terça-feira, 28 de abril de 2009

Devaneio Canalizado

A dor ocorreu e infartou a minha mão. O lápis bateu contra o chão gerando um estalo que durou alguns segundos. Um suspiro tomou conta de mim e eu levei as mãos até o rosto, inacreditavelmente envelhecido. Quantos anos se passaram desde a última vez que me olhei no espelho? Cem, duzentos talvez? A chuva batia no vidro da janela, torturando-o. quantas vezes desci a serra pelas curvas da estrada de Santos? Quantas vezes caminhei pelas belas praias?
Imagine quantos novos amores nasceram às margens cimentadas dos canais.

No fundo da minha mente, nosso amor insiste em ser lembrado como um destes, nascido às margens. Canais levaram, durante um centenário, água ao coração da cidade. Levaram, as margens do pensamento, ar ao coração mais fraco da humanidade: o meu, lógico. Mas por que tantas perguntas? Perguntas ainda não irão lhe mostrar que eu sou feito destas águas, deste frio, deste ar.

Imagine quantas moléculas solitárias de água atravessaram pelos braços destes verdadeiros rios urbanos. Imagine! Sete vezes diferentes. E, cada vez, um pecado diferente. Na chegada da cidade, o canal 1: a gula. Uma ânsia de conhecer tudo. É a nossa paixão em sua forma mais pura. No segundo, um segundo não poderia perder. Preguiça, só isso. Deu saudade de sentir e vontade de voltar a ser nós dois. Mas nada irá me desconcentrar, devo continuar a contar a minha história. Corri para o terceiro canal, coberto de cobiça. Voltei ao meu primeiro sentimento e fui direto para o quarto. Sentei a beira de um certo orgulho destorcido. Ao redor dele, hoje existe um certo desenvolvimento. Prédios lindos cheios de segredos. Banqueiros, donos de muitas das extinções impressas. Talvez eu fosse forte o bastante para suportar a falta de você.

De repente outro estalo. Voltei a estar sentado na escrivaninha com uma xícara de chá, já fria, encarando-me. Como me deixei ser conduzido? Como me deixei ser poluído? Estas perguntas me encostam contra o vidro da janela e me interrogam. Vi uma garrafa vazia flutuando na água lá fora, que não sei ao certo se está canalizada ou solta por aí, como minha liberdade, meu amor, minha saudade da vida. Quis por um instante deixar tudo para trás (mais para trás ainda, se é que isso seria possível). Sei lá, qualquer coisa. Sair deste corpo, encarnar em uma samambaia, numa panela, num pedaço de carne cozida.

Um gosto salgado atingiu meus lábios tentando me fazer renunciar. Mas eu me mantive firme, apesar dos pés trêmulos, das mãos bobas, do coração saltando pela boca. Tive um misto de diversas sensações me invadindo e tomando conta de cada pequena parte do meu corpo, como um banho frio ou um último gole que desce quente e queimando pela garganta seca.
Ainda lembro-me do quinto pecado. Por que poucos tem tanto e tantos outros tem tão pouco? Doce inveja, dei a luz a ela. Por que sentir inveja e não cobiça? Por que um desenvolve-se e outro nem tanto? É mais fácil invejar do que traçar um sonho? Quanta modéstia. Continuei a correr deixando o vento gelado bater contra o meu rosto e as águas passadas das lagrimas passadas transbordarem pelos meus olhos. Não quero mais sentir esta dor. Não quero mais deixar este vazio crescer, bem no centro do meu peito. Queria poder atingir o limite sem conhecer o desespero. Queria poder ter gloria. E no sexto pecado eu tive. Luxuria e luxo. Lixo! Naquele dia, naquele mesmo local há 50 anos atrás, as mesmas duas pessoas foram tomadas por um desejo que transformou suas almas puras em um pecado delicioso. Mas e agora? Olho a minha volta e sou alguém que esta limitado a ver. Não tenho lhos de quem é capaz de entender. Fui traído pelo pecado mais efêmero de todos.

Fugi mais uma vez. Desta vez, pela última vez. No sétimo pecado sem mais tempo para pedir desculpa ou para pedir para voltar, a gente morreu. Foi lá que você literalmente padeceu. E eu morri junto, bem ao seu lado, deitado e moralmente ensangüentado. IRA. Odiei-me por tê-la deixado partir.

A seriedade nunca foi a minha maior qualidade. Mas rir de tudo, como fazia antes, era agora uma clara demonstração de desespero.

Continuei a correr, a rir e a chorar de aflição. Já não havia mais tempo para voltar atrás. Troquei a xícara de chá fria por um copo de whisky, que bebi até sentir meus lábios dormentes. Parei de fazer fantasia, mas será que parou de fazer mal? Sou então como um velho canal, cheio de beleza e de b... bom, melhor não comentar. Tire suas próprias conclusões. Sou fruto de uma sociedade errante. Por mim, conformo-me.

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concurso de crônicas - academia feminina de letras.
os 100 anos dos canais de santos.

