terça-feira, 30 de junho de 2009

pede para sair?

eu pedi para sair. eu praticamente estrangulei aquela mulher inútil que me oferecia peças igualmente desfuncionais. porque eu deixei o apartamento mais cedo do que o meu costume só para isso, e terminei a composição do meu figurino ainda no elevador, a evitar contato com os vizinhos - o maior cuidado que eu poderia ter em uma situação assim. no térreo, aquele suor de amarrar os sapatos e recolher as coisas espalhadas no chão que despencaram da bolsa. a maquiagem, a carteira, o dinheiro, o celular, as contas a pagar - pensava no vencimento delas, então tratei de me apressar também. segurei a porta do elevador com o pé e reforcei o traço de lápis no olho. a velha do primeiro andar a me olhar, pelo espelho feito uma assombação ou uma alma penada, pedia para que eu saísse. eu desobistruí a passagem. (...)

o casamento

para este dia, talvez, eu já tivesse formulado um texto expressivo. porque uma mulher não casa, simplesmente - descasa da vida. eu não poderia supor um homem capz de tolerar essa vida. se o melhor argumento para a liberdade incessante do meu corpo fosse a fuga, eu imaginava já ter fugido antes. e imaginava já ter corrido em outras direções, de outros braços ou pernas cuja paciência tinha trazido para mim. acontece que a minha juventude ainda deixava a desejar. eu desacreditava em tudo que o tempo tinha feito ao meu rosto - todas aquelas linhas desformes e rabiscos do meu rosto. eu não tinha vivência nenhuma, eu sobrevivia dos outros e pela vontade deles. se a minha vontade tivesse valor de escolha, eu não seria livre - então a desconsiderava também. eu queria ter descido do ônibus antes, ou ter parado de atravessar a rua antes. talvez devesse ter destrinchado o cabelo antes também, ou tomado banho mais cedo naquele dia. talvez ter deitado mais tarde então e, no cansaso, ter levantado mais tarde também. tomado banho mais tarde, ter demorado mais para lavar o cabelo, para vestir a roupa, para procurar o sapato ideal. talvez se eu tivesse deixado a pressa ou se finalmente estivesse entregue a ela. eu não morri, entenda. eu nasci outra vez. acontece que eu queria ter nascido uma mulher mais exuberante, e menos vegetativa.

terça-feira, 23 de junho de 2009

catástrofes

peguei uma mulher sentada em um banco, hoje. ela lia um documento impresso em papel branco e já descriado de um dos envelopes que tinha na mão. para mim, ela não apresentou feição alguma. que distância entre nós? - eu quase deixei escapar na voz enguiçada que eu tinha. nada do meu ruído lhe fazia desrotular a atenção da folha. uma mulher cuja idade tinha avançado sobre o corpo, cabelos que atingiam os ombros diante de um descuido, ou diante de uma falta de tempo talvez. caso o metrô tivesse chegado mais cedo, penso nunca poder ter encontrado com ela - porque uma senhora de mãos tortas, uma senhora de cílios finos e ralos, de aspecto que poderia facilmente beirar o recuo, de óculos não somente escuros, mas densos, de linguajar nenhum, de sapatos bracos e de pérolas no pescoço, pouco visível e cega talvez nunca chamasse a atenção de um homem como eu. eu me sentia um traste.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

as composições | 2

(...) era horrível. tinha muito da exaustão da composição do olhar. de uma mulher que sorria, todas as coisas que não eram passíveis a explicação. eu pensava que o processo todo estaria prejudicado pelo abandono. eu achava que poderia ver o que eu fazia, ou o que eu entendia do mundo. acontece que eu já tinha chegado no meu limite.

a minha intenção não foi criar uma discussão. acontece também que, dali em diante, os dias tomaram rumos que eu desconhecia. eu tentei aplicar à situação o mesmo controle que já havia aplicado a tantas outras antes, mas a minha consideração quanto a isso foi igualmente falha e reversa. eu tentei fazer das minhas ações grandes golpes do tempo - sendo que deveria tê-las transformado em providências. antes tivesse calcado as dúvidas no chão, no piso da sala entre a gente. porque este terreno baldio entre a gente tinha passado a romper com o meu vigor. todas as cores sobre as quais eu falava puseram meu discurso em contradição. e ele franzia os olhos, a reprovar meus lençóis brancos. mas não o culparia, tampouco faria da culpa uma pequena medida de contorno da situação. para mim, a culpa era uma espécie de gula do absurdo. eu tinha medo das conjecturas - das considerações térpidas da amizade. às vezes eu ainda me pego pensando nele enquanto o peso do sono me repuxa o corpo. porque ele pegava o violão - já desfeito de qualquer dom - e o colocava no colo. ele compunha quando não tinha nada para fazer.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

outro dia na neve

o eterno retorno:

eu tinha holofotes debaixo das pálpebras. o meu olho era um lugar que não ficava escuro - e eu enlouquecia por isso. eu me perdia no vazio das coisas que eram feitas com razoável frequencia. porque eu tinha metido os pés no tempo - e tinha metido os dois pés no meio do peito do tempo. então eu aprendi que isso era uma possibilidade remota da vida: as coisas se repetiriam sempre duas vezes, e centenas de vezes depois disso. eu aprendi que o ciclo das coisas não era um círculo - era um diálogo que engolia o próprio rabo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

o engasgo

"escrever é catartico
e a escrita é um vômito.
o engasgo é um propósito:
o próprio homem que vomita.
o desvio não é um mito
e escrever é onírico.
o engasgo é de propósito:
o próprio homem que sobra,
e sonha e deixa as sombras no ar.
se não está escrito, nunca foi dito.
escrever é pontuar caráter".


