segunda-feira, 21 de julho de 2014

As confissões de James

Já não estou mais cheio de mim, Ana. Mas repleto de nós – mesmo que nós já não sejamos mais eu e você. Acho que não terei tempo em vida de cuidar de suas flores. E quanto a Sabrina, não se preocupe, porque ela não vai me proteger. Mas este seu apartamento foi e sempre será uma cabine no meio do mundo em que eu, você e ela fizemos arte, amor e guerra. Porque Sabrina fez desse apartamento um albergue europeu, e nesse seu pedaço de mundo ela ora me aspira, ora me consola. Eu vim aqui para te perder. E agora a morte é isso?

JAMES
Limite: foi nisso que eu fiquei pensando. Eis uma linha fina que marca o fim de uma extensão. O limite é sempre comum aos dois, sobre o qual pessoas ora se deitam, ora se estranham. E nesse mesmo lugar, tem o costume de se sentirem constantemente invadidas: o limite é isso. O lugar em que as pessoas exigem, mesmo que elas não possam se equilibrar sobre ele, o lugar de confessar.

Eu me sentia como uma espécie de termo incapaz de produzir ação e de fazer reverberar efeitos. Nunca fui influência, ou talvez nunca tivesse me imaginado assim. Ao pensar no limite e nas fronteiras que existem, eu me via como preso a uma eterna elasticidade. Acontece que não é isso que a vida me causou. Foram as relações que tive. Eu fui um homem para além da minha carga, protocolado em ataques e acusações - e, por isso, essas deformações causadas por Ana e Sabrina se tornaram permanentes e perigosas.

É para isso que as pessoas escrevem? Deve ser por isso que Ana se apaixona. Hoje, como há muito tempo não, eu sinto não completar a mim. Mutilado ou apenas imperfeito, sei que, hoje, é completamente possível romper um relacionamento comigo. A minha garganta inflama, flameja – e mesmo que não seja para tanto, às vezes eu me sinto morrer por muito pouco (e quem morre por pouco, por pouco não vive).

É tão horrível a sensação irremediável de magoar as pessoas que gostamos quanto é horrível controlar as pessoas que não entendemos. Houve dias em que vi Ana como uma menina cujo meu cuidado poderia se deitar facilmente sobre ela, da mesma maneira como eu me via nela, eu já tinha me apaixonado por ela – em outra vida, em algum outro lugar. Em certos momentos sentia uma ligação com ela, uma verdade integral entre nós. Acontece que não há desistências para tanto, nem insistências para tão pouco. Sabrina não se apaixonou por Ana como eu, mas por tudo que ela não mostrou, construiu uma paixão alegórica que a servia. Quantas transas nos envolveram esses últimos dez anos? Ah, eu enlouqueceria.

Eu me lembro perfeitamente de ela, Ana, ter dito que me via com olhos de gato – porque foi assim que ela me fez personagem. Em um momento eu era um homem de barbas e dimensões. No outro, eu estava espremido em uma folha de papel. Porque escrever sobre alguém que se gosta é como uma tentativa de fazer com que a pessoa esteja em uma eterna disponibilidade irrisória, na qual ela é lida e lembrada, mesmo que já não tenha matéria nenhuma, nenhum peso. Acho que as pessoas se apaixonam quando menos esperam. E talvez eu também estivesse a não esperar, como quem assume o risco de entrar no mar quando chove.

Todo sexo será impossível se não houver nudez, cada vez mais eu me atentava a isso – pois que as pessoas tiram as roupas para dar lugar aos pequenos espaços em que o espírito respira. Foi por isso que eu quis morrer nu. Para que o meu espírito pudesse dar um ultimo suspiro – não para que eu pudesse voltar a vida – mas para que eu pudesse sentir que não fui apenas um homem doente e apaixonado. Porque a gente simplesmente sabe quando não mata mais a fome de alguém. A vida são memórias – e as memórias que deixei para elas foram como as minhas opiniões sobre tudo que conheci em vida. Nunca visitei Istambul. Mas fui a Nova Iorque nos olhos de Ana, e aos albergues europeus nas mãos de Sabrina. Os homens sempre estarão doentes e as mulheres sempre estarão incríveis. Hoje existe um desenho imaginário que une as pessoas – curiosamente, é o mesmo que as separa. O limite.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ao labirinto fugaz da memória

o amor é aquilo que nos oferece um novelo de lã no labirinto [*]

Noventa dias passam em um único piscar de olhos. Noventa dias: período de experiência definitiva do fim do amor. Momento em que volta a outorgar a ideia irrisória do descarte. Será que acontece igual para todo mundo? Esta ideia de encontrar-se livre de algo cai com tanta facilidade que é possível usá-la sem proeminência de julgamentos... sem culpa mesmo. Embora haja sempre ressalvas sobre estas omissões negligentes que atribuímos à falta do outro, a memória é um labirinto que instiga o enamorado: não é à toa que, neste dédalo em que se vigila as lembranças, residam tantas confusões mentais.

Acredito que, raramente, o amor aconteça em algum pano de fundo político ou palco aristocrático através dos quais nós, por impulso natural, acabamos por atribuir o fracasso da guerra. Há pouca lógica sobre a qual se apoiar neste cenário. 

Este labirinto que percorremos ora certeiros, ora marginalizados, não traz nada além da desilusão do fracasso. É frustrante estar apaixonado por alguém que decide esquecê-lo; e tanto a memória quanto o passado têm a função de nos humanizar – acontece que, nos corredores de nossa própria cabeça, onde tudo é, antes de qualquer coisa e principalmente, uma história de amor, parece ser inofensivo tentar apagar o que ficou gravado no coração. 

Pois que falar de esquecimento nada mais é que falar sobre a necessidade substancial de ser lembrado; e estamos todos do avesso quando se trata das mazelas do amor. Por isso talvez, seja tão difícil indicar com precisão a causa de um mal nesta sucessão de acontecimentos desorientados, em que os amantes enfrentam o eterno problema de simplesmente se darem bem. Amores são exigentes. 

Fundadas ou supostas, é certo que estas exigências fazem com que a memória acesse diversos corredores deste conjunto de percursos cuja intenção é apenas a de desorientar quem os percorre. Imagine uma lembrança sendo puxada de você como uma corda que se desenrola janela abaixo? E então, a sensação tão próxima, tão real, de que, a qualquer momento, pode-se cruzar com o monstro outro vez? Toda desconfiança nos arrasta a um delírio.

Então, é no centro destas paredes erguidas com tanto esmero que o minotauro dos romances permanece intacto; e toda manipulação tenta dissolver-se. Lendário, histórico, verossímil: não importa. A criatura mítica decorrente de um amor não-natural só agrava o risco de sermos devorados e, aprisionada por suas características metade humanas, metade animais, permanece como uma placa luminosa que contesta justamente nosso juízo mais atroz e definitivo: sofrer por amor ainda é preciso? 