2007

domingo, 26 de abril de 2009

mistério de uma pessoa só

imagina uma mulher que não era delicada para sentar. ela dizia: eu perdi o meu espectro, todo ele. e eu perdi aquele homem também porque eu colocava os pulsos com gelo em sua nuca até que as veias murchassem nos cantos e ele pudesse relaxar. então eu relaxava também. quando ele parava eu o perdia. então eu o irritava.

raiva de bar

a sua palavra não vale nada.
a sua palavra mais dois e vinte, eu pego o onibus.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A cabine | 3

dos trechos passados a limpo:

(...) Continua sentada no banco do banheiro: está sentada naquele banco de banheiro há meses. Às vezes seu pensamento é do tipo de gente que se acomoda. E Ana Laura faz parte desta categoria com o mesmo orgulho que James carrega nos bolsos, e com a mesma sensualidade que Sabrina carrega no corpo. Assim, um círculo de vício. Porque o pensamento tinha que estar além do resumo de ler e de escrever. Precisava criar novas soluções – algum sentido na parte que se perdeu no caminho, ou na saída da escola. Uma parte que havia sido solta e que em algum momento tinha sido posta como desnecessária. E James sempre achou muitas coisas desnecessárias – ele achava que as coisas da vida social eram banais demais, que todos os assuntos eram banais demais. Não é fácil ser inteligente – então não precisava, por vez, por a prova sua inteligência, mas sim sua capacidade de pensar. Precisava concluir com mais determinação, já que ultimamente tem perdido o foco e tem deixado as idéias correrem soltas cabeça adentro. As idéias que se espalham entre os móveis da sala são de dura ordem. Necessita limites como quem necessita do vômito depois da comida. O conhecimento sobre os processos está se esgotando? Evitava comentar. Às vezes pensa secar como a caneta que usa, murchar como planta, sumir como pó. As letras acondicionam o caráter desbotado e somem na frente de seus olhos. Porque quando não há tradução de pensamentos, há crises. Era como se tivesse um bloqueio ao que pensa – e admira-se: formar conceitos é algo com que lida sempre. Mas o som e o sentido se confundem. Era pobre. Subalterna. Era nada, assim: o anti-climax. (...)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Acordeonista

Um canto que mais parecia um pranto, um suplicio que impetraria em mim e depois em nós a harmonia – era uma instancia na qual eu não confiava nem para mentir. Porque o balanço implicava um limite também. Os dedos traziam um cruzar de silêncio e de tormento e as notas faziam pequenas perfurações na melodia como tiros de um insuficiente no escuro. Como pequenas interrupções, pequenas granulações no discurso sem palavras que propunha, as notas era carregadas de auto-promoção. Não via e não era visto – minha simplicidade era poder passar desapercebido por ela, um andarilho talvez. O som passava por mim em um tom caramelado e viscoso. Não me possuía, não me tomava ou me ou fazia dono, eu era o mesmo de sempre, mas não era eu mesmo quando destrinchava aquelas notas no ar para ela. E que ar mais denso, penso eu, para querer ser escutado. Minha proposta seria trazer essa pequena aspiração até o âmbito do pensamento. Até o máximo do pensamento. Eu fitava seus olhos com os olhos que ela não tinha – e isso me passava a sensação de estar em vantagem. Era como se eu tivesse domínio sobre seu passo. Eu olhava seu vestido, seus quadris, os trilhos de seu cabelo, as fivelas. Eu ouvia suas sandálias estalarem no chão, festejando. Parecia que eu puxava seus braços de um lado para o outro, eu deslizava seus pés, arranhava seus pés piso. Ela, minha marionete. Marionete de mim. Eu colocava no piso seu peso de menina, de bailarina, de mulher como uma boneca, um enfeite ínfimo de porcelana em uma prateleira de pensamentos. Mas não se engane, há quando seu vestido espaçava ao redor do corpo também e no centro do salão: ela era um grande pavão no centro do salão. Com aqueles olhos azulados reconhecíveis, perfeitamente reconhecíveis. Olhos de águia velha, olhos foscos, turvos. Olhos molhados. Olhos de afogamento, de socorro. Olhos baldios como só ela tinha. Por tantas vezes inclinei as costas em sua direção, a cortejá-la. Torná-la nobre. E o que me parece é que este instrumento é um velho de público único. Ela faz na escuridão, mas são faria no absoluto silêncio. Eu sei, eu a conheço o suficiente para duvidar dela. Este velho acordeonista é o que existe antes de saber existir. Porque não existe felicidade sem um bom acordeonista. E tudo me parece correto agora, e dentro das controvérsias.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

e se fosse burra?

a inteligência é como a riqueza:
você nunca sabe se é só pelo dinheiro que existe interesse.