eu já tinha esquecido todas as predileções que faziam em relação aos homens e a seus romances. acontece que as mulheres têm a necessidade da preservação. e isso é muito mais maternal do que poético. o instinto que traz o zelo é impreterível. uma mulher pode ser terrivel. a mulher é muito mais hierárquica, construída de sensibilidade - posta de lado. porque a mulher tem um dia. e porque a capacidade de uma mulher de dosar o amor é proporcional a sua capacidade de ser cruel. a mulher é referente, substancial, sem condicência, maldosa - infinitamente mais maldosa. porque os vícios da mulher são emocionais. e a mulher faz um sentido do cuidado em tudo. o romance da mulher é eterno.

domingo, 31 de maio de 2009

as composições

eu teria que pensar de uma maneira analógica, imaginava. precisaria desconstruir o pensamento. e esse meu linguajar pobre, jogar pelos ares. eu tinha uma grande vontade de desconstruir mesmo - e eu dedicava diversas horas a pensar sobre isso. eu pegava rápido o jeito das coisas porque eu tinha sido criada assim também. eu fazia questão da desconstrução. eu quase entrava na luta. eu fazia da mansidão uma perspectiva. e quanto a observação do outro: alguns observam, outros não - era isso que eu tinha entendido do discurso. porque o olhar descontrói - eu sei, essa palavra ainda seria usada muitas vezes mais. o que eu ainda duvidava era da consistência da relação: ou era o casamento ou a dicotomia perfeita. por isso eu fazia do meu olho uma experimentação, uma fração qualquer de segundo. eu compunha enquanto não tinha nada para fazer. eu tinha que entender os detalhes meus para o outro. e então vinha o pensamento e eu cuidava para que tudo existisse - porque o cenário podia não existir. eu colocava as coisas dentro da postura e das possibilidades. eu ajeitava tudo. eu cuidava para que as coisas realmente existissem, para que o perfeito perdesse o controle. o fogo era lindo e as chances que eu perdi foram outras, as meias, as tantas outras vezes que dormi nunca voltaram - eu relatava a minha desistência nas horas de fadiga. eu compunha enquanto não tinha nada para fazer. eu punha a vida em ordem, os perfumes, os livros em ordem. eu punha os CD's, os vestidos, os desenhos em ordem: às vezes a minha composição era proposital. (...)

terça-feira, 26 de maio de 2009

da praticagem das coisas

há de saber que relacionamentos poderão durar enquanto for possivel sentir paixão. depois disso, findarão.
o fim é a perda da graça.

Marcela | 3

Eu já tinha vivenciado um romance antes. Eu já tinha experimentado gostar e dar de volta o gosto da companhia. Acontece que eu fiz da minha vontade a própria consignação dela. Eu explico: eu tinha um homem que muito fez por mim, que largou, que tombou a vida para que pudéssemos construir outra que fosse comum a nós dois. Ele era um homem cuja velhice não chegaria ou alcançaria nunca. E eu era uma mulher de vida por começar. Eu achava que viver era uma bravura. Como eu nunca tinha feito nada, com o passar do tempo, a nossa convivência já era imediata. Eu pedia cerca de dois cafés por vez, e demandava açúcar ao atendente também. Assim como o tempo demandava rotina, e a rotina demandava tempo. Eu conheci este homem em um café perto do café que eu freqüentava. É que as coisas quebram, e a gente é obrigado a mudar – eu mudei. Eu saí de onde eu estava. Eu deixei as minhas birras, peguei meu vício e mudei.
Na época, eu achei que isso seria difícil para mim, acontece que mesmo assim eu mudei. O café que eu passei a freqüentar por muitas vezes me remetia ao antigo quando eu entrava no começo – depois de alguns meses, eu já quase não tinha lembranças dele. Engraçado como a gente se aproveita tão pouco – ou por tão pouco tempo a ponto de esquecer. Eu não entendia se o esquecimento era uma geração tardia da memória, ou somente um lapso dela. O homem com o qual eu convivi naquele café foi embora ali mesmo. Eu explico: quando ele foi embora, eu contive a minha cabeça, e eu deixei que meu olho acompanhasse cada passo dele. Eu achei que se o perseguisse, estaria a salvo. O bule esvaziou, e a gente terminou logo depois. Eu fiquei parada por um bom tempo em tempos ruim. Porque todo rompimento é doloroso. Eu tinha pontadas horríveis no rim e nas costas. Para uma mulher nova, isso era um absurdo também. Eu intensifiquei meu vício, a minha insônia, a minha revolta das coisas. Porque eu achava que a vida tinha me passado por cima, me pisado nas costas mesmo. A vida tinha feito com que eu mudasse o meu café, a minha rotina, e a minha demanda específica das coisas por nada.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

as mulheres do sonho | 2

acontece que eu não era uma mulher, eu era uma jaula. eu pegava as grades da minha frente e me afastava. a jaula do mundo era dos outros. toda aquela deixa, toda aquela sujeira do passar das semanas. enquanto todas elas paravam, eu recuava para o meu cigarro também - naquele fogo mínimo que eu tinha. eu não mentia, eu não transfigurava. eu somente passava pelas outras a comtemplar e a sabotar cada um de seus detalhes. porque eu era um grande adereço, um grande colar de experiências e de tombos. e eu teria que acordar, pular da cama, cair no mundo. acontece que pela minha distração, eu perdia o simbolismo nas mãos, e as mãos nas grades. imagina uma mulher presa: era eu. enjaulada. posta de lado, deixada de lado, em paralelo. eu queria passar a existir na liberdade das bordas: as mulheres do sonho existiam assim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

quando julgou-se, finalmente

nao fui a mulher que sou.
mas sou todas as mulheres que quis ser com isso.

as mulheres do sonho

eu tinha parado naquela cena. porque para mim, nunca houve antes outra cena igual. aquela mulher que fumava muito e sem parar. o descanço era um puxar de ar bastante breve no tempo entre apagar um cigarro e acender outro. eu queria entender de qual lugar aquela mulher poderia ter vindo ou o que ela fazia ali. ninguém poderia se perder tanto, tampouco ser tão completo, tão cheio de si. porque essa não era a minha vida, isso era o que eu fazia para sobreviver. eu olhava as outras mulheres, relatava, e fazia da mulher em mim um pouco de todas elas também.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

notas de fora | 4

CASO NÃO TIVESSE PESO,
EU AUTOMATICAMENTE DESCONSIDERARIA O ACASO.

e então existe eu

o comentario que eu tinha feito não provocou nada. só ficou ecoando a mesma coisa, umas centenas de vezes depois de dito. eu nunca vi ninguém ser deixado - eu só deixei, tantas outras vezes. e então passei mal. dei o cano, fugi na primeira oportunidade mesmo. faltei, porque a gente é cheio de faltar com a vergonha na cara.

das cores

A CINZA É CINZA.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

as faculdades humanas

se não a realidade, a utopia me fará caminhar
e me fará mover, essencialmente movimentar-me.

