaz de dizer como eles se parecem na literatura. sempre estive à pé na literatura, em um bicicleta ou em canoas artesanais e sentimentais que, na verdade, não se pareciam com nada especificamente. a vida é maluca porque nós, estas únicas coisas vivas que verdadeiramente se movem sobre o mundo, fazemos coisas loucas. eu vi quando você passou, e a sua cintura logo se transformou em uma silhueta preta contra o farol dos automóveis. auto-móveis. automóveis imóveis movidos por nós - é quase engraçado. faltava uma música ambiente, em um baixo solado talvez. na minha cabeça você usava uma calça preta e blusa (o que se confundia com a imagem negra do seu corpo contra os carros. uma trança de lado, uma pinta de lado. eu esperava. e a espera se prolonga agora que sei o lugar em que você está. tenho vontade de subir, de buscá-la, de sumir com as pessoas a sua volta, arrancá-la a roupa antes mesmo que você se dê conta do porquê. o sexo repentino nos dias de semana - e logo o que era para ser uma ideia acabou se tornando toda ela. e me tomou em seguida. eu imagino seu rosto de sobrancelhas confusas e exitadas. tudo segue um movimento próprio. seu corpo fala mais do que a própria obscenidade sedutora das palavras. as coisas ficam meio involuntárias, insolúveis, fumaças. naturalmente o chão se perde nessa hora. curiosamente, tudo torna-se chão sobre o qual eu posso me deitar e deitar você sobre mim. a imaginação constrói o verdadeiro avesso das pessoas. os dedos tocam. a imaginação transfigura em imagem. logo tudo torna-se úmido. vão desfalecer as superfícies do corpo. 'liquid heat'. imaturo e quase a beira da selvageria feminina de mulheres como você. sua voz muda, você já reparou nisso? seus gestos, seu tamanho. quase tenho aqueles espasmos involuntários quando penso. mas, por enquanto, eu espero. e a espera não é nada além de uma mulher que chegará em breve. você.

escrevo, bebo e fumo como qualquer escritor bêbado e fumante faz. acontece que eu a espero para além do sexo. e que espera humilde poderia ser essa, eu não sei. não mudarei a história em nada. não mudarei o curso da história em nada, só porque espero. há quantas pessoas esperando no mundo, nesse momento? oito e dois. malpropícia hora para esperar.

'eu preciso desligar a tempo de pagar a conta', disse o sujeito ao meu lado, em um aparelho telefônico bem velho, já sem moedas, fichas, qualquer coisa do tipo. então eu entendo, e se eu não viver o suficiente para isso? só se espera em VIDA. depois, é tudo eternidade. e a eternidade é o oposto da espera. é como uma luz que se propaga no infinito, no espaço ou no vácuo. eu não sei nada sobre a física, nem sobre a luz. mas sei, rudimentarmente, que se não houver nada em que bater, em que parar, se não houver barreira, as coisas não existem. a eternidade é isso: uma propagação infinita que não se sabe em que lugar começa nem em qual lugar termina. eternidade é inexistência. e ela nada tem a ver com a memória. o infinito não tem nome, nem forma. não tem comprimento, peso, medida possível. talvez por isso o amor seja constantemente agraciado com esta injúria. é uma ideia atroz esta.

é neste sentido que tenho questionado o amor. e talvez esta seja o melhor exercício que pensei em fazer nos últimos dez anos - ainda que ache que não vivi o suficiente ainda para me situar, temporalmente, em décadas. mas eu continuo em disparada em direção a ideia contraditória do tempo - que nada sabe sobre mim, e, eu, que nada sei sobre ele. seremos desconhecidos até quando, o tempo e eu? nós mesmos?

[...] relacionamentos são cadeiras nas quais você se senta. sala fechada, só a de reunião - e talvez nem isso.  a vida é um salão a céu aberto. você escolhe as cadeiras nas quais chove, nas quais o vento não chega, nas quais o sol pode fritá-lo até os ossos. você pode mudar de lugar em um relacionamento? ora cadeira ocupada, ora lugar vazio. então eu só sei se chove, quando chove. eu sei se queima, quando faz sol. empirismo. aos poucos você se escalda de chuva ou de luz. já não se senta mais no mesmo lugar, na mesma posição, no mesmo conforto de antes. embrutece. depois você conhece alguém que faz com que você queira experimentar tudo de novo. alguém que quer 'além de entrar, sentar para tomar um café'. mas nem errar de novo, nem acertar com facilidade. os fantasmas existem. os seus, os meus, meu bem. por isso só existe uma pergunta possível: você joga? que não seja breve.

poesia de nada

falar de horror
é
como
vencer o tédio
minimo dos dias.
você prefere ser moça ou
se
pudesse, gostaria de ter sido outra?
noutra vida, talvez,
talvez, noutra vida.

quarta-feira, 14 de março de 2012

cartas marítimas | 5

fildsville, 05 de março de 2022.

querida maria paula,

devo notar a maturidade de sua literatura, antes que lhe possa contar qualquer coisa destes dias aqui. essas palavras se construíram de outra forma em você? vejo-a verdadeiramente à vontade e isso foi lindo quando li. de um pouco de fúria e de muito ter estado dentro de copos de bebida e ou de desleixo simplesmente, consegui responder a ti, ainda que com essas semanas de ausência também. talvez a vida seja um constante conflito de admirar paixões e desprezá-las. e neste ponto, então, que penso na contemporaneidade de seu texto, nesses naufrágios indócis que a vida nos faz contemplar. e é interessante ver como, junto a ele, vejo você retomar uma literatura quase incorrigível. sinto sincera falta de nossas conversas também - talvez da mesma maneira como tenha nutrido um dó desses personagens, nada se perdeu.

'morri anunciadamente', como você disse na carta , uma morte bastante dolorida e  rápida. não se pode ficar ao luxo da beira da morte por muito tempo, nesses tempos em que desfilam tantas impertinências ao nosso redor. sabrina foi embora, mas retornou de outra forma. mais educada e esguia, um pouco mais magra também. acho que se eu ainda queria me apaixonar, era de se esperar que ela também quisesse sair em algum momento. nada mudou muito, mas, de algum estranho jeito, tudo está transformado. quanto a minha idade, é provável que eu volte a brigar com ela em breve. quando tive vinte, quis ter quarenta, quando tive quarenta, quis ter vinte outra vez. e agora, com estes tantos dias nas costas, talvez eu quisesse ter perdido um pouco a memória de algumas coisas - e isso em nada tem relação com a idade. quantos anos você daria para você hoje, minha amiga? às vezes eu já não sei mais se fiz sexo ou se só tomei um café.


quero muito voltar ao brasil. acho que vê-los será de grande alegria para mim. será que ainda poderemos frequentar os mesmos lugares de antes? fumar cigarros nas mesmas praças? faz tanto tempo que estive aí!  mas imagino que mesmo dentro de sua impossibilidade de caminhar durante esse período depois da cirurgia tenha sido de grande influencia sobre a literatura que me mandou.  santos sempre esteve como uma moldura sua para mim, você lembra quando falávamos sobre isso? agora, contudo, sinto você e este contexto independentes - ainda que haja em suas palavras tanta felicidade honorária. foi em santos que cresci, então pensei em levar uma cesta com damascos frescos e lanches, passaríamos o dia na praia - mas deixarei os biquínis em casa, dizem que os velhos começam a ir de roupa a praia depois de certa idade - levarei rascunhos para as ideias e nenhuma pressa. 


tenho escrito uma autobiografia um pouco saturada, talvez porque sabrina conseguiu desconstruir a figura literária que tinha dela. estou voltando a construí-la, aos poucos, voltando a fazer dela uma ficção vital da minha realidade aqui. tudo tem sido muito silencioso e contido. mas ela é uma nova mulher agora. encontramos um vilarejo aqui perto, há umas vinte milhas de fildsville. eles tem um café brasileiro delicioso - e é sobre esta simpatia do brasil que sabrina e eu voltaremos a existir.  tive que retomar a malemolência da paixão, mesmo que tivesse tido robusta vontade de esquecê-la.


vejo, então, que suas pernas a levarão a muitos lugares com este novo romance - e ainda mais vontade de ir e vir, da imaginação levar e trazer. a ideia do suicídio é consoladora, como disse nietzsche, e também o mais próximo que se pode chegar do sumiço. quem vai embora já não se pergunta sobre nada, os mortos já não tem opinião, não é mesmo? portanto, que venham tempos bons, e nesses naufrágios tão inacreditavelmente frágeis, sua nau faça oceanos inteiros por onde passar. mande notícias do casal. noticias suas, de pedro. deixe que eles falem por você - nesse mundo louco em que as pessoas pagam para conversar. você é privilegiada.

saudades igualmente grandes
de coisas cotidianas.

um beijo, ana.

quarta-feira, 7 de março de 2012

e agora, você, que ainda é sem nome? | 2

colocou os olhos sobre meu ombro? descanse, eu lhe disse, os dias tem sido cheios. eu acordei mais cedo, e cuidei para que você ainda pudesse dormir sua meia hora. pijamas pequenos tem acompanhado você. a cama foi reduzida de três travesseiros para dois corpos. fiz muito barulho ao tomar banho de manhã? discretamente, reverenciei para por a roupa em silêncio, a saia, as sandálias, dentro daquela penumbra do inicio da manhã, na qual você continuava imersa. enquanto eu terminava de juntar as coisas que deveria levar, a carteira, os óculos, as chaves, as contas, parei para olhar de volta pra ti. você percebeu, tanto que lhe caiu uma fenda sobre olhos, porque já estava na sua hora - vinda não sei de qual lugar - e os olhos, meio encharcados de sono, meio ainda cansados, compuseram seu rosto, o desenho todo junto ao cabelo, cheio de nós talvez homéricos. colocou os abraços ainda mais por debaixo da cabeça, esticou a boca, sorriu com o corpo todo. 'você já vai?'. eu disse que sim, não que eu quisesse, mas que já era hora [...].

terça-feira, 6 de março de 2012

e agora, você, que ainda é sem nome?

eu vou ter que torná-la um pouco ficção. para isso, ou até mesmo para tanto, para que possa dar conta de ti, eu precisaria dar-te um nome, pelo qual a chamaria na poesia e você poderia entender na vida concreta. imagino, agora, a sobreposição coincidente, ou até a organização bastante mundana que fez com que um dia raro originasse tantos dias mais. naquele dia, eu dormi um pouco perto do céu. e foi dentro dessa agradável estranheza, meio vestida de curiosidade, que eu - usando uma blusa rasgada - fiz a segunda visita. mas talvez curioso tenha sido que a atenção atraída pelas roupas - numa sensualidade pendente e imatura - tenha feito surgir interesse pelo que havia por debaixo delas. hoje, o conjunto de cabelos, nuca e costas existe. e logo, a superfície só existe a primeira vista porque depois, eu quis saber seus gostos, suas inquietações. então, se você pudesse escolher qualquer coisa para estar fazendo agora, o que você escolheria? o que você gostaria de fazer hoje, além de dormir? além do céu ambíguo do outro dia, visto por você em seus pijamas minúsculos e visto por mim, em uma tentativa impossível de olhar o céu sem imaginar o que ele significava, você viu o mesmo céu que eu? sabe aquele céu que só dura dez minutos? então, era esse. em que as nuvens rosa ficam sobre aquele fundo meio cinza, meio azul escuro. em que tudo fica muito quieto - como se fosse o único tempo que o mundo tinha pra se reorganizar. então, durante as mais variadas horas do dia, suas perguntas chegaram, seus recados, você mesma. e março chegou em seguida, cheio de seus dias de se fazer montes de coisas. foi sobre pequenas metáforas descompromissadas que olhei para você, que - de hora em hora - me fazia querer dormir menos de três horas por dia. é por isso que preciso dar-te um nome, mesmo que já saiba agora que você é um pouco incandescente e muito graciosa. feita de teimosia, dona dos extremos, de muita simpatia e timidez. até que viesse um outro dia de novo, porque íamos muito além da noite, até o dia seguinte. os dias se emendavam uns aos outros há vários dias seguidos desta forma. eu me sentia relaxada e feliz - mesmo que a urgência de encontrar teus olhos - na minha cabeça - fizesse com que eu imaginasse que não teríamos uma conversa tão longa da próxima vez (pro bem). racionalmente eu precisava dormir. o corpo precisava disso. mas pensava em pegar tuas aspas como pegaria tua cintura, num quarto de paredes esbeltas e cama pequena. tudo suficiente. induzi, deduzi, instiguei. deslizei - como você disse, sutilmente uma mão pela outra sua, um braço por cima, noutrora por baixo do seu. abraços desengonçados estes, de corpos que ainda não se conhecem. foi lindo. tal qual foi belíssima sua intenção de fumar. eu estava sentada na tua frente, você se lembra? você pediu um trago do meu cigarro. eu consenti com a cabeça, num espaço bem curto. você cruzou a perna, esticou o braço em cima da mesa e esticou a mão pra mim. e te entreguei o cigarro, e a tua mão encostou na minha por um meio segundo. você tragou e me devolveu. foi lindo. foi embora naquela hora. mas já é uma história de atemporalidade poética, algo como estar entre cervejas & tremoços. é.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