terça-feira, 21 de abril de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

a concentração era vasta | 3

eu imagino uma mulher que sorri, e que o sorriso quase lhe rasga o rosto. imagino uma mulher que rola pelas escadas, que joga as minhas cadeiras, as minhas meias, que joga copos pela escada. ela fazia um show das coisas que voavam na minha frente.
eu achei que só chovesse em mim, porque o meu cabelo grudava na testa – e então vinham aquelas pequenas poças de água na minha camisa, na frente e nas costas. e eu via o cabelo dela ali, intacto. eu achava que aquilo era muita identidade em uma pessoa só. ela era tão importante que o bem e o mal saiam dela – pelo menos era isso que ela achava. e ela se colocava assim, imponente na inconstância das coisas e dos atos.

por vezes, tinha pensado em usar o telefone para fazer contato entre nós. não o fiz. o nosso contato ainda estava restrito no olho – e que olho mais ordinário eu fui escolher para isso! justo eu que sou homem de olho claro e que as bordas do olho de justas não tinham nada. eu era um homem de olho tão claro que quase era branco. e eu sei disso porque ela, a toda hora, me punha no espelho – e então eu refratava. quebrava a luz de tudo, a punha em mim, e depois espalhava. então vinha aquele clarão e ela soltava para mim todo o desalento que tinha: será que você não é capaz de se manter neste breu? não. EU não era. aliás, eu era completamente incapaz de viver ali. eu somente ESTAVA ali – e acontece que aquela não era a minha vontade também. a minha vontade era outra, e estava guardada. eu a tinha posto junto ao corpo que eu mantinha dentro desse corpo doente que tinha sobrado para mim. as mesmas coisas que eu segui, eu ainda seguia agora – só que em outro nível. meu olho tornava meu corpo pouco porque rebatia a luz que vinha aos montes. imagina um louco? era eu a me sabotar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

a concentração era vasta | 2

eu ouvia o tremor dos saltos dela no piso – só depois ela aparecia. ela, aquela mulher enorme. ela vinha para mim com aquelas mãos de cinzeiro, uma pena. as cinzas que manchavam seus dedos e a palma da mão me faziam desacreditar. talvez aquilo fosse uma fábula do destino. uma pequena narração alegórica do tempo. um carnaval. eu não sabia.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

o eclipse | 2

o que há de mistério no mar à noite? o que há em chão, em piso, que não se vê? pensava ser estranho falar de mar quando se fala de um leão e de uma coruja - mas a aridez não fazia exatamente sentido. então trocava os olhos: ao sol do meio dia não se vê olhos. a praia à noite era um grande corredor de ventos. se abrisse os braços ali, pegaria a orla para ela. porque o seu tamanho era uma contemplação - e as corujas não eram grandes mesmo. as corujas eram mensageiras, torneiras da voz da gente. a coragem era o melhor das virtudes às avessas: a cautela. se fizesse um recorte no mistério, aparentaria uma ignorância - então não o fez. há tantas implicações! porque o mistério vai tornar a perda do eixo. arrisca? arrisca. e então petisca. e se prepara - e bebe muito, e tomba o corpo. mas o corpo não desvia. não desvia olho, corpo, braço, deixa nenhuma. há quem não desvia nunca. nunca?

(silêncio)

poderia haver resposta. mas acontece que as corujas apreciam o silêncio do tempo. há quem se diga bicho do cansaço, e da preguiça. bicho da falta de pressa, e de euforia. duvidaria. por que o olho da coruja era perigoso? a coruja somente inverteria a ordem das coisas - e trocaria o dia pela madrugada. precisaria estar presente para isso. mas o presente é devasso. e as corujas tem olhos tangentes, pontuais. sustentar era difícil - e então vinha o leão.

imagina um bicho que chega de baixo, e fica enorme de repente. o leão só gosta da presa porque ela é presa - atacar a presa é quase vulgar, redundante. então imagina um leão que põe as patas nas orelhas e espera a surpresa da festa. há leões. há leões que são leões, e que ainda são gatos. para quem tem um olho enorme à noite, há a complicação de viver ao sol do meio dia somente com um risco de olho. imagina um leão que vira tatu? que some no dia, que só tem juba? não imagino - e não há porque trair a metáfora. o leão é rei, a coruja, mensageira. a coruja leva o tempo todo porque essa é sua função. o leão não. o leão tem um lugar todo para sustentar, um respeito, um medo todo dele para sustentar - e sustentar é dificil.

a curuja quer voar. há corujas que voam muito, e sempre. há corujas que não voam nunca. há aquelas que nunca voaram, e há aquelas que sequer nasceram também. então vem um leão com receio, que se aproxima lento e sempre, com as costas feito uma engrenagem de máquina. um leão cujas patas tecem no chão o caminho. vai ver a loucura é uma bravura também. então a imaginação traz um leão que pula, mas que pula tanto a ponto de esperar que alguém tire o chão enquanto ele salta, para que caia indefinidamente. ou então que lhe agarre no ar, enquanto ainda está no alto. decerto, só há a fuga. e se uma coruja está disposta a voar? não há nenhum registro visível de alguma que chegou lá. é mesmo inconsequente - e quase vulgar - esperar que um leão ataque. e a coruja é o pássaro da noite. da eloquência, vinha uma mulher que se dizia leão - com um cabelo que era um juba. e uma menina que era um coruja de olhos furados. porque a coruja tanto se enfeita que se fura os olhos.