Os outros

Quartos de hotel são assustadores por natureza. Quantas pessoas já passaram por lá antes de você? Quantas já dormiram nessa cama? Quantas já perderam a cabeça, enlouqueceram nessa cama? Quantas delas já morreram ali? Você nem sabe.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O vômito

Não há nada além de um edredom que cubra a cabeça agora. Porque as velhas idéias estão cobertas também. Pensei ter atravessado por toda a passagem dos mitos e das coisas. Acontece que a beleza da poesia é degradante e suja. Eu estava em um lugar em que as vozes cresciam. As vozes, os sons, os meis tons cresciam e o barulho aumentava. Exponencialmente, eu ficava surda. O barulho todo unificava, concentrava, e tirava a vez de outros. Eu era uma mulher suja - e não havia nada que se pudesse fazer a respeito disso. Porque eu dançava muito, ao deixar dos acontecimentos e ao bel-prazer do criar dos rítmos. Desejava ter parado a tempo de colocar as convicções realmente a prova. E talvez ter parado, simplesmente. Eu fiz uma página que era um decreto. Eu vomitei. E coloquei fora do corpo a garganta, a secura do vinho, da droga, da mercê toda que envolvia o prazer. Esse almoço não vai terminar, eu pensava. Esse almoço não vai terminar porque não precisa. O meu perigo era não me levar em conta. Poque depois disso vinha a anulação de mim. Eu poderia pedir que houvesse a espera por mim também, mas o desenrolar de uma situação que sai do controle sempre deixa a desejar em um ponto específico. Como tudo que é grande, faz-se impossível de se manter todos os aspectos intactos. Eu vomitei. E eu tinha trazido para o corpo a urgência de tudo que eu sentia. Imagina uma menina que concentra desejo nas bordas, e que não dá conta de toda a extensão da posse. O espaço estava contido nos limites de um ciúme arbitrário. O que havia para conhecer não estava posto. O que havia era uma porção do desenvolvimento, do aumento, de alguma significação extensiva das palavras. A volta era um giro. E Rita Lee não existia. Nada existia porque a minha disposição era adversa a tudo. Eu queria volver, como poucos. Voltar. Acontece que voltar subentendia colocar do avesso a este ponto. Tinha uma falha no retorno, ou no fermentar de uma segunda vez, de toldar-se, de turvar-se a nada outra vez. Algo incerto - eu entendia isso como uma questão geral. A minha sinceridade desaprovava a minha cabeça com frequência - e o aprendizado que envolvia isso tinha um tamanho que não existia também. Eu não complementarei o tempo. Eu não darei ao tempo a sofisticação que lhe pertence. Não há perda de beijos. Das bocas, já não há olhos. Da intimidade, o espanto que restou - porque o corpo continua a trazer o que houve no carro, na tarde, no passar das horas que pensei não haver gostar sobre nada. Não vai haver nada como as coisas que passaram batidas ou apanhadas. Eu vomitei. Acabei. Abri mão. Lavei as mãos e saí. A partida não é um ponto, é um abandono.

domingo, 10 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Marcela | 2

o homem dela:

E eu tentava entender. Eu tentava abrir o olho para entrar mais luz – mas então vinha o medo de ficar cego, ou de ser tomado por uma maré grandiosa de inteligência. Não sou um homem que nasceu grande. Então eu fazia o inverso. Era como se eu pegasse a parede, e a puxasse para próximo de mim. Meu olho era fixo para isso, e eu engolia tudo até minha cabeça ganhar dois túneis adentro no lugar dos olhos. Puxaria a Marcela, a sala, a mesa, o objeto todo. Eu via o fundo, o fim. Alguma coisa pequena e que quase não falava, mas que dava perspectiva no breu. Essa coisa era a esperança para mim. Eu imaginava um túnel enorme na minha cabeça.

Eu tinha feito uma expectativa, uma espécie de trilha no meio do mato. Somente a precaução dela seria capaz de me arrancar a vida do peito. Se ela me considerasse mais, eu estaria acabado. A minha linha de pensamento tem um tom de eco, de ressonância. Se ela me considerasse demais, eu estaria abandonado também. Então a minha dor tinha que ser uma moção do abandono – ou da companhia demasiada. Talvez a gente precisasse de diálogos, mas as palavras por tantas vezes arranharam as paredes que mesmo eu, este segundo doente mental, já não agüentaria a destruição da mobília outra vez. Para isso eu teria que forçá-la a parar. Parar de dar remédios, receitas, bolos crus. A instância das horas passava como um desafio.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

no poço dos desejos

tirou uma moeda do bolso. fez um malabarismo qualquer:

eu queria deixar preservadas as coisas boas que a gente viveu, porque agora a vida seguiu em frente também. eu queria ter tido tempo no começo para dar metade de mim que você conheceu da metade para o fim. eu queria de novo as horas que foram vagas, e as vagas horas ao seu lado de espera - porque até a espera tem um encanto no processo todo. talvez gostar precisasse de mais prática, de mais habilidades que eu não tinha. e a família que era minha deixou de ser. as coisas que eram minhas, as minhas vontades, perplexidades: tudo depositado em você. agora esta moeda de troco de cigarro, de café frio, mal pago: eu queria transformar você em uma lembrança atemporal. não a localizarei no tempo, nem na minha história. porque a história que é nossa é o que eu acabei por me tornar também depois de tudo.