o que era para ser uma carta logo se tornou um sonoro 'some daqui agora'

pessoas indiscretas e refratárias : sobre isso, nenhuma novidade. mas parece que desceu sobre sua cabeça, ou sobre este monte de enfeite que você usa sobre e ao redor dela, uma falta de juizo, meio disfarçada de cartão de visita bem humorado. achei ridículo. não se deve falar de pessoas que não estão presentes - nem mesmo elogios. há pessoas que não conquistaram o direito de nos elogiar. é engraçado, mesmo agora que não prefiro nada que venha de você, eu gostava mais quando você se afundava naquela depressão inventada, tanta crise insoluvel, se mostrando a mulher voluntária, genio incoerente, bela e deliciosa. são imagens pesadas de se sustentar - e você não conseguiu. e logo o que era para se tornar uma admiravel confusão humana, tornou-se um amor desgostoso e mecânico. se vendeu até a alma, eu não sei, para registar sua beleza carente de hoje, mas, decerto, repartiu os orgãos por ai. os rins, e mesmo os pulmōes temem pelo pior. mas o corpo se adapta, não se preocupe. acontece que a cabeça, minha futura ex-esposa, torna as coisas insuportáveis. cuidado.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

cartas a alguem bem longe

venha deitar aqui. seus ombros. latejantes feito seus olhos. descreditados olhos. e eu, incredula de mim. misturada aos montes de coisas com as quais tive que lidar, e comunicar, e dizer que eu não tinha mais nada que me ligasse a você - o que, de certa forma, nunca deixou de ser verdade. o mundo tem uma organização tão imatura, você não acha? eu não precisaria lhe dizer que ainda existia um amor reservado em mim para você, conquistado, mas que agora tinha se tornado uma pedra num fundo de sala, um sorriso sem importância. eu sentei para esperar a vida, acontece que neste meio tempo se passaram seis meses. eu não vi? eu tinha uma imagem imutavel de você, mas suas lembranças já não eram mais nada. insustentáveis. são como soldados que me perseguiram, me intimidaram. e as paredes eram todos os lugares em que eu parava para descansar. escrevi a minha história? não só a minha. as coisas podem - e devem - ser inovadoras e revolucionarias, mas elas ainda devem fazer sentir a simplicidade. não vou mais me deitar aí, falar. seus ouvidos viverão sem mim, você, sem mim também. eu, ao contrário, vou viver dormindo menos. pois que meu samba deve sair de novo. um girassol buscando um desfile colorido. sem luzes perfeitas ou eternas. luzes ao meu alcance. meus braços humanos não precisam ser tão longos. as pessoas devem ser abraçadas próximo ao corpo. no corpo, os olhos tocam o céu. mesmo que ele não seja meu. nada é meu. mas tudo está próximo a mim agora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

cartas de alguém bem perto | 4

à suas metaforas que estão ausentes hoje:

fiz um plano para esta noite e gostaria que você soubesse disso. achei inadequada minha camiseta do jack daniels para esta ocasião, para o bar ao qual vou hoje, mesmo sabendo que você a adora por 'motivos obvios' como você disse, e eu achei uma graça. ainda tenho a impressão que vou ve-la toda vez que a coloco - ela já carrega um pouco dos seus olhos sobre mim. imagino onde estarão seus olhos de sono hoje, de novo, ou seus cabelos que me diziam 'vou dormir, venha comigo'. hoje, pus uma cor diferente no meu cabelo, tentando ser outra pessoa na hora de sair. as pessoas me oferecerão cerveja e talvez copos cheios da boemia da cidade e das noites. aceitarei, da mesma forma que aceitarei meus cigarros sem relutância. aceitarei a noite de hoje mesmo intrigada imaginando o lugar em que deve estar o seu copo, seu corpo, suas pernas. o tempo passa diferente nesta cidade. tenho a impressão de você ter pegado um onibus que deixou este lugar em que estou, o que agora me faz ter vontade de querer pegar o carro e ir também. hoje, me sinto razoavelmente feliz com o caimento das minhas roupas, e devo continuar a usá-las ate domingo. gostaria de deixar uma memória das minhas saudades sobre elas, do meu cheiro de hoje. nada deste dia se guarda? talvez vontades desastrosas - quase sobre humanas - também consigam construir histórias. hoje, ainda sinto a mesma falta de ontem, de seus cometários invertebrados sobre o passado. cidades não são nada além de fronteiras. damn, i miss you.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

out

você vai deitar de qual lado? eu só poderia ter-lhe perguntado isso. o corpo meio amolecido pela bebida, meio entregue ao cansaso, fez seus olhos se esticarem. seu consentimento estava por toda parte, mesmo que você não o tenha visto. não sei a que horas você ou eu chegamos. nem com quais pernas, nem com quais braços. mas agora eu permaneco deitada também para deixar que o mundo colecione meus interesses. quanto as minhas experiências, você nunca as experimentou, eu sei. então eu poderia sim tratá-la como esta noite bêbada e piscante. desvairada. eu poderia tê-la jogado aos pequenos bichos que veneram o corpo de meninas como você. e por você, eu digo, meio cinematográfica meio contemporânea. foi sua contestação que a trouxe até aqui? a sujeira urbana, a megalomania das histórias, a droga, os vicios juvenis e abismais? é entre a prosa e os verdadeiros fatos que existem os segredos. então eu teria que vê-la fazendo coisas mundanas, sem reverência. eu não poderia vê-la sorrir. não, eu não poderia. foi por esses cigarros que você veio? quais guerras você deixou para trás? você não diria. sua voz é estrangeira demais para mim - e a minha também seja para você talvez. vão tratá-la mal, pisá-la, mandá-la a merda. é isso que a ânsia faz com as pessoas, não é? 'tenha calma', mas isso é para mim. eu fico deitada na cama ao seu lado. imagino sua voz meio rouca, porque isso é tudo que posso. você, odiosa dos meios termos, levou meia duzia de abraços meus. nós fumamos uns cigarros e bolamos planos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

seis primeiros meses

coloquei as malas no canto, proximo a entrada. e com 'malas', eu quero dizer as sacolas de feira que consegui juntar em casa, para juntar as minhas coisas e vir para cá. fevereiro nunca foi tão quente. vieram misturadas roupas, coisas de banho, chaves, umas fivelas novas e sem uso. talvez não exista nada de verdadeiramente essencial a quem foge. descobri que tenho mais pares de sapato do que pensava, que meu ventilador ocupava muito mais espaço do que na sala, e que mesmo colocadas quase em um saco de lixo, as minhas roupas levavam com elas certa poesia. tive que trazer toda poesia que fiz até hoje comigo, como uma espécie de segurança imaginária destas minhas férias. sei, não seriam férias.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

never travel without my diary

há tres coisas a se escrever na vida.
sobre a morte, sobre o tempo e sobre o amor.




SOBRE A MORTE ///////////


a sensação da morte tem sido derradeira sobre mim. meu rosto tem se tombando mais, meu pescoço feito uma mola que tenta segurar um balão de ar no alto. há o pretexto de deixar este corpo incapaz algumas vezes e estas perguntas para acalmá-lo junto a esta inevitável finitude. noutras vezes, os palmos da morte me assombram como um demonio sem rosto, que tenta me buscar e sussurra a inutilidade das minhas desconfianças, de todos os relacionamentos que tive, de tudo. 'nada mais existirá daqui a cem anos'. então, a ideia da morte reverbera e tudo se torna como ela. da inconstancia do calor à falta de envolvimento, seus dedos tocam tudo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

izabella e suas metáforas sensivelmente reais

izabella e suas metáforas sensivelmente reais, foi assim que decidiu chamá-la. em metade de um susto, e tomada por uma pressa de viver, os pulmões pararam sob o risco do som agudo e fino de uma suposta arritimia cardíaca. houve um silencio sobre tudo até que a alteração da frequência dos batimentos fosse recuperando o curso, sem ser lento nem acelerado, simplesmente irregular, esse compasso foi voltando feito duas luzes que piscam alternadas e se encontram em determinando tempo, repetidamente. houve o pensamento de que o compasso desordenado de quem se apaixona põe danças inteiras sob pena de cairem no esquecimento. então desarmou-se. pensou que houvesse a ideia de flores belas demais no esquecimento, como dias intensos à deriva. pensa em azul. precisa recuperar o ar no impulso, ou ser jogada para fora, de um mar que já não traz nem leva nada. vai por as pantufas de quarto para trabalhar, os disfarces para viver. é tão incapaz das coisas difíceis! e nessa constatação, real e firme, sua voz começa a voltar, então aos poucos se descobre. desdobra-se como quem não sacode as roupas do armário há anos. mostra as palavras inflamadas, no espelho de vidro, nos olhos cujo calor aquece as pálpebras, que restaram como resta pouca saudade de quem ainda está vivo. 'ninguem se desfaz à toa'. sabe que são as inconveniências diárias que tornam indomáveis as chateações. mas os bichos só saem quando tem forma o suficiente para isso. então sente-se como um bicho de fora. bicho criado em casa que não soube ser cafajeste de rua. queria ser livre e original. mas a liberdade está presa a originalidade e não há originalidade nenhuma em querer ser livre. são apenas recorrências. e só há uma maneira de ter paz dentro de um furacão: se tornando um. izabella, que despertou metáforas sensivelmente reais nela.




põe um pouco os pés de lado, cruzados como se dessem um nó nas pontas. constantemente o escritor se propõe a uma dislexia imaginária. traz um cigarro a boca. há diversas noites que passa sob um desapego sem dó, mergulhada no universo da cama, sem nenhuma totalidade em relação ao sexo, a musica ou ao corpo. sente que está meio imersa em uma constante novamente, em busca de paixões nas quais pessoas demonstrem uma inteligência que verdadeiramente respeite. tinha sido interferência, e agora, quando solta essa fumaça tão densa, tão facilmente se dispersa junto. as interferêcias são as palavras ardias que não cabem na boca. 'as pessoas olham, elas observam você. isso não a incomoda?'. então leva as mãos até o ombro, fazendo quase "x" no peito, porque, no fundo, quer saber qual a textura do cabelo daquela pessoa, quer saber os olhos são tocaveis, se os ombros são largos ou se o corpo é estreito. desce correndo as escadas, tomada talvez pelo mesmo impasse de antes. 'eu caibo neste abraço?'. é assim que as coisas começam, com a facilidade da ideia de que as mãos tem de se encontrar sob pretexto de nada. os dias passam depressa, disfarçados de consolo e um pouco de fé. as dores unem mais as pessoas do que elas imaginam. é uma maneira irrisória de não estar sozinho, mesmo quando se foi deixado, quando não se está sob a pressa de ir. duas pessoas deixadas suportam, como ninguém, a outra num entendimento silencioso, de palavras sensivelmente reais, quase numa vergonha recíproca, numa nova fraternidade. izabella e as metáforas. foi assim que decidiu chamá-la.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

cartas marítimas | 3

fildesville, 13 de fevereiro de 2022.

querida maria paula.