[*] Antigo conto grego: "O mito do Minotauro".

quinta-feira, 5 de junho de 2014

todo navio tem um porto para atracar

trazer aqui, mais embaixo, no mundo das trocas.
todo navio tem um porto para atracar, era nisso que eu estava pensando. mas antes que esta embarcação pudesse demorar-se em qualquer lugar, talvez vagueasse muito como cego no caótico tiroteio do amor (e acho que esta ideia mudava radicalmente algumas coisas). em abrigo natural ou artificial, a instalação que recebe os amantes é como um local físico em que a ideia do refúgio se torna concreta. neste percurso da viagem e entre um cappuccino ou um gole ardido de jose cuervo, o tempo agia como um viciado que dava seu próprio valor, peso e medida às coisas. ora, então isto a que chamamos de amor - ou de zelo por falta de atrevimento maior - firmava, não somente a característica daquilo que é recíproco, mas também, naquele instante, a situação daquilo que permanece afastado. o amor continuará a zelar, mesmo à grandes distâncias, é verdade. acontece que justamente neste espaço entre a atonicidade platônica da paixão e a simplicidade da pele que não vem, a vigília do amor deixa de cuidar e passa a velá-lo. põe um véu sobre seu rosto transfigurado, desfigurado, irreconhecível. faz como faria o pranto de uma mãe sobre o corpo do filho estirado no chão, morto, em razão da estupidez ímpar de um acidente. ao passo dado não se retorna, então, amor e óbito não são casuais. talvez por isso o refluxo do pensamento sobre esta ideia seja, assim, tão frequente. o ancoradouro do amor permanece à esmo no mar de algumas vidas. a pergunta é: de quais delas?

domingo, 25 de maio de 2014

A bordadeira | 3

'é com veemência que o amor se nutre dessas comparações' 

Já passava das onze e meia. Fazia pouco mais de duas horas desde que chegara a seu apartamento. As paredes haviam estranhado claramente que eu, desta vez, não estava acompanhada de Joaquina. Tive que trabalhar até tarde e ela teve de fazer uma viagem de emergência. Tudo parecia inanimado sem ela. Ao mesmo tempo em que me preenchia a ideia de nossa intimidade que me permitia estar ali, me tencionava os músculos saber que teria que sobreviver àquela noite sozinha. Diante de sua ausência, o ruído das aeronaves aumentava exponencialmente a cada vôo como se buscasse despertar cada um dos objetos pousados sobre as estantes, no quarto e na sala de estar. O barulho alertava aqueles filhos órfãos. Era como se o tempo tivesse parado ali. No quarto de costura, o manequim assemelhava-se a uma estátua marmórea e imponente. Nunca havia reparado tanto nele. Aquela silhueta era a representação de seu corpo humano ausente. Senti como se não houvesse desvendado nem mesmo seu primeiro nível de pele. Não perfurei nem a primeira camada dela por completo. Eu me sentia uma faca de fino fio, cortando o apartamento com a minha presença como se corta um pedaço de derme rente aos pelos. Uma precisão tão respeitosa que, na minha cabeça, beirava o desrespeito. Eu enlouqueceria ali? Os objetos emitiam informações radioativas em minha direção. Eu era um órgão estrangeiro naquele organismo perfeito. Eu, um coração sozinho que imploraria pela não-rejeição. Imaginei que eles pudessem me arrancar dali, como fazem centenas de pequenos homens que imobilizam um gigante austero no meio da mata e o movem para outro lugar qualquer. Tomei um banho rápido e, em seguida, me apressei nas tragadas do ultimo cigarro que me restava. Deite-me. O farol dos automóveis incidia um feixe de luz dura sobre as bordas costurados do manequim no quarto. A sombra se movia pelo cômodo inteiro. Senti como se sua alma dançasse e imprimisse sua forma nas portas de madeira do armário, no chão, na superfície de seu criado-mudo. Seu cheiro inundou tudo. Era seguro estar ali sem ela?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

As estações | Ao outono do meu pensamento

"alice in waterland" (by elena kalis | elenakalisphoto.com)

SEGUNDA PARTE
na natureza, toda queda vem a propósito

Os dias seguem áridos e mornos. Eu balanço entre a sensação de exibir a cauda multicolorida de um pavão e contorcer o corpo como um tatu-bola. Creio que nenhum pensamento será capaz de concluir-se. Sinto-me abrindo milhares de portas e pequenas passagens a gerar corredores de ar. Estes sopros subterrâneos esforçam-se na tentativa de me aerodinamizar enquanto meu corpo impele ajuda, desdenha resgate. Todo pensamento é um imã aqui.

O outono sacode grandes lençóis de ar ao redor do universo, gerando este vento fresco e cálido. Esta estação volta a exercer sobre mim a pressão típica dos romances quando são rompidos. Uma natureza inteira tomada pela leveza insustentável da queda das folhas. Sinto uma necessidade irreprimível de dormir.

As garrafas de vinho estão largadas aos quatro cantos da sala de estar - hoje, em particular, esta casa me parece um pouco menos estrangeira do que fora ontem. Talvez em razão de eu ter depositado meus pertences em lugares estratégicos que, ao invés de refletirem minha solidão, a pudessem absorver. Aos poucos, isto deixa de ser um ato de ruir.

Há dias não reconheço o contorno de meu rosto. Uma face de cera bruta, malacabada, que emoldura os lábios tintos pelo roxo dos vinhos. Sinto até o peso dos meus cílios, batendo com violência como fazem as árvores de lá de fora, e nos intervalos desta insonolência, a vontade delirante de dormir. Meu humor é ríspido.

A gravidade é um fenômeno tão natural! Mas talvez só possa estar em queda aquilo que muito se precipitou. Ora, é justamente neste atirar-me violentamente sobre e contra a ossada restante do amor que me antecipo frente aos ataques que, outrora me feriram as pernas, mas que agora me desarmam de forças. Sinto-me desmontar. Minha maior fortaleza é a elegância da minha recusa.

Pela primeira vez, acredito que este cerco que fechei ao redor de seu nome será de alguma utilidade. Este sítio no qual eu lhe obrigo a fazer morada, repele minha presença. Ainda bem. Cada célula do meu corpo milita em razão desta causa agora. Não sei se foi Deus ou se fui eu. Apenas sei que funciona.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A bordadeira | 2


'quiçá já tivesse habitado aquelas paredes antes, não sei' 
(...)

Joaquina me aguardava na porta da universidade e fumava o cigarro típico das esperas. Ela entrou no carro e nós nos cumprimentamos. Fui tomada de certa paz desarmada. Eu me senti nua.