até o poço dos DESEJOS ainda é um poço.

terça-feira, 5 de maio de 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

o banco de ossos

foi como eu te disse, eu estou envolvidissima
eu parei em você.
e tenho parado cada vez mais.
eu tenho diminuido, desacelerado o rítmo.
tenho pensado, saído cada vez mais das adversidades.
e tenho pensado no que a gente era, e no que se tornou.
o que há para a gente ser ainda?
o que há hoje que não havia antes?
porque a minha vontade é estar com você.
e de estar no seu beijo.
no seu abraço
no sentir do seu cheiro.
no usar de mim pelos seus braços.
porque o seu cheiro ficou na minha blusa de ontem.
e você foi minha referência a noite inteira.
o beijo que é seu ficou em mim, até os seus silêncios, os seus suspiros ficaram comigo, e dormiram comigo também.
eu estava próximo do desejado.
- e isso era privilégio de poucos.
e se é isso, se a paixãoo é isso:
então eu estou apaixonada também.
porque a paixão pra mim é simplesmente isso.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Marcela

É, eu já tinha feito das tripas um coração enorme. E agora eu tentava dar conta dele. Imagina, um coração que já tinha tido ataques epiléticos, que se contorcia no peito como uma cobra enrolada na água. Que se debatia, que batia nos cantos e nos outros órgãos. Que comprimia os pulmões, que sofria as dores da minha cabeça e da minha insegurança de tudo. Porque o meu problema não era a minha insegurança, na verdade. O meu problema era a minha autoridade, a minha segurança demasiada em tudo que eu fazia. Se eu gritasse, estava calma – uma explosão minha era o fim da histeria. Se eu ficasse quieta, então sim vinha o meu nervosismo, a minha pilha das coisas e das aflições.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Devaneio Canalizado

A dor ocorreu e infartou a minha mão. O lápis bateu contra o chão gerando um estalo que durou alguns segundos. Um suspiro tomou conta de mim e eu levei as mãos até o rosto, inacreditavelmente envelhecido. Quantos anos se passaram desde a última vez que me olhei no espelho? Cem, duzentos talvez? A chuva batia no vidro da janela, torturando-o. quantas vezes desci a serra pelas curvas da estrada de Santos? Quantas vezes caminhei pelas belas praias?
Imagine quantos novos amores nasceram às margens cimentadas dos canais.

No fundo da minha mente, nosso amor insiste em ser lembrado como um destes, nascido às margens. Canais levaram, durante um centenário, água ao coração da cidade. Levaram, as margens do pensamento, ar ao coração mais fraco da humanidade: o meu, lógico. Mas por que tantas perguntas? Perguntas ainda não irão lhe mostrar que eu sou feito destas águas, deste frio, deste ar.

Imagine quantas moléculas solitárias de água atravessaram pelos braços destes verdadeiros rios urbanos. Imagine! Sete vezes diferentes. E, cada vez, um pecado diferente. Na chegada da cidade, o canal 1: a gula. Uma ânsia de conhecer tudo. É a nossa paixão em sua forma mais pura. No segundo, um segundo não poderia perder. Preguiça, só isso. Deu saudade de sentir e vontade de voltar a ser nós dois. Mas nada irá me desconcentrar, devo continuar a contar a minha história. Corri para o terceiro canal, coberto de cobiça. Voltei ao meu primeiro sentimento e fui direto para o quarto. Sentei a beira de um certo orgulho destorcido. Ao redor dele, hoje existe um certo desenvolvimento. Prédios lindos cheios de segredos. Banqueiros, donos de muitas das extinções impressas. Talvez eu fosse forte o bastante para suportar a falta de você.

De repente outro estalo. Voltei a estar sentado na escrivaninha com uma xícara de chá, já fria, encarando-me. Como me deixei ser conduzido? Como me deixei ser poluído? Estas perguntas me encostam contra o vidro da janela e me interrogam. Vi uma garrafa vazia flutuando na água lá fora, que não sei ao certo se está canalizada ou solta por aí, como minha liberdade, meu amor, minha saudade da vida. Quis por um instante deixar tudo para trás (mais para trás ainda, se é que isso seria possível). Sei lá, qualquer coisa. Sair deste corpo, encarnar em uma samambaia, numa panela, num pedaço de carne cozida.

Um gosto salgado atingiu meus lábios tentando me fazer renunciar. Mas eu me mantive firme, apesar dos pés trêmulos, das mãos bobas, do coração saltando pela boca. Tive um misto de diversas sensações me invadindo e tomando conta de cada pequena parte do meu corpo, como um banho frio ou um último gole que desce quente e queimando pela garganta seca.
Ainda lembro-me do quinto pecado. Por que poucos tem tanto e tantos outros tem tão pouco? Doce inveja, dei a luz a ela. Por que sentir inveja e não cobiça? Por que um desenvolve-se e outro nem tanto? É mais fácil invejar do que traçar um sonho? Quanta modéstia. Continuei a correr deixando o vento gelado bater contra o meu rosto e as águas passadas das lagrimas passadas transbordarem pelos meus olhos. Não quero mais sentir esta dor. Não quero mais deixar este vazio crescer, bem no centro do meu peito. Queria poder atingir o limite sem conhecer o desespero. Queria poder ter gloria. E no sexto pecado eu tive. Luxuria e luxo. Lixo! Naquele dia, naquele mesmo local há 50 anos atrás, as mesmas duas pessoas foram tomadas por um desejo que transformou suas almas puras em um pecado delicioso. Mas e agora? Olho a minha volta e sou alguém que esta limitado a ver. Não tenho lhos de quem é capaz de entender. Fui traído pelo pecado mais efêmero de todos.

Fugi mais uma vez. Desta vez, pela última vez. No sétimo pecado sem mais tempo para pedir desculpa ou para pedir para voltar, a gente morreu. Foi lá que você literalmente padeceu. E eu morri junto, bem ao seu lado, deitado e moralmente ensangüentado. IRA. Odiei-me por tê-la deixado partir.