há corujas que não vivem nada. o leão é a presa da presa. uma condição, uma torção de origem física. pois que para a coruja não há ordem, arranjo, não há nenhuma disposição conveniente. para a coruja não há cadeia. a coruja é o bicho dos recados - o leão, o bichos dos outros bichos. é, sustentar é dificil. então detesta o autosacrificio, o falso eclipse, as coisas práticas.

voar não é uma obrigação, é um desafio. já tinha infestado o sentido, e agora definia inversos. voltaria a quietude se não soubesse que duas hastes inversas podem invergar tanto a ponto de converigir. há uma impossibilidade no reino dos bichos. há bichos que não se aquietam nunca. há bichos que são incrivelmente fascinantes. há todo o tipo de bicho.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

mulheres

a morte era o ócio, o óbito, não. ela era do tipo de mulher que toma dois comprimidos por vez - sua garganta é um tunel. eu inchei. e ela estava ficando um bicho. marcela não tem nada o que excluir? tem gente que não tem cabeça - tem gente que tem muito. então vem a sobrevivência. e depois a volta para casa. o dedo perde o contato do dedo com o passar do tempo - e dependendo da alimentação também. o que era meu estava dado - e eu tinha apanhado muito por isso. já sabiam meu nome - então eu era um nome agora.

terça-feira, 7 de abril de 2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009

a concentração era vasta

acendeu o cigarro - não porque tinha vontade de fumar, mas porque tinha falta de vontade em relação a todo o resto. já não havia mais nada do que fugir, ou do que se esconder. precisava aprender como se fazia café. e bule. e pó. e fogo. prometeu sossegar depois disso tudo esclarecido. fez uma pausa: imagina alguém que que não consegue saber o que é importante e o que não é. que prazer há em perder tempo?

ela era uma mulher que a alça do sutiã escorria pelo braço, uma alça larga que caia pelo ombro e por debaixo da manga da blusa. uma camisa cinza, xadrez, meio azulada e sem cor. ela colocava o cabelo para trás, e depois o ajeitava de volta para o lugar. pedia silêncio. que peso que há nisso? a concentração era vasta.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

vidas cinzas

uma arma na mão. um aroma? o do cigarro. e que cinza maldita. cinza: cor de nada. uma dúvida? sete dúvidas insolúveis em água. quais seriam as sete melhores partes do corpo? everytime, evitaria comentar. uma doença? ódio por ser interrompida sem propósito. outra segunda doença? ódio por descrevê-las. um problema? o estouro dos vínculos. a expansão dos vínculos. sente muito por isso. sente o mesmo que sentir por ela, treze dias atrás. quantas vezes poderia ser surpreendida em um minuto? há o empecilho da concentração. sua principal personagem não passava de uma imitação de sua vida - e que merda de vida para se imitar, não? porque este corpo de texto sem rosto? another time, maybe. evitava comentar também. mais um cinzeiro cheio - estava de saco cheio também. e de banho tomado. de cabelo lavado. e nada. seria esse o dia da guarda? das datas corriqueiras? dos vizinhos intrometidos?

AS FRAQUEZAS ERAM IMUTÁVEIS. OS PIORES DIAS: AS MELHORES EXPERIÊNCIAS QUE JÁ IMAGINOU TER. O BEIJO DELICADO QUE IRRITA SUA IDÉIA. ALGUÉM GANHA UM BEIJO, ALGUEM PERDE. O BEIJO É UM ALERGIA. UMA DOENÇA CRÔNICA. INTERMITENTE. INDÓCIL. cinza: cor de nada.

um tiro.
nenhum fim.

o gosto do tempo e das guerras dos outros

não poderia passar por isso de novo, de novo, não poderia. queria as coisas que tinham sido ditas há muito, mas os dizeres eram os mesmos de novo. de novo, eram os mesmos. a beleza - não havia. o gosto, o jeito, o resto do corpo. as escadas, os banheiros, outra vez o chão, o corredor de beijos. a sujeira, a mão cheia de poeira fina.


tinha prometido não deitar em escadas, não fugir em banheiros, não rolar em sujeira, não cair mais. havia simplicidade na promessa, e desvario na concreta crença que se fazia nela. a paixão vai matar a programação. teria que se apresentar, mas, de novo, não se apresentou. O INIMIGO ERA EU.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

sobre os gênios

todo mundo morre.
mas um dia a gente vai estar nas cabeças.


gênio é assim, não se explica.
e como eu fiz? eu simplesmente fiz.

domingo, 29 de março de 2009

dos homens loucos

ele falava coisas de como fazer bonecos de neve na grama. falava dos cachecóis que faria, e dos gorros também. dos olhos de botão, e do nariz de cenoura. seu pensamento representava um capítulo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Ambiente