este diario nao tem me bastado. preciso conversar com alguem. lembra que lhe disse, na outra vez, que ainda gostaria de me apaixonar novamente, antes de morrer? me perdoe minha amiga, eu estava mentindo. eu gostaria de jamais ter essa sensação novamente se pudesse. meu corpo não suportaria. a vista nao é mais bonita daqui. as viagens perderam-se em uma importância distante e nebulosa. a ausência. há fantasma de coisas repudiadas aqui. será possivel eu estar enlouquecendo? eu tenho tido a sensação de bichos andando pelo meu corpo, e as minhas pálpebras pesam tanto que minha cabeça permanece baixa. as unhas comidas, os dedos, as mãos que nao sossegam. eu nao vi os avisos? eu perdi o ar em um mundo que respira sexualidade e juventude. e agora? eu não pertenço. o meu corpo não cabe neste lugar. talvez você não devesse vir até aqui, acho que eu seria uma odiosa companhia. decidi voltar a fumar. decidi parar de procurar meus amigos, porque cada vez que conto a eles a dor desta inflamação reverbera dentro da minha cabeça. toda vez que conto a eles é como se eu fosse deixada novamente, eu me vejo sentada, sozinha, de volta ao ponto de inicio. quantas vezes você já desejou perder a memória? por que imaginamos as pessoas que amamos transando com outras, por que, me diga, esta é a primeira coisa que pensamos? não me diga que sobreviveu para além deste mal. é porque isso representa a perda, a falta de alcance? quando as pessoas se amam elas se tocam o tempo todo, nao é? diga, minha amiga, se estou inundada nesta carencia, na frieza que se tornou este lugar. luto para não embrutecer, embora meu corpo esteja se enrijecendo a cada segundo. de repente as pessoas sao seduzidas por mais paciência, por mais doçura. e esta acidez, que lubrifica verdadeiramente as relaçoes cai no esquecimento. na implicancia cotidiana, as coisas mais bonitas tendem a ser reduzidas. o afeto pede mais que amor. e o amor não esquece.

com urgência,
ana.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

à ana | 17

eu deveria me perdoar por querer tanto você perto de mim? não pelo contrato, entenda. mas pela companhia. não há regras - as regras são feitas para acordos em que se ganha muito dinheiro. acontece que tua espontaniedade não pode ser trocada por nada, adquirida por nada. então que a tua paixão ainda me enlouqueça, mesmo que utimamente eu tenha puxado mais os cabelos imaginando qual tipo de solidão colocou os braços em volta de você. sabe, essa solidão tem me segurado também - ironicamente, meu riso sucede instantes de choro. fico horas imaginando sua vontade de ir embora, seu regresso e sua distância. há buracos incompreensiveis em todas as pessoas. eu senti como se eu tivesse sido arremessada, e no arremesso, a fragilidade - as coisas se quebram muito facilmente - de estar diante de um mundo que se abre, que se dilacera. e quando o mundo abre essa fenda, ou você respira ou você é sugmerdido: eu fiquei sem respirar por quatro horas. por quatro horas o inchado dos meus olhos me massacrou as idéias. ana, tenha cuidado por suas flores, mas não apenas por elas. tenha cuidado pelo nosso quintal, pela nossa vida, pelas plantas que colocamos lá. o amor não esquece. tenha carinho por nossos dias. meus braços não podem alcançá-la se você não esticá-los mininamente. você precisa curvar o corpo, tombar um pouco mais para cá. porque senão a minha busca é vazia. meu coração ainda bate aí? você ainda o guarda como seu? talvez tenhamos trocado sem perceber. talvez tenhamos pensado que a exuberancia que nos atraiu não valesse nada. filha da puta, eu. porque se muitas vezes brinquei com a incerteza do destino e da vida, hoje esse pensamento cai sobre mim sério e firme: não há nada certo. e essa dúvida latejante na minha cabeça, e me desconcerta, que me humila. eu fui muito inocente? eu fui muito longe? eu briguei pouco? entende como as coisas perderam a linha imaginária das respostas? então não me faça pensar que sou suficiente se não sou. não me faça pensar que sou eterna, que sou mãe de seus filhos, que sou namorada, esposa, mulher sua - se não sou. não me faça acreditar que seu humor é, por demais, encharcado de acidez, se ele não é. não me faça acreditar se você não está convencida. eu me apaixonei mais por você quando você não soube, quando você teve dúvidas, quando você teve receio, teve medo. porque as pessoas não crescem sozinhas. elas crescem com as pessoas que amam - e eu amo você.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

cartas marítimas | 2

fildsville, 03 de fevereiro de 2022.





querida maria paula,

é imensa minha alegria de ter recebido sua carta. talvez exista um cansaço real sobre as pessoas. alguma coisa que as tem feito ter necessidade de desacelerar, e as faz sentir meio acolhedoras, meio quase cafonas. sinto que é bom que a vida tenha tomado este rumo, de certa forma. assumo, que mesmo todo costume que desenvolvi perante esta cidade, o frio ainda me faz perder um pouco a mobilidade das juntas do corpo - engraçado é pensar que isso que me imobiliza também me faz querer estar mais perto de sabrina, quieta e serena. os damascos ainda são tantos, como já lhe disse, e ainda me espantam como são frescos e cheios de cor. você precisa vir, minha amiga, conhecer este vilarejo - garanto que ele lhe traria grande inspiração. há uma quietude acolhedora em tudo, mesmo que estejamos sempre a beira de um silêncio quase enlouquecedor - há de haver cuidado - é assim que nos mantemos sãs. fico feliz em saber que sua cirurgia aconteceu como planejado. sinto, contudo, nao estar ai para lhe fazer companhia. você ainda prefere suco com limões sicilianos? aqui eles existem aos montes tambem. tenho saudades do mar - mesmo que o tenha visto pouquissimas vezes. e acho ninguem pode ser verdadeiramente feliz sem ter visto o mar de perto. não tenho escrito grandes invenções mirabolante, nem fugas descabidas da realidade. contudo, gostaria de me apaixonar mais uma vez ainda se pudesse antes de morrer. mas talvez isso não seja possivel. quando me mandar seus manuscritos, eu devo ter algo para lhe enviar também - mesmo que sejam coisas mais antigas. quanto a pedro, não se aflite. espero que ele comece logo as férias - porque imagino que esteja ansioso para cuidar de você, mesmo com aquele jeito mais reservado dele. o cuidado faz bem às pessoas.

espero que suas pernas se recuperem logo entao, assim como espero uma visita de vocês. posso colocá-los no quarto dos fundos, o antigo atelier de sabrina que foi feito com uma madeira bem grossa e mantem o lugar sob uma calefação quase natural.

um grande beijo,
ana.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

à beira de uma estrada vazia, ninguem pode convencer-se

o convencimento é um anão dançante a beira de uma estrada vazia. você nunca vai conseguir provar que ele existe, porque ele só existe no momento em que você fala dele. depois ele desaparece. então você tem de voltar a falar dele amanhã, e depois, e pra sempre. e ele vai se tornando a coisa mais chata do mundo - e as coisas chatas do mundo são todas meio irreais, mentirosas. tão farsantes como o próprio anão dançante a beira da estrada vazia, tal qual o convencimento - que está morto pela própria urgência que tem de existir. as coisas só existem quando as pessoas se interessam por elas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ana e as festas | 2

A JANELA POETICA
Ana e as festas.



[...] As festas são assim. Você não se apaixona pelas pessoas que estão nela, mas pela idéia irrisória da festa, pela idéia do evento que ela representa. Foi de tanto me apaixonar por essa idéia pequena que, quando conheci Sabrina, a euforia que me tomou nunca conseguiu me ensinar a calma de vê-la ou de conquistá-la. Ela fazia parte de uma celebração, de um contexto que eu não conseguia separa-la. O lugar dela era o que ela tinha para me mostar. Eu imaginei que a mulher que ela era tinha um passado interessante para mim desse jeito – acontece que isso é tão imprudente! Ela acabou por vestir-se desta condição de se mostrar para mim, eu vi, como se a importância das coisas estivesse fazer com que eu soubesse quem ela era – o que facilmente poderia nos fazer cair em uma amizade superficial. Tive cuidado. Tombei para o seu lado, meio envergonhada, meio curiosa. Era o meu primeiro ano em Fildsville e as tradições quase rurais daqui ainda me causavam um pouco de estranheza. Eu apreciava a idéia dos lareiras ligadas, das velas e das sombras que se criavam em razão disso. Aos poucos, era possível ver as casas para além delas mesmas, pequenos coloridos que surgiam aqui e ali enrubesciam a cidade basicamente branca e marrom. Existe uma agitação que toma pessoas que nao conhecem nada. James segurava a minha mão [...].

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ana e as festas

A JANELA POÉTICA
Ana e as festas.



A paixão do outro enraivece ao passo que a minha parece completamente íntegra. Eu não tive vontade de voltar para dançar com você, eu diria a ela. A dança é a forma mais imoral de aproximação. Na dança as mãos caem sob o juízo duvidoso do acaso, enquanto um se dilata e o outro se contrai, quase foge, eu tive vontade de voltar para ajudá-la. Ajudá-la a por o pratos em ordem, lavar as louças, jogar as latas, limpar a casa. O corpo tomba para o lado do outro, como pretexto de quase nada, ate que os dedos segurem cabelos e cintura. As mulheres tem inumeros lugares aos quais eu poderia me agarrar duante a dança Acontece que as festas rapidamente escapam do controle e, enquanto são o incomodo de uns, tornam-se o palco de outros. Eu tive vontade de cuidar, não de possuir; e deste zelo feito de posse, Sabrina parou a musica e apontou a porta. Seus olhos me consumiram toda. Eu nunca deveria ter chegado àquela porta com insistência – porque ali, quando eu saísse, no instante em que eu saísse, ela bateria aquela placa de madeira nas minhas costas, e subiria as escadas de volta correndo, desaparecendo da minha vista. Não coloquei o braço a frente para puxar seus cabelos, ainda que a minha vontade tivesse sido essa. Sabrina não dançou. Mas desfilou sua condição de mulher pelos cômodos da casa toda – não varreu o chão, mas sobre os tacos e rejuntes fez celebrações indígenas e reverenciou ao publico seu próprio cabaré [...].

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

cartas de alguém bem perto | 3

há uma importancia das terceiras pessoas em nossas vidas.



devo me lembrar de você de que forma, extamente? devo lembrá-la como a pessoa que me fez rodar sobre uma euforia generalizada ou como contemplação serena? devo lembrá-la como a sensação de completude que me trouxe ou como o abismo de equilibrio em que me transformou? há uma importância das terceiras pessoas em nossas vidas. e esta importancia foi a qual eu reverenciei tantas vezes e pus em xeque tantas outras. devo lembrá-la como paixão ou como angustia? como pergunta ou como confissão? como desassossego ou como permanencia? posso sequer chama-la de permanencia mesmo voce tendo estado aqui por vinte e quatro horas? a vida nunca me preparou para você, e queria que você soubesse disso. mesmo nas vezes em que eu me revelei - tive de ser meio burra, meio sem saber brincar e errei muitas vezes para te dar a vez no jogo. e nessas suas chances, você foi ao banheiro, foi dormir cedo, foi beber pelo caminho, foi visitar os pais. e eu me tornei palavras como 'quase', 'logo', 'perto'... expressões como 'daqui a pouco', 'em breve', 'da proxima vez'. então, da proxima vez, quem sabe, diga para a vida - ou para qualquer coisa que coloca duas pessoas que se gostam no mesmo caminho - diga que você não soube jogar, que não teve tato nem tempo... que não teve vontade. porque presença é pura vontade e o desgaste da saudade é de uma intoxicação sem limites.

sábado, 24 de dezembro de 2011

felicidade são horas? | 2

imagina quanto tempo demora até você colocar uma camera no rosto? e então o olho do espectador passa pelo olho da camera do filme, que passa pelo olho do personagem, que passa pela camera que simula a camera do personagem, que olha para ela, que olha para ele de volta, que na verdade, olha para nós e fala para quem vê... a comunicação é muito dificil hoje em dia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

felicidade são horas?