A seriedade nunca foi a minha maior qualidade. Mas rir de tudo, como fazia antes, era agora uma clara demonstração de desespero.

Continuei a correr, a rir e a chorar de aflição. Já não havia mais tempo para voltar atrás. Troquei a xícara de chá fria por um copo de whisky, que bebi até sentir meus lábios dormentes. Parei de fazer fantasia, mas será que parou de fazer mal? Sou então como um velho canal, cheio de beleza e de b... bom, melhor não comentar. Tire suas próprias conclusões. Sou fruto de uma sociedade errante. Por mim, conformo-me.

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concurso de crônicas - academia feminina de letras.
os 100 anos dos canais de santos.

2007

domingo, 26 de abril de 2009

mistério de uma pessoa só

imagina uma mulher que não era delicada para sentar. ela dizia: eu perdi o meu espectro, todo ele. e eu perdi aquele homem também porque eu colocava os pulsos com gelo em sua nuca até que as veias murchassem nos cantos e ele pudesse relaxar. então eu relaxava também. quando ele parava eu o perdia. então eu o irritava.

raiva de bar

a sua palavra não vale nada.
a sua palavra mais dois e vinte, eu pego o onibus.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A cabine | 3

dos trechos passados a limpo:

(...) Continua sentada no banco do banheiro: está sentada naquele banco de banheiro há meses. Às vezes seu pensamento é do tipo de gente que se acomoda. E Ana Laura faz parte desta categoria com o mesmo orgulho que James carrega nos bolsos, e com a mesma sensualidade que Sabrina carrega no corpo. Assim, um círculo de vício. Porque o pensamento tinha que estar além do resumo de ler e de escrever. Precisava criar novas soluções – algum sentido na parte que se perdeu no caminho, ou na saída da escola. Uma parte que havia sido solta e que em algum momento tinha sido posta como desnecessária. E James sempre achou muitas coisas desnecessárias – ele achava que as coisas da vida social eram banais demais, que todos os assuntos eram banais demais. Não é fácil ser inteligente – então não precisava, por vez, por a prova sua inteligência, mas sim sua capacidade de pensar. Precisava concluir com mais determinação, já que ultimamente tem perdido o foco e tem deixado as idéias correrem soltas cabeça adentro. As idéias que se espalham entre os móveis da sala são de dura ordem. Necessita limites como quem necessita do vômito depois da comida. O conhecimento sobre os processos está se esgotando? Evitava comentar. Às vezes pensa secar como a caneta que usa, murchar como planta, sumir como pó. As letras acondicionam o caráter desbotado e somem na frente de seus olhos. Porque quando não há tradução de pensamentos, há crises. Era como se tivesse um bloqueio ao que pensa – e admira-se: formar conceitos é algo com que lida sempre. Mas o som e o sentido se confundem. Era pobre. Subalterna. Era nada, assim: o anti-climax. (...)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Acordeonista

Um canto que mais parecia um pranto, um suplicio que impetraria em mim e depois em nós a harmonia – era uma instancia na qual eu não confiava nem para mentir. Porque o balanço implicava um limite também. Os dedos traziam um cruzar de silêncio e de tormento e as notas faziam pequenas perfurações na melodia como tiros de um insuficiente no escuro. Como pequenas interrupções, pequenas granulações no discurso sem palavras que propunha, as notas era carregadas de auto-promoção. Não via e não era visto – minha simplicidade era poder passar desapercebido por ela, um andarilho talvez. O som passava por mim em um tom caramelado e viscoso. Não me possuía, não me tomava ou me ou fazia dono, eu era o mesmo de sempre, mas não era eu mesmo quando destrinchava aquelas notas no ar para ela. E que ar mais denso, penso eu, para querer ser escutado. Minha proposta seria trazer essa pequena aspiração até o âmbito do pensamento. Até o máximo do pensamento. Eu fitava seus olhos com os olhos que ela não tinha – e isso me passava a sensação de estar em vantagem. Era como se eu tivesse domínio sobre seu passo. Eu olhava seu vestido, seus quadris, os trilhos de seu cabelo, as fivelas. Eu ouvia suas sandálias estalarem no chão, festejando. Parecia que eu puxava seus braços de um lado para o outro, eu deslizava seus pés, arranhava seus pés piso. Ela, minha marionete. Marionete de mim. Eu colocava no piso seu peso de menina, de bailarina, de mulher como uma boneca, um enfeite ínfimo de porcelana em uma prateleira de pensamentos. Mas não se engane, há quando seu vestido espaçava ao redor do corpo também e no centro do salão: ela era um grande pavão no centro do salão. Com aqueles olhos azulados reconhecíveis, perfeitamente reconhecíveis. Olhos de águia velha, olhos foscos, turvos. Olhos molhados. Olhos de afogamento, de socorro. Olhos baldios como só ela tinha. Por tantas vezes inclinei as costas em sua direção, a cortejá-la. Torná-la nobre. E o que me parece é que este instrumento é um velho de público único. Ela faz na escuridão, mas são faria no absoluto silêncio. Eu sei, eu a conheço o suficiente para duvidar dela. Este velho acordeonista é o que existe antes de saber existir. Porque não existe felicidade sem um bom acordeonista. E tudo me parece correto agora, e dentro das controvérsias.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

e se fosse burra?

a inteligência é como a riqueza:
você nunca sabe se é só pelo dinheiro que existe interesse.

terça-feira, 21 de abril de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

a concentração era vasta | 3

eu imagino uma mulher que sorri, e que o sorriso quase lhe rasga o rosto. imagino uma mulher que rola pelas escadas, que joga as minhas cadeiras, as minhas meias, que joga copos pela escada. ela fazia um show das coisas que voavam na minha frente.
eu achei que só chovesse em mim, porque o meu cabelo grudava na testa – e então vinham aquelas pequenas poças de água na minha camisa, na frente e nas costas. e eu via o cabelo dela ali, intacto. eu achava que aquilo era muita identidade em uma pessoa só. ela era tão importante que o bem e o mal saiam dela – pelo menos era isso que ela achava. e ela se colocava assim, imponente na inconstância das coisas e dos atos.