Foi uma surpresa retornar. Todo beijo nosso residia ali, como doença. Lembro-me da clara falta do ar, e do falso bombeamento de sangue dos pulsos. Fragilizei os joelhos. A minha respiração deixou de ser um suspiro e passou a ser um bafo longo e pontual. Uma martelada de ar que saía da minha boca, e por entre os dentes. Não passaria por isso de novo, eu pensava - eu já tinha jurado não passar. Já tinha esquecido - e eu já tinha jurado esquecer também. Mas a minha garganta tinha fechado e da janela vinha muito vento - e o balançar de cortinas, claro. Tive vontade de por a perna para fora, o rosto para fora e fazer buracos nele para ver se assim entrava ar em mim. Eu sentia as minhas pernas finas e as pontas dos dedos sensíveis, pontiagudas. Então eu apertei meu braço com a maior força que pude projetar: eu ainda era a maior decepção dele. Por que as bigornas não são brancas? Tinha um pesar nas minhas costas também. Há meses não chorava como hoje. Hoje, o dia mais cinza de todos. Errei na roupa, na frase, no cumprimento todo. Errei na piada, na ordem, na desordem das coisas. Eu precisava de um abraço hoje - daqueles sem fala, sem comentário. Sabe aquele aperto mudo do corpo do outro? Então, um desses. Não havia nada que pudesse fazer a minha direção mudar. A minha arte era essa e só. Não há a passibilidade da prioridade em mim. Eu já tinha enganado todo o mundo, e agora estava a voltar no tempo - e no prefácio dele. Eu já tive 50 anos. Eu já morri de câncer, de tuberculose, de tosse há 100 anos. Eu voltei com a mesma gripe de meses, e depois vim com uma falta de ar. Eu já morri de medo de guerra, e voltei inteira com 2 pernas. Porque a minha neurose vem da minha esperteza demasiada. Seria o cigarro desculpado pela genialidade? Achava que sim. Seria a minha vida outra vida? Seria minha a outra? Eu duvidava. Mulher nenhuma se atrasa tanto. E eu sei, eu tinha parado para resolver um problema. Mas acontece que o momento do erro me tomou o corpo e me tombou no álcool - eu perdi uma parte da história com isso. Eu já tive 50 anos, e agora estou voltando. Eu pausei o tempo, pousei sobre os ponteiros e os ajustei. Estalei os dedos e defini o momento do retorno. Dos tontos, um monte de trono de rei. Eu achava o escacho fácil, aquela separação toda. Mas a gente só percebe que falar é difícil quando perde essa capacidade. A minha lingua enrolou, e depois veio o reconhecimento tardio da perda. Os meus olhos ficaram dependendo de uma visão magra e turva - aquela madita hora mágica. Poderia cometer suicídio agora. Já morri. Já fui morta também - não há graça nisso. Eu parei no espelho, mas o contorno do olho já tinha feito um novo adorno em volta dele. Sabe alguém que levou um soco? Eu tinha levado 2. Eu tirei o rosto em volta do olho e o pus no chão. Eu sentei no meio do piso, e lancei aqueles 2 glóbulos de olhos para o alto - o aumento do espectro é decorrente do tamanho do erro que há nele. Eu parei na vaidade e na vulgaridade da cena. Imagina um grande rosto de choro e sem olhos? Imagina um rosto com dois furos, dois buracos negros dilacerados na frente, e a frente das coisas? A perda dos olhos, o malabarismo, o falso palhaço: era poético e até quase lúdico. A esse ponto a vitória realmente não era um desejo. O esquecimento era. O meu desejo era interromper o processo da criação. Parar com a idéia, com a fala, com o vibrar do branco do olho. Há de perceber o vibrar do branco do olho na irritação da fala? Eu tentava imaginar que sim. Acontece que o meu olho vibrava tanto que a minha concentração ficava comprometida. Eu sei, eu já tive 50 anos. Eu já fui a regressão do homem, e a paixão da mulher que regride exponencialmente. Eu fiz frente com os dentes na festa. Entende um ambiente que se chega, e que se agarra mordendo? Eu tinha mordido aquele andar inteiro. Eu tinha engolido suas lembranças dali, e regogitado seus desprazeres. Agora eu tinha problemas de salivação, de estômago, de memória fraca. Uma velha sem tempo e de 50 anos.

terça-feira, 24 de março de 2009

cortiços | 2

não existe a necessidade do grito. e se eu gostei? eu adorei.

eu era uma criança que tinha braços de gravetos, e pernas de cabides. e eu vi mais pessoas do que outras. na minha época, mamãe dizia, o inferno era aqui. as paredes eram feitas de caixas de uva. uma grande caixa de remendos. em cima, o som dos intervalos das músicas. não tinha silêncio por qualquer momento. as vezes demorava mais tempo para escutar do que para pensar. lá mamãe tinha um nome, aqui ela era mais uma. é o meio inevitável. tinham vários adornos - o quarto era um arquivo. daquele ano, esperaria o mínino de dignidade. sabe quando você fala, e ouve o que diz muito tempo depois? é que a mamãe era um estrondo. muito histérica, e com muita coisa no ego.