Ela sugeriu que fossemos jantar em um pequeno bistrô ali perto, no mesmo bairro em que morava. Assenti com a cabeça. Tanta urgência que autogoverna as cidades grandes havia desaparecido. As ruas pareciam enormes tapetes desenrolados com o término a perder de vista. Um infinito de asfalto. No exterior do carro um silêncio inédito. Atravessamos dois ou três faróis até que chegamos ao restaurante. Os nossos encontros sempre haviam sido marcados por longos espaços de tempo, muito embora nunca tenhamos deixado de ter contato. Quem sabe em razão das manobras temporais e amorosas que o destino impele sobre nós, somos outorgados a viver, a conhecer, a viajar, a amar e, porque não, a sofrer, para que, depois de muitos anos, possamos retornar mais ilustres e sábios aos fragmentos que deixamos em nossas próprias terras a germinar. Somos responsáveis por lavrar nossa alma. Era então, no lavradio de nosso encontro, que eu era tomada de sobressaltos por conta desta sua desenvoltura. Eu estava determinada e estava, ainda mais, determinada a não personificar minha postura, eu não me prostituiria. Percebi que eu não estava projetando, já eu estava vivendo - o que mudava tudo.

terça-feira, 29 de abril de 2014

cartas marítimas | 10



Fildsville, outono de 2025.

fildsville, 07 de junho de 2025.

querida maria paula,

iniciarei este contato dizendo o quanto sou grata a você. diante da notícia de sua mudança, acredito que meu desejo de movimento tenha se excitado fortemente também. é curioso como estas vontades intrínsecas dos amigos nos embatem com surpresa e desapontam em nós ramificações que dificilmente somos capazes de perceber no instante em que acontecem. mesmo após tantos anos, justamente porque me desperta para encargo de meditar todas as vezes, sua amizade cultiva esta unicidade e valor para mim. obrigada

confesso a você que minha cabeça tentou organizar a ideia que você me propôs. o dom e a vocação talvez sejam elementos muito semelhantes e, ainda assim, muito desiguais. acredito que a vocação nos unifique, sabe? uma propagandista, um pregador in loco que não descansa nunca. ao mesmo tempo, o dom nos mutila nestas pregações, nos rasga, é nosso criminoso, nosso pior juiz.perdoaremos pela nossa vocação, mataremos por nosso dom. 

sabe, minha amiga, acredito que é preciso muito talento para que se possa crer (com verdade) no quanto ele é insuficiente. não sofra por imaginar que lhe é pretensão o ato de auto-abençoar-se com este dom. todo dom é uma virtude (muitas vezes às avessas), mas é, principalmente, a virtude da disposição constante que busca praticar o bem ao invés do mal - e o bem também se faz desajeitadamente. por isso, não me ocorre nenhuma razão para que transforme isto em um simbolo perverso. jamais de peso. porque se as virtudes originam-se em alguma reunião do cosmos alheia a nossa vontade ou se nossos orixás costuram estas disposições ao redor de nosso espírito, não importa; escrever é um ato cartilaginoso que exercemos para formar esta carcaça, para proteger este íntimo com que fomos presenteados. aquilo que não é uma escolha não pode ser considerado mérito ou fracasso, lembra que comentamos isto certa vez? se é vocação, é disposição, é virtude, automaticamente é dom. esta sua aura abriga muitas palavras e, todas elas, a levarão a escrever. quanta diferença faz qual nome daremos a este ato? axé, mulher!

também acredito que nossa predisposição de raciocinar, de dinamizar ações e fatos dentro da lógica, permanece de mãos atadas com nosso corpo. poderia facilmente dizer que "ficaria louca do corpo", sabe? pois que minha mente faz parte deste adorno físico que sou obrigada a carregar, de certa forma, no mundo em que vivemos este presente. a saúde de nossa cabeça pode fazer padecer o corpo, minha querida. perdemos dezenas de quilos durante a vida por depositarmos preocupações em ações tão frívolas enquanto nosso eu carece de nós.

estou em dúvida quanto minha capacidade de expressar clareza, hoje, em particular. no mais nobre sentido, estas cartas sempre serão finitas para nós. vê nossos braços se estendendo?

um beijo grande e a saudade de sempre,
ana.

ps. envio a você as fotos que fiz durante este outono. nosso jardim tem estado tão agradável estes dias. dividí-lo com você teria sido de grande felicidade. espero que goste!

segunda-feira, 31 de março de 2014

A bordadeira

'esta máquina é uma casa de morar'

Para ver, então, pr'além dos limites hipérboles de toda convivência, foi importante ter perdido um pouco a nitidez do olhar que tantas vezes havia limitado e ocultado a vocação do resto dos sentidos. Antes de tudo, foi o desejo de comparecer que nos uniu. “Hipérbole”. Esta palavra martelava na minha cabeça, como uma porta dando pancadas no batente da parede uma, duas, centenas de vezes sem nunca se fechar. Foi preciso levantar, fechar a janela, bater a porta e sortear uma nova palavra que pudesse ocupar com menos exagero meu ciclo de redundância mental. 

Tanto havia gostado daquele fragmento que decidi dedicá-lo a ela. Mirando como alvo seus olhos, eu lhe disse: Joaquina, este pedaço de prosa é seu. Inteiramente seu. E por ter sido meu um dia, ele é nosso agora. Sua respiração estava terna e seu olhar era sólido. Joaquina levantou-se e foi até o aposento em que costurava, logo após a dobra do corredor. Não demorou o tempo de uma tragada. Na volta, ela amarrou uma pequena fatia de tecido ao redor do meu dedo e pediu que fizesse o mesmo com o dela. Acho que nunca esquecerei. Nós nos casamos naquele instante. Naquela tarde cálida de outono. 

(...)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

métrica do inquilino

é sempre difícil falar de sua vida.

tuas pontas dos dedos
e teus calcanhares trêmulos
ainda buscam na saída da porta
os vocábulos, os últimos vínculos.

as mesas sozinhas do bistrô
assemelham-se a um cubículo claustrofóbico
aonde um dia tu fizeste lar
e hoje, a doar lembranças,
esvazia-se ainda pelos passos dinâmicos
que te coalha os músculos nessas andanças

não há certeza mais à deriva que esta
não há tentativas de te inundar boca
de depositar no outro
o corpo e o copo
largados ali
já sem rijos olhos sob os quais existir

foi abandono na única manhã possível
foi tanto misto quanto crível
tanto farto quanto visto
por nós
naqueles brinquedos de doar cafuné
de axé
e de segredo

mas os poemas aderiram desagradáveis formas
pois já não eram lidos pelos amantes
mas pelos homens comuns
pouco extravagantes
que te tornaste
e que me tomaste, logo em seguida

e assim,
dia após dia
o terno grado do sentimento
assolou-se sobre a travia rotina
de quem virava
cada vez mais e amiúde
de si mesmo
um inquilino

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

As estações | À liquidez do verão

"alice in waterland" (by elena kalis | elenakalisphoto.com)

PRIMEIRA PARTE
o calor é a forma de vivacidade da expressão

Os dias seguem quentes e úmidos. Tudo brilha na refração da luz que penetra nas gotículas de suor sobre a pele. Um pouco mais para baixo, cada fibra de cada músculo também transpira. Tem sido dias de pouco sexo. O ultimo ardido contato que meu corpo fez com qualquer outro foi numa noite de baixa temperatura, há uns seis meses atrás. Esta estação parece um holocausto a me condenar.

Que quentura improvável me provém esta primavera fora de época! Tenho receio até de minha própria indignação em relação a isso, mas sei que, de fato, detesto este clima. Meu corpo permanece deitado no quarto, no piso frio, como um bicho impotente perante o cansaço.