por vezes, tinha pensado em usar o telefone para fazer contato entre nós. não o fiz. o nosso contato ainda estava restrito no olho – e que olho mais ordinário eu fui escolher para isso! justo eu que sou homem de olho claro e que as bordas do olho de justas não tinham nada. eu era um homem de olho tão claro que quase era branco. e eu sei disso porque ela, a toda hora, me punha no espelho – e então eu refratava. quebrava a luz de tudo, a punha em mim, e depois espalhava. então vinha aquele clarão e ela soltava para mim todo o desalento que tinha: será que você não é capaz de se manter neste breu? não. EU não era. aliás, eu era completamente incapaz de viver ali. eu somente ESTAVA ali – e acontece que aquela não era a minha vontade também. a minha vontade era outra, e estava guardada. eu a tinha posto junto ao corpo que eu mantinha dentro desse corpo doente que tinha sobrado para mim. as mesmas coisas que eu segui, eu ainda seguia agora – só que em outro nível. meu olho tornava meu corpo pouco porque rebatia a luz que vinha aos montes. imagina um louco? era eu a me sabotar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

a concentração era vasta | 2

eu ouvia o tremor dos saltos dela no piso – só depois ela aparecia. ela, aquela mulher enorme. ela vinha para mim com aquelas mãos de cinzeiro, uma pena. as cinzas que manchavam seus dedos e a palma da mão me faziam desacreditar. talvez aquilo fosse uma fábula do destino. uma pequena narração alegórica do tempo. um carnaval. eu não sabia.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

o eclipse | 2

o que há de mistério no mar à noite? o que há em chão, em piso, que não se vê? pensava ser estranho falar de mar quando se fala de um leão e de uma coruja - mas a aridez não fazia exatamente sentido. então trocava os olhos: ao sol do meio dia não se vê olhos. a praia à noite era um grande corredor de ventos. se abrisse os braços ali, pegaria a orla para ela. porque o seu tamanho era uma contemplação - e as corujas não eram grandes mesmo. as corujas eram mensageiras, torneiras da voz da gente. a coragem era o melhor das virtudes às avessas: a cautela. se fizesse um recorte no mistério, aparentaria uma ignorância - então não o fez. há tantas implicações! porque o mistério vai tornar a perda do eixo. arrisca? arrisca. e então petisca. e se prepara - e bebe muito, e tomba o corpo. mas o corpo não desvia. não desvia olho, corpo, braço, deixa nenhuma. há quem não desvia nunca. nunca?

(silêncio)

poderia haver resposta. mas acontece que as corujas apreciam o silêncio do tempo. há quem se diga bicho do cansaço, e da preguiça. bicho da falta de pressa, e de euforia. duvidaria. por que o olho da coruja era perigoso? a coruja somente inverteria a ordem das coisas - e trocaria o dia pela madrugada. precisaria estar presente para isso. mas o presente é devasso. e as corujas tem olhos tangentes, pontuais. sustentar era difícil - e então vinha o leão.

imagina um bicho que chega de baixo, e fica enorme de repente. o leão só gosta da presa porque ela é presa - atacar a presa é quase vulgar, redundante. então imagina um leão que põe as patas nas orelhas e espera a surpresa da festa. há leões. há leões que são leões, e que ainda são gatos. para quem tem um olho enorme à noite, há a complicação de viver ao sol do meio dia somente com um risco de olho. imagina um leão que vira tatu? que some no dia, que só tem juba? não imagino - e não há porque trair a metáfora. o leão é rei, a coruja, mensageira. a coruja leva o tempo todo porque essa é sua função. o leão não. o leão tem um lugar todo para sustentar, um respeito, um medo todo dele para sustentar - e sustentar é dificil.

a curuja quer voar. há corujas que voam muito, e sempre. há corujas que não voam nunca. há aquelas que nunca voaram, e há aquelas que sequer nasceram também. então vem um leão com receio, que se aproxima lento e sempre, com as costas feito uma engrenagem de máquina. um leão cujas patas tecem no chão o caminho. vai ver a loucura é uma bravura também. então a imaginação traz um leão que pula, mas que pula tanto a ponto de esperar que alguém tire o chão enquanto ele salta, para que caia indefinidamente. ou então que lhe agarre no ar, enquanto ainda está no alto. decerto, só há a fuga. e se uma coruja está disposta a voar? não há nenhum registro visível de alguma que chegou lá. é mesmo inconsequente - e quase vulgar - esperar que um leão ataque. e a coruja é o pássaro da noite. da eloquência, vinha uma mulher que se dizia leão - com um cabelo que era um juba. e uma menina que era um coruja de olhos furados. porque a coruja tanto se enfeita que se fura os olhos.

há corujas que não vivem nada. o leão é a presa da presa. uma condição, uma torção de origem física. pois que para a coruja não há ordem, arranjo, não há nenhuma disposição conveniente. para a coruja não há cadeia. a coruja é o bicho dos recados - o leão, o bichos dos outros bichos. é, sustentar é dificil. então detesta o autosacrificio, o falso eclipse, as coisas práticas.

voar não é uma obrigação, é um desafio. já tinha infestado o sentido, e agora definia inversos. voltaria a quietude se não soubesse que duas hastes inversas podem invergar tanto a ponto de converigir. há uma impossibilidade no reino dos bichos. há bichos que não se aquietam nunca. há bichos que são incrivelmente fascinantes. há todo o tipo de bicho.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

mulheres

a morte era o ócio, o óbito, não. ela era do tipo de mulher que toma dois comprimidos por vez - sua garganta é um tunel. eu inchei. e ela estava ficando um bicho. marcela não tem nada o que excluir? tem gente que não tem cabeça - tem gente que tem muito. então vem a sobrevivência. e depois a volta para casa. o dedo perde o contato do dedo com o passar do tempo - e dependendo da alimentação também. o que era meu estava dado - e eu tinha apanhado muito por isso. já sabiam meu nome - então eu era um nome agora.