domingo, 22 de março de 2009

o navio

o que eu tentei colocar para ela era que não importava o que ela me dissesse, eu ainda me sentiria um anão. o meu corpo não aguentaria peso nenhum. tampouco, uma grosseria. eu ainda disse: a entrega não é só festa. mas ela já não tinha qualquer condição de flutuação. eu também não tinha, mas eu ainda me importava com as considerações finais que seriam feitas - talvez daí a diferença entre a gente e o grito dela também. porque ela soltou um assobio do grito, e fez um malabarismo com os braços logo depois. imagina, trariam seu corpo como um navio de carga, um grande latão de lixo flutuante! imagina, lembrariam dela assim, e de mim também.

quanto a família

seria a responsabilidade hereditária
uma forma de moldar a persepção?

sábado, 21 de março de 2009

o destaque da palavra - a ênfase

A gente escuta quase uma melodia. O começo e o término de uma frase é a primeira palavra. Mas eu fiz o contrario: uma frase aleatória no âmbito do dicionário. A cada início decido um novo início. O tom grave dá peso no texto; assim, é possível manipular o começo. Você pode estar sempre agudo - porque fica o canto, mas depois fica chato. Então você muda de lado.

(Ela era do tipo de mulher que as veias saltam nos pés.)

Na tortura eu elevaria o tom porque a atenção é fator notável da ênfase, e de todas as próximas fases de ostentação. Então eu acho adequada a proposta porque a pausa é uma sílaba - um belisco muito mais leve do que o deslocamento da fala propriamente. O deslocamento é o que a gente faz para colocar e destaque a palavra escolhida. Eu escolho a palavra de ênfase.
Há momentos de seta na sílaba. Silabar e prolongar - esse era meu objetivo. Mas como a cara da gente revela, se eu puder, eu falarei pouco na vida. Porque o que o respeito traz na gente, além da combinação dos sentidos multiplos? O prazer é oferta? O prazer é a oferta. O único jeito de ganhar no jogo é dizer que o outro acertou. A beleza não deveria ser enfatizada nesse sentido.
Às vezes eu acho que ela era mais bonita por fora. E penso que talvez roubar fosse tão prazeiroso quanto o sorriso violeta dela. Ela, com aqueles dentes brancos demais, tentava me tirar o olho do rosto. Pegaria meus olhos, como quem pega dois globos, duas órbitas insignificantes. Mas acontece que o olho dela dependia de um branco do meu. Um branco imenso e sigiloso. O branco que não desbota no infinito. A relação das cores comigo é simbólica.

quinta-feira, 19 de março de 2009

um dia na neve

o corpo que cai. o olho que geme. a gente sempre acabava preso a um eixo do tema. e também porque a inspiração costumava vir em duas épocas diferentes: ou nos tempos de fadiga ou nos de inércia. é que as coisas passam do suportável para o futuro muito fácil - e fazem de mim insuportável nas relações. vai ver são assim as grandes glórias da gente. nunca ninguém tinha feito nada nesse aspecto. foi então que eu percebi que eu tinha parado na relevãncia, ou na irrelevância disso tudo. eu imagino o ar que pode acabar - e eu enlouqueceria. eu imagino a estética de um lugar que não apaga a luz. uma insônia perpétua. um quarto branco. um dia nublado na neve - é, eu enlouqueceria.

quarta-feira, 18 de março de 2009

terça-feira, 17 de março de 2009

a importância parada

eu engoli as suas histórias. durante o sono, quando a gente se aquietava na cama, eu puxava sua cabeça para perto - o que não caiu até aqui, permanecerá fime. acontece. o que me passa é um mal estar. tinha algo que tentava engolir o nosso cenário - pensava ser a importância, talvez. como há na gente a politica de um relacionamento? esse abraço é sobre tudo, e por tudo que houve? talvez eu quisesse uma desculpa para estar fora, para jantar fora, para forrar a cama, e sair - um desdenho do que seria o ideal. mas não há insidência, nem crise. o que restou foi a metáfora da máquina. e do cérebro que perde a outra parte para o corpo. o cérebro aprende a outra parte e eu ponho meu braço em você. já foi a época em que eu só sabia fazer o que fazia.

sábado, 14 de março de 2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

o décimo terceiro dia do mês em uma sexta.