É a vigésima oitava lata de cerveja, apenas nesta semana.  Contei cada uma delas nos intervalos de minha inerte falta do que fazer sob a qual cada vértebra do meu corpo se curva e se estica de novo sobre as lajotas de granito de chão.

Há tempos atrás teria visto isso com tamanha poesia que meu estômago, caso este pensamento me ocorresse hoje, vomitaria imediatamente. Não que o tempo trate de rudimentar, mas mostra uma sabedoria que há vertentes poéticas da juventude que são belas aos olhos rasos, nunca aos olhos nus de quem verdadeiramente se despe.

Uma brisa sem energia cruza o corredor entre a janela e a porta. Ela dura ou parece durar muito mais do que seria para se desejar. Seu zumbido fino é como um adágio aos meus ouvidos. Em uma ópera mental, delirante, meu corpo continua a por-se do avesso. Despejarei toda minha liquidez até a ultima gota? Minhas costas tomam a forma dos rejuntes. Eu, sendo fluído, tomo foma do recipiente em que estou: este quarto não habitual e vazio.

A minha volta, vejo as obvias semelhanças deste local com um quarto de hotel. Lençóis brancos, moveis brancos, madeira clara. Acho que se um feixe de luz batesse aqui, duro e incisivo, suas incontáveis partículas se espalhariam deixando o rastro de uma parte do céu, de um paraíso isolado qualquer. Um mergulho em uma piscina de leite. Tudo branco e etéreo.

Esta pureza exerce sobre mim uma força patriarcal. A mão de um pai que preza pela inocência dos filhos. Se antes houvessem me avisado a respeito deste estado disforme de deleite, talvez tivesse prolongado a embriaguez de minha decisão em mudar-me para cá.

As vestimentas pousadas sobre o opaco branco das prateleiras, os papeis das contas pagas, os cadernos de linhas sem frase alguma: tudo aguarda uma prosperidade, um espaço maior nas entrelinhas deste texto ordinário que passa repetidamente em minha cabeça. 

Estou em branco ou a preencher-me, não sei. Sinto-me um boletim sem voto qualquer, um bilhete não sorteado, uma rifa sem prêmio. Acompanha-me, apenas, um brando soluçar de cadência própria. Meu coração ensaia os primeiros passos de dança a medida que o corpo sussurra o ar. O tom é grave.

Sinto falta.

Sinto os efeitos que minha própria digladiação me causou até aqui. Acho que não me movimentaria para esta cidade caso não fosse pela busca de cura de minha solidão. Nascida dos espaços vazios entre nós, não creio no destino como explicação a esta mudança. Não há objetivos essenciais àquele que está em estado de fuga. Todo fugitivo não passa de um desorientado.

Sinto uma fome que me volta sempre – ora acompanhada de um enjôo, ora a escavar um buraco bem ao centro de meu estômago. Este calor também me entristece. Gostaria de ter novamente sua voz ilustrando estes dias não favoráveis.

Cai sobre meus olhos um abatimento profundo. Ao final dos corredores da alma, eu permaneço deitada e em silêncio neste interior maciço. O cinzeiro tem dentro dele tanto quanto pode suportar. É um pouco como eu. Constantemente os fumantes fantasiam sobre nunca estarem sós.

Acho meu corpo tem criado raízes neste lugar. Pela extremidade de cada dedo, mãos e pés, fixam-se meus órgãos na planta deste solo arredio. Meu corpo absorve o ácido liquido sob a voz de minha sede. Toda raiz é uma solução aritmética inexata. Não há valor real ou complexo agora que me satisfaça. Se não há doçura nos vínculos, as coisas acabam.

Sou apartada. Um filho herege. Extravio-me. Minha respiração segue o ritmo do corredor exausto, um ultimo colocado. Todos seguem montados em seus cavalos de fino garbo, enquanto meus pés rastejam pelo itinerário de terra batida no qual se transformou o caminho tratado, outrora, com tanto esmero.

Tudo tornou-se um grande objeto afastado, cujos meus olhos já não alcançam mais. Eu afundo. Eu sou o observador dentro do olho da câmera que tenta buscar o sujeito do retrato para perto de si. Ao contrário, este movimento se desenrola como a ponta de um carretel infinito. Uma ação frívola dentro de um espaço de distância que apenas separa encontros.
 
Já não esgrimo com elegância, tampouco com sonoridade agradável. Eu também me defendo de sua ausência como posso. 


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A história do planeta solitário

um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se.
independentemente do tempo, lugar ou circunstância,
o fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir [*].

Interior, 15 de janeiro de 2014

A

Acho que a marcação de datas nos ajuda a contar histórias. Andei lendo sobre a origem do tempo, dos relógios e, porque não, de nossas próprias necessidades de viver sob estas raias que fatiam a vida. Descobri que os primeiros períodos demarcados foram conhecidos a partir da contagem do tempo que um planeta ou um cometa demorava para completar a sua revolução ou retornar a posição inicial. O regresso do planeta a posição em que estava significava que ele havia cumprido um ciclo determinado e que tinha passado por fases específicas que se repetiriam de maneira contínua. Cada fase possuía características únicas, assim como sabia-se que cada característica jamais aconteceria exatamente da mesma forma - embora aquele fosse um movimento de intervalo regular. A marcação do tempo era possível através desta observação, pois mostrava que todo corpo celeste girava em torno do próprio eixo ao mesmo tempo em que orbitava ao redor de algo muito maior e muito mais vasto do que ele mesmo – normalmente uma estrela que existia como fonte poderosa de energia e força. Recentemente, astrônomos descobriram um planeta flutuando sozinho no espaço fora do sistema solar e sem fazer parte da órbita de qualquer outra estrela. Deram a ele o nome de planeta solitário. Os responsáveis pela descoberta disseram que o corpo celeste tinha as mesmas características de um planeta jovem e que vagueava completamente só. No primeiro momento isso os abateu de certa melancolia, mas depois disseram que nunca haviam visto antes um objeto flutuar tão livremente no espaço. Concluiu-se que o céu também é feito de estrelas que imaginamos ao nosso redor.


Acho que é exatamente isso que desejo dizer a você hoje. Porque a invenção de marcar o tempo talvez seja a única coisa que garante e registra a sobrevivência de nossa espécie ao mesmo tempo em que nos dá a ideia de uma eficiência meio consoladora e meio ilusória às nossas pressas. Ao contrário do que se pensa, não é preciso ser mais rápido, mais eficiente, mais bonito, nem mais satisfatório. O tempo não é a salvação dos ocupados. É porque, na essência, os nossos sentimentos não precisam de tempo, eles precisam de notícias. Quero que você saiba que eu continuo perto de você e que eu sigo existindo e acreditando no ser humano amplo, complexo e absolutamente orgânico que você é - seja em estado de planeta flutuante, seja em plena cadência. Os poetas nascem nas horas em que todos desistem, mas pessoas como você talvez nasçam para ensinar aos que sofrem e lembrar a si mesmo que a urgência mais bonita é a viver sem prejuízo. Desejo que você mude se preciso, transforme quando necessário, converta-se, chore (sim, você precisa chorar!), e volte constantemente aos ideais do seu coração como um filho retorna aos braços da mãe, como eu talvez retornei a você sabendo que aquele era o mais próximo ao sentimento de “sentir-se em casa” que eu já conheci. Olho para você e a vejo com um espanto diferente toda vez, misturado a uma grande admiração. Vejo em você um exemplo. Não deixe nunca de saber que aqui deste lado fala alguém que a ama muito - e que torce pelas suas conquistas tanto ou mais até do que torce pelas próprias. Feliz aniversário.