terça-feira, 7 de abril de 2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009

a concentração era vasta

acendeu o cigarro - não porque tinha vontade de fumar, mas porque tinha falta de vontade em relação a todo o resto. já não havia mais nada do que fugir, ou do que se esconder. precisava aprender como se fazia café. e bule. e pó. e fogo. prometeu sossegar depois disso tudo esclarecido. fez uma pausa: imagina alguém que que não consegue saber o que é importante e o que não é. que prazer há em perder tempo?

ela era uma mulher que a alça do sutiã escorria pelo braço, uma alça larga que caia pelo ombro e por debaixo da manga da blusa. uma camisa cinza, xadrez, meio azulada e sem cor. ela colocava o cabelo para trás, e depois o ajeitava de volta para o lugar. pedia silêncio. que peso que há nisso? a concentração era vasta.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

vidas cinzas

uma arma na mão. um aroma? o do cigarro. e que cinza maldita. cinza: cor de nada. uma dúvida? sete dúvidas insolúveis em água. quais seriam as sete melhores partes do corpo? everytime, evitaria comentar. uma doença? ódio por ser interrompida sem propósito. outra segunda doença? ódio por descrevê-las. um problema? o estouro dos vínculos. a expansão dos vínculos. sente muito por isso. sente o mesmo que sentir por ela, treze dias atrás. quantas vezes poderia ser surpreendida em um minuto? há o empecilho da concentração. sua principal personagem não passava de uma imitação de sua vida - e que merda de vida para se imitar, não? porque este corpo de texto sem rosto? another time, maybe. evitava comentar também. mais um cinzeiro cheio - estava de saco cheio também. e de banho tomado. de cabelo lavado. e nada. seria esse o dia da guarda? das datas corriqueiras? dos vizinhos intrometidos?

AS FRAQUEZAS ERAM IMUTÁVEIS. OS PIORES DIAS: AS MELHORES EXPERIÊNCIAS QUE JÁ IMAGINOU TER. O BEIJO DELICADO QUE IRRITA SUA IDÉIA. ALGUÉM GANHA UM BEIJO, ALGUEM PERDE. O BEIJO É UM ALERGIA. UMA DOENÇA CRÔNICA. INTERMITENTE. INDÓCIL. cinza: cor de nada.

um tiro.
nenhum fim.

o gosto do tempo e das guerras dos outros

não poderia passar por isso de novo, de novo, não poderia. queria as coisas que tinham sido ditas há muito, mas os dizeres eram os mesmos de novo. de novo, eram os mesmos. a beleza - não havia. o gosto, o jeito, o resto do corpo. as escadas, os banheiros, outra vez o chão, o corredor de beijos. a sujeira, a mão cheia de poeira fina.


tinha prometido não deitar em escadas, não fugir em banheiros, não rolar em sujeira, não cair mais. havia simplicidade na promessa, e desvario na concreta crença que se fazia nela. a paixão vai matar a programação. teria que se apresentar, mas, de novo, não se apresentou. O INIMIGO ERA EU.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

sobre os gênios

todo mundo morre.
mas um dia a gente vai estar nas cabeças.


gênio é assim, não se explica.
e como eu fiz? eu simplesmente fiz.

domingo, 29 de março de 2009

dos homens loucos

ele falava coisas de como fazer bonecos de neve na grama. falava dos cachecóis que faria, e dos gorros também. dos olhos de botão, e do nariz de cenoura. seu pensamento representava um capítulo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Ambiente

Foi uma surpresa retornar. Todo beijo nosso residia ali, como doença. Lembro-me da clara falta do ar, e do falso bombeamento de sangue dos pulsos. Fragilizei os joelhos. A minha respiração deixou de ser um suspiro e passou a ser um bafo longo e pontual. Uma martelada de ar que saía da minha boca, e por entre os dentes. Não passaria por isso de novo, eu pensava - eu já tinha jurado não passar. Já tinha esquecido - e eu já tinha jurado esquecer também. Mas a minha garganta tinha fechado e da janela vinha muito vento - e o balançar de cortinas, claro. Tive vontade de por a perna para fora, o rosto para fora e fazer buracos nele para ver se assim entrava ar em mim. Eu sentia as minhas pernas finas e as pontas dos dedos sensíveis, pontiagudas. Então eu apertei meu braço com a maior força que pude projetar: eu ainda era a maior decepção dele. Por que as bigornas não são brancas? Tinha um pesar nas minhas costas também. Há meses não chorava como hoje. Hoje, o dia mais cinza de todos. Errei na roupa, na frase, no cumprimento todo. Errei na piada, na ordem, na desordem das coisas. Eu precisava de um abraço hoje - daqueles sem fala, sem comentário. Sabe aquele aperto mudo do corpo do outro? Então, um desses. Não havia nada que pudesse fazer a minha direção mudar. A minha arte era essa e só. Não há a passibilidade da prioridade em mim. Eu já tinha enganado todo o mundo, e agora estava a voltar no tempo - e no prefácio dele. Eu já tive 50 anos. Eu já morri de câncer, de tuberculose, de tosse há 100 anos. Eu voltei com a mesma gripe de meses, e depois vim com uma falta de ar. Eu já morri de medo de guerra, e voltei inteira com 2 pernas. Porque a minha neurose vem da minha esperteza demasiada. Seria o cigarro desculpado pela genialidade? Achava que sim. Seria a minha vida outra vida? Seria minha a outra? Eu duvidava. Mulher nenhuma se atrasa tanto. E eu sei, eu tinha parado para resolver um problema. Mas acontece que o momento do erro me tomou o corpo e me tombou no álcool - eu perdi uma parte da história com isso. Eu já tive 50 anos, e agora estou voltando. Eu pausei o tempo, pousei sobre os ponteiros e os ajustei. Estalei os dedos e defini o momento do retorno. Dos tontos, um monte de trono de rei. Eu achava o escacho fácil, aquela separação toda. Mas a gente só percebe que falar é difícil quando perde essa capacidade. A minha lingua enrolou, e depois veio o reconhecimento tardio da perda. Os meus olhos ficaram dependendo de uma visão magra e turva - aquela madita hora mágica. Poderia cometer suicídio agora. Já morri. Já fui morta também - não há graça nisso. Eu parei no espelho, mas o contorno do olho já tinha feito um novo adorno em volta dele. Sabe alguém que levou um soco? Eu tinha levado 2. Eu tirei o rosto em volta do olho e o pus no chão. Eu sentei no meio do piso, e lancei aqueles 2 glóbulos de olhos para o alto - o aumento do espectro é decorrente do tamanho do erro que há nele. Eu parei na vaidade e na vulgaridade da cena. Imagina um grande rosto de choro e sem olhos? Imagina um rosto com dois furos, dois buracos negros dilacerados na frente, e a frente das coisas? A perda dos olhos, o malabarismo, o falso palhaço: era poético e até quase lúdico. A esse ponto a vitória realmente não era um desejo. O esquecimento era. O meu desejo era interromper o processo da criação. Parar com a idéia, com a fala, com o vibrar do branco do olho. Há de perceber o vibrar do branco do olho na irritação da fala? Eu tentava imaginar que sim. Acontece que o meu olho vibrava tanto que a minha concentração ficava comprometida. Eu sei, eu já tive 50 anos. Eu já fui a regressão do homem, e a paixão da mulher que regride exponencialmente. Eu fiz frente com os dentes na festa. Entende um ambiente que se chega, e que se agarra mordendo? Eu tinha mordido aquele andar inteiro. Eu tinha engolido suas lembranças dali, e regogitado seus desprazeres. Agora eu tinha problemas de salivação, de estômago, de memória fraca. Uma velha sem tempo e de 50 anos.