[...] é uma busca incansável por quem é capaz de tirar os filtros do rosto como quem se desnuda. como quem abre um roupão no meio da rua. coletivo. porque na coletividade a gente aparece e inevitavelmente se esconde. as pessoas não reparam mais - e de repente há alguem que me vê. e agora? eu não sei lidar. mesmo de longe, quase tão incomodado quanto eu, a princípio, eu me repudio dele. depois aquilo me atrai. o solitário pode agarra-se a qualquer coisa mesmo. eu não me aproximo, mas faço como uma reverência - eu quase consinto. e nesse consenimento aquilo se torna uma adoração, um documento de quem eu sou, um registro... uma imortalidade [...].

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

à ana | 16

hoje


que voz é esta sua? não entendo. porque talvez eu não esteja a me reconhecer nesses ultimos dias também. aliás, a pretexto de seu corpo é que escrevo isto. sabe, ana, quando me sento eu me sinto retroceder um pouco. queria meu corpo postado ao seu lado, como fizemos antes, mas parece que tem um bicho que me come pelas beiradas, e me tira o tato de você. é desesperador ver eu me perder de você assim. peço desculpas pelo meu abandono que talvez me tenha feito deixar um lugar, uma função, o seu amor. acho que causei um esquecimento de mim mesma, achando que nossa deliciosa paixão, alegria e proximidade jamais cairiam sob o rigoroso sistema da manutenção. eu achei que a segurança que eu tinha em você me daria forças pra tudo. acontece que de repente eu deixei de ser questionada por você, para ser meio desfigurada pelo meu egoísmo. há problemas, claro. mas eles não são, nem nunca foram você. pois que foi na sua companhia que fiz planos, que montei a vida, que sonhei de novo - que aprendi que as coisas que a gente acredita são verdades realmente bonitas. não quis me afastar, negar minha presença. eu só queria a urgência de sua companhia pela minha de novo, como tantas vezes eu quis também. quero poder curar suas carências, mesmo sabendo que nunca serei completamente capaz. quero, e quero hoje. me desculpe, meu silêncio tão pesado às vezes, eu sei - ele também é para mim. porque tenho estado meio calada aqui, em telefones, em tanta comunicação. abraça meu corpo, ana. porque eu me sinto agarrar seu corpo de novo. desculpe, agora, se minhas palavras foram vazias em algum momento... acontece que elas estiveram muito carentes também. tenho um sentimento angustiante produzido por uma saudade de nós, sobre a qual eu não tenho tido domínio. errei pouco, muito, tantas vezes, sutilmente, fui intolerante, aspera, receosa. porque te amo com um amor deveras agressivo, sobre o qual ainda luto para sair do constante enfrentamento em relação a você. você entende? por vezes ainda confundo, porque te amo tanto que volto a misturar o amor e os tantos inimigos que ja tive misturados a ele. quero ver a coisa pura que fomos, quando adquirimos a noção da verdade pela simples intuição. você sente? então estamos do mesmo lado.

domingo, 30 de outubro de 2011

à ana | 15

carta à ana, entregue em julho deste ano mesmo.



quero que você deixe essa vida, que se case comigo. que nossos filhos sejam ruivos e de olhos verdes - porque a minha avó tinha olhos cor de céu quando amanhecia quando era moça. quero que você seja a moça mais feliz do mundo, que nossos dias sejam permanentes dentro da lucidez incômoda que temos em comum, que nossas noites sejam sempre cedo demais. que nossos "demais" não sejam muitos nem muito chatos, mas que sejam sempre excesso e que nos extrapolem. que você não parta, mas que divida comigo tudo que te faz distrair ou encantar. que você cante para mim, em um canto do quarto, o quanto eu ainda a posso surpreender. que você conte comigo, porque já não poderia mais fazer de conta, que é tão somente você que desejo tomar conta o resto da vida.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

a cabine | 6

tua vez, ana.




acontece que se você me sentasse no meio de um monte de gente, você teria a sensação de ficar invisivel. acontece que você não fica. você só começa a se maquiar com os outros. começa a se confundir com eles. você deixa de ser você sem sumir. e o pior, sem sumir. o espaço é como uma calçada imensa na qual você se senta, pede uma cerveja, gasta horas, dinheiro, muita invenção pra nada. é como se você fosse perdendo alguma coisa sem fazer ideia de onde deixou. não há instante para as coisas nossas deixadas nos outros. talvez elas estejam no mesmo lugar que o ultimo guarda-chuva perdido, o ultimo isqueiro roubado sem ladrão. e quem eu fui nesse tempo todo? eu precisava mergulhar em algum lugar, mas eu só tropecei em uma poça de água no chão. lugar raso. foi entao que eu tive uma idéia.

cartas curtas de alguém bem perto | 2

muita coisa nos faz exigir.
pouca coisa nos faz completar.
quase tudo nos tortura um pouco.
pouco e nada nos basta.


agora para. para com isso agora, rita.

felicidade são horas | 3

nós ainda seremos história dos outros mesmo que esta história seja a única história possível para nós. eu subo, te vejo, quase te toco. ao mesmo tempo, balanço sobre estas rodas finas por trás da cesta de arame, em ritmo que é você quem dá. eu ando a medida que você me vê. e quanto mais você me olha, mais a vontade de continuar me toma também. tomaremos uma água de coco depois daqui? acontece que você sorri tanto que eu paro de fazer perguntas. aos poucos eu começo a aprender o silêncio, a calma de ver. eu sinto como se você estivesse domando a minha urgência - e eu continuo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

eu me lembrei de você hoje, história

eu me lembrei hoje que seu apartamento tinha um pouco de bolor. nas rachaduras infernais do teto que renderam para nós inumeras noites de dor de cabeça imaginando o tamanho do desleixo patrimonial de seus vizinhos. e olha que nem eram muitos. eu me lembrei hoje das almofadas que imitavam cor de palha que você trouxe da viagem de recife - e no primeiro cochilo aquele enchimento barato fazendo cócegas nos nossos ouvidos. eu me diverti. eu me lembrei hoje do seu primeiro café que não deu certo. das horas que passamos tentando consertar o coador e a térmica para entender mais tarde que, na verdade, eram três colheres de pó, e não cinco. eu perdi a conta de quantos cafés tomamos na padaria, nesse meio tempo. eu me lembrei hoje do vestido grená, das suas meias constantemente sem par, da meneira como você adorava tangerinas e odiava peras, das revistas de economia que você nunca lia, do curso de partinação, das aulas de grego, da história.... eu me lembrei de você hoje. hoje, eu me lembrei de você de novo.

sábado, 15 de outubro de 2011

à ana | 14

ah ana. à você.
que continua fazendo história sem deixar de nos construir a cada dia.
obrigada.
eu te amo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

ana sobre o bom tempo | 2

tenho tido sonhos estranhos também. sonhos em que a gente se vê em bancos desconhecidos, em quartos apertados, em apartamento dos outros. talvez agora eu entenda a forma como você os tem descrito, esses sonhos de estranheza. eu teria me apaixonado com tanta facilidade por você, que, ainda quando penso, me corre certa sensação de espanto.


ana teria se apaixonado com facilidade por sua personagem. acontece que sabrina, aquela mulher incrivel, tornaria as coisas impossiveis. pois que elas já tinham dado nome aos filhos, aos pássaros, aos cães que teriam.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

pedro e claudio

andava sem pressa, para chegar no horário combinado. duas longas avenidas separava-os. duas avenidas e três cigarros. passos curtos eram suficientes para rever todos os tópicos para a conversa, daquele 30 de agosto. às 16:53, passou a pensar menos e a pisar mais forte no chão. quase podia enconstar o dedo mindinho na quentura do asfalto. ajeitou-se e abriu o portão. olhou o portão para trás de suas costas. só lhe poderia interessar dali em diante. estranhamente, teria percorrido duas avenidas e fumado três cigarros mais rápido do que este austero caminho de terra batida a sua frente, que se estendia até a porta. era majestosa a casa, como os olhos dele, pensava, que haviam se debruçado, aquelas janelas pareciam derramar suas interrogações também. por que tanta demora? se tivesse marcado pela manhã, não teria queimado os pés no chão. se não tivesse que vir até aqui, se tivesse dormido desde o primeiro dia do mês aqui... não teria ido embora, mas pensava, não teria vindo hoje também. deu um passo, retomou o ar. tossiu pra dentro. brigava para respirar de verdade. mais um passo para trás. chegava o momento de tocar a campainha. sim, ele estava lá, entre as frestas da janela via-se a poeira e o cheiro do café no caminho da luz. olhou para as sandálias, onde se formava uma bolha pequenininha. segurou a tosse de novo. bateu palmas, não foi preciso muito, e os passos pontuais de pedro se aproximaram. ele veio meio malemolente, meio sonolento. pijamas que tinham tomado a forma de seu corpo. ele olha minha sandálias com um sorriso de mover quase nada, mas de quem diz "eu me lembro desta postura". a intimidade faz isso com as pessoas. elas começam a se lembrar das pequenas manias torturantes ou dos pequenos gestos encantadores.

a xicara de café dele era fria, a minha, de chá, sem açúcar.

pedro! que bom que seu nome voltou a me ocorrer agora, pensei. pois que as pessoas que não tem nome são pessoas sem passado. eu entrei como se fizesse parte daquela luz, daquela poeira flutuante no sol. eu já tinha estado ali em outros tempos, cujo espaço entre os móveis era maior. seus olhos me afundaram? perguntei se ele estava sentindo dor. ele perguntou se alguma vez eu tinha sentido saudade.

-- claudio, nunca mais achei a blusa estampada, aquele que compramos no rio, lembra?

fechei e abri os olhos como quem não quer ver, não queria saber do passado em comum. e foi logo sentando na poltrona do canto, distante dos outros sofás. acendeu o baseado e esperou o som familiar do reencontro. era um cheiro familiar. pedi um trago, ou uma bicada (eu nunca soube usar suas gírias). ele me estendeu a mão e o espaço entre nós, antes abismo, tornou-se um vão. eu passaria apertado por lá, mas me contive e estiquei a mão em sua direção também. acomodei-me com a bolsa ainda pendurada no corpo.

-- não pedro, eu não faço ideia de qual blusa você está falando.
-- você só lembra do que realmente quer. senta!

então eu busquei um canto confortável no sofá xadrez, igualzinho de quando estive lá pela última vez. e a poeira da sujeira dos móveis gritava mais do que o café, mais do que eu mesmo. vai, pedro, pergunta logo! e pontuava a conversa, e burilava aos poucos. se disse que precisava conversar comigo, mas o que mais, eu pensava, teria de dizer? que tinha dez anos a mais do que eu, eu já sabia. que aquela noite derradeira, que os arranhões no corpo, que a mesma adrenalina que o despiu ou a entorpecência que o trouxe junto ao tédio foi o que o fez ir embora. eu já sabia disso tudo. acontece que o sofá era confortável mesmo assim, e genioso, fazia com que eu me adaptasse a ele. apoiei os punhos:

-- o que foi, pedro?


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parceria com dayane rodrigues,
do blog "palavras bambas"
link:
http://palavrasbambas.blogspot.com/
talentosissima!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

cartas de alguém bem perto

há vertigens entre chorar e rir.
há listas mundanas, pessoas de tão longe.
há tanta gente perto que já não sei mais se quero.
há tanta coisa que não entendo,
ainda que tudo me inquiete.
eu me permito o esquecimento e a lembrança.
eu gaguejo um pouco enquanto falo
e tenho quase certeza que me encolho um bom tanto quando deito.
em ser razão, eu me estico.
ao ser paixão, eu fico, eu permaneço.
não sei ser só do outro, nem tampouco, toda de mim.
eu vivo sempre mais embaixo, no mundo das trocas.
você não?

domingo, 2 de outubro de 2011

felicidade são horas | 2

ela
você já tinha pesado em passar a vida inteira no mesmo lugar? e qual lugar seria esse de dançar longe e tanto? foi por isso que nos sentamos aqui, márcio? você tem dançado durante a vida toda? eu também não. talvez sua disponibilidade me tenha inundado. e eu me deixei atrair, e me deixei inundar para perto de você. o que há proximo de nós agora? o meu cabelo feito onda, meu pouco sono, minha falta de coordenação... há uma proximidade tão desconhecida e tao familiar em você. você me segura?

márcio
você, menina, cuja beleza eu jamais poderia ter dito. tive que pousar meus olhos sobre você porque sua imensidão me puxava e me abatia os brios tempo após tempo. era claro que eu não havia dançado nada antes de você. não a este balanço, pelo menos. já estive aqui, mas este lugar é completamente diferente. você parece que se descola da paisagem, do banco, parece que te projeto no mar com a roupas voando ao vento. tenho vontade de pegá-la nos braços e sair correndo, ou como pássaro - bem rápido, que plana rasteiro e muito rápido sobre a agua. e justo de você que ora me dá a mão, ora me estende os olhos, noutrora balança os cílios e se encolhe. é você quem me convida para dançar. seu rosto é lindo. eu te conheço?