Com amor
N.


[*] antiga lenda chinesa: "O fio vermelho do destino".

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta destinada ao limite

a fronteira está constantemente conosco | M. K.

Demanda-me a explicação se há limite entre a dimensão da poesia e a dimensão física. Porque se há, há maneiras de ultrapassar e transitar ali também. Por vezes, impede-se a si mesmo nesta linha de fogo, ora cruzado, ora brando demais, entre as voltas abissais dentro do hiato mais perplexo de cada frase, o alcance do limite da poesia talvez fosse o local exato onde termina a imaginação e verdadeiramente começa a possibilidade de perda. Perderia as estribeiras, a cabeça, a água lacrimal dos olhos se voltasse a pensar nesta condição tardia de entendimento que lhe abateu com veemência a expressão. 'O que você faz quando conhece alguém?', bom, esta pergunta continua a lhe açoitar a memória como uma ventania devasta um campo aberto - o campo onde os suricatos outrora ergueram-se. Pode uma mulher contar com infindáveis acasos em sua vida, mas deveras há o momento em que o acaso criado no labirinto de sua mente cessa e desperta a busca pelo interesse pr'além dos perímetros imaginários: seu desejo ganha cadência e se torna real, mas um sujeito tão real quanto um homem parado, um vendedor ambulante em sua porta (que triste seria quem deste mal não sofre!). E este cavalheiro a sua frente, por sua vez forte e vigoroso, entranha-se pela porta como se adentrasse as próprias paredes de um estômago e diz, perante seus olhos de plena fadiga, que não lhe concederá três desejos – mas que lhe convencerá, até a exaustão se preciso, de que o desejo inevitavelmente a ocupará em três dimensões. 

Teu desejo logo assumirá largura e peso. Assumirá cheiro. Aceitará toque (e tu deves predispor-te a isso). Dize-me, há algo mais a beira do limite do que tocar a superfície da pele do outro? Fortifica-te sobre a ideia de que o desejo não passa de uma alusão mental a intelectualidade de alguém, mas por qual razão, então, o contato tanto te importa? Haveria de bastar, tu não achas, as palavras simuladas ou mesmo audíveis, datilografadas – que fossem – que existem potencialmente mesmo que sem ação? Cai, pois, em teu próprio precipício de medo, e dá-te conta de que é preciso ver a forma como os lábios daquele alguém se portam ao dizer as palavras que te encantam a mente. Um flautista perante a serpente, é nisso que o desejo te torna - porque todo desejo é, antes de tudo um desejo de causar hipnose no outro. 

Não lhe apagará da mente sequer um segundo de história, mas se alicerçará com tanta certeza neste desejo que ainda há como uma cama no meio da praia de neve: cercada de realidade por todos os lados.

sábado, 4 de janeiro de 2014

o tempo como pedaço muito fino de algum alimento sólido

"toda dor é de coisas não cumpridas"
janeiro de 2014

notou que o tempo em fatias de drummond circulou bastante estes dias. talvez diante de sua incapacidade de dizer as palavras corretas, o uso póstumo da linguagem do poeta tenha caído como luva em suas mãos ansiosas. ao mesmo tempo que a troca do ultimo dígito do calendário a poderia ter enchido de esperança, de alguma forma, este abstrato voto de renovação que fez a si mesma não bastou. precisava comunicar-se - pois que comunicar-se era como estar em relação ainda e, em trânsito, pertencer ao instante do presente do outro. assim como o herdeiro modernista da poesia, a entrega dos versos chegaria a lhe atingir mesmo como uma prosa sem métrica, sem compromissos formais abrangendo a voz literária mais popular que existe: a da saudade. sem dúvida, aquelas estrofes mantinham a essência de um coeficiente de solidão que herdava agora o único elemento que resta das separações: a liberdade. as afirmações se acumulavam ao fim de cada frase. toda poesia, como todo relacionamento, tinha passado pelos três estágios inevitáveis de autoafirmação e crítica. tinha inciado-se irônico dentro do qual se inundava pela possibilidade de ser muito maior que o mundo; tornado-se social, quando o eu mais íntimo deu-se conta de que era demasiado pequeno e excessivamente diminuto diante do conjunto onde existia; e, por fim, concluído-se metafísico em que sua presença orgânica e espiritual passava a equiparar-se ao tamanho do universo em que a realidade tinha, enfim, um sentido e uma finalidade. o temor de seus dedos diminuía a medida que dava-se conta disso. o tempo cortado não alteraria nada. mas se o tempo estava divido em pequenas amostras ou se apenas poderia acometer os outros de seus constantes fenômenos, isso verdadeiramente lhe interessava. a nós importava, pensava, tão somente o tempo disponível do qual estivermos dispostos a viver apesar de sua irrefutável duração limitada. num mundo cujo o sentimento era de uma guerra perene, o tempo talvez fosse mesmo o verdadeiro subsídio do entusiasta, imaginava ela.

(...)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

uma estrela em um caleidoscópio

madrugada de 06 de novembro

sinto meus olhos apertados. minhas pálpebras formigam e ardem de dor por não conseguir fechá-las. que paz me aguarda do outro lado? que megera esta vontade que me consome como um cigarro ambulante contra o vento da praia, varrendo para tirar até meus cílios do lugar? parece que o meu rosto derrete e, com suas fissuras abertas dos escorridos de uma vela, vertem as lagrimas como líquido opaco que se transforma em cera dura, maciça, congelada nas beiradas do queixo. eu jamais esquecerei a sensação que se atirou sobre mim nesta noite. uma noite perpétua.

eu sou uma causa urgente sob custódia da própria sorte e intuição. 'uma mãe invisível', como você me disse. em minha cabeça, incessantemente repetem-se as cores da permissão, do alerta e das violentas freadas que meu entusiasmo sofre e suscita aos meus músculos, dolosamente. verde, amarelo e vermelho, vezes tantas a perder de vista. meu corpo convulsiona-se e as articulações rangem como se houvesse cacos de vidro entre cada um dos ossos. simultaneamente, considero-me uma massa mole, gelatinosa e disforme sobre o colchão. um peso morto, sem beiradas apenas feito de abismos e vãos - tão impróprios quanto a presença de um cego em um show de fogos de artifício. um pêndulo à mercê da imaginação limitada pelo pouco sentido que tem, mas obrigado a ver, sem prévia referência, o resto funesto do próprio infinito. um olho que gruda na beirada do cadeiloscópio e vê múltiplas estrelas de si mesmo  - onde todas suas facetas digladiam sob a condição atroz de toda estrela: ter seu brilho reconhecido ainda em vida.