Quem é superticioso, hoje deve estar desesperado. Eu sou uma das que nem saiu de casa - não acho isso um hipnotizar barato. Agora, para superar, só uns três casamentos. E o mais estranho é que você vê que o padre dá risada. Ele casa a gente e ri - é a autoridade flagelada! Há lugares que representam sínteses - para mim não. Vai faltar dia para mim. Vai faltar uma sexta-feira para mim porque alguns presupostos são filosóficos e qualquer coisa nesse sentido já seria um ganho. Eu tive que migrar para outro grupo e começar uma nova cadeira. O imperativo de uma perspectiva óptica é um vício de origem, um vício da ideologia. Uma das mais despreziveis profissões é não ser gente. Mas este também não é o único destino obrigatório. Um azar. E a sorte é que a partir de uma dinâmica, vem a compreensão com uma série de dados que confirmam isso. Porque o cientista precisa de uma insenção - tipo deturpar a pesquisa. O cientista sabe que a dominação pela força é precária: daí a supertição. "O pior escravo é o escravo satisfeito" - tem razão. Porque o destinatário primeiro sou eu. Quantas pessoas estão em situação de fome agora? Tem dinheiro para salvar o dinheiro dos ricos, mas não tem dinheiro para salvar a vida dos pobres. Eu me sinto totalmente tragado pelo sistema. Por isso a permanência em casa nessa brava sexta-feira treze. Brava. Bravo.

o ministério das coisas

a curiosidade é incrível.
EU NÃO.

quinta-feira, 12 de março de 2009

notas | 19 - outra parte

talvez a chance da amizade dar certo
fosse proporcioanl ao nível crescente de erotismo que ela carrega.

quarta-feira, 11 de março de 2009

notas | 19

talvez a amizade fosse medida pela quantidade
de erotismo que ela pudesse vir a suportar.

quanto a beleza das coisas

a gente tragou tudo, soltou, vomitou tudo porque o drama é pontual. eu ainda não estou satisfeita ou em situação de fastio - eu quero ainda poder descrever a loucura da mulher bêbada com maior quantidade de detalhes. e de beijos, claro. mas, no contexto, eu sou ela. e ela é meu corpo, inevitavelmente.


não há dança na lembrança que conduza o desfecho. não há abraço que o justifique também. não há desejo, demência, destreza, dormência nos pés ou nos lábios que comprove. porque a prova está na inconstância, na futura instância da dança que não houve. e que não haverá também. a função do corpo está na história agora - ou na boa memória, pelo menos. só há o instante do cubículo da mulher bêbada para ser lembrado. e há o instante de seus beijos, claro.

havia o espaço pequeníssimo de tempo para que se olhasse a mulher bêbada no espelho - e para que se visse nela, logo depois. porque sempre há na preocupação um segmento visceral - e de estrutura. a cabeça não alocava brincos, nem tino. pouco cabelo cortado, pouco vestido, pano, manga. uma beleza sem afluência - um reinar do avesso (e onde avesso é a ideal inquietação dos beijos, claro.)

a escolha é a condição do outro.

segunda-feira, 9 de março de 2009

a ruína

era uma casa linda. tinha umas árvores secas desenhadas nas paredes brancas, em preto. tinha um ar de não pertencer a nada, nem a ninguém. era de todos. meu, seu. de todos nós. seu cabelo era um monte de raiz enorme que saía de sua cabeça. porque eles poderiam atropelar a mulher que ela continuaria a pregar saias no varal. não há modernidade nisso, são apenas maneiras. será necessário decretar o óbvio. eu teria que morder as paredes para isso. porque a verdade é um voto, e assume o carater de quem quiser. porque as tardes recebem meu medo, e eu tenho medo de não saber o que eu sou no tempo. eu tenho medo de ter, ainda, medo próprio. eu morrerei de medo? eu morrerei de medo. eu não aguento mais esses arquivos de mim. essas listas. essas senhoras de verde, a rodar pelo salão. esse salão. essa teimosia. essas promesas. eu tenho medo de não saber fazer nada. de perder a função, de morrer de fome. de não caber. de não sobrar. de não ter quando tiver que dar. nem doar. de não suar. eu tenho medo de não ter silêncio. de não ter barulho ou ruído nenhum. eu tenho medo de não ter as cores com que eu sonhei nas paredes dessa casa.

o que eu tinha era um declínio.
uma derrocada.

domingo, 8 de março de 2009

uma mulher desse tipo

poderia abrir os braços no ar, dar a cara a tapas de outros e de terceiros. as amantes já não importavam mais. não importavam os almoços de família. a bebida, a droga, o disco. o rosto era um tabuleiro de dedos, e de arranhões. os peões, os dados, o jogo, o ganho: tudo perdido. tinha aberto uma fenda no tempo, e jogado o corpo. tinha tragado o cigarro, e jogado fora. tinha dado o corpo, e jogado o tempo. tinha terminado tudo, e começado tudo de novo. nenhum elogio, nenhuma reclamação tão boa. os amantes já não lhe interessavam mais. ela, a mulher que tombou para o lado.

o outro de mim

o espelho é o olho do avesso.

sexta-feira, 6 de março de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

o ponto

eu fiz na cabeça uma sentença.
mesmo no viés da dúvida,
o cume do lado para o qual eu tombei ainda era maior
- e mais alto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

ah, sua belíssima!

poderia ser qualquer coisa.
um dia, dois. a semana inteira.
poderia ser o sangue, o suor, a saudade das coisas.