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texto baseado no conto de dayane rodrigues, "decupagem"
do blog: http://palavrasbambas.blogspot.com
link: http://palavrasbambas.blogspot.com/2011/09/decupagem.html

felicidade são horas

saudade do amor involuntário


a disposição é uma coisa que acontece delicada. quase me pega pelo colo, no balanço deste barco no asfalto, no dispensar de toda preocupação. tenho márcio em meus olhos, mesmo que ele tenha posto o rosto a me olhar e só. engraçadas são as coisas de agora. a tudo que é eternizado, é engraçado, parece lhe cair sobre certa seriedade. "saudade do amor involuntário", foi assim que decidi chamá-lo. agora, sentada, já não posso decidir quase nada. pois que márcio me torna paisagem, sorriso, completude. há pouco pensei em dizer para que descêssemos daqui, que pulássemos pela janela, que rolássemos pela areia. precisava tocar-lhe, sentir dele o cheiro real de sua presença. ao mesmo tempo, sua observação caía doce sobre mim, como parte de tudo, como anjo daqui mesmo, me fazendo sentar outra vez. eram essas as duas naturezas. márcio, você me vê. eu era vista. eu era sua imagem de hoje. e hoje, para mim, tem o seu balançar de braços a me seguir. acontece que agora, quando assisto a mim, minha falta de sincronicidade me irrita. mas eu sei que ele conseguiu capturar minha forma mais pura, mais simples de mim, minha agitação, talvez. minha urgência de viver.

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texto baseado no conto de dayane rodrigues, "decupagem"
do blog: http://palavrasbambas.blogspot.com/

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

é o bom tempo que convida a um passeio | 2

fiz um passeio, tornei a rua - e, na espera, o teu aceno. que me despiu. outra vez o convite teu. foi movimento significativo da cabeça e dos olhos, suponho, de ir para além das mãos. era movimento de me encontrar? de me trazer pra perto? de me juntar? eu me sinto sucessivamente presente a isso. eu apagaria o cigarro ou o jogaria pelos ares, como quem ri com cabeça pra trás, em uma indignação quase graciosa. o sol vem de trás de tua janela ou era apenas tão besta que eu estava que meus olhos ora responderam teu aceno mas, no momento, seguinte fez com que eu levasse as mãos ao vestido, ao cabelo e à lugar nenhum. era tua observação quase censura que agia como se me quisesse puxar pra perto. acho que lhe prometi um passo sem saber ao certo de teu ritimo. alegorizaria esta dança, mulher? eu tive um pequeno sopro de ar no vão - acontece que o vão, de repente, tornou-se exatamente o que ele era: ineficaz. o vão era a distância que separava dois encontros. eu me lembro. teu lugar não é proximo, tuas roupas são diferentes, teu sorriso eu só vi de longe ou de passagem e teu cumprimento não precisou de perfume.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ana sobre o bom tempo

é como o bom tempo que convida a um passeio.



ana acorda. coloca o braço na poltrona, fecha os olhos e volta a pensar. de repente aquilo já tinha se tornado uma história - não dela, literatura, mas da realidade da outra. pois que para ela a mulher voltava a janela todos os dias, para ver o que pareciam ser fitas métricas, botões ou tosouras que alice, olivia ou clarice usava. sabia vê-la durante o dia, mas saberia ela imaginá-la quando escurecesse? o final da tarde não conta, não é escuro o suficiente. nada por volta das 18hs deve contar. então conta com o que vê, com aquilo que sabe contar e lhe cabe nos dedos. ainda seria preciso atrever-se, mas essa mulher era nova demais para ela. ainda vai mantê-la suspensa no ar, noutra janela, por mais três ou quatro páginas. este cenário de troca era diferente e tinha puxado ana de outra maneira. sentia uma vontade de voltar a escrever o tempo todo, e ao mesmo tempo que precisava fazer dela prosa, precisava vê-la atentamente.


ainda com os olhos fechados, sabe que o sexo durante a semana é infinitamente mais excitante pela falta de expectativa. a transa de quarta-feira, da segunda de manhã, da terça a tarde, do lanche que durou dez minutos. a intenção sexual do final de semana é sempre parecida demais, então pouco teria a falar sobre isso. o jantar, o filme, os corpos, o sexo. a quanto tempo está vestida? a quanto tempo não recolhe a toalha do cansaço e joga a toalha do banho? há tanto tempo, pensa ana.

é como o bom tempo que convida a um passeio

eu vim de um lugar que eu não venci. qual nome você tem? posso chamá-la de alice hoje, de olivia amanhã, de clarice, do que eu quiser. você costura as fantasias que põe nos outros, não é? você tem ombros largos, cintura fina, tem as costas iguais as minhas. põe teus olhos em mim - pois que coloquei toda a minha curiosidade em você. o mundo não pára para que as pessoas se conheçam. mas, às vezes, ele espera, ou passa duas vezes no mesmo lugar, ou pousa pessoas em janelas à mesma altura. são janelas sujas estas ou faz apenas faz muito calor aí? estas persianas também me incomodam, ao mesmo tempo que me acomodo aqui, com seus olhos que varrem este espaço, suponho eu, vez e outra. talvez eu tenha enlouquecido, mulher... pensando imaginar nossa semelhança. talvez eu tenha me divertido muito nesta confusa imaginação a qual me disponho. eu me deixaria cair no samba: a sedução é tão fácil. e tão estúpida. talvez nós dessemos boas risadas em um momento, e, em outro, eu poderia facilmente deixar sua seriedade feminina cair sobre mim. teu sorriso não faz rir, entenda, mas convida a leveza do riso como quem convida para um chá, como quem divide um pedaço de chão, de sol ou de bolo, ou como quem convida, simplesmente.

sábado, 24 de setembro de 2011

de quem que foi?

ri, mulher coisa.
que se curva sobre o samba
como quem lê um poema
ri, mulher doida,
que esteve sobre perna bamba
amena e indócil
terrivelmente enorme
vi, mulher noite
que fiz um festim
mesmo em cetim pouco,
e riu muito
comigo
pra cima
de mim.

e vê, mulher moça
que não sei deixar de fazer prosa nem que tente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

à ana | 13

ha alguma forma DE LHE falar que o amor que sinto por você vai além de coisa QUE SINTO, DE ESFORÇO QUE FAÇO, DE CAMA QUE DEITO. MESMO quando em TANTA CONVERSA MINHA E SUA NAO tivesse havido DITO NENHUM. HOUVE APENAS SEXO, QUE FOSSE. ERA TUDO QUE TINHA. MEU CORPO E SEXO oferecidos a você, A MULHER MAIS LINDA DO UNIVERSO MEU. VOCÊ. QUANDO TUDO HAVIA BRILHADO diante de ti, eu não vi o fim, mas eu vi o único recomeço sob minha chuva de folhas amareladas do outono que era você. uma mulher não houve antes de ti, entenda. houve apenas desenganos, passatempos inúteis antes de ti. o fim, se aproxima. o fim da vida. eu e você com cento e oitenta e dois anos. viveremos assim? sonharemos ainda assim, como meninas de uma vida infame, quase enferma, mas já sem doenças do corpo, sem crateras na alma, cheias ainda de coisas que te puxam e sonhos que te trazem, os mesmos cujos anjos trouxeram você um dia. não sei o endereço desta casa, nem mesmo memorizei a rua que você mora, mas saberia chegar ate você. não por caminhos, mas pelo teu cheiro, que cegamente me guia, ate você, ate a cama em que fizemos nós, em que recitamos nosso futuro, em que fizemos filhos. pois que foi na cama em que me trouxe rosas que eu me apaixonei... é, foi nessa cama que te esperei, não com os braços abertos, mas com a vida completamente entregue. tua casa é completamente linda, teus braços, sua blusa com botões pela metade abertos. abertos por mim, ou pela vida que veio antes, que fosse. serei eu a fechá-los todas as vezes. o passado tinha ficado em outro tempo, cujos esquecimentos eu só poderia perder a memória para lembrar. subi, gritei teu nome, te encontrei. e agora? a vida apronta para nós, não uma cilada, mas um cama.



POR QUANTOS ANOS ESCONDEU TEU TALENTO DE MIM, OU TEUS DESALENTOS? QUANTAS DUVIDAS TEVE ANTES DE EU CHEGAR? ANA, SOMOS UMA DA OUTRA. SOU TUA, MINHA. MINHA CUJAS PERNAS DOBRARAM, CUJOS BRAÇOS DOBRARAM, NAO NO GOZO, MAS NA MAIS ALEGRE EUFORIA QUE EU LHE PODERIA DAR. NAO ME RECUPERAREI DESTE AMOR. VIVEREI ETERNAMENTE NELE. DISPOSTA, FIRME, FRANCAMENTE. SOU TUA. ÉS MINHA.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

sobre perdas & ganhos

perdas
perder é estar privado de alguma coisa, é deixar, é interromper a presença em alguém ou em algum lugar, é deixar de ser visto ou ouvido, é desaparecimento, perda de controle, de juizo, das estribeiras, do norte. quando a gente perde, perde-se a hora, chega-se atrasado com frequencia, perde-se tempo, esforça-se em vão. a perda pode ser também a perda da vez de fazer, da vez de esperar, da vez de ir embora. é só cuidado para que nao se perca a chance antes que perder signifique perder a vida. a perda também é recuo, mas é, acima de tudo, perder-se de amor. apaixonar-se.

ganhos
ganhar é adquirir, é ter lucro sobre alguma coisa ou sobre alguem. ganhar é tirar proveito, é fazer dinheiro. ganhar é alcançar vantagem, ou fazer sucesso, é vencer um debate, uma competição, uma luta, uma guerra. o ganho é a captação de recursos, o ganho de confiança em si próprio. o ganho é a obtenção pelo acaso, a loteria. ganhar é estender-se, mas é como o fogo que estende-se pelo edificio, o toma, e o desfalece em seguida. ganhar é atingir meta, é chegar cedo, é postar-se a porta. o ganho é progresso, é melhoramento. o ganho está relacionado a comparação com os outros. ganhar é ser mais vaidoso do que o outro, é impor-se mais que outro. mas ganhar, acima de tudo, a crescer. desenvolver-se.

terça-feira, 28 de junho de 2011

à ana | 12

pois que há de ser com ana meu casamento, minha vida, toda minha confissão. pois que há de ser com ela que minha confiança existe, que minha força aparece e que nossa transparência se funde. casei com ana, no instante em que houve beijo nosso e eu - mesmo sem saber o porque - soube que não haveria compreensão de outros lábios senão os dela para mim. sei que houve o mesmo, tão inexplicavel acontecimento, em seu sentimento. hoje, há uma gestação entre nós, dois abismos, uma fila quilométrica de confissões e eu ainda posso contempla-la da mesma forma de antes ou da primeira vez, pois que meus olhos ainda tem a ambição de viverem ao seu lado. e foi de tanto não dormir proximo de teu corpo, apenas a companhia de sua respiração, que minha vontade de casar-se projetou-se ainda mais. porque é hoje que a vejo com clareza, com certas palavras que outora a fizeram feliz, mas que agora, talvez a façam enxergar a verdadeira compreensão por trás delas. ainda vejo seus olhos frazirem, acredite. ainda vejo seu corpo me olhar, suas mãos me trazem, sua saudade. eis que as palavras não serão jamais suficientes a quem tem a urgência de calor - e calor não se pode dizer. e até onde poderiam medir seus braços, ana, para entender que mesmo a dureza de minha razão é um pedido de emoção pura? tenho sido dura... tenho estado fria. é que faz muito frio aqui, neste lugar de passar tantos dias. queria que teu abrigo fosse de muito aconchego. sei, fizemos guerra. mas vamos tornar a fazer arte? eu te amo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