esta cama é um leito, onde uma morte se anunciou hoje. meu estômago já regurgita poesia, por onde um braço mecânico e mal assistido vasculha goela abaixo meu interior, meu côncavo peito. neste travesseiro de hoje deposito meu sonho, minha utopia, o terreno de minha liberdade. e se serei livre? bom, minha prisão se estende pelas medidas deste corpo que carrego - de frágeis e nebulosas extremidades, capaz apenas de exceder o próprio perímetro quando pranteia. um delinquente sob a eterna vigilância da policia de si mesmo ou um miserável andando sem propriedade em um mundo que lhe presenteia com a escolha e o pune com a destruição de tudo ao redor da alternativa escolhida. este mundo já não volta.

o abajur aquece o inchaço de minha pele, das orelhas ao contorno dos lábios. são incontáveis soluços derramados neste leito ermo e distante. um pelo que arrepia, um fio de cabelo que se solta, um membro com cãibra, tudo em causa de me recompor e me reunir organicamente perante a súplica de atenção. uma atenção que não veio para mim e, certamente, não virá até nós. fomos nós que construímos isso? quer dizer, é obra nossa esta rede invisível que nos une? já usamos, vestimos, tragamos, tantas vezes. serviu-nos de trampolim, de escada, de área de descanso, de ponte. e agora, como um manto que caí sobre o céu azul-veludo do dia, esta rede cobre-me como uma armadilha épica, óbvia, que me recolhe num susto do chão e me exibe no alto, numa gaiola.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

me ame com fé | outubro

A,
afinal, onde construímos os nossos palácios?

gostaria muito de lhe devolver com clareza o anseio que você me proporcionou. gostaria de me postar a sua frente em resposta, em solução mágica. mas acho que construímos nossos palácios, como você me ensinou, em nós mesmos. primeiro em nós mesmos e depois, inevitavelmente, sobre as envergaduras de todo tipo - quer de dor, quer de saudade.

ah, como tantas vezes pode ser áspero nosso desejo de fé, de concórdia... de paz! e pensamos que antes nossa terra fosse seca e não desse nada, ao menos não a tomariam de nós, não é mesmo? mas você, em suas verdades e mais atenuado espírito de auto-critica, ministrou uma vida focada na congruência e no encontro. te encontrei, me encontrou, te tratei, me trataste como força, como laço. e nos nós de nossas entranhas até mesmo os intestinos delegaram ora vômitos, ora a mais plena sensação de saciedade.

só o tempo trará a mim o instante real do repouso e creio que a você também. muito embora busquemos acelerar o momento do sofrimento e puxar o elástico das sensações de prazer. o tempo cai bem ao inteligente, e digo isso a você com uma certeza que passeia por pouquissimos campos de minhas convicções.

sei que seguiremos mais limpas e asseadas, a cada dia que passa, como um cavalo garboso em sítio terno onde verdejam os campos. o galanteio é difícil a quem vive sob a eterna penalidade de si mesmo, ainda que tendamos para o desajuste cômico das manobras ousadas cujas nossas asas ainda respiram, tão frescas, os viços da juventude.

somos tímidos reagentes. acontece que no cerne desta transformação específica, sei que nos humanizaremos e nos identificaremos concretamente frente aos ataques da matilha. e que assim seremos também.

fique.
com fé,

N.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

cartas marítimas | 9

fildsville, 31 de fevereiro de 2023.


maria paula,

acho que desenvolvi uma necessidade psicológica de acumular. faz dias que não tenho coragem de me aproximar das beiradas da cama, pois me invade uma mansidão cujo tamanho eu jamais havia experimentado. metade consequência do porre, metade casulo de minha própria mente. nada me atinge ou me desonra. percebo os outros como projéteis desgovernados vindo em minha direção, minha amiga, e tal qual uns vultos desalmados, atravessam por mim sem ferir nada. meu aspecto é frio, vítreo. ao mesmo tempo, sinto toda e qualquer afirmação sobre mim infiltrar-se em minha cabeça como uma britadeira no concreto da rua. eu me parto. sou um pequeno pedaço solto, uma quantidade diminuta qualquer.

são verdadeiros os boatos de que este clima insalubre se tornou referência para meu pensamento. tudo adoece nesta óptica e por este prisma. exerço a minha visão sobre as eventualidades recentes como se o silêncio fosse um artigo de privilégio... reflito, refrato e separo em tantas ordens e por tantas vezes que já não ousaria contabilizar. acho que tudo o que é preciso é respeitar o tempo. o melhor silêncio é o silêncio autoral.

eu renuncio à dignidade soberana do domínio de mim mesma. perdi rédeas da moderação, como uma corda solta, puxada pelo peso prédio abaixo. não sei como reagir diante desta nova postura tão vaga, inconsistente, anônima. agora, sabrina é uma memória de distância; e embora sua forma em meu imaginário permaneça intacta, só posso me apoderar dela bem pouco. tentei fazer desta ruptura uma concessão para que ambas realizássemos nova parte da vida daqui em diante. mas acredite, sem rodeios, que esta metade a que me resta viver não será de ocupação ligeira ou agradável. eu sinto não ter sido a ideal companhia nestas semanas que passou aqui em sua última estadia. mas confesso que esta inércia em mim mesma é como uma mão gigante espremendo minhas vias respiratórias. meu tempo atual é de aflição. nada mais.

meu trabalho no escritório não se estenderá por mais de três semanas. logo, a ideia de visitá-la me parece ainda mais cativante e próxima. foram realmente inspiradores os dias que passei aí durante aquele outono, jamais me esquecerei disso.

espero ouvir noticias suas em breve.
com saudades,
ana.

ps. chico e lola, os pássaros que compramos na viagem ao brasil, permanecem com a saúde em observação. não há certeza quanto ao sentimento que sabrina e eu partilhamos neste momento, nem em que nível. mas é certo que vida segue costurando laços no sentido sensorial e interpretativo absolutamente para além de nós. estamos os quatro suspensos no ar e, sim, em um o futuro que só possui a habilidade de conseguir quando se admite presente. tão raro! quero terminar em dança, não em marcha.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

JUNHO

dois é par

Caso soubesse os acontecimentosque este vinte e oito de junho pudesse ter me causado, me acometido de tantaturbulência, teria olhado para as bordas da vida com simplória perspectiva eassumido uma postura mais calma. A vida me tomou em uma ciranda desconhecida dedescompassadas voltas. Se ao menos tivesse me avisado sobre o que esta dançafaria comigo, teria acordado de outra forma. Saltado da cama, como quem pula deum avião a doze mil pés de altura para cair em queda livre. São mais deduzentos quilômetros por hora, logo no primeiro riscar do sol em contato com océu da manhã. Fui arrebatada por uma avalanche de derradeiras e inúmeras coisasque me incomodavam junto a tantas outras que me traziam conforto, numtempestear de descargas ora eróticas, ora meramente eólicas. Temporal ouclimática, não importa, mas recebi você em todas as suas verdades que mepuseram para dançar de um inverno a outro. Um ano inteiro irradiando felicidadee, por que não, pulsante de dúvidas? Pelas descargas temíveis de nossa raiva –a qual o futuro está constantemente impulsionado a provar o desuso – nossaspartes menos corpóreas davam-se conta, em intervalos, que as dores não estavamsobre a pele, mas sob os tecidos robustos da imaginação. Ninguém via – ou viu –este mundo de doloridas trocas o qual fizemos de casa. A convivência secontraiu como músculo e se expandiu feito copa de árvore que avista osprimeiros dias de primavera.