terça-feira, 24 de março de 2009

cortiços | 2

não existe a necessidade do grito. e se eu gostei? eu adorei.

eu era uma criança que tinha braços de gravetos, e pernas de cabides. e eu vi mais pessoas do que outras. na minha época, mamãe dizia, o inferno era aqui. as paredes eram feitas de caixas de uva. uma grande caixa de remendos. em cima, o som dos intervalos das músicas. não tinha silêncio por qualquer momento. as vezes demorava mais tempo para escutar do que para pensar. lá mamãe tinha um nome, aqui ela era mais uma. é o meio inevitável. tinham vários adornos - o quarto era um arquivo. daquele ano, esperaria o mínino de dignidade. sabe quando você fala, e ouve o que diz muito tempo depois? é que a mamãe era um estrondo. muito histérica, e com muita coisa no ego.

domingo, 22 de março de 2009

o navio

o que eu tentei colocar para ela era que não importava o que ela me dissesse, eu ainda me sentiria um anão. o meu corpo não aguentaria peso nenhum. tampouco, uma grosseria. eu ainda disse: a entrega não é só festa. mas ela já não tinha qualquer condição de flutuação. eu também não tinha, mas eu ainda me importava com as considerações finais que seriam feitas - talvez daí a diferença entre a gente e o grito dela também. porque ela soltou um assobio do grito, e fez um malabarismo com os braços logo depois. imagina, trariam seu corpo como um navio de carga, um grande latão de lixo flutuante! imagina, lembrariam dela assim, e de mim também.

quanto a família

seria a responsabilidade hereditária
uma forma de moldar a persepção?

sábado, 21 de março de 2009

o destaque da palavra - a ênfase

A gente escuta quase uma melodia. O começo e o término de uma frase é a primeira palavra. Mas eu fiz o contrario: uma frase aleatória no âmbito do dicionário. A cada início decido um novo início. O tom grave dá peso no texto; assim, é possível manipular o começo. Você pode estar sempre agudo - porque fica o canto, mas depois fica chato. Então você muda de lado.

(Ela era do tipo de mulher que as veias saltam nos pés.)

Na tortura eu elevaria o tom porque a atenção é fator notável da ênfase, e de todas as próximas fases de ostentação. Então eu acho adequada a proposta porque a pausa é uma sílaba - um belisco muito mais leve do que o deslocamento da fala propriamente. O deslocamento é o que a gente faz para colocar e destaque a palavra escolhida. Eu escolho a palavra de ênfase.
Há momentos de seta na sílaba. Silabar e prolongar - esse era meu objetivo. Mas como a cara da gente revela, se eu puder, eu falarei pouco na vida. Porque o que o respeito traz na gente, além da combinação dos sentidos multiplos? O prazer é oferta? O prazer é a oferta. O único jeito de ganhar no jogo é dizer que o outro acertou. A beleza não deveria ser enfatizada nesse sentido.
Às vezes eu acho que ela era mais bonita por fora. E penso que talvez roubar fosse tão prazeiroso quanto o sorriso violeta dela. Ela, com aqueles dentes brancos demais, tentava me tirar o olho do rosto. Pegaria meus olhos, como quem pega dois globos, duas órbitas insignificantes. Mas acontece que o olho dela dependia de um branco do meu. Um branco imenso e sigiloso. O branco que não desbota no infinito. A relação das cores comigo é simbólica.

quinta-feira, 19 de março de 2009

um dia na neve

o corpo que cai. o olho que geme. a gente sempre acabava preso a um eixo do tema. e também porque a inspiração costumava vir em duas épocas diferentes: ou nos tempos de fadiga ou nos de inércia. é que as coisas passam do suportável para o futuro muito fácil - e fazem de mim insuportável nas relações. vai ver são assim as grandes glórias da gente. nunca ninguém tinha feito nada nesse aspecto. foi então que eu percebi que eu tinha parado na relevãncia, ou na irrelevância disso tudo. eu imagino o ar que pode acabar - e eu enlouqueceria. eu imagino a estética de um lugar que não apaga a luz. uma insônia perpétua. um quarto branco. um dia nublado na neve - é, eu enlouqueceria.

quarta-feira, 18 de março de 2009