(o tempo passa para todo mundo, disse.)

poderia ser a grávida.
a trágica. a tela, o traste, a tentativa.
poderia ser o negócio.
o seu.
o dela.
o nosso.
IMAGINA O SUSTO?
poderia, a partir do conjunto, estabelecer uma tese.
mas a tinta do cabelo pingava nos ombros.
-malditas coisas que nunca ficavam prontas.
o vermelho não pegava.
se funcionasse, ficaria linda.
mas o vermelho não pegava.
BELÍSSIMA!
porque ela era a mulher mais linda e a mais estranha também.
o livro, o encargo, o ditado popular na ponta da língua.
na praça, o doce.
no doce, a douçura da gentileza.
na gentileza, a moral que movimenta.

vestiu um vestido emprestado:
sua imagem não valia nada.
o laço caiu, o olho, a ruga do olho.
pegou a cortina e saiu.

era uma mulher belissíma que fazia uma dança belíssima.
sairia ilesa.
mas seria a mesma logo depois.
ah, sua belíssima!
(sua imprestável!)

imagina uma mulher com pé de boi:
era ela.
no peso, o peso e só.

nada

A ATENÇÃO QUE FAZIA UM RISCO NO SILÊNCIO,
UM PRANTO,
UM PENAR E MAIS NADA.

tudo era isso.

terça-feira, 3 de março de 2009

pendências

não haveria presuposto a este ponto. com medo de que o sujeito deixasse a sala, aquele pavor de ver suas costas, ainda tentou pela derradeira última vez. um consolo:
- e se o senhor aceitasse mais uma xícara. talvez pudessemos conversar.
percebeu certa intriga. não havia mais nada para ser dito.
- o que há para conversar?
- não há.
- não há?
sentou-se. tinha alguma coisa a ser dita ainda. aceitou a xícara de café, completou com açúcar. bebeu em um gole só. agradeceu em seguida.
- agora você pode ir embora.

e então sim vieram as costas.

sobre exatas ciências exatas

alguém planeja matar mas não mata.
e porque os estudiosos não prevêm essas coisas?

domingo, 1 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

os dois fechados

mofo é mofo.
rosto é transtorno.

o tiro

tudo o que era nosso era de todos agora. eu tinha trocado a aparência pela essência em mim, e nele, o gosto do pouco pelo gosto dilacerado. eu tinha feito em pedaços, mas ele - o segundo torturado pela dor - já tinha aumentado a história. ele inventou cinco dias dos únicos três que tivemos.
- NÃO DEIXA! NÃO DEIXA!
- EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ AQUI.
- NÃO DEIXA, NÃO DEIXA.
ele insistiu na presença, mas naquele ponto eu já não sabia entender mais o que realmente acontecia. eu achava que ele já tinha ido porque eu não via mais o vulto. ele gritava:
- ESSE TIPO DE GENTE PRECISA APRENDER!
- não deixa. não deixa!
eu fazia um balanço com o corpo, um ritual de contra-partida. eu tampava os olhos com uma mão, e os ouvidos com a outra. pernas de índio. ele não me deixaria viver - ainda bem.

top of the world

eu queria que a gente tivesse parado mais há um ano.
e tivesse insistido mais.
e tivesse parado mais há dois meses também.


porque eu estava no topo do mundo.
e você tinha me alçado lá também.




o furo

eu entendo.
a decência vai tratá-lo feito um indigente.

então eu teria ponderado, pensado por duas vezes antes disso. mas acontece que o tempo de espera entre o começo e o objetivo acabava ficando tão grande, tão desproporcional, que eu encurtei o caminho. eu fiz um furo na experiência. eu sei, você teria feito o mesmo. você também teria furado os olhos dessa chance.
eu poderia ter tornado o copo na boca assim como tornei o corpo a casa. eu passaria horas me trazendo para dentro. mas acontece que o desgaste dos seus flagelos fariam de você uma coisa, e não uma pessoa que incomoda. o meu medo era tratar com raiva do furo, - e depois precisar dele. eu sei, você não teria feito o mesmo. você não teria furado o dedo, puxado a corda, largado um peso.

e eu entendo.
porque a decência já está a tratá-lo como um indigente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

domingo, 22 de fevereiro de 2009

às pressas

eu passei. mas ele tinha passado apanhado também. tinha passado de carro, de bike, a pé. tinha passado o ferro, a bandeja, a redação a limpo. tinha passado por essas, por poucas e por outras boas. tinha passado por melhores. tinha passado mal, vomitado, passado o enjôo depois. tinha passado, presente, futuro nenhum. tinha passado o luto, a festa, a chance. tinha passado na televisão. tinha dado no rádio. tinha saído no jornal: tinha passado o contexto.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

sobre a ressonância

de repente você é pego de surpresa porque descobre que o túnel tem um fim, um limite. e o que era para ser uma resposta ao grito era, na verdade, eco.

será que a gente espera uma revolução para marchar?
ou murcha,
e marcha até lá?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009