Nossa, como cresci nestedesmedido tempo de nossa convivência! Mesmo dito e feito, volto repetidas vezes a sentir o esforço quefiz, de me sobrelevar e então me naturalizar ao seu lado. Entre diasindistintos e a exausta construção de muros, a defesa foi um barulho difícil desuportar – até para mim. Perdi as contas, as horas, as chances... por que não?Mas a desistência muito pouco nos pertenceu – embora a tenhamos adotado feitofardas, veemente, algumas vezes. Os limites são tão naturais como o ar quecircula nos pulmões. São partes do comportamento involuntário do organismo deque somos feitos. Na estrutura, na robustez e essencialmente na discordância,sei que nunca se tratou da controvérsia rasa, que investigava apenas assuperfícies de nós. Mas um período inteiro de mais de trezentos dias paracompreender o mínimo. E, por isso, em meio às falidas capacidades de deduzir, omarinheiro que veleja há meses avista pequena saliência no imenso tecido demar. O cume, talvez de uma geleira ou talvez a ponta de um ilhéu. Qual não é asurpresa e felicidade deste desajeitado dirigente que vê apenas tediosas águashá tanto tempo? No mar morno há agora uma direção: este rochedo no mar, umnorte próprio. Seu grito ecoa pela embarcação inteira. Naquela planície úmida,o convés é como um perímetro descampado de suricatos, levantando-se um a umeles aparecem. Tudo é convocado. E então, ele – que era um – passa a contar-separa mais de mil. As amídalas são sinos de festa entre a estridênciado primeiro grito.

[...]

Tudo vibra.

PARA A PARTE ÚNICA DE UM ACASOEXCLUSIVO DE NÓS - Junho/2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

lábios fazem vento feito um leque que desloca e acelera o ar em direção a vasilha cilíndrica sobre o fogão. a asa polida arde tanto quanto o fogo que sobe e exibe a labareda a quem quiser ver. a flauta do encantador que seduz a cobra, ah, dançava. com o sussurro que honra seus compromissos, eu testemunho a autenticidade de suas palavras naquela baixa combinação harmoniosa interpretada em tom não graduado que meu ouvido mal alcança. sei que eu me lembrarei desta cena eternamente. de suas roupas velhas e cinzas que circularam pela casa toda, em cada cômodo, em cada fresta e por atrás de cada porta. o prato fundo em brasa, o canto com o som de pequenos estralos dos folículos de ervas... uma mãe que afaga a criança no colo. foi o convencimento de uma verdade. uma verdadeira fé.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

o cúmplice

o encontro, de marcos jorge

a malha dá voltas e nós conforme seus próprios fios de seda. às vezes, tecido ponteado; noutras vezes, rede rudimentar. a quanta discussão qualificada se dedica o casal? em meio a muita transição de caminho e de cruzamento, existe toda uma sorte de crimes contra a fidelidade do amor. entre a não-obrigtoriedade e a plena vontade de ir e vir existe um vão. será que as pessoas ingênuas acreditam mais em deus por isso? o meu seguidor depende o meu poder de convencimento, de ludibriá-lo ou encantá-lo (também é isso) para pertencer até mesmo nos tempos mais impróprios: daí a idea atroz do encontro. de que essa pessoa me defende, me cumpre, me salva. ao invés de achar que encontrar é, de alguma forma, uma desistência do próprio a fim de torná-lo um pouco do outro. ser extraordinário no desconhecido é tarefa fácil. ao encantador logo me encanto. é que para quem não me conhece tudo é imprevisível e excitante. até um sonho. sensação de repartir que dá. grande sabor de repartida. entregar-se, na verdade, é sair do armário da descrença.




< despe ou despede-se >

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Amor

voce me parece bem.

A poesia é um mercado bem pouco provável. Um mercado-depósito. Guarda os desrespeitos que ultrapassam os perímetros normativos - nossos. Mesmo vinte anos de poesia ainda não me tornaram, em nada, em uma boa poeta (já vou logo anunciando). Ainda bem que falar de amor é inesgotável. É atípico do melhor jeito. Graficamente falando, nos tornamos todos miseráveis perante a dor amorosa. De perder permanência ao lado do outro. De falha própria e única com que lidar. A honestidade diante do amor não é 'não acreditar', mas crer que medidas e pesos vivem nesta volta. Eu esbarro, você esbarra, numa hora ou noutra, nessas inevitáveis humanidades de ciúmes, invejas, inseguranças. E sabe o porquê? Porque, no fundo, ninguém sabe, mas o melhor do amor é não ter que se proteger da pessoa que você tem ao lado.

< Isso poderia ser um ótimo começo >



domingo, 4 de novembro de 2012

cartas marítimas | 8

fildsville, 11 de novembro de 2022.


maria paula,

caí, não sei dizer, se de do topo de uma montanha russa ou em um abismo. se minha garganta pudesse, garanto que ela me sufocaria agora mesmo. você já teve essa sensação? sinto o meu corpo impróprio, insuficiente - um lugar sem habitação que, além de me entristecer, está me causando acessos vergonhosos de choro. faz anos que não correm lágrimas de meus olhos, há tanto que já não me lembrava mais das gotas tomando as imperfeições que minha pele tem agora. quando o olho no espelho, meu rosto é como um terreno seco, onde correm entre as rachaduras estas lágrimas de hoje. fiz as malas e passei noites diversas fora de casa durante este mês, minha amiga. como uma viajante inconsequente ou apenas alma inquieta que tenho, a minha presença não se valeu apenas com o corpo. minha cabeça esteve perdida, enganada pela sensação de ter encontrado na possibilidade de um começo a valência de um todo conquistado. nunca deixei de sentir vontades esmagadoras por outra pessoa, mas eu não posso me valer apenas deste talento que acredito ter, não é mesmo? escrever é apenas uma diferença e não uma completude. sequer sei se o possuo verdadeiramente, a este ponto, se é que você quer saber! acho que tenho vivido à deriva da configuração de uma vida.