à ana | 11

ao carnaval de ana, em casa de ana.


em quantas festas quantas vezes você já se sentiu à vontade? há um estranhamento, claro. mas o que a principio não é estranho? então você começa a andar pelo salão: reconhece pessoas, desconhece casais, já não imagina o porque daquelas crianças. vê roupas, cabelos, vestidos horriveis, inadequação da moda. a beleza das festas tende a estar parada, e quando o seu olhar para: você a reconhece. em um canto, sentada quase ao seu lado, a beleza da festa, a unica beleza festiva possivel.

ah, ana! penso em tanta coisa. penso até em nossa geladeira cheia de suas garrafas de plástico cheias de água. queria ter-lhe escrito uma confissão, mas minha intuição só aconteceu agora que me deitei. estava esperando ainda que você saisse do banho. pois que hoje não vou acender a televisão, nem fazer musica, nem serenata: quase nada. hoje à noite, só o silêncio descendo aqui nesta casa-lugar. eu me casaria com você - não hoje, entenda - mas na vida. quem foi que te trouxe? pois que não me responda que foi a vida, porque eu já não acreditaria. eu dormi, mas naquela hora não. eu dormia porque era a sua parte anjo que falava, e era a minha parte anjo que escutava você falar também. eu me apaixonei outra vez. foi como se você buscasse na parte mulher o que sentia e de forma doce colocava as palavras organizadas em sua boca. anjo, que mexeu os lábios para falar de saudade na medida em que apressava o coração: naquela hora eu não tive pressa. porque mesmo que as vezes as nossas malas pareçam pequenas no mundo e grandes no quarto, eu voltaria para este sono infinitas vezes. porque minha cabeça tinha feito as pazes, depois fez as malas - naquela hora que tinha parado de fazer de conta.

minha recepção foi quase uma pergunta: o que você veio fazer aqui de volta, além de tumulto? respondi em pergunta para mim também: e como você tem estado sem eu estar aqui? você me vê indo embora eu já me vê longe? há quanto tempo, exatamente, você me vê de longe? eu construí um muro ou eu só tenho estado morando há quilometros de distância? você perguntou como eu estava hoje? eu também não quis saber.

ainda ouço, e ainda sinto as pequenas correntes de ar formadas pela sua respiração enquanto você dormia. estive presente. pus meus braços em todo lugar de nossa dança de sono. houve pernas de um lado a outro, você se lembra? e você me acompanhou em todos os passos - e mesmo eu, que bem pouco danço, me reinventei naquela coreografia meio sonho, meio saudade. pois que dormir abraçado, ana, não é deitar-se junto - mas é dormir e manter-se de braços dados, nos braços do outro não somente sobre o colchão, mas no compartilhar terno do sono. foi assim que você me encontrou? porque eu sei que minha alma emerge do corpo quando durmo e sai a te buscar na rua. foi assim que te encontrei? porque quando minha alma voltou ao corpo, depois do primeiro beijo, deitou-se calma sobre mim e disse: aconteceu algo. e essa frase, bem pequena e silenciosa, fez um eco dentro do universo inteiro - e você pensou, ainda que sem entender: aconteceu algo. é, aconteceu.

domingo, 6 de março de 2011

a história do homem mundo

o homem mundo existe agora -
mas claro que sua existência exige muita insistência também.


pois que minha parte poeta também subiu até o final de um rio imenso, colocou os pés na água e depois os colocou para correr sobre umas pedras disformes de uma montanha muito alta. eu quase ri. não precisava de clareza para enxergar - o que poderia ser um motivo para tão rápida subida, não precisava de silêncio também, para concluir qualquer coisa que pensasse: não. era aquela subida a vontade de tocar o começo do céu - de onde cairam os anjos que lhe são companhia. para ver qual o gosto que tem as nuvens brancas sobre sua cabeça (ou até aquelas quase cinzas ou pretas); e para saber, enfim, que pensamento lhe rege a mente - saber que tipo de gente é, que pessoa vai ser dali em diante.

houve muito medo também, pois que essa parte poeta desconhecia a forma exata do inicio do céu. poderia ser aquilo parte de um inverno rigoroso, de uma primavera esquisita. poderia ser parte de um calor que o fizesse ficar sufocado, ou de um dulçor, ou de uma acidez intragável. temia que fosse feito esperança, e que o largasse esperando. mas dessa vez sua curiosidade não trouxe mágoas - e ele trouxe na ponta dos dedos um pedaço daquele céu tocado. céu que não era doce, nem amargo. que não era feito gelo, nem feito verão. que não doía e que não fazia doer também. o que fez foi um sorriso nele - já que ali era ele mesmo. aquele céu que via e tocava era o céu de toda imaginação que tinha. conseguiu pensar apenas que aquilo era uma bela invenção. e depois pensou em quanta demora poderia ter havido antes disso? há quanto tempo estava ali, e fosse como fosse, não tinha esquecido.

estava curvado, imerso dentro de si na vista daquele infinito próprio, em sua cabeça, sob suas memorias e a dividir espaço com as lembranças e o que poderia haver de sonho dali em diante. adiante, pensou esta tal parte poeta, que talvez encontrasse outra parte de poesia como esta que era. andar não custaria nada ali. aquele lugar era lugar nenhum, e tudo. era o homem dentro do mundo dentro dele, e ele no homem do mundo dentro de tudo. todo mundo era um mundo ali.

quarta-feira, 2 de março de 2011

à ana | 10

quantas vezes as coisas lhe disseram coisas? quantas vezes seu amor foi incrivel? quantas vezeslhe caiu lágrima de um olho e prontidão sobre a vida do outro? sabe, é a primeira vez que vejo significado nas coisas ao redor e que não falam, é a primeira vez que discurso em siêncio, a primeira vez que sou imbativel, que estou pronta sobre a vida e sobre as lágrimas de antes. sabe, ana, é a primeira vez que existem cartas de mim ao leitor especifico. você, minha leitora, você, minha palavra que se forma sozinha, minha frase, meu palavreado que engracedeu - e que cuido com tanto gosto pelo proprio cuidado que quer para mim também. eu sinto você aqui em forma de falta, de desencontro esquisito, de presença imaterial. mesmo na forma de beijos dados em outro tempo, sinto você, como enlaço de mim, como força - numa exata propulsão que me leva sem me atirar. que não é repulsa, mas me repuxa o corpo todo, na mesma forma como faz repuxar o seu: nossa dança, tão facilmente reconhecivel.

então que venham logo essas alegorias de carnaval e de samba de época, pois que nossa dança está para além deste mês de festa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

à ana | 9

ah, ana, que é você o par para o qual o destino me criou. ana, com seus olhos de ver primavera todos os dias, com seus dias de ver destino se formar toda hora em minha frente. ana, com seus lábios de dulçor desconhecido, mas reconhecido em mim como a única dolçura possivel em meu corpo. sabe, ana, que é em você que se formou a mulher que conheci na literatura de anos atrás. verdade, achava você impossivel - não no laço, mas nas existencia corpória. ana, cujas pernas sentaram-se próximas as minhas em um balé quase esquisito. ana, cuja dança é bem própria e cujos olhos são tão únicos. foi de ver você, ana, que deixei de ser sozinha para ser par. que deixei de ser um para tornar-me existência de alguém. porque alguém disse nas entrelinhas da leitura de um verão bem longe desse, que às vezes lhe bate a porta alguém que quer - além de entrar - sentar-se para tomar um café. foi isso que você fez. e veja, ana, agora que há uma cafeteira em minha casa - na casa em que moraremos eu e você. no telhado em que pousará o céu de amanhã, sob amparo das evidências que existem hoje. no chão em que repousaremos nós depois amar o corpo e deixar flutuar a alma em que sua integridade se deixa carregar. é, ana, será sob a luz desse dia que os objetos que concebemos aparecerão. nossos lençóis, toalhas - e mesmo que esqueça seus brincos em cima das cômodas - nossos copos usados, nossa vida inteira, nossos corpos de usar uma da outra: meu zelo de amor estará em tudo. penso, medito, e prevejo ana: sempre sua expressão está a me trazer palavras bem cuidadas. de ana, eu cuido.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Texto de tempo de musica

Tem um circo aqui? Ouço um barulho. Essa música é sua ou esse show? É um sino isso, ou não é nada? Você veio até aqui por quê? Sinto seu braço. São suas as pernas que existem aqui? Você me faz rodar no ar. Há ar aqui? Eu giro, e você? Inercia imersa em mim porque giro em volta de ti entre pulos curtos e pequenas corridas. Seus calcanhares também batem sincronizados no chão, nesse chão de areia batida? E nesse chão de argila e céu de névoa? Põe teus pés nessa areia grossa, de rio, nessa argila que marca meus pés, teus ombros, toda história. É natal agora? Canto um conto de natal em meio ponto de som. Se toda a tua voz me fala junto, não te ouço, só te observo. É você quem canta para mim. É uma igreja isso ou uma avenida vazia de natal? Foi você quem trouxe essas luzes? Eu quase vejo seus olhos. Não giro, mas tem algo aqui que me lança para frente agora.

Mesmo à frente, por quanto tempo você espera alguma coisa acontecer? E se você não sabe o que acontece, você põe suas pernas para fora mesmo assim? Tua alma já viu essa rua? Essas folhas já caíram sobre seus pés algum dia ou teus risos já desafinaram aqui? Teu violino ainda me espera? Espera por mim. É, espera por mim porque eu fui ali e já volto. Porque eu sei que te ama muito o amor que te espera.

E espera.
E tanto espera que fica vazio.
VAZIO. Trem vazio de nós. Caixa vazia de recados seus. Mensagens suas, bocas nossas vazias. Vazia de mim, é você. Espaço, divisão de coisas suas que ficaram aqui, em segredo. Seus cd's ainda em uma caixa, suas caixas ainda em sala minha. Minha vida nas caixas que sobraram vazias. Que sobra de ti ficou aqui? Aqui tem um sol, o único sol possível daqui que veio ocupar, sem matéria, sua presença. Você foi – ou ficamos nós, sós, em um tempo? Minhas borboletas voaram, e você, deixou suas andorinhas assistirem ao belíssimo pôr-do-sol de hoje? Qual é a vista do lugar em que você está? Ainda me pulsa você.

sambas defendidos com alegria

ouvi um samba ontem, que desafinou diferente. fosse a razão que fosse, fosse porque eu não dançava ou porque a sua presença também não estava, eu não sei. aquele samba trouxe nas sandálias uma festa que eu não conhecia. depois, os dias trouxeram uma desconhecida razão de sambar. e da desconhecida paixão pelo samba, foi que eu sonhei você.

pedi um samba ontem, ao homem que desfilou aqui em frente. fosse a razão que fosse, fosse porque eu não cantava seus versos ou porque imersos estavam em mim outras palavras de canto, eu não sei. esse samba trouxe de volta nas saias rodadas o ritmo, a precisão que eu conhecia. depois, os dias continuaram a desdobrar a imensidão de alguém. e do desdobramento dessa possibilidade, foi que sonhei você.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

seus preços

eu bati na sua porta ontem a noite, você se lembra? você estava no quintal, com uma pétala na mão e uma cara de dúvida. eu já não poderia aquecer mais as suas mãos, entenda. você ainda pode me acordar depois, amanhã, noutra semana, não importa. eu já não quero mais o que você pretende levar para além do sol. eu estou tão longe como alguém que vive longe. ou estou tão perto quanto o que machuca sem ir embora. ela era bonita, eu poderia ter-lhe dito. ela era bonita, mas não tinha um ar saudável. sabe o que eu lhe disse ao invés disso? disse que entendia, mas disse também que nem sempre as coisas que compramos são exatamente as coisas pelas quais gostariamos de gastar dinheiro. dinheiro não compra briga, você entende? não compra qualidade nem gosto. já não compro mais de você as coisas suas nos preços seus que nunca entendi.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