sabrina, em suas oscilantes partidas e chegadas deste ano, fez redobrar a força da minha mão sobre a consciência. é isso que acontece quando os sonhos saem do perímetro de nossos travesseiros? acho que você, talvez mais até do que eu, sabe que a idade exerce uma força pesada sobre nós. e quase esmagadora, faz sentir nossos ossos se esticarem para crescermos. nesse sentido, eu nunca estive em sincronia com a idade que desejei ter - e tampouco esteve sabrina. sem dúvida, temos essa odiosa semelhança em comum. sabrina, que esteve sempre um pouco a frente de seu tempo e também uma mulher constantemente fora de época, disse verdades massacrantes sobre mim. ouvi, como quem ouve quase torcendo as orelhas. acontece que pertenço, para além de minha negação, a ela. e justo agora que sua forma doce e violenta voltou para mim, cometi o engano de acreditar que já a conhecia. de que ela, por seu jeito que me parecia tão misteriosamente bela e tão familiar, me aliviou por ser uma figura reconhecivel no meio do mundo, e capaz de atiçar minha felicidade, aonde quer que ela existisse. mas eu apenas cometi este engano, querida, você acredita? o engano terrível achar que sabemos alguma coisa sobre outra pessoa... mesmo sobre ela, mesmo sobre alguém que nos acompanha na vida e no sonho, desde sempre. nunca tive a ilusão de que a intimidade fosse simples, não. a simplicidade é uma coisa leve e a monotonia é uma coisa pesada; sepadas por uma linha fina demais, e que diferencia pontualmente as pessoas comuns daquelas capazes de gritar. dói.

você acha que a gente simplesmente sabe
quando não é capaz de matar (mais) a fome de alguém?

não conformada,
ana.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

para setembro que já passou por nós também


quem falou de primavera sem ter visto teu sorriso,
falou sem saber o que era //////// cecília meireles



setembro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

liberdade na vida é ter amor pra se prender


o orgulho do poeta não é um orgulho banal. só o próprio poeta conhece o valor daquilo que escreve. os outros o compreenderão muito mais tarde ou talvez nunca o compreendam. o poeta tem, portanto, o dever de ser orgulhoso. se não fosse, trairia sua obra ///// milan kundera

nossa, meu amigo, agora eu te entendi.

P L A N O
concreto projeto
figurado acessível

PLANO. o plano geométrico, a medida exata, a providência ideal. plano: do trecho do filme sem interrupção. plano e liso. plano limitado fisicamente pelo olho da câmera dentro do enquadramento - mas plano infinitamente disposto a planar para além do que se vê. plano de fotogramas, plano ilusão de movimento. PLANO. o plano era esse? o plano era por o que estava parado para se mover? moveu-se, encontrou-se. noutro plano, talvez, talvez, noutro plano. o filme passa, as imagens correm. o tempo voa. o plano é simples e alguma coisa verdadeiramente se transformou no mundo.

disse - e muito bem disse - o milan kundera que só o artista sabe o valor daquilo que faz e que, de certa forma, tem mesmo o dever de ser orgulhoso. verdade. mas acho que cabe aqui a ideia da majestosa sensação que é quando aquilo que se faz também consegue fazer encher um pouco os olhos do outro. o poeta faz pra ele, é verdade, mas e se entre a sensibilidade do olho que vê e a inquietude que causa, puder fazer existir um pouco de palavra e depois um pouco de som também, por que não? imagem, talvez, apenas para aqueles que já sentiram a real exaustão de não caber mais do que foi escrito e, bom, se todas as pessoas que falam estão naturalmente se vendo e sendo vistas, olhem, tem um plano que foi feito nesse meio tempo. elaborado nos pilares que mesmo a muito contra gosto de quem constrói muros, está sobre aquilo que ninguém mais vê. sei que de alguma forma você também o fez - e quando digo você, digo, todo mundo -, nos boatos de que a vida termina ou que o colapso do tempo se aproxima. e veja como é bonito de verdade ainda estarmos aqui ansiosos como sempre por criar laços. alguma coisa sempre fica. a beleza natural das coisas que só a parte criança sua sabe gritar é uma peça, como se diz, o sonho, o riso, todo esquecimento até, todo sentimento do mundo. estamos nós e sós - e somos únicos. juntos. e sobre isso não há absolutamente nada de hipotético (no melhor dos sentidos).

as pessoas precisam ver, eu penso. elas precisam assistir a este filme justamente por esses montes de dezembros que nos caem tão pesadamente, essas insistências de finais massacrantes que inundam as pessoas de tristezas vez e outra. é, aconteceu. e aconteceu bem entre a melancolia de las von triee quase debaixo da árvore da vida do terrence malickO PLANO, tão bem feito. não sabia que às vezes uma maçã cortada nos basta. foi e é incrível.


_____

sinceros agradecimentos aos realizadores deste filme O PLANO. é satisfatório saber que dividimos uma geração de alguma forma. e que mesmo hoje num mundo em que as pessoas planejam tão pouco suas vidas, independente do que aconteça à mercê dos acasos mais simples ou das catástrofes naturais mais derradeiras, nunca se deixou de imaginar o lugar secreto da felicidade. da plenitude. o lugar onde os planos existem - afinal, eles são simples.


assista ao filme aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=xV1LuWjSZLg

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

para agosto, que já foi



(...) sem extensão de mim, nem permanência, entraria jogada [em setembro]. [então] agora, que o mês volta a se aproximar um ano depois, o que eu sabia, afinal de contas, além da certeza de que toda justificativa era uma admissão a princípio? e por que não saber que dentro dessas admissões de sumiço temporário que tive, estive também temporariamente ansiosa para ficar e estar presente? eu tentava imaginar, mesmo dentro dos meus esquecimentos recorrentes, a sensação que era a de caber na vida, sem aperto ou a de aproveitar um conforto sem sentir falta de nada. sabia que estava presente agora porque estava ausente de outros, nesse mês e nas presenças repetidas que me descobriram um pouco da solidão em agosto. o cérebro tinha ainda um mistério infinito, mas distraindo um pouco deste pensamento, a única coisa que eu conseguia pensar era: havia um passarinho fazendo ninho em algum lugar dentro mim?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

o balão


não cai, balão.



balão que sobe no AR,
s o m e  
no ar,
e ri do mar, ri do chão.
ri até do mundo.

balão que voa no céu dá adeus a terra,
balão que voa rasante dá vontade pro chão
balão a desfilar à vontade no ar.

balão não nasceu pra guardar lugar,
PRA MORRER QUIETO
nem mesmo quando perto do tombo,
INVENTA FOGO E sobe outra vez.
dá adeus a quem foi tímido,
a quem foi filho,
puxa as cordas e avança, segue pra CIMA.

balão o mundo miniatura,
como brinquedo de criança levada.
tudo pequeno.
mas todo o essencial
CONTINUA
nos olhos corados
de quem, dentro do balão vê os   i n f i n i t o s   olhos
da mulher querida. 
e amada.

VAMOSPULARDEPÉSJUNTOS?
que medo alegre, o de te esperar (*)
ou de te aguardar responder.
que medo ALEGRE,
que MEDO alegre o de voar,
de estar,
e sorrir,
e desejar
com
você.

ande, venha, suba.
eu NÃO  vou 
descuidar,
eu voo.


afinal,
você também tem o sonho de voar
ALI.

(*) C.L.