à ana | 8

o oitavo texto de ana é esse.

saudade não é ver a cama vazia, mas saber que um dia teu corpo deitou-se nela - e que, nela, ainda está o mito da sua silhueta. saudade não é ver um dia terminar sem um beijo, mas saber quantos outros tantos beijos foram dados em despedidas. saudade não é despedir-se, é desprender-se em questão de corpo e abrir-se para suportar a presença apenas em pensamento. saudade não é ver teus cigarros no carro, mas saber que você fumava dos meus quando não os tinha. saudade não é a grande reconciliação que traz, mas as pequenas implicancias graciosas dos risos de todo dia. a saudade é de uma bobeira impar de quem ama, e não de qualquer eloquencia bem intencionada para amar.

digo, ana, que são suas essas palavras que vieram até aqui. saudade? saudade. não estou mais ocupada do que antes, nem menos facilitada do que depois. pois que sugiro que faça o segunte, faça a cama do lado de fora, sob vigilancia de meia dúzia de estrelas - porque no céu de qualquer lugar que eu estiver, vou ver seu rosto sorrir. não deixe ninguem na cidade dormir com a tua alegria. deite o corpo desse mundo na cama, não só pelo descanso, mas pelo sonho. em dez dias receberá uma carta, de um amigo, escrita por mim. em dois dias, terá mais lembranças do que sensações da minha presença. em uma semana, talvez chore. em quinze dias, provavelmente se lembrará que eu disse a ti, ainda hoje, que esta viagem não é para trazer presentes, mas para trazer a vontade de tornar o futuro de agora em coisa de se viver amanhã. você vê a forma como essas palavras deram um nó? há ecos na minha cabeça, devo assumir. há muito mais coisas em que acredito agora. eu sou uma esquina, uma sombra tua, um sonho de nós. devo avisar-te: meu quarto ficará vazio. mas em compensação minha presença vai e espalha-se no mundo até cair sobre ti, à noite, nas tardes ou em manhãs de vento frio. eu sei, eu vou estar aonde você me sentir. eu vou estar embaixo de tua cama e nas frestas sem poeira do teu armário. nos cordões do teu tênis, nas panelas do teu almoço, na tua bebida, na fumaça do teu cigarro. pense, logo eu existo. estive a pensar em quantas coisas nunca te disse. será que disse que apenas precisaria andar com um balão de ar nas costas e uma foto sua pendurada nos olhos para sambar de novo? talvez você saiba disso em breve. meu amor, eu volto, para você continuar a me trazer a felicidade incansável dos teus olhos. eu te amo, eu te vejo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz natal

Quem dança valsa ainda hoje? Quantas coisas existem entre o susto e a felicidade? Quanta permissão existe para extrapolar? De quanto é o tempo e quando vem a vida? A traição é crime de quem? O que acelera você, ou o que o faz indefinidamente parar?

O questionamento é a natureza mais autêntica da vida, mas a quem responde à vida? Dê uma chance a sua essência: o que te ilumina é a mesma coisa que você? Talvez seja a felicidade, a desgraça, ou um momento imprevisto do coração que o faz parar. Quantas vezes o seu coração foi assediado por uma resposta? Quantas vezes você já foi inundado por um olhar? E você, tanto quanto eu, reconhece as leis, as estações, o ritmo do amor que está disposto a dar e receber? Não existe prisão pior do que o medo de causar dor a quem nos ama. Há alegrias e sofrimentos prometidos pela vida, é verdade, mas às vezes, no entanto, a vida é por si só urgente o bastante. Nosso coração sempre nos excede porque dali surgem os espaços em que o nosso espirito respira.

Acho que eu aprendi a guardar a vida – seja ela uma moeda ou uma pérola. Seja ela um passeio, um dia ou uma pausa. Deve ser eterno o sonho de fazer alguma coisa. E eu aprendi que há muita coisa entre o céu e este lugar, que a sensualidade pode ser cafona muita fácil, que a desintoxicação vem de dentro pra fora, que há coisas completamente impossíveis de se dizer. A vida é o eterno exercício da constância, então, paciência, porque é preciso aceitar-se em tempo próprio – em que as coisas são verdadeiras no seu próprio juízo, e não no juízo dos outros. A ignorância não tem nenhum charme, a sorte não é algo que grita, a beleza não olha, só é vista.

Então a preocupação deve estar direcionada o que nos inquieta: o que inquieta você?

Porque me inquieta saber que as roupas dizem muito sobre as pessoas, que nem sempre critério pressupõe justiça, que certas coisas não são objeto de contrato, que palhaços não querem fazer rir, mas querem ser aceitos, que é preciso passar pelo rudimentar antes da chegar à poesia, que há quase uma brutalidade entre achar e ter certeza e que as pessoas são as únicas coisas do mundo que falam.

É belíssima a imagem de um corpo que não tem peso porque se sustenta pelo que sente quando diz, no instante em que diz, e torna-se imaterial quase, levíssimo, sobre tudo. Pela sutileza das coisas bonitas de verdade, eu aprendi que é por elas que devemos parar porque ai encontramos finalmente as pequenas faltas de ar que verdadeiramente nos inspiram na vida. Portanto, viver de sonhos não traz felicidade; mas sim os momentos de compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício. Um Feliz, não só, natal.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

uma chance à essencia | 2

acho que o seu sorriso caiu sobre mim. esse sorriso, posto em mim, você reconhece? esse contorno que me caiu sobre os lábios fez surgir uma fenda na minha boca, tão prontamente, tão semelhante a forma como o seu sorriso se aprontou para mim tantas vezes. eu sorrio como você, que sorriu para mim. ontem você me contou sobre o céu azul, tão azul, você se lembra? sua intenção foi por aquela cor dentro dos meus olhos, e eu quis por o vento dentro de ti, dar-te ar. e eu te disse, tenha calma, essa era uma vida para se lembrar. e você disse em seguida: eu não estou lhe pedindo nada, eu estou apenas lhe respondendo, perguntando: e era essa uma vida para se esquecer? você também me iluminava - foi só o que eu consegui pensar.

uma chance à essência

uma carta de mim, para você, através do poeta:


aqui está a capa das coisas minhas. você também sentiu esse vento que deixou os versos conosco? eu sou uma mulher: e tu, o que és? tudo entardesse. são pássaros estes, ou são os recados que você tem me mandado? recebi suas flores, seus ombros. seus sonhos, não os recebi. a vida é um sonho. eu estou acordada. e você, como está? são olhos de coca-cola esses seus, me disseram. e eu disse, não sei, são quais olhos esses que me veem? são olhos de ver longe ou são olhos de aproximar, para que os outros vejam detalhes? entendo, não são olhos de ver a morte, nem olhos de celebrar a vida. são olhos de ti, que viveu sob a recompensa de morrer leve - de não terminar, mas de fazer tudo. aqui está a música dos ouvidos meus. você também sentiu essa chuva coalhar a água do seu choro, como fez coagular o sangue que me deixou o corpo? esse som é familiar, esse tom, esse grito feito de música. para tudo eu retorno. você está acordada? eu ainda estou aqui.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

o seu rosto, mostra ao povo

o que é importante e essencial não cai sob o crivo da injustiça. porque é tão importante e essencial pertencer a este lugar - aqui de dentro - como é viver aquilo que se é no mundo. desprender-se das coisas ruins e agarrar-se às coisas boas de lá de fora. traga-as para dentro, no próprio e no íntimo, que elas se revelarão se verdadeiramente importantes e essenciais. porque, se não couberem aqui, onde tu és o teu estado mais puro, não poderão adaptar-se em ti lá fora. não te poderão confortar na rua se não te confortarem em sua própria sala, quarto ou cabeceira. e, então sim, se for mesmo importante e essencial como diz, não cairá sobre crivo da injustiça - e será, enfim, aceito.

sábado, 18 de dezembro de 2010

à guerra

onde está a diferença entre a persistência e a batalha? na guerra, é pior para os outros. não para os que lutam, mas para os que esperam em casa, o soldado retornar. morrer na guerra não dói - é a dor atemporal da espera que causa morte. será que você vai morrer enquanto eu estou aqui fora? a minha espera tem uma dor com ela também - porque o meu corpo tem uma linha traçada bem no meio dele, tirada de uma impressão que o seu corpo, tão leve, outrora deixou em mim. fechei a porta de casa, mas não tranquei as janelas. ainda adianta, será, a brisa densa da guerra que permanece sobre a minha cabeça, tornar a varrer esses corredores vazios da sua presença em mim? e a minha presença, em ti, meu amor, como fica? há de haver regresso em toda guerra, ainda que santa, ainda que desconexa de derramamento de sangue, a simbologia da violência sorri para mim. eu ainda acredito.

Nós | 3

Eu respiro. E o fluxo de ar dentro de mim se revela nas partes minhas e expande a vida. Há vida que finalmente vejo. Agora eu tenho postura, coluna, desenho nos lábios. Agora eu tenho referida nos olhos, a cor refletida dos olhos teus. Eu sei, eu me tornei um anjo também. Eu aprendi que não é possível gostar com exceção. Eu descobri que todo o mundo tem uma pobreza dentro da própria casa. Que todo o mundo tem uma miséria ou um mistério não descoberto. Eu percebi que as escolhas doem mais do que as coisas deixadas no caminho. Eu desviei do meu caminho. Fisicamente, eu deixei o mundo – ironicamente, eu me encontro nele pela primeira vez. Eu não sinto nada agora. Eu não estou consolada pela apatia, não estou jogada, eu não me deitei. Eu não dormi, mas flutuei na crista do sono, da dor, do arrependimento, da incerteza e da morte. Eu não encontrei nada. Eu me sinto adormecer sob a neve – já impossível de sentir a morte chegar. As minhas pálpebras doem, e eu as sinto inchadas, vermelhas. O meu olho quase fecha. Eu não sei. Eu guardei a vida – fosse ela uma moeda ou uma pérola. Fosse ela um passeio, um dia, uma pausa qualquer. Escuta, além daquele assobio fino e longo que me fez reconhecer você, um violino tocando? Escuta essa música que me traz você, me carrega o corpo, e que me leva. Eu sei, não nos encontraremos no lugar em que você vive, tampouco neste lugar em que eu estou agora. Nós nos encontraremos no meio do caminho, no alto ou no mais longe daqui. Nós nos encontraremos. Eu me sinto pegar a roupa que visto e levantar. As minhas costas doem, meu amor. Os meus remédios não descem. A minha voz não sai. O meu anjo ainda dorme na cama. O meu anjo, tão calmo, disse para eu tomar o tempo e não comprimidos. Eu não consegui. Verdade, eu menti de novo. Esse anjo não era um anjo. Esse anjo era uma vida inteira. Eu me sinto uma projeção de anjo sustentado no ar com aparente imobilidade. Meu anjo diz, você paira, olha, deveras sente – e então estamos suspensos. Quão breve somos nós? Ou quão eternos? A minha dúvida não tomba para o lado da tristeza, entenda, mas ela se debruça. Eu quase danço. A minha pergunta dói mais porque é feita, e não porque corre na possibilidade de jamais ser respondida. Eu quase volto. Eu quase não me deixo ir. Eu sinto uma vida que me puxa, e outra que me canta aos ouvidos. Eu me sinto tentando somar três cadeiras e uma maçã. Em que eu acredito?


Eu não vejo a cor da primavera. Desceu sobre mim uma malha de aço, grossa, de cor cinza. Essa malha grudou na frente dos meus olhos também. Que compromisso é esse ou o quão omisso é isso? Eu vejo um desejo tão estranho e tão disforme – já tão conforme nada. Eu me perdi? Eu me lembrei. Eu me lembrei de que o tempo é que era uma coisa muito estranha. De que uma semana poderia demorar meses e um dia, acabar em horas. Quantas horas há entre nós? Quanto espaço físico ou quanto futuro? De quanto é o tempo físico?


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nós | 2

O que eu sinto? Eu não sei, não tem nome ainda. Tem o tamanho de um gigante e a leveza bem doce de uma borboleta. Tem o tempo e tem pressa, tem pouca coisa a oferecer de imediato, mas muita disponibilidade de viver. Isso tudo não dói – eu posso mostrar a outra parte de mim – agora feita de um sorriso. Feita de você, que trouxe de volta essa parte minha. Eu sei, eu trouxe para ti uma parte sua talvez esquecida, ou cansada, ou talvez apenas morta de novo e de sono. O que eu estava fazendo, eu não sabia. Mas eu estava me movendo como um barco calmo sobre a água. Eu era um final de tarde, uma primavera inteira, um dia e todos os dias. Você é um verão inesquecível, uma manhã de inverno que se acorda com companhia. Você é o outono que caiu sobre mim, tão tomado de poesia e vida – tão cheio de milhares de cores e forma, tão infinita nos cheiros e no tempo. O importante é que eu estou bem, que você está bem, que nós estamos vivas. Há um infinito não desenhado no meu corpo também. Um desenho que me sobre dos pés até o pescoço, os braços, os dedos, as unhas e os cílios. Agora eu não sou mais breve. Há em mim uma ampulheta deitada também bem no meio dos meus olhos, nas pupilas, num lugar em que o tempo não acaba, num lugar em que as coisas não param. Ou se param, indefinidamente voltam a flutuar, e cirandam sobre nós. Nós somos eternas agora. Você está dentro de mim, derramando seu tempo e corpo – e eu estou sobre você, como envolvimento. Eu estou deitada sobre você, sente minha alma? Meu corpo se estica também. Eu sinto teu peso de corpo e respiro de alma. Agora eu tenho ar para respirar aqui.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nós

Eu penso. E o meu pensamento vem lento e estonteante. Eu quase me atropelo. Desce por mim um pensamento dentro da contradição: eu não sei se espero. Porque penso ser essa espera complexa demais. As coisas demoram, e da demora, desmoronam as coisas. Sabe aquela martelada constante outra vez? Aquela britadeira que não para nunca? Se eu voltar às mãos para a nuca de novo, eu acabei. Eu dei um chute no tempo, numa palavra de requinte nenhum. Em nenhuma parte de mim tinha sobrado tanta verdade. Verdade, eu menti. Eu não tinha conhecido uma pessoa. Eu tinha conhecido um anjo. Teu anjo, olho para mim e digo, agora tão meu também, fez um movimento bem curto, um cumprimento tão tímido que eu tive pavor da minha euforia por um instante. Mas depois me reconheci dentro da cena, que tão breve, me incluía e me significava. A minha dor não era imprópria, entenda, mas bem própria da fala que eu tinha começado a usar. Eu já não sou mais subalterna: eu tenho voz agora. E a minha voz sai ritmada por uma fala doce e dura, azeda, feito vomito, feito alivio. Feita de mim, pelas coisas trazidas até aqui, regurgitar não dói. Não me traz dor a inaptidão de dizer – porque digo, não apenas as palavras que quero, mas a essência da intenção que desejo – dentro do mundo em que os ouvidos parecem estar tapados. Eu tenho um eco na minha cabeça, que reverbera, que tomba as paredes e que ainda queima cortinas inteiras. A minha casa, daqui de onde me vejo, não é linda. A minha casa é a casa de quem fugiu e esqueceu. A minha casa é a casa da volta – do meu regresso, enquanto menina não deixei o lar; porque enquanto mulher, abri os braços para o mundo. Eu tenho os braços do tamanho do mundo, de uma força tão imensa, que imersas estão em mim essas veias de sangue seu. Oras, anjos tem sangue correndo entre os ombros também? Esse anjo não é de lá – foi o que me disse – porque como eu, é daqui... do mundo em que as coisas ainda doem. Do mundo em que as pessoas ainda sambam, se desculpam, desafinam. Esse anjo veio do mesmo lugar de onde eu vim. Eu não dormi o suficiente, mas a minha suficiência tornou-se boa o bastante. Eu parei de completar. Eu parei de sorrir sempre que a razão do riso tinha que ser desconhecida. Eu me conheci realmente, quando deitei, quando comecei a acordar sem ter chegado a dormir. Eu criei uma coisa sem tempo ou tamanho, nem precisão. Uma coisa tão larga e estreitíssima que era capaz de passar por debaixo de uma porta e depois derrubar um prédio. Que era capaz de se enterrar sozinha, de tão viva e tão descrente, e ao seguinte instante, indefinidamente flutuar. Era uma coisa escrita para dar um norte nesse “silêncio”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

à ana | 7

porque antes de torná-lo publico, foi torná-lo seu.



eu escuto seu coração daqui, te ouço respirar. você me deu a mão e me puxou: já não estou mais aqui. conheci a vida de verdade, passei a existir. eu posso sentir você agora. eu sinto, toco, vejo. você tem cheiro, gosto, está viva, respira. suas veias dilatam quando eu me deito, teu ombro me segura, teu corpo inteiro me abraça. é incrivel. não são tuas essas palavras, nem minhas. é nossa essa história. eu amo a nossa vida. o meu amor existe, e é você - meu amor tomou forma de mulher. meu amor eu vejo completo e para além do olho. porque se vejo os lábios, já te sinto o beijo. se vejo o corpo, já te sinto o sexo. se estou aqui, existo ai. se existo, já não penso. esse amor não me fez perder os olhos, mas me abriu para a possibilidade de ver depois de estar cego. estive cego, há anos atrás. agora tenho um ambiente sem luxo e com tudo. agora eu posso ser transparente. na nossa loucura, vivo uma interessante inteligência. você era um desfile e eu passei pela tua frente, como se somente fosse possível que nos seguíssemos, um após o outro. depois de mim, há apenas você. larguei as roupas na beira da cama, larguei os pés, soltei os braços: você me trouxe somente você. a minha idéia de ser feliz é ver você dormir e te fazer perder o sono.

sábado, 13 de novembro de 2010

eu te amo

é belissima a imagem de um corpo que não tem peso, que sustenta-se pelo que sente quando diz, no instante que diz, e torna-se imaterial quase, levíssimo, sobre tudo. porque a condição de ser bela não é aparente e as pessoas são bonitas quando a beleza lhes é dada - ninguem nasce bonito, mas torna-se. como é possivel tornar-se uma boa pessoa. você tornou-se linda. e isso é irreversivel. não sei quando foi isso, mas quando pude me dar conta, já estava linda... não importa o tempo que isso tenha demorado. acho belo tudo que posso, porque a maioria das pessoas passa batido pelas coisas bonitas. pela sutileza das coisas bonitas de verdade, é por elas que devemos parar: ai encontramos finalmente as pequenas faltas de ar que verdadeiramente nos inspiram.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

a cabine | 5

da janela poética:


é importante não se convencer com teorias vazias. ana Laura tem poucas manias. eu a conheci em um café, em um convite que ela fez. eu achava engraçada a sua forma de fumar, muito desconexa e própria. eu a conheci quando ela aceitou um café e pagou por ele. explico: ela vestia uma calça jeans de jardinagem, luvas saindo dos bolsos, uma blusa cor de café com leite bem fraco, óculos. ela me disse que não havia vasos grandes em seu apartamento, apenas uns quatro ou cinco pequenos no parapeito da janela da frente. disse que ali se intercalavam as cores: dois deles bem verdes, um amarelo – que depois eu chamaria de seus pequenos girassóis –, e um quarto de violetas bem minúsculas. eu não tive tempo, nessa vida, de cuidar de suas flores. eu tive tempo de percebê-las e só; claro, eu tinha me emocionado nas suas respostas rápidas e nos seus silêncios que duravam semanas. ana Laura é completamente difícil de esquecer – muitas vezes não por ela mesma, mas pelo que ela representa. ela era a coisa viva na qual eu tinha me apoiado. ela era uma mulher de tema coerente nas atitudes. o exercício para ela era sempre necessário. acontece que o exercício em excesso é o que se tem de mais próximo da doença. ela fazia inflexões sobre as folhas escritas bem no meio da sala – o que transformava o nosso relacionamento em uma simples questão me empatia. o seu exercício era olhar as pessoas, enquanto o meu era olhá-la: ela, a minha mulher sinopse.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

à ana | 6

insonia seria deitar-se perto ao estar longe.

deitei: não consigo dormir. penso e existo em você. são quatro e quatro da manha. perdi o sono porque pensei e não parei mais. questionei morrer. as palavras tem o poder de levar as pessoas. se digo para ana que respiro ao seu lado, então quase vejo transpiração aqui. não estou perto, mas dentro e ao redor. proximidade é para mapas, porque se me dissesse próxima, quando digo de alguém, teria de me dizer diretamente fundida a ela. confundida com ela sem saber quais foram os braços meus e quais os dela que me deixaram. acho que só nós estamos acordadas no mundo. há um silêncio incomum do mundo aqui. então eu ouço você. meu soluçar faz musica que só você escuta: só há você que me ouve agora. eu te abraço com os seus braços em mim. me sente? eu estou aí, ao teu redor, em ti, respirando.

teria que me dizer fundida sem saber quais foram os barcos que me trouxeram e quais me levaram até ela. carências são insoluveis e eu as tenho. alegoricamente, ana também as tem tão belas. abra os braços, porque vamos fazer não só um país, mas um planeta de vênus somente nosso. há um ritmo próprio que sinto, um balançar feito das palavras ditas da transcrição do que sinto que é isso. preciso de ti - de tudo, te preciso. esse rítmo é meu & teu. posso dormir somente agora que cheguei onde está e que a presença de ana deitou-se comigo. se posso pedir, peço que durma com os anjos, os mesmos anjos que trouxeram ana para mim. se sou, então somos.

se vou, então iremos juntas. a imaginação vai provocá-la sempre. imaginar é o que resgata o infinito de nós aqui. perdi a distancia e diminuí uma légua com o futuro próximo. o tempo exige tempo. era hora de puxar o futuro pelas costas que mostra e dar um salto sobre seus ombros. eu me imagino saltando sobre os ombros do futuro e me pondo bem à frente dele. não sinto a irritação de nenhum outro dia porque tudo aqui é fascinante e cerebral. eu sou o futuro dele mesmo. sou a própria ana que me tem imersa em sua perplexidade feminina e mundana. porque somos daqui, eu e ela. nosso ritmo tem pequenas imperfeições dançantes. não há nenhuma dança perfeita, há passos ineditos de quem nunca esteve aqui antes. eu tive a permissão de viver. eu sou da retração que esta vida nossa me traz e do relaxamento pleno sob o qual sou conduzida, tão perto de seus olhos, nos quais me vejo. se vejo, então vemos. porque sou a parte minha entregue a ana depois de tomada pela parte dela posta em mim. não vivi, mas depositei uma vida sobre o campo do futuro de ombros puxados. vejo vento no rosto que desconheço - e ironicamente, me conheço aqui. eu me entendo. o futuro não é algo que se alcança, mas que mergulha na experiência de hoje. no sexo da luz de fora, no beijo da luz de dentro, no eixo do feixe de luz que emana do corpo, sua parte sem matéria ou peso também me cobre. ana é linda, o que mais existe?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

de pequena metragem

o que tinha fora que eu senti tão perto. a gente sempre imagina o que tem na janela do outro: um casal que transa, uma bicha, uma mulher que fuma. a fumaça some – tem sorte? um sinal que abre e fecha. daria para gravar duas horas de silencio aqui. um ônibus que passa com um homem velho – que o dirige. uma sala que acende ou três casas que se apagam. nenhum cão late. nenhum miado. uma menina que vomita, eu não vi. também não vi nenhum homem que a socorresse. o que tem na janela do outro que não se usa gerúndio: um homem que transa sozinho, uma mulher que fala escondido, dois bandidos – nenhum plano. um cigarro cai da mão sem vento para ser levado. o que tinha do lado de fora que eu não vi? o que tinha aqui que não tinha sido entregue? porque eu não tinha me dado por perdida, ou por sumida do mapa? um sinal que abre. eu demorei a ligar depois de uma transa na sacada. desliguei as luzes daqui mesmo, mesmo sem sono algum que me buscasse. mesmo assim, eu parti. o que tinha aqui sem ser